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Quer como suporte de comunicação de redes de relacionamento já existentes, quer como meio de formação de novas redes de relacionamento, nas

comunidades on-line as pessoas juntam-se com propósitos de filiação51. Em

aceitando que o ciberespaço é habitado por sujeitos «incorpóreos e fragmentados»52. Os próprios emoticons criam e reforçam fronteiras, unificam os

membros de uma comunidade discursiva, excluem outsiders dessa comunidade. Como na vida real, os participantes contribuem para uma definição global da situação que implica não tanto um real acordo sobre o que existe mas um acordo real acerca de que pretensões sobre determinados problemas deverão concentrar temporariamente as atenções53. Goffman refere-se também ao

«consenso operacional» como aquele que estipula um «acordo efectivo sobre a conveniência de evitar qualquer conflito aberto sobre as definições de situação»54. Nos chats, nem sempre é fácil chegar-se a um tal acordo, pois há

intrusos que quebram qualquer consenso estabelecido. Como quer que seja, a própria existência de intrusos permite sustentar a existência de uma filiação – base de potenciais afectos – que leva a questionar a natureza das comunidades

virtuais55.

Segundo Tönnies, existem duas formas de integração social: a «comunidade» (Gemeinschaft) e a «sociedade/associação» (Gesellschaft). A comunidade é baseada no afecto e na emoção; a sociedade/associação é baseada na instrumentalidade e na razão56. Esta distinção decorre da valorização que

Tönnies dá à subjectividade quando analisa a acção social. Para Tönnies, a acção social é induzida por «tendências de orientação» em relação a outros, tendências que aparecem englobadas sob o conceito genérico de wille (vontade). Também neste caso Tönnies faz uma distinção entre dois tipos de

wille, vontade, através dos conceitos de kürwille e wesenwille. Wesenwille

designa uma vontade «natural» ou «essencial»; kürwille designa uma vontade «racional» ou «instrumental». Assim, a paixão, o desejo, a fé, ou o afecto são tendências de orientação que se inscrevem em wesenwille; em contrapartida, o cálculo, a manipulação e a instrumentalidade são tendências de orientação que se inscrevem em kürwille57. São estes os dois modos principais de expressão da

acção social, ainda que Tönnies nos advirta que nem um nem outro se encontram em forma pura. A acção social não é nem totalmemte apaixonada e vazia de algum tipo de cálculo; nem totalmente instrumental, racional e manipulativa, completamente à margem do mundo das paixões, crenças e afectos. Tönnies propõe-nos, pois, uma visão complexa da subjectividade, em

termos de uma polaridade e tensão entre as duas tendências de orientação acima definidas.

A teoria weberiana da acção social é nitidamente inspirada pela distinção conceptual de wesenwille e kürwille. De facto, a taxonomia que Weber propõe para o estudo da acção social distingue a «acção tradicional», a «acção afectiva», a «acção racional em relação a valores» e a «accção racional em relação a fins»58 – classificação cujas raízes se adivinham na distinção proposta

por Tönnies entre wesenwille e kürwille. Aliás, o próprio Weber retoma a distinção entre comunidade e sociedade59, diferenciando os conceitos do

seguinte modo: designa por comunidade uma relação social que se inspira num «sentimento subjectivo» (afectivo ou tradicional) dos seus partícipes em constituir um todo; designa por sociedade a relação social que se inspira numa «compensação de interesses» por motivos racionais (de fins ou valores) ou numa «união de interesses» com igual motivação. Dos muitos exemplos de Weber para ilustrar estes conceitos retenhamos o de «contrato económico» como ilustrativo de «sociedade» e, como ilustrativos de uma «comunidade», os exemplos de uma «tropa unida por sentimentos de camaradagem», uma «relação de piedade» ou uma «relação erótica»60.

