Chapitre V. Caractérisation des composants
V.4. Composants SOI
V.4.2. Virages des guides en arête
Por paradigma de formação de professores Zeichner entende «uma matriz de crenças e pressupostos acerca da natureza e propósitos da escola, do ensino, dos professores, e da
25 Kenneth Zeichner, “Alternative paradigms of teacher education”, in Journal of Teacher Education, vol. 34, n.º 3,
Maio/Junho de 1983, pp. 3-9.
26Carlos Marcelo García, Formação de Professores: para uma mudança educativa, Porto: Porto Editora, 1999. Original:
Carlos Marcelo García, Formación del profesorado para el cambio educativo, Barcelona: EUB, 1995.
sua formação, que dão características específicas à formação de professores»28. Segundo este educador, ao longo da história da formação de professores são detectáveis quatro paradigmas: o tradicional-artesanal, o behaviorista, o personalista, e o reflexivo.
No paradigma tradicional-artesanal a Educação é entendida como um ofício e o professor como um artífice, consistindo a formação dos futuros professores, vistos como aprendizes, num processo de aprendizagem assente em tentativas e erro, que apenas é facilitado com a ajuda dos professores mais experientes, considerados como mestres. Segundo Zeichner, e na sequência do que já defendera Dewey, a crença de que as experiências práticas de formação de professores nas escolas contribuem necessariamente para formar melhores professores, e de que quanto mais tempo o futuro professor dedicar a estas práticas melhor será, é um mito, uma vez que depende muito do contexto em que estas acontecem, o que no caso do paradigma tradicional-artesanal, assente na mimese, acrítico e promotor da manutenção dos modos de ensinar vigentes, constitui um equívoco.
No paradigma behaviorista a Educação é entendida como uma ciência aplicada e o professor como um técnico que executa leis e princípios de ensino eficazes, previamente concebidos e validados por especialistas, e regulados pelo Estado. A sua formação, assente numa epistemologia positivista e na psicologia behaviorista, consiste num conjunto de técnicas que o professor deve adquirir e aplicar de forma a garantir o sucesso do ensino.
No lado oposto, enquadrados numa corrente humanística da Educação, encontram-se os paradigmas personalista e reflexivo de Formação de Professores.
No paradigma personalista a concepção de formação deriva de uma epistemologia fenomenológica, da psicologia do desenvolvimento, mas também de princípios humanistas. Os programas são concebidos à medida das necessidades e interesses dos formandos, centrando-se na formação pessoal e na construção de uma identidade profissional própria. Neste paradigma, ao contrário dos anteriores, os conhecimentos e as competências a desenvolver não são previamente definidos, embora esteja implícita a conformidade a um determinado modelo de maturidade psicológica. A crítica normalmente apontada a este género de formação deriva do facto dela ignorar a dimensão sociológica da Educação,
28Kenneth Zeichner, “Alternative paradigms of teacher education” In Journal of Teacher Education, vol. 34, n.º 3, p. 3
acabando por negligenciar os contextos educativos e por desprezar a função do professor como agente de mudança.
O paradigma orientado para a indagação ou reflexivo surge como uma reacção de oposição aos paradigmas anteriores e parte do reconhecimento de que não há receitas válidas para qualquer situação. Cada professor e contexto educativo é único e irrepetível. A formação de professores, ao contrário de fornecer receitas, deve contribuir para o desenvolvimento de capacidades dos futuros professores, que lhes permitam analisar as consequências da sua acção educativa junto dos alunos, das escolas e da sociedade. O pressuposto desta teoria é que, quanto maior for a consciência de um professor acerca das origens e dos efeitos das suas acções, assim como das realidades que as constrangem, maior é a possibilidade do professor controlar e modificar quer as acções, quer os constrangimentos. O objectivo principal da formação de professores é, deste modo, desenvolver as competências dos futuros professores para a acção reflexiva, isto é, o espírito crítico sobre a sua prática e o contexto social e educativo em que ocorre.
Zeichner estabelece ainda que as formações de professores resultantes destes paradigmas podem organizar-se segundo dois eixos: o eixo “apriorístico versus reflexivo”, que se relaciona com o modo como o currículo da formação é concebido, e o eixo “certo versus problemático”, no que concerne à forma como é entendido o contexto educativo. Assim, formações de professores assentes nos paradigmas tradicional-artesal ou
behaviorista apresentam um currículo previamente definido, que não sofre oscilações, isto
é, aquilo que o professor aprende é estável, enquanto que formações baseadas nos paradigmas personalista ou reflexivo encaram o currículo como algo passível de ser transformado, em permanente mutação, que depende e se adapta, em cada momento, àquilo que cada professor necessita de aprender de forma a alcançar um modo pessoal de ensinar (personalista), ou aos diversos contextos intra e extrapessoais, inclusive os de ensino (reflexivo).
Por outro lado, formações de professores que tomam como referência os paradigmas
tradicional-artesanal ou personalista entendem o contexto educativo como certo, isto é,
como uno, homogéneo e repetível, enquanto formações de professores de orientação
comportamentalista ou reflexiva compreendem o contexto educativo como problemático, isto
é, como singular, heterogéneo e variável, sendo que, se na primeira os conhecimentos técnicos que o professor adquire, sobretudo no âmbito da Psicologia do Desenvolvimento,
devem ter em conta as características diferenciadas do seu público, na segunda é valorizado um conhecimento holístico, tanto no campo da Psicologia como da Sociologia, da Política e da Ética, que possibilite ao professor não só adaptar o seu ensino aos diferentes contextos, mas também questioná-lo, agir e levar os seus alunos à acção, assim como reflectir antes, durante e após a acção.
CERTO
TRADICIONAL-ARTESANAL PERSONALISTA
APRIORÍSTICO REFLEXIVO
BEHAVIORISTA ORIENTADO PARA AINDAGAÇÃO
PROBLEMÁTICO
Figura 1 – Paradigmas de formação de professores (Zeichner, 198329)
Resta ressalvar que o paradigma académico é considerado por Zeichner como aparte destes quatro paradigmas por si definidos, uma vez que numa perspectiva académica o importante é a formação científica numa ou em várias especialidades do conhecimento e não a formação de professores em si, geralmente criticada pelos adeptos daquele paradigma. Por fim, de acordo com Zeichner, e como veremos no caso português, os diferentes paradigmas que, conceptualmente, estabeleceu, na realidade, costumam sobrepor-se, sendo muito frequentes os paradigmas híbridos.