1.3 La détection de changements d’occupation des sols à partir d’images à
1.3.2 Les méthodes image-à-image versus les méthodes par post-
Porque é que as tabernas são tão atractivas para quem as frequenta? E porque nelas se bebe tanto? As razões são múltiplas e variam de acordo com os contextos sociais e as biografias individuais. No caso dos bebedores que acompanhámos – frequentadores de tabernas de raiz popular-urbana – já vimos que podem ser alegados factores de ordem cultural (a reivindicada virilidade entre as classes populares) e de ordem biográfica (os «azares de vida» que, na verdade, são recorrências de quem vive trajectórias de vida marcadas pela precariedade económica ou sentimental). Como o vício toma conta de quem bebe, também constatámos que os «motivos para beber» frequentemente se sobrepõem aos «motivos porque» bebem.
De acordo com Schutz24, os motivos para (motivos subjectivos) referem-se ao
fim com que se persegue a acção; fazem parte do mundo subjectivo que projecta a acção. Os motivos porque permitem considerar a acção como produto de experiências passadas. Podem ser alegados pelo próprio (quais as razões que me levam a beber?) ou pelo investigador (quais as razões que o levam a beber?). Ou seja, os motivos para emanam de um projecto de acção; os motivos porque justificam o projecto. Os primeiros projectam-se no futuro («bebo para me distrair»), os segundos enraízam-se no passado («Ainda não tinha nascido e já estava a beber. A minha mãe bebia e ainda era eu bebé e já tinha o gosto»). Enquanto os motivos para explicam os actos quotidianos em termos de projecto, os motivos porque explicam o projecto em termos das vivências do passado.
Uma boa parte dos bebedores que acompanhámos alega motivos que perseguem um fim: a «distracção», o «passar do tempo». Há um duplo em cada bebedor. Com ou sem pielas. É como a ginjinha: com ou sem «elas». Vive-se de novo pelo mero efeito de se beber, de se «passar o tempo».
Venho aqui para me distrair, para não passar o dia todo em casa. (Inácio, 47 anos, vivendo do Rendimento Mínimo Garantido e de algumas actividades ilícitas.)
Com frequência, o vício protege as redes de sociabilidade de taberna, e também com frequência essas mesmas redes de sociabilidade conduzem ao vício; da mesma forma, a solidão pode levar à bebida e a bebida à solidão. Não
é certo que «todo o alcoólico sofra de solidão»25 mas, certamente, a bebida pode
estar associada a uma necessidade de convívio.
Com problemas da vida, uma pessoa sozinha e sem ninguém… pode beber um bocado para esquecer. Há uma maioria grande de pessoas que bebem para esquecer os problemas. O principal é a solidão, não ter ninguém. (João Manuel, 50 anos, sobrevivendo de biscates e expedientes de vida.)
O retorno à taberna e o tragar de mais uns copos dá um sentido à realidade que se afirma por uma sensação de recorrência cíclica. São ritualidades alienantes? Certamente que sim mas elas permitem também quebrar outras dimensões alienantes da vida, ao provocarem tempos de ruptura que implicam o esquecimento do próprio tempo, uma plenitude de si que arrasta o próprio esquecimento de si.
Eu esqueço para beber. Esqueço o que bebi ontem para beber hoje.
E em relação a outras pessoas?
Por vezes as pessoas podem beber para esquecer: depende da situação da pessoa e dos problemas que tem. (Aníbal, 52 anos, casado, empregado de mesa.)
Esquecer para beber ou beber para esquecer? Não é fácil determinar qual das variáveis actua como causa ou efeito. Os motivos «para» ou «porque» se bebe só na aparência são explicáveis por mecanismos de causalidade. Por essa razão, é melhor começar por analisar o que se bebe, com quem se bebe e o que gira em torno do acto de beber. Há, eventualmente, uma associação entre o «beber» e o «esquecer», em ambos os casos havendo um «sair fora de si». As escapadelas de si acontecem porque existem mais coisas em «si» do que o «eu», um enorme oceano que só se explora quando se está «fora de si», posição privilegiada da qual se vê a distância que o separa do «eu». Bebe-se para evocar o «eu» porque evocar é viver, esquecer é morrer. É esse «fora de si» que permite a redescoberta do «eu», de um «eu» que é «mosca morta» quando faz jejum do vinho, de um «eu» que o vinho ajuda a «avivar».
