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4.3 Réalisation d’une mosaïque

4.3.1 Déformations radiales

Antes das minhas primeiras incursões pelos chats, decidi consultar alguma literatura sobre o tema e recolhi informações de navegadores experientes12. Com

a ansiedade própria de quem se inicia num universo de sedução pela «primeira vez», dei-me conta, afinal, de que as regras nem eram assim tão complicadas. Existem vários canais temáticos de conversação. Em cada um dos canais sabemos quantas pessoas estão presentes, num preciso momento. Sabemos também, à medida que o tempo passa, quem abandona um qualquer canal e quem a ele acede. Todos podem comunicar em canal aberto, e as intervenções vão aparecendo no ecrã do computador, no chamado salão de visitas. Raramente se encontram conversas interessantes a este nível. Apenas nos damos conta de quem entra e sai no canal, de saudações entre conhecidos, de manifestações impacientes por comunicar com alguém («ninguém quer falar comigo?»).

No entanto, a primeira vez que me sentei, a sós, defronte do computador, para estabelecer uma conversação, experimentei alguma ansiedade. Listei os canais e de tantos que eram – várias centenas – senti-me indeciso, sem saber por qual deles navegar. Cada canal identifica um tema de discussão o que, em teoria, poderia ajudar um iniciante a antever o que se passa em cada canal. Contudo, nem todos os temas identificam plenamente os canais, apesar das múltiplas estratégias de captação usadas:

«Este canal tem dot!!» (#skank)

«O canal onde a acção faz parte da monotonia.» (#b@canal)

«Bem-vindos às #docas 1 canal simplesmente espectacular!» (#docas)

Ainda assim, o nome de alguns canais e/ou os temas invocados para debate podem constituir-se em referenciais a ter em conta. Há canais filosóficos que invocam o sentido da perfeição ou a grandeza do instante: «Haverá algo q ñ

tenha contras? Será a perfeição relativa?» (# thematrix); «A vida nada mais eh k um pekeno instante, mas esse instante basta para aprender coisas eternas como as amizades» (# abraveses). Outros apelam mais para a rebeldia: «Fuck the rules» (#Dreads); «a gente liberta-se dos interditos através das transgressões»

(#buda’sparadise). Ansiava por comunicar mas não sabia com quem. Até que descobri um canal com a sigla «aps», alimentando-me expectativas de interacção com colegas da associação portuguesa de sociologia. Mas logo o tema de conversação me desenganou: «o malaker tem koka na narina – e na

veia a heroína – os pulmões feitos de haxixe – ele é um gajo muita fixe» (#aps).

Encontrei um canal de «sociologia», mas não tinha mais que dois participantes. Não me prestaram atenção, tão envolvidos estavam na discussão do tema que pretensamente os reunia, uma máxima de Peter Berger: «Estou tão sozinho no

mundo dos meus sonhos, mas sei que o mundo da vida quotidiana é tão real para os outros como para mim mesmo» (#sociologia). Os canais para curtir

mágoas, como o #BrokenHeart, são francamente sobrelevados pelos hot

channels, com apelos insistentes à lembrança do acto: «o Canal das mágoas e Infortunos do Amor… desabafem:)))) (#Broken-Heart); «fuck to forget but don’t forget to fuck!!!» (#1111111)

Também me dei conta da existência de muitos canais de claques desportivas, com predominância dos chamados «clubes grandes». Naturalmente que fui à procura da minha paixão clubística: a Académica13. Encontrei dois canais, um

com assento grave no «é» e outro sem acento, e descobri depois o canal da «mancha»: da mancha negra, uma das «nossas» claques; aí digitei, em maiúsculas: «BRIOSA SEMPRE!!!», mas não obtive resposta.

Alguns canais questionavam-me inclinações amorosas, aliciando-me: «the

sky is still blue… the clouds come and go… yet something is different… are you falling in love?» (#charco); «Cadê o meu Noivo?». (# abelhinhas); «Amor estou- te esperando» (#amor_vh); «quando as janelas da oportunidade se abrirem, não

lhes feches as persianas…» (#amor_uma perigosadoençamental). Outros

canais exibiam sua faceta imediatista ou materialista em questões de amor como o #papa gajas, o #sexonline, ou outros com lemas bem sugestivos: «O amor é

apenas uma versão mais profunda da necessidade de dar uma queca»

(#anadia). Nos canais de «queca» confrontava-me com definições peremptórias, de gosto duvidoso: «Sex is like maths… you add a bed, substract clothes, divide

your legs and hope not to multiply!!!» (#Bardofundo); «o amor é como o fósforo, só dura enquanto há pau!» (#bruxas); «mais vale uma na mão que duas no sutiã»

(#faculdade do sexo).