Tönnies fazia parte de um importante círculo de intelectuais impulsionado por Weber – o círculo de Heidelberg – que acolhia também figuras relevantes do marxismo como Ernst Bloch e Georg Lukács. Aliás, a Associação Alemã de

Sociologia foi fundada por Tönnies, Weber e outros intelectuais da época como

Sombart e Simmel. Tudo isto para dizer que Tönnies não reconheceu que Weber tivesse dado um salto qualitativo importante relativamente à sua dicotomia seminal que opunha Gemeinschaft a Gesellschaft61. Segundo Giner e Flaquer62,

é Hermann Schmalenbach63 quem, ao aprofundar o conceito de Gemeinschaft,

lhe descobre um elemento residual mas essencial, assim forjando o conceito de

Bund. Bund – que pode ser traduzido por «liga» ou «comunhão» – estaria

constituído por todos aqueles elementos psíquicos de adesão intensa entre diversos membros de um grupo, elementos psíquicos que seriam independentes de «laços primordiais ou físicos»64. Ora, é justamente o Bund que se constitui

como uma das «tendências de orientação» que fazem com que um cibernauta se sinta especialmente inclinado por outro, independentemente da ausência de laços primordiais ou físicos.

Surge, então, uma problemática sociológica interessante. De acordo com as propostas de Tönnies e Weber, poderíamos dizer que a um decréscimo do sentido de comunidade a favor do sentido de sociedade/associação corresponderia um declínio da afectividade. Mas eis que emergem, agora, as

comunidades virtuais. Será que o surgimento destas novas comunidades

implicará um ressurgimento da afectividade através desse elemento residual mas essencial de Gemeinschaft que é o Bund? Será que as novas tecnologias de informação e comunicação estarão a reconfigurar os nossos afectos quotidianos? E quando digo «nossos» é mesmo para restringir o fenómeno a um conjunto limitado de pessoas: os navegadores que têm acesso à internet e aos

chats,– grupo que não se confunde, naturalmente, com a sociedade de que faz

parte65. Por outro lado, ainda que retoricamente possamos falar de

«comunidades virtuais», o simples facto de se pertencer a um newsgroup não assegura uma filiação de natureza comunitária66.

Podemos, designar de «comunidade» um grupo de pesssoas, sem laços aparentes, que apenas têm em comum o facto de estarem conectadas a uma rede? Será que a comunicação mediada por computador abre espaço a um reivindicado domínio de liberdade que torna viável a afectividade67? A questão é

saber se podemos falar de comunidades virtuais recuperando as características que Tönnies reuniu quando desenvolveu o conceito de comunidade por oposição ao de sociedade. Quem faz parte dessas comunidades virtuais? Os sujeitos reais ou aqueles outros representados por suas identidades virtuais? De facto, as identidades em rede podem distanciar-se das identidades reais. Não admira que os exemplos de mudança de sexo virtual e sua repercussão na interacção com outros usuários comecem a fazer parte das histórias da internet68. Quando uso

um nickname masculino em canais de sedução, o mais normal é que tenha de partir à conquista, dada a predominância de elementos do sexo masculino em tais canais. No entanto, quando utilizo um nickname «neutro» é mais frequente ser solicitado, embora à partida exijam esclarecimento: «m ou f?» – ao que me dizem «xau» se respondo «m».

No papel de sujeitos virtuais podemos apresentar-nos como «outros» através da anonimidade que nos é garantida quando estamos em rede. As relações afectivas que se possam estabelecer veiculam-se, então, entre outros «meus mins» e outros «seus outros». Eu e o outro somos apenas suporte de outros

virtuais que, esses sim, se colocam em diálogo. Então, onde estão os sujeitos da comunicação69? Os afectos virtuais jogam-se, deste modo, entre identidades

virtuais, embora suportadas por identidades reais. São também essas identidades virtuais que permitem uma possível reconstituição das identidades reais (as de origem) no curso das práticas comunicativas, as quais, directa ou indirectamente, podem induzir uma comunidade muito particular de afectos: a de tipo Bund, gerada através de simples elementos psíquicos de adesão. É esta adesão psíquica, ideável, que torna possível uma crença nos afectos virtuais, partilhada por sedutores virtuais. Poderão essas relações afectivas possibilitar uma revitalização das redes sociais e do espaço público?70. Nesse caso, que é

feito da intimidade quando ela deixa de ser íntima?

