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3.3 Utilisation des informations issues de la décomposition en ondelettes

4.1.1 Le vignettage

Em alguns lares de idosos constatei a existência de um lugar, normalmente um piso térreo ou uma cave, para onde são deslocados os moribundos, os acamados, os velhos mais vizinhos da morte. Ali ficam agonizando, enganchados a máquinas, isolados, escondidos. Num dos lares, o lugar é denominado de piso dos fundos, espécie de umbral da morte onde os mortos parecem vivos e estes mortos. D. Conceição explica:

Lá em cima tem um piso, aqui tem outro, e lá em baixo outro. Quando morrem, vão lá p’ra baixo… Quando estão assim... já estão a ver que… levam-nos lá p’ra baixo.

No piso dos fundos reina a conspiração do silêncio, por vezes interrompida por uma sequência de ais queixosos. D. Conceição, quando se referiu ao piso

dos fundos, fez uma pausa, arrastou as palavras penosamente e suspirou,

soltando um «ai» que se enclaustrou na mais profunda da sua intimidade – ou, talvez, da sua amargura. Hesitou na forma como se deveria referir aos moribundos, recorrendo a expressões que acentuam, com discrição, o trânsito para a morte – «quando estão assim», «já estão a ver que»…

Um sinal de trânsito para o piso dos fundos é também dado pela expressão «estar mais para o lado de lá». Por exemplo, quando alguém adoece gravemente é comum ouvir-se dizer: «Coitadinho(a), está mais para o lado de lá do que o de cá.» Frases rituais deste género sinalizam um elevado grau de reserva na expressão dos sentimentos. Na linguagem quotidiana evita-se falar da morte, termo substituído por expressões mais eufemistas como «passar desta para melhor», «chegar a sua hora», «foi-se», etc. A morte pode estar próxima mas é distanciada pela linguagem. Nada de espantoso ou que os sociólogos não conheçam ou pratiquem quando trabalham o sentido das palavras para obterem o abstracto do concreto, dando azo a que o pensamento se possa evadir das

coisas. Ao serem relegados para o piso dos fundos, os velhos deixam de poder contar com as falas espontâneas de que se tecem os afectos e as solidariedades. Se a morte social ocorre geralmente quando se dá o internamento no lar, o trânsito para o piso dos fundos é a máxima expressão dessa morte social. Os familiares reduzem as visitas aos moribundos, alegando perturbação ou pavor com a proximidade da morte.

Outrora a morte era visível, reconhecida, ritualizada. Ela ocorria em espaços domésticos, em casa se morria e em casa se fazia o velório, com a presença de familiares, vizinhos e amigos. Agora morre-se mais frequentemente nos hospitais ou em pisos de fundos de asilos e lares de idosos, longe da família, apenas com a companhia de desconhecidos, máquinas, solidão22. Trata-se de

uma solidão «civilizada» que silencia a exteriorização do sentimento perante a dor, o sofrimento e a própria morte. Antigos rituais de padecimento e de morte buscam, agora, outros sucedâneos23, como o da morte solitária num hospital ou piso de fundos. Assiste-se também a uma desritualização da morte

exemplificada pela passagem da «extrema-unção» para a «unção dos enfermos» que, como sugeriu Hermínio Martins, é uma mudança que «contém em si toda uma revolução teológica-litúrgica», para além de arrastar uma «reconceptualização da morte»24. No piso dos fundos esconde-se a morte como

se ela fosse vergonhosa, como se o moribundo não fosse digno de acompanhamento, de atenção, de presença, de consideração, de gestos de solidariedade que deveriam confortar quem sofre a agonia da morte. A solidão do moribundo resulta da incapacidade social em se saber viver a morte na medida em que se a denega. Flagrante «inabilidade» para lidar com a morte25.

No piso dos fundos cuida-se, sobretudo, de corpos enfermos descuidando-se a vida subjectiva dos doentes, a sua vida afectiva e íntima.

Quando um velho doente entra numa residencial, se o seu estado de enfermidade é grave, vê-se empurrado para o piso dos fundos para que os que «ainda não estão assim» não se perturbem com os que «já estão a ver que»… D. Conceição recorda a sua passagem por esse misterioso lugar onde a morte parece manter os moribundos sob pena suspensa:

Fiquei cá nos fundos [referindo-se ao piso dos moribundos e residentes acamados]. Não! [corrigindo] Parece que primeiro fiquei aqui em cima… E depois foi que viram que eu não

recuperava e que me levaram lá para baixo. Depois recuperei [pausa] Por Deus, por Deus! E depois… Quando me viram já recuperada, tornaram-me a trazer cá p’ra cima.