Cada vez me era mais difícil tomar uma opção. Que canal deveria eleger para entabular uma conversação? E que estratégias de sedução deveria adoptar? Os aconselhamentos que recolhia não eram convincentes: «se és pedreiro e gostas

de aventura usa o telemóvel à cintura» (#alto_alentejo). Não sei se pela enorme

difusão de telemóveis pelo país (temos um índice per capita dos mais elevados do mundo), o certo é que encontrei um indisfarçado mal-estar contra os pedreiros: «hoje em dia só se vê raparigas com pedreiros!!!» (#cadelitos). Descobri depois que um navegador pode convidar outro para conversar (chat) a título privado. «Interessante», pensei. Afinal, os canais são «públicos» mas permitem contactos «privados». Assim sendo, assaltou-me uma dúvida ética: a de saber se o carácter privado das conversas on-line autoriza o investigador a usá-las como materiais de investigação. Pelo sim ou pelo não, a regra que segui foi a de pedir autorização, no final de cada conversação, para gravar e fazer «uso científico» das conversas registadas.

Depressa aprendi que a sedução on-line implica ter dotes. Posso convidar um outro para comunicar sem ter a certeza de ser correspondido. O outro, todavia, nem sempre responde à manifestação de meu desejo de comunicar. Se responde, a conversação tem lugar numa janela privada, na qual toda a mensagem que seja transmitida ao outro, ou deste recebida, aparece no ecrã do computador, em circuito privado. Entusiasmei-me perante a possibilidade de retorno ao «namoro à janela», sem vizinhança intrusa.

O começo de uma interacção é decisivo para se conseguir atrair o outro (ou a outra). Há uma ansiedade inicial. O «olá» ou o «ói» habituais nem sempre são suficientes. Do outro lado pode estar alguém disponível para ser seduzido, mas tem de ser conquistado.

< Alfa Charmosa > Oi, jurubi

< jurubi > Hum! Gostei dessa saudação pessoalizada! < Alfa Charmosa > |o|

< jurubi > também gosto de teu nick. Bué ciber! Sabes, eu venho de outra galáxia… < jurubi > Alfa pode ter a ver com ALFAcinha. És de Lisboa?

< Alfa Charmosa > |o| < Alfa Charmosa > nop

< Alfa Charmosa > margem sul

< jurubi > gosto do sul. E das margens. Logo, gosto de ti! < Alfa Charmosa > |o|

< jurubi > queres ser minha margem? < Alfa Charmosa > |o|

< Alfa Charmosa > pode ser

< jurubi > Pronto és minha margem. Já posso ser marginal! < Alfa Charmosa > |o|

< Alfa Charmosa > eu só consigo rir

< Alfa Charmosa > hoje és alegria do meu dia

< jurubi > Eu serei tua miragem de margem, serei tua praia porque há mar na margem…

Lembrei-me, então, de um livrinho que há tempos escrevera sobre artes de amar e rituais de galantaria14. Tinha teorizado esses rituais. Agora surgia a

oportunidade de os aplicar na prática. Descobri-me, então, sociológo

galanteador, cultivador de afectos. Mas depressa fiquei afectado com a ideia.

Qualquer sociólogo pode assim, sem mais, namorar na net? Há riscos de adultério? Digam-me lá, caros leitores, vocês que sois sociólogos, amantes ou cônjuges, sobretudo sensatos: sentir-se-iam importunados, ou não, se soubessem que os vossos companheiros ou companheiras afinal tinham outra relação, ainda que virtual?

Contactos interessantes requerem inspiração e um interlocutor que seja também interessante. O aconselhável é criar pequenas mas estimulantes frases. Expressar emoções com palavras abreviadas. Por vezes, faltam ideias, cai-se na vulgaridade dos estereótipos, o batimento dos dedos nas teclas traduz-se, então, em autodifamação. Um nickname (pseudónimo) bem escolhido pode facilitar a relação, no seu começo. De facto, o nickname constitui, frequentemente, o primeiro filtro de escolha do parceiro (a), a forma mais imediata de apreensão do outro. Um sugestivo nickname pode ser tão atractivo

quanto uma aromática água de colónia, uma madeixa de cabelos coloridos, um sorriso insinuante.

< Miguel > O 777 vem de onde?

< Miguel > Pois esse numero chamou-me a atenção [Miguel é pilotoaviador] < Miguel > É a designação de um modelo da Boing

< Dalila777 > de lado nenhum

< Dalila777 > o 7 é um bom algarismo < Dalila777 > tem uma patinha e um bracinho

Ao abrigo de nicknames e, em certa medida, livres de controlo e de barreiras inibidoras, os navegadores podem entrar e sair dos canais sem serem identificados, ou podem dar-se à ousadia de criar tantas personagens quantas as que povoam os seus imaginários. Por isso, é frequente a simulação de identidades, a adopção de personalidades múltiplas, sendo até possível seduzir a mesma pessoa através de diferentes identidades e jogos argumentativos. Engendram-se identidades tão fictícias quanto as imagens que se formam dos outros, igualmente fictícias, embora reais enquanto produto de uma capacidade inventiva. Como quer que seja, aos primeiros contactos são frequentes os pedidos de rápidas descrições sobre aparência, carácter, modos de vida:

< Paulo > como é que tu és? (…)

< Dora > sou morena, 1,60m, 47kg < Paulo > isto está a correr bem! < Paulo > : )

< Paulo > cor de cabelo e olhos?