Venho aqui mais para me distrair. É o meu ambiente. – Bebe para esquecer?
– Não, é p’ra conviver. Um gajo para esquecer dá um tiro na cabeça e acaba tudo. Um gajo vem pelo convívio, pela conversa […] Às vezes ando desorientado mas não bebo
para esquecer, só para me distrair […] Bebo porque me sinto bem quando bebo, Se andar sem beber sou uma mosca morta… É para avivar, não bebo por vício. (Tio Alberto, 54 anos, desempregado, biscates ocasionais.)
Frequentemente, há bebedores que justificam a persistência dos excessos aludindo ao «vício». Outros, como o Tio Alberto, negam a dependência em relação ao «vício». Do mesmo modo, a justificação de que se «bebe para esquecer» é admitida ou não, consoante os casos. Mesmo entre os que recorrem ao argumento, há quem o manipule para justificar o vício, ao imputar as causas do mesmo aos azares da vida: perda de emprego, traição da mulher (ou do homem), etc. Desse modo, aos seus próprios olhos e aos dos demais, surge uma vitimização por efeito das agruras da vida – essas sim, argumentam, causas do vício que se abraça para se esquecer tudo o resto. Mais realisticamente é de supor que se beba porque o vício pode mais que a negação da vontade de beber. Neste caso, a expressão «beber para esquecer» corresponde, frequentemente, a uma naturalização – estereotipada e legitimada – do acto quotidiano de beber em excesso.
Entre alguns bebedores, nomeadamente em início de «carreira», a hipótese do «desanuviamento» pode, contudo, ter outros significados. Um bebedor disse--me, num final de tarde, que bebia para «limpar a cabeça» afirmação consonante com outras que sugeriam que o beber contribui para «desanuviar o espírito». Limpar a cabeça de quê? Desanuviar o espírito de que tormentos? Há uma metáfora oriental que compara a personalidade a um espelho. O eu profundo é o espelho limpo, sem imagens; o ego é constituído pelas imagens que aparecem no espelho e que este reflecte. Frequentemente confundem-se as imagens passageiras e exteriores com o «eu» profundo. Nesta metáfora, as imagens no espelho são os pensamentos, os desejos, as memórias, os projectos. Todas essas imagens «enchem» a mente mas não são a mente. Provavelmente, quando se bebe para «limpar a cabeça» procura-se um desprendimento dessas imagens que constituem o ego, procura-se «limpar» o espelho das imagens que ensombram a vida, procura-se soltar o ego, tudo à custa do álcool, pois a mente racionalista não pode soltar-se dela mesma. É como que se o «eu» tivesse necessidade de se embebedar da «diversão» da vida para ganhar consciência de si mesmo – nutrindo-se do que a altera: o álcool
e as sociabilidades que lhe aparecem associadas. Uma cabeça pensante, provavelmente afectada por desilusões de amor e já suficientemente estimulada pelo álcool, confessou-me, à saída de uma taberna:
É uma atenuante, uma atenuante espontânea, durante o… por exemplo, numa fracção de segundo, enquanto se pega na botelha e no copo, este gesto de despejar o vinho, quer seja tinto ou branco, ou um Whisky, um Johnny Walker por vezes, portanto, o gesto… eu não tenho relógio, por exemplo, eu estava a falar em fracções de segundo, é um momento espontâneo em que também aí há vida, a vida não é de facto o vinho no copo mas o gesto que nós praticamos a despejar! Por exemplo, eu vou explicitar melhor ainda: portanto, este gesto… eu não tenho um copo, mas vamos supor que isto é um copo, este gesto de despejar, estás a ver? É vida! Não é somente o vinho que vai pelo estômago e depois […] num WC, fazendo… Estás a compreender? Portanto o pénis que nós… O homem tem um pénis e a mulher tem uma vagina, portanto, aí é que está a… a morteirada! A morte de cada um, tanto delas como deles, portanto, não é o facto de pegar num copo e ir a uma esplanada e beber o vinho, o vinho de facto tem valor.