Antes de aportarem ao piso dos fundos, os corpos doentes são conduzidos para espaços intermédios, entre a vida e a morte. Aí começa-se a constatar que o corpo não é um lugar agradável de viver. As doenças implicam «disrupções biográficas»26 com inevitáveis efeitos nas vivências quotidianas. Em muitos lares

de idosos há uma estratificação rígida dos doentes por pisos e graus de maleita. Os corpos de diferentes pisos passam a ser estranhos uns em relação aos outros. Na sua enfermidade, os corpos retiram-se, fecham-se num mundo próprio. Os que estão em vias de ingressar no piso dos fundos afastam-se, evitando a sala de convívio, as varandas, o jardim, enfim, as possibilidades de contacto. As suas palavras transpiram silêncio ou então é este que as atravessa. Batem em retirada, numa socialização, por antecipação, do isolamento e da própria morte. Nesta socialização – à imagem de uma ampulheta do tempo, onde a queda dos grãos de areia se faz a uma mesma cadência, sendo porém sua ordem caótica – tudo se vira continuamente para o seu oposto: a fala para o silêncio, a sociabilidade para o isolamento, a vida para a morte.

Na antecâmara do piso dos fundos há velhos sofás onde corpos contorcidos de reumático se enterram no silêncio. Olho-os como seres enfileirados, à espera de vez. E eles olham-se, entre si, como se a sua própria condição se espelhasse na dos semelhantes. Eles sabem, à sua maneira, que «a vanguarda da morte é o envelhecimento»27. Alguns dormitam, talvez meditando na irremissível

precariedade da existência. Um deles diz-me que «a hora incerta, a morte é certa». Fixo o meu olhar no olhar fixo do Sr. Francisco, 86 anos de idade. A sua máscara de rugas diz-me exactamente o que mostra: a máscara e o que por detrás dela se esconde. As rugas esboçam um sorriso que parece vir-lhe do desejo de prender o que lhe foge, a vida. A seu lado, o Sr. Adalberto olha para o relógio da parede, entretido com o movimento dos ponteiros que dão voltas sem sentido, sabendo que as horas que estão para vir não serão diferentes das que estão passando. Saúdo-o. Responde-me com uma balbuciante boa-tarde. As palavras não lhe chegam para o que, suponho, teria para me dizer. Na sua quietude de olhar procuro ler o seu pensamento, divagante monólogo interior que gostaria de ver reproduzido em diálogo. Em vão. Suspira fundo e semicerra

os olhos. A forma do suspiro e da mirada convertem expressões subjectivas em comunicação objectivada. Mas nem sempre é fácil objectivar o subjectivo. Por exemplo, o tempo subjectivamente vivido pelo corpo do Sr. Adalberto é diferente do tempo objectivo que é dado pelo relógio em que fixa o seu olhar; aí temos um tempo de homogeneidade que reduz as horas a um mesmo tempo de duração.

No meu bloco de notas, transformo as expressões faciais do Sr. Francisco e do Sr. Adalberto em escrita – em linguagem de vestígios, de marcas, de sinais. Observações apreendidas pelo olhar e traduzidas em palavras. Tradução dotada de um estatuto epistemológico de referência dominante cuja legitimidade nem sempre é questionada. Questionamento que se impõe quando entre o olhar que capta e o captado pelo olhar se intromete um imaginário verbal que pretende ordenar o que desordenadamente os sentidos apreendem, dados sensíveis, fugazes, incontroláveis. Olhar que passa a estar subordinado ao poder da escrita, que fica aquém e além desta, embora o relato se possa apresentar como garante metodológico da chamada «observação directa».

As rugas simbolizam a velhice mas elas são também novas formas de expressão facial que substituem velhas formas que simbolizavam a juventude. A suplantação das velhas pelas novas formas, dão conta da própria força da vida e da sua contradição: chegar a ser o ser que se vai sucessivamente renegando. Esta pujança da vida – que a vai aniquilando com o passar do tempo – pode ser ilustrada com a metáfora simmeliana das ruínas28. A obra arquitectónica resulta

numa forma fixa. Mas as forças da vida exercem uma acção sobre ela, podendo originar a sua destruição, a sua ruína. A vida faz surgir uma nova forma, a ruína. Esta é a forma actual da vida passada, a forma presente do passado. Para Simmel, esta destruição, que a vida exerce sobre as formas, não é uma destruição sem sentido, é a concretização de uma tendência interna e inerente a qualquer forma. A vida é sempre mais vida que aquela que é possível a forma conter. Então, forma e vida apresentam-se como dois conceitos opostos ou disjuntivos: a forma é o estático, o fixo, o intemporal; a vida é uma força em constante devenir temporal, é fluidez, é dinamismo, é a força criadora das formas ao mesmo tempo que as corrói. A vida cria as formas para representar-se, utiliza- as para existir – o que é válido para o sorriso jovial ou para as rugas da velhice.