< Dora > cabelo castanho médio ondulado, pelos ombros < Dora > olhos castanhos

< Dora > chega? (…)

< Dora > gostas mais de cães ou de gatos? < Paulo > de cães, tenho um cocker! < Dora > fixe!

< Dora > eu tb < Paulo > : ) < Paulo > vês!

< Paulo > fomos feitos um para o outro!

Há uma permanente busca de veículos de indícios15. A começar pelo referido

nickname, como se sugeriu. Que faz, por exemplo, um Deputado ou um Machão 69 num chat de lésbicas? Em fases mais adiantadas de conhecimento trocam-

se fotos digitais, enviam-se e-mails, pedem-se números de telefone, marcam-se encontros pessoais.

< Telmo > vou dar-te os meus telefones < Telmo > telemóvel: (…)

< Susana > calma!

< Susana > primeiro mircamos < Telmo > casa: (…)

< Susana > és um apressado

< Telmo > mas já mircamos o suficiente para tomarmos um café não achas?

As primeiras informações são importantes porque elas ajudam a definir a

situação, facilitando a comunicação. Exploram-se, com pormenor e ansiedade,

pistas identificadoras das personagens com quem se fala. Nos chats, como na vida real, os indícios são o caminho da prova, como Goffman sobejamente o demonstrou16. As conquistas são feitas como em qualquer campanha militar,

com avanços e recuos estratégicos, movimentos giratórios, cercos, fintas e bluff. Como no caso particular da arte tauromática, a sedução respeita a uma ritualização e teatralização de passes fortemente codificados e imperativos. O acto da sedução desenvolve-se lógica e rigorosamente, lembrando a resolução de um problema de álgebra cuja solução está contida no enunciado. O desafio é encontrar a demonstração e o caminho lógico mais elegante para se chegar até ela. Do ponto de vista sociológico é também um desafio desvendar de que modo os afectos se desenvolvem na rede (virtual) a partir de redes (sociográficas) de suporte baseadas na simples retórica. Cai-se na rede sem redes? Embora os

usuários da rede tenham determinados créditos culturais – não é qualquer um

que navega na internet – há entre eles acentuadas diferenças de perfil social e geracional. Ora os afectos não nascem por acaso. Normalmente desenvolvem- se em redes ou círculos sociais. Por círculo social entende-se uma realidade subordinada a um conjunto de códigos, regras, símbolos, representações, em suma: um sistema de interconhecimento. Os indivíduos que formam um círculo

social podem não se conhecer mas reconhecem-se através de comportamentos que manifestam uma filiação a esse círculo social17.

Sabemos que os afectos não surgem independentemente dos contextos em que se desenvolvem. Por exemplo, Claire Bidart18 mostra-nos, em relação à

amizade, que os lugares onde se produzem os encontros intervêm sobre as possibilidades de formação dos laços afectivos, a escolha de parceiros e a estabilidade das relações. Por outro lado, as relações tendem a ser homofílicas, isto é, estabelecem-se entre indivíduos que se assemelham de algum modo. Ora, nos chats não se passa nada de diferente, ainda que, neste caso, as distintividades sociais (designadamente as de estratificação) possam ritualizar- se através de identidades descentradas, fluidas, múltiplas19. Mais uma razão

para que surjam questionamentos biográficos constantes20 – o que possibilita

que os sociólogos dos chats passem despercebidos, apesar dos seus insistentes questionamentos.

Os estranhos da rede que procuramos conhecer transformam-se, naturalmente, em objectos biografados. O método biográfico não é exclusivo da Antropologia ou da Sociologia, como se vê. No entanto, o seu uso é diferente no contexto dos chats. Enquanto que nas ciências sociais as biografias estão expostas, em grande medida, a uma construção unitária e retrospectiva, nos

chats a exploração biográfica debate-se com as possíveis múltiplas identidades

do biografado que a cada momento se revelam. Daí a dúvida premente: será que a biografia virtualmente construída nos dá a identidade real do interlocutor? O método da biografização virtual pode, então, ser tomado como possibilidade de crítica em relação ao uso tradicional da biografia pelas ciências sociais, mais centradas nos aspectos unificadores de uma trajectória de vida, como o reconheceu Goffman:

«Há que advertir que esta unicidade totalizadora da linha vital [de uma biografia] contrasta com a multiplicidade de eus que se descobrem num indivíduo quando se o observa, na perspectiva dos papéis sociais que desempenha, de onde – se maneja adequadamente a segregação da audiência e do papel – pode sustentar com bastante habilidade eus diferentes e, até certo ponto, pretender que já não é mais o que terá sido21