O verbo inglês to lose (perder) deriva da raiz indo-europeia los que significa libertar. Será que o acto de beber que leva à perda do conhecimento de si é uma aprendizagem (brutal) da liberdade? Como quer que seja, ao acto de beber associam--se recompensas secundárias de adição26, isto é, uma tendência de
fixação em certos aspectos da vida (os da «diversão») a expensas de outros (os da «versão» da vida corriqueira) que logo lembram as dificuldades da mesma, inibindo uma sobre-estimação pessoal. É neste sentido que se pode dizer que o consumo do álcool tem «consequências adaptativas»27 uma vez que tanto o
bebedor quanto os seus companheiros funcionam melhor com o vinho do que sem ele. Por isso, frequentemente os bebedores dizem beber por gosto.
– Bebe para esquecer?
– Não! Acho que não. Eu bebo porque gosto. Ninguém bebe para esquecer, isso é que era bom, se bebesse para esquecer então não bebia. Bebo água para matar a sede, o vinho é vício. (Joaquim, 49 anos, trabalhador da construção civil, biscates ocasionais.)
O vício, no fundo, explica que o desejo de deixar os copos seja ultrapassado pela incapacidade de os deixar. O vício ajuda a criar ilusões de autonomia pessoal e de bem-estar. Ao mesmo tempo crê-se que ajuda a «limpar a cabeça», a «desanuviar o espírito», num jogo de empurra entre a memória que vem e o
esquecimento que vai. A cabeça fica «cheia» com os problemas da vida, o espírito «anuvia-se» quando se pensa neles. Melhor então é não pensar nos problemas para não ter de os esquecer ou – no que vem a dar no mesmo – viver na obsessão de os esquecer, pressupondo a sua existência. Com a bebida perde-se a consciência da realidade. Ela aparece desvinculada de convenções, desprendida de máscaras, liberta de controlos.
Houve uma vez que eu e um amigo fomos beber uns copos ali numa tasquinha lá mais para cima, lá para os lados da calçada do Combro e apanhámos uma grande bebedeira. Mais tarde, quando eu estava a ir para casa, passei por acaso ali por um automóvel estacionado, já eram umas duas ou três da manhã, e o carro até tinha um rádio jeitoso, de maneira que eu, pronto isto é mesmo assim, tentei abri-lo com uma chave que tinha… tava tão bêbado que devo ter feito barulho ou algum vizinho deu pela cena… mas quando a bófia chegou eu nem consegui fugir… fui-me abaixo das canetas e só percebi que estava mesmo preso no dia seguinte, quando acordei (João Manuel, 50 anos, sobrevivendo de biscates e expedientes de vida.)
No entanto, a vida corrente também aparece como um viver de experiências que deixam de lado as consciências. Nas interacções da vida quotidiana há opções que participam num jogo de aparências concertadas, muitas vezes fora de qualquer lógica de identidade ou reconhecimento. Em contrapartida, muitos bebedores são tocados por um verdadeiro furor de sinceridade. In vino veritas (no vinho a verdade) – o que pressupõe que fora dele domina a mentira, o artifício, o embuste.
Por vezes é decisiva a cumplicidade do taberneiro ao encarar os consumos exagerados dos fregueses com o postulado de que «o cliente é que sabe». O próprio uso do diminutivo de copo – copinho ou copito – parece desvalorizar o acto de beber, apresentando-o como natural e inofensivo. Contudo, a bebedeira, como estado de anomia, é uma manifestação trágica – muitas vezes dramatizada através de performances corporais sui generis – de uma experiência de vida. De uma vida que entra em relação de estranhamento com o que a rodeia e que se afunda nos «copos». O drama do corpo cambaleante, em risco de queda, expressa o drama de uma vida que pode ser compreendida a partir da dramaticidade de uma tensão entre a vida que se tem e que se quer deixar de ter.
Isto não é vida para ninguém… Pode não dar amanhã… Um gajo leva um pontapé e não tem sítio para ir. (Inácio, 47 anos, desempregado, vivendo do Rendimento Mínimo Garantido e de algumas actividades ilícitas.)
