SARTRE Front-end
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O credo religioso demonstra como os diretores da ACM também poderiam ocupar posições de proeminência em outras dimensões sociais de poder. Por exemplo, dois dos maiores incentivadores do protestantismo em São Luís foram os líderes pastorais Martinus Hoyer e Henry Airlie, ambos nascidos no exterior e de origem não-ibérica.
Ainda que não seja um dos objetivos deste trabalho analisar a filiação a uma crença espiritual e os créditos sociais decorrentes nas relações de mercado, notadamente a vinculação entre as éticas protestante e comercial, como trabalhado por Weber (2008), não se deve descartar as profundas afinidades entre uma e outra, mesmo no caso maranhense. No mais, a congregação dos empresários, seja em torno das igrejas de fé reformada, seja nas irmandades católicas, faz com que de fato exista o estabelecimento de laços de confiabilidade e credibilidade entre os referidos, fundamentais, talvez mais do que os regulamentos jurídicos, para as transações financeiras.
Verificou-se que aproximadamente 90,3% dos diretores, com informação disponível, professavam a fé católica romana, e 9,64% eram de outras confissões. A participação dos primeiros em confrarias religiosas era corrente, e grande parte deles exercendo cargos de gerenciamento em suas organizações. José Moreira da Silva Júnior, por exemplo, era benfeitor de várias, tornando-se provedor da Irmandade de Santa Cruz do Senhor Bom Jesus dos Passos.
Isso é importante porque as irmandades tanto proporcionavam o reencontro dos diretores da ACM para além do ambiente profissional, como também a aproximação de suas famílias, esposas e filhos, pois, especialmente nos tempos das festas religiosas, antes e depois das procissões, ocorriam visitas às residências dos “irmãos”. Nessas ocasiões, sobressaía a participação feminina no preparo e adorno do lar, preparação de alimentos e recepção dos visitantes.
As chamadas “Irmandades de Quaresma” também expunham e reproduziam as posições de poder ocupadas por seus membros em outras instituições ou mesmo fora delas: “[...] a irmandade de lá, apesar de ser de operários, estivadores, era chefiada pelo Bernardino José Maia, que vinha a ser sogro de Francisco Aguiar, bisavô de Adhemar”. Cuidavam mesmo de deixar representado materialmente o cargo ocupado, em circunstâncias que não
consentissem passar dúvida quanto à sua “dedicação” e “compromisso” ao grupo: “Eram oito jarros de prata [...], só existem dois [...]. Tem escrito – „Lembrança do provedor José Maia, 1877‟” (ARANHA apud MARANHÃO, 1997, p. 144 - 145).
A que tinha José Moreira por provedor era a mais rica de São Luís, no século dezenove. Possuía várias alfaias, jarros e lanternas em prata e ouro, além de imagens sacras adquiridas na Europa, como duas em roca, Bom Jesus da Coluna e N. S. das Dores. Localizava-se na Igreja do Carmo, que abrigava dois antigos ossuários das famílias mais antigas e abastadas da cidade, e “[...] eram os brancos [...]” (ARANHA apud MARANHÃO, 1997, p. 139), apenas, que carregavam o andor da imagem. Dentre os confrades da referida estavam outros diretores da ACM, como Adhemar Maia Aguiar, Ignácio do Lago Parga, Pedro Perdigão Barros e Vasconcellos e Antônio Paiva Fernandes Maia.
Mas as irmandades cristãs não eram as únicas associações onde os líderes empresariais terminavam por se reunir. Se a família Maia tinha forte participação na coordenação e financiamento de diversas dessas congregações de leigos católicos, ela se uniria à família Aguiar, que por sua vez possuía entre os seus um com alta titulação na maçonaria do Maranhão.
Outra vez o peso determinante dos sistemas de reprodução e transmissão do poder a partir da lógica de agregação por laços de parentesco se mostra presente. Francisco Coelho de Aguiar era português, e exerceu, por alguns anos, o cargo de Primeiro Secretário da Associação Comercial. Casou-se com uma das filhas de Bernardino José Maia, também lusitano e comerciante, o qual, quando de sua chegada ao Maranhão, o hospedou e deu-lhe emprego de caixeiro em sua casa de exportação.