Os companheiros que transitam para o piso dos fundos integram o que em gíria sociológica se designa por grupo de referência. Ao reconhecer a morte do

próximo, o sobrevivente ganha consciência do seu próprio destino. Como nos diz António Lobo Antunes, numa das suas crónicas, «com os anos a morte vai- se tornando familiar»29 – não a ideia da morte, nem o medo dela, mas a sua

plausibilidade quando nos leva um amigo próximo. A mais mortífera de todas as mortes é aquela que se some deixando apenas o vazio do que deixa de existir, como a amizade perdida. À «morte consumada» contrapõe-se uma «morte vivida»30 incorporando toda uma rede de gestos e rituais que acompanham o

moribundo até à morte. A morte põe termo à angústia enquanto que a vida a parece prolongar. É este o drama da «solidão dos moribundos», como bem o retratou Norbert Elias: «O facto de que, sem que haja especial intenção, o isolamento precoce dos moribundos ocorra com mais frequência nas sociedades mais avançadas é uma das fraquezas dessas sociedades. É um testemunho das dificuldades que muitas pessoas têm em identificar-se com os velhos e moribundos31

No piso dos fundos ou na sua antecâmara, os velhos vivem num estado

liminar que Turner caracterizou como referente a um processo de transição

frequentemente associado à morte, à instabilidade, à escuridão, à solidão32. Os

liminares são despojados de status e autoridade, removidos de uma estrutura social mantida e sancionada pelo poder, desvinculados de gestos de solidariedade e de communitas. Freud ensinou-nos que o objectivo da psicoterapia é a recuperação do que não conseguimos deixar de reprimir. Curiosamente, o que mais se reprime é o ensejo de se fazer parte de uma comunidade, de se pertencer a grupos de pessoas entre as quais circulem afectos. As instituições que cuidam do «outro» surgem quando, literalmente, as pessoas não têm tempo para dedicar-se umas às outras.

Quando a família deixa de funcionar como instância de suporte a estes seres «liminares», o abandono passa a marcar os seus modos de vida. Aliás, a liminaridade a que os conduziu a desvinculação laboral contribuiu também para a sua estigmatização social, mesmo antes de serem internados nos lares. O Adalberto deixou de ser funcionário público; o Inácio já não é mecânico de automóveis; o Francisco já não se define como escriturário. Passaram a ser «reformados», exilados da vida profissional, excluídos da trama vital que sobretudo valoriza quem é economicamente produtivo. Neusa de Gusmão, sugere que o «assistencialismo» que domina é de natureza oclusiva33. O Estado

e as próprias famílias gerem o «problema» promovendo a sua «ocultação». Desse modo, os idosos são despejados em lares, asilos e instituições congéneres. Este assistencialismo oclusivo poderia também ser designado de

reclusivo. Muitos lares de idosos são instituições de reclusão, que exilam os

velhos da vida. Como passar deste assistencialismo oclusivo (e reclusivo) para uma solidariedade inclusiva? Exilados da vida, estão juntos mas sós nesses asilos de solidão. Sem mais companhia do que a do tempo que passa, cada vez mais difícil de suportar. A verdadeira companhia é o silêncio, no qual se encerram as angústias que se pretendem silenciar. Os rostos perdem expressão, emoldurada na fixidez do olhar, na imobilidade aparente do pensamento. Pode ser que aquele velho de olhar brilhante e fixo, quando lhe fecharem as pálpebras, leve o seu sorriso amargo para o caixão.

1 A busca foi feita em «Casas de Repouso, Lares e Pensionatos».

2 Keith Thomas, Religion and the Declin of Magic, Harmondsworth, Penguin, 1978. 3 M. Eastman, Old Age Abuse, Mitcham, Age Concern England, 1984.