Nestas circunstâncias é possível admitir uma anulação física e moral do «eu», do próprio corpo que fica cambaleante, incapaz de cumprir as suas funções básicas de locomoção, numa dissolução de qualquer estabilidade, numa modalidade extrema de turbulência, numa redução do eu a nada ou a um outro que pode estar aqui ou estar longe porque se esqueceu de si. Escapa-se aos problemas da vida não pensando neles, usando da imaginação, buscando a diversão, acedendo a estados alterados de consciência, ou fazendo combinatórias de todas estas possibilidades28. Conta Theodore Zeldin29 que os
Astecas, afectados por visões sombrias da vida, prestavam culto a quatrocentos deuses das bebidas, chamados «Quatrocentos Coelhos». Os deuses tinham o dom de ajudar às escapadas. Quando estavam sóbrios, os Astecas discutiam livremente as suas alucinações. Viam-se devorados por animais selvagens, aprisionados, condenados por adultério, castigados com esmagamentos de cabeças ou imaginavam que eram senhores de muitos escravos. A bebida não os libertava das preocupações do dia-a-dia mas permitia-lhes contemplá-las como uma fantasia. Também na Europa o ópio se transformou numa maneira elegante de escapar às dores e aos aborrecimentos da vida, segundo prescrição do médico suíço Paracelso que, na primeira metade do século XVI o misturava com álcool para produzir o láudano. Em meados do século XIX, na América do Norte, identificava-se o álcool como símbolo da igualdade: todos iguais perante uma garrafa. A bebida era uma fonte de libertação30. O problema da fuga – como
sustenta Zeldin – é o de para onde fugir.
Voltando à distinção de Schutz entre «motivos para» e «motivos porque», constatámos que as ex-prostitutas admitem mais facilmente os «motivos porque» se bebe, em termos das vivências do passado. Olinda, por exemplo, admite que bebe para esquecer: «Em casa às vezes sinto-me um pouco sozinha… tenho uma filha que não… não me compreende.» No entanto, com frequência arranjam--se justificações falaciosas para justificar o vício, baralhando-se causas e efeitos. É habitual dizer-se que se bebe devido a problemas familiares quando, por vezes, também ocorre o contrário31.
A vida era muito diferente antes de começar a beber… tinha trabalho e dinheiro […] Fui criado em berço de ouro, tive tudo. (Inácio, 47 anos, vivendo do Rendimento Mínimo Garantido e de algumas actividades ilícitas.)
Tivemos conhecimento de um bebedor crónico que dava maus-tratos à mulher, físicos e psicológicos. É sabido que entre alguns doentes psicóticos o álcool provoca verdadeiros estados confusionais, de natureza alucinatória ou delirante, em que a agressividade pode explodir de modo súbito. Outro bebedor, ainda casado, disse-nos que a mulher o «chateia» sempre que ele chega a casa «com os copos», acusando-o de fazer «figuras tristes» e de ser um «fala- barato». Provavelmente por o achar repetitivo, implicativo, complicativo. Ele insinua que «com os copos» apenas pensa a falar, ao sustentar que «quando o vinho desce as palavras sobem». Quando está lúcido pensa silenciosamente e «por isso não fala». É sabido que, na linguagem comum, todo o dizer se produz numa construção de palavras cujo sentido normalmente dominamos. Mas no
falar-barato há constantes deslocamentos, derivas e transferências entre
diferentes lugares de sentido. Outro, abandonado pela mulher, identificou-se com a imagem de que o bebedor dá de «beber à dor», reproduzindo estereótipos que, em alguns casos, justificam o prazer de beber. Neste caso, afoga-se no álcool para esquecer a «traição» da mulher, provavelmente para também afogar as suas culpas, se acaso a mulher o deixou por culpa do álcool. Neste caso, o presente desintegra-se da agonia do passado numa orgia de esquecimento que conta com a ajuda do álcool para afogar as agruras da vida («mais homens se afogam nos copos do que no mar»).
Na condição de ébrio, o prazer de beber supera as possibilidades entrevistas por outros desejos que não o de beber. Ao princípio da anterioridade – que julga a vida segundo um programa constantemente balanceado entre o passado e o futuro – o bebedor contrapõe o princípio da exterioridade que, como sugerimos, promove o reencontro fora de si, e o da momentaneidade que busca o prazer do momento, em contacto com outros, no «agora» (tempo em que se bebe) e no «aqui» (lugar onde se bebe, a taberna).