Francisco Coelho de Aguiar foi chefe da “Venerável Loja Renascença Maranhense”, e Grão-Mestre da Maçonaria Brasileira. O filho, e também maçom, Adhemar Maia Aguiar, ocupou o cargo de vogal na ACM. Também, Cândido José Ribeiro teria sido um dos fundadores da “Loja Maçônica Vera Cruz” em São Luís, por volta de 1895 (SARDINHA, 2010, p. 164). Não foi possível, porém, identificar-se outros possíveis “pedreiros-livres” entre os diretores analisados. Isso provavelmente se deu porque os demais componentes, em razão do caráter reservado dessa corporação, tanto omitissem dela participar, como também por não ocuparem, no interior de seus quadros, posições de controle.
Diferente era o caso de Francisco Coelho, consagrado não apenas dentro do grupo pela colocação assumida, mas fora dele, em outros agremiações, quando os títulos obtidos no interior da maçonaria passam a figurar, para além da instituição que os concedeu, como autenticadores de sua competência administrativa e liderança, o que é possível se constatar nas notas elogiosas e comemorativas de seu aniversário publicadas na Revista da Associação Comercial do Maranhão, que mesmo traz um retrato no qual esse diretor está em trajes onde porta os galardões do Grande Oriente.
O processo de construção das identidades sociais, no caso, envolvendo as práticas de uma elite econômica própria, que dialoga e se relaciona com outras mais ou menos semelhantes, pode ser compreendido a partir de certas disposições, que redundam em preferências e aspirações do grupo ou dos agentes que o compõem, segundo as trajetórias sociais relativamente comuns ou próximas (BOURDIEU, 1983, p. 66).
Nesse sentido, a pertença a determinados clubes sociais e o reconhecimento pelo usufruto pleno das atividades esportivas e de distração por eles oferecidas, como torneios e bailes – geralmente restritos e não-acessíveis a todos os sócios – são distintivos importantes de uma posição elevada, conscientemente ou não, dentro e fora do grupo de líderes empresariais. Todos os diretores da ACM com informação disponível sobre esse ponto, cerca de vinte, aproximadamente, eram membros de clubes sociais e, ou, esportivos. A maioria inclusive figurava na categoria de sócio-fundador.
Historicamente, em São Luís, quatro grandes clubes podem ser identificados como próprios dos grupos dirigentes relacionados às elites econômicas e políticas locais. São eles: “Clube Euterpe Maranhense”, de 1904; “Cassino Maranhense”, da primeira década do século seguinte, tempos depois rebatizado com a retirada uma letra “s” de seu nome, quando da proibição dos jogos de aposta no país durante a ditadura varguista; “Grêmio Lítero Recreativo Português”, da década de 1930, e o “Clube Recreativo Jaguarema”, inaugurado duas décadas depois. Desaparecido o primeiro ainda durante os primeiros anos dos novecentos, os três restantes coexistiram por quase todo esse último período e, conforme a memória oral (NEVES, 2004a; 2004b; 2004c), conformavam-se mesma nessa ordem de importância e distinção.
Inclusos nos quadros do “Clube Euterpe Maranhense” estavam os Vice- Presidentes da ACM, Joaquim José Alves Júnior e Manoel Coelho Pecegueiro Júnior. Era ele sediado no “Solar dos Leite”, que pertencera ao Comendador Leite, pai do governador Benedicto Leite. O Imóvel por si só é majestoso. Três pavimentos e um mirante, janelas com arcadas em pedra lioz lavrada, bandeiras de raro desenho e uma larga sacada com vista à Rua Direita e Igreja do Carmo, guarnecida por armações de ferro fundido, trazidas do Velho Mundo. No térreo, um pórtico monumental dá acesso a um piso de seixos distribuídos em claro e escuro, formando composições geométricas. Em seguida, uma espaçosa escada em madeira de lei dá acesso aos andares superiores.