Mas as vivências de afectos podem ser muito diferenciadas numa comunidade virtual. Uns viverão, possivelmente, uma comunidade de afectos; outros o gosto pela estranheza com quem se interactua; outros, ainda, privilegiarão a diversão. Nas primeiras incursões que fiz pelos chats, ecoavam- me as palavras de Tönnies: «Acede-se a Gesellschaft como se chega a um país estranho71.» Nessas primeiras incursões sentia a companhia de outros

(Gesellschaft) mas faltava-me Gemeinschaft. No entanto, à medida que ia aprofundando alguns contactos, sentia-me mais ligado a uma «comunidade», chegando mesmo a lamentar a falta de alguns amigos virtuais que não apareciam a horas habituais de presença. Essas experiências permitiram-me compreender a posição de Tönnies ao sustentar que os conceitos de

Gesellschaft e Gemeinschaft não aparecem, na realidade, em estado puro, antes

formando misturas cujas doses relativas dependem das circunstâncias consideradas e das definições de situação por parte dos agentes sociais.

Como quer que seja, posso estar com outros quando esse «estar» pressupõe uma ausência física de um espaço compartilhado? Quando esse estar se dá num «não-lugar», em redes de conhecimento deslocalizadas72? Posso eu ser eu e os

outros serem outros num universo de corpos invisíveis, num mundo feito de palavras, só de palavras, acrescidas de todos os imaginários que a elas podemos associar? É inegável que as palavras são um meio de conexão com outros. Palavras que nos mascaram mas também nos revelam, ou não fosse certo que nos podemos revelar através das máscaras que usamos. Ao teclarem- se palavras num computador, desprendem-se também ideias soltas (pelas

palavras) que permitem aos nossos interlocutores fazerem uma ideia de nós próprios, activando ou não elementos psíquicos de adesão (bund). Palavras que, por outro lado, servem para moldar emoções, ansiedades, representações do outro. Palavras que, no caso de quem verdadeiramente procura uma relação para preencher vazios de solidão, podem veicular sentimentos, angústias, dilemas. Ao teclar-se «:-)))» expressa-se um «estado de espírito», uma manifestação de contentamento. Apesar da ausência de uma co-presença física há um sentimento de presença perante o outro. Ou seja, se é certo que a «conecção virtual» se alia a um sentimento de liberdade em relação a uma existência corpórea; e se, em rede, por outro lado, o self parece divorciar-se do corpo; também é verdade que, ao mesmo tempo, o corpo é reivindicado, através de palavras, de expressões, de fotografias, de apelos e sugestões.

Que tipos de afectos se criam no ciberespaço? Serão afectos condenados a perecer no virtual ou susceptíveis de serem recuperados no real? Em qualquer dos casos, que novas identidades se podem construir através das interacções ciberespaciais73? Como atrás se sugeriu, as comunidades virtuais podem ser

vistas como resultado de um cruzamento contraditório de forças Gesellschaft e

Gemeinschaft, sendo desse entrecruzamento que surge, no ciberespaço, a

possibilidade de redefinição das identidades e das próprias fronteiras entre

público e privado. No entanto, se existe, entre alguns cibernautas, um sentimento

de unidade, de características neotribais, que se vai reforçando à medida que as sociabilidades se aprofundam, também é certo que, por vezes, esses tribalismos são frágeis, fluidos, inconstantes, o que se compreende: no ciberespaço procura- se o novo, o desconhecido, a excitação.

Mas a que se deve a excitação provocada por uma sedução virtual? Ao facto de se conseguir uma fruição afectiva interdita, ou mais difícil de concretizar na realidade? É porque na realidade falta o «outro» que se recorre ao virtual? Ou porque se prefere o outro da imaginação, que nada pede, nada cobra, que não nos expõe e que, no plano imaginário, tudo nos dá? Caso se tivesse uma vida afectiva «realmente» satisfatória haveria necessidade de a viver ilusoriamente, como virtual? Para compreender a emergência dos afectos virtuais é preciso ter em conta no que se radicam, explorando, para o efeito, o fluxo das correntes socioculturais em que navegam. Por exemplo, no hedonismo moderno e auto- ilusionante nada apaixona tanto no corpo do «outro» quanto a sua conformidade

a um modelo veiculado pela imaginação. Então, basta ter o modelo, prescindindo da realidade a que se reporta. Quero lá saber do visual de minha amante virtual se a estou a imaginar com «busto 38». No ciberespaço as imagens substituem corpos ausentes74. Essa ausência, dando asas à imaginação, produz em relação

a outros imaginados essa «química fusional» que Hermann Schmalenbach designou de bund75.