O dia de amanhã ninguém sabe. Enquanto acordar com as unhas dos pés a mexer… está tudo bem. Conheço aqui um talhante que diz assim: «Oh Joaquim, a gente quando morrer
encontramo-nos lá e voltamos para aqui» […] Não penso nisso, não. Quando ela [a morte] vier vem. (Joaquim, 49 anos, trabalhador da construção civil, biscates ocasionais.)
Pensar na vida para quê? Entre os viciados, pensar na vida segundo o princípio da anterioridade é pensá-la com um pensamento velho que não pode ser livre porque se encontra atado à vida passada, incapaz de projectar uma vida nova distinta da que passou – mesmo no além, no «lá» que é ponto de encontro «quando a gente morrer». O pensar na vida, ao tratar de a captar em termos do seu passado, como memória, é um pensamento temeroso da vida. Melhor é não pensar nela, nem mesmo quando a morte a apaga. As «unhas dos pés a mexer», como diz o Joaquim, são um indicativo satisfatório de que «está tudo bem». Os vapores do álcool apuram uma percepção imediata do «aqui» e do «agora» sem que o pensamento inquisitório intervenha como factor desestabilizador. No acto de beber ensaia-se o abatimento do tempo e do espaço na percepção da vida. O tempo é criado pelo pensamento que é a sombra que se projecta entre a percepção e a acção. Por sua vez, o espaço é criado pelo ego que é a distância entre observador e observado. Abatendo-se o pensamento e o ego, eliminando- se o tempo e o espaço, fica apenas a percepção que se percebe a si mesma no «aqui» e no «agora». Ora ao beber-se procura-se uma apreensão das coisas através de uma ligação essencial com elas. É o que acontece quando os bebedores se juntam na taberna. Mesmo que se desconheçam entre si, estabelece-se entre eles uma comunhão resultante de uma simples co- presença, no «aqui» e no «agora». Então, se numa dada perspectiva os bebedores alcoólicos perdem o sentido da realidade, noutra perspectiva eles parece ganharem o sentido dela. Sabem o que muitos sóbrios esquecem: que a realidade do presente é qualquer coisa que pode ser tomada como real, uma vez que vale por si mesma. Por essa razão tendem a não pensar no futuro (na ressaca) nem no passado (o que os leva a beber).
Nas Flores do Mal, Baudelaire refere-se ao vinho como uma droga que ajuda as pessoas a esquecerem-se de si mesmas e dos problemas da vida. Perde-se a consciência de si na convicção que se ganha com o perdido. Na verdade, para os frequentadores de taberna, o álcool parece fazer flutuar a versão do real sofrido em direcção à sua própria negação (diversão). Esquece-se o quotidiano repetitivo, aprisionado à racionalidade que o comanda. As experiências
negativas de vida são dissolvidas, distorcidas, esquecidas. O futuro não interessa e o passado muito menos. Não se pensando nele não há necessidade de o esquecer. Desse modo, as vivências afectivamente problemáticas não são tema das conversas que se têm nas tabernas: «Ninguém tem nada a ver com a minha vida.» dizia um deles. O futuro é muitas vezes encarado com um «encolher de ombros» e com verbalizações fatalistas do tipo «sabe-se lá» ou «nunca se sabe»: «As coisas podem mudar… nunca se sabe.» (Idem.) Parece não haver nenhuma saída certa para a incerteza. A fuga à contingência é tão contingente quanto a condição que alimenta a crença de que «as coisas podem mudar».
Tabernas decadentes de meio urbano-popular acabam por ser um porto seguro para fragilidades da vida e quebra de laços sociais. O que algumas vezes encontramos nessas tabernas são comunidades «cabide» que de algum modo funcionam como uma rede de suporte relacional. Os laços dessa rede podem ser frágeis e transitórios mas, mesmo assim, eles permitem que muitos indivíduos pendurem nesse «cabide» os seus traumas solitários.
É um mundo egoísta. Tás bem e tens amigos, tás mal e as pessoas não te ligam. (Inácio, 47 anos, vivendo do Rendimento Mínimo Garantido e de algumas actividades ilícitas.) Não tenho familiares aqui, só na terra mas não vou lá ao tempo. Não falo com eles. Tenho o número de telefone deles mas é muito caro. O dinheiro que ganho é para aqui [taberna]. (Joaquim, 49 anos, trabalhador da construção civil, biscates ocasionais.)
Converso com toda a gente mas não tenho assim um amigo… (Valdemar, 65 anos,