4 Neste capítulo reproduzem-se relatos de sete idosos, o mais novo com 69 anos de idade e o

mais velho com 82 anos, entrevistados em quatro lares residenciais da região suburbana de Lisboa. Para eles – Ana Rosalina, Marta, Conceição, Irene, Adalberto, Inácio e Francisco – todo o meu carinho. À Marisa Liebaut, que me ajudou na realização de algumas entrevistas, dirijo também os meus agradecimentos pela colaboração dada, na certeza de que os idosos que ela entrevistou desfrutaram da sua companhia de um modo muito especial, pela sua capacidade em dar afecto.

5 Françoise Dolto, Solitude, Paris, Engo, 1989.

6 Neusa Maria Mendes de Gusmão, «A maturidade e a velhice: um olhar antropológico», in Anita

Liberalesso Neri (Org.), Desenvolvimento e Envelhecimento: Perspectivas Biológicas,

Psicológicas e Sociológicas, Campinas, Papirus Editora, 2001, pp. 121-122.

7 Norbert Elias, What is Sociology?, Londres, Hutchinson, 1978.

8 A. Farge e C. Klapisch-Zuber, Madame ou Mademoiselle? Itinéraires de la Solitude Féminine,

Paris, Montalba, 1984.

9 Correio da Manhã, de 16 de Julho de 2004. 10 Correio da Manhã, de 16 de Julho de 2004. 11 Diário de Notícias, de 1 de Maio de 2005. 12 Correio da Manhã, de 13 de Agosto de 2004. 13 Diário de Notícias, e 21 de Maio de 2005. 14 Correio da Manhã, 18 de Junho de 2004.

15 Charles Sanders Peirce, Écrits sur le Signe, Paris, Seuil, 1978.

16 Josep Maria Fericgla, Envejecer. Una Antropología de la Ancianidad, Barcelona, Editorial

Herder, 2002, pp. 44 e 286-287.

17 Josep Maria Fericgla, Envejecer …, p. 287.

18 Norbert Elias, A Solidão dos Moribundos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001, pp. 16-17. 19 N. Elias, A Solidão dos Moribundos…, p. 46.

20 A, Giddens, The Constitution of Society. Outline of the Theory of Structuration, California,

University of California Press, 1985.

21 Jon Elster, Strong Feelings. Emotion, Addiction and Human Behaviour, Cambridge (USA),

Massachusetts Institute of Technology, 1999.

22 O deslocamento da morte para os hospitais encontra-se estatisticamente comprovado, em

Portugal, no artigo de Vanessa Cunha, «A morte do outro. Mudança e diversidade nas atitudes perante a morte», Sociologia, Problemas e Práticas, nº 31, 1999, pp. 103-128. A autora mostra que nas regiões do Norte do país, mais tradicionais e com índices mais elevados de religiosidade, o movimento não é tão acentuado quanto nas regiões mais laicizadas do Sul de Portugal.

23 Cas Wouters, «The quest for new rituals in dying and mourning: changes in the We-I balance»,

Body and Society, vol. 8 (1), 2002, pp. 1-27.

24 Hermínio Martins, «Tristes Durées», in Rui G. Feijó, Hermínio Martins e João de Pina Cabral,

A Morte em Portugal Contemporâneo, Lisboa, Querco, 1985, pp. 22-23.

25 José de Souza Martins, «Anotações do meu caderno de campo sobre a cultura funerária no

Brasil», in Marcos Fleury de Oliveira e Marcos H. P. Callia (Orgs), Reflexões sobre a Morte no

Brasil, São Paulo, Editora Paulis, 2005, pp. 73-91.

26 Michael Bury, «The Sociology of chronic illness: a review of research and prospects», Sociology

of Health and Illness, 13, 4, 1991, pp. 451-468.

27 Edgar Morin, El Hombre y la Muerte, Barcelona, Editorial Kairós, 1999 (1ª edição em Francês:

1979).

28 Georg Simmel, «Las ruínas», in Sobre la Aventura, Barcelona, Península, 1988. 29 António Lobo Antunes, Segundo Livro de Crónicas, Lisboa, Dom Quixote, 2002, p. 217. 30 Michel Vovelle, Ideologias e Mentalidades, São Paulo, Brasiliense, 1987.

31 N. Elias, A Solidão dos Moribundos…, p. 8.

32 Vitor Turner, Process, Performance and Pilgrimage, New Delhi, Concept, 1979. 33 N. M. M. de Gusmão, «A maturidade e a velhice»…, pp. 113-139.

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