Em seus salões de estilo neoclássico se jogava bilhar, sobre mesas de ébano, com bolas de marfim e tacos de cedro libanês, tudo adquirido nas melhores casas francesas. Um de seus principais idealizadores foi Orphila Cavalcanti, riquíssimo comerciante e industrial, que se casaria com uma das filhas de Cândido José Ribeiro, Primeiro Secretário da Associação Comercial, também freqüentador do “Clube Euterpe Maranhense”. Desde meados do século dezenove que eram promovidos, nas casas particulares, soirées com aulas de dança, e outros diversos tipos de festas que proporcionavam o encontro das famílias, e isso conduzia à renovação dos vínculos de amizade ou a construção de novos. Não raros eram os casos de “galanteios” surgidos no curso e após os bailes realizados, culminando em enlaces matrimoniais que uniriam ou confirmariam a junção de estirpes já próximas ou em aproximação. Verificou Saint-Martin (1980, p. 10, tradução nossa) que:
A relação de algumas cenas dessa vida mundana, que não é possível apresentar nem reconstituir aqui em seu conjunto, dará, ao menos, uma idéia da importância das relações sociais mobilizadas [...], ao mesmo tempo em que é um resumo da rede de relações. O cruzeiro sobre o Achilleus, organizado por uma jornalista americana, Elsa Maxwell, sobre o modelo dos cruzeiros dos reis, de 1954, ao qual o Duque de Brissac aceitar participar em 1955, representa, sem dúvida, um exemplo limite destes falsos encontros de acaso, sabidamente organizados, para aproximar as pessoas tão semelhantes quanto possível, apesar de sua pertença à universos diferentes.
Um correspondente de clara analogia, desta vez nas águas do Atlântico Sul, colocaria em um encontro “fortuito”, José Mathias de Souza Neves e Francisca Carvalho. O rapaz era o descendente mais velho de Manuel Mathias das Neves Filho, e a moça, sobrinha de José de Mattos Carvalho, posteriormente, governador do Maranhão.
[...] foi numa viagem de navio, vindo de Salvador. Havia uma festança, era comemoração de Sete de Setembro. Ele sempre muito papeador, veio falar comigo. [...] Sabia que era filho de “Seu Maneco” e de “Dona Celeste”. Já os conhecia. Minha mãe se dava com a família dele de muito [...], era muito conhecida na cidade, eram muito ricos. Tinham prestígio. No começo tinham muito dinheiro (NEVES, 2004a).
Havia ainda diversos torneios esportivos, para além das casas de recreação, em que estiveram juntos vários jovens que mais tarde se tornariam líderes empresariais, políticos e escritores. Alguns foram os responsáveis pela criação de equipes de remo, como Almir Pinheiro Neves, irmão de Manuel Mathias das Neves Filho, presidente da ACM em 1939, e filho de Manuel Mathias das Neves, vogal. Francisco Coelho de Aguiar, oito vezes primeiro-secretário da mesma instituição, foi árbitro em uma competição dessa natureza realizada em frente ao Cais da Sagração no ano de 1909. Outros ainda investiram em esgrima e ciclismo. Mas poucas distrações possuem “caráter” tão aristocrático quanto as que envolvem montarias. Um hipódromo, lugar onde se poderia ver e ser visto, em trajes ao rigor da moda, e que, ao mesmo tempo, se tem o direito de jogar os cobres em apostas no melhor jockey ou animal, seria o ambiente de excelência para a nobreza. De fato, em São Luís, construiu-se algo parecido. Em 1881, no ato de inauguração, lá estava José Moreira da Silva Júnior, que naquele ano já era líder do grupo dirigente de empresários.
O hipódromo localizava-se no antigo Campo do Ourique e o terreno era espaçoso e apropriado, com o Quartel do 5º Batalhão de Infantaria à sua frente. Foi fundado em 4 de setembro deste ano, com grandes festividades: O dia da abertura do hipódromo foi um acontecimento contagiante. Queimaram-se fogos de artifícios, Nesse empreendimento saiu vencedor o cavalo „Ouro Preto, um animal montado pelo jockey José Antônio Rodrigues, que se identificavam pelo vistoso uniforme nas cores rosa e azul [...] o segundo colocado ficou com „Sinimbu‟, de cor „melado cachito‟, montada pelo jockey Ataliba Soares, que se trajou com uma indumentária rósea. „Ouro Preto‟ era um belíssimo animal, fogoso, veloz, muito bem tratado, orgulho de seu proprietário, o Visconde do Itaqui do Norte, [montado por] Djalma Moreira, residente nas proximidades do Hipódromo do Racing Club Maranhense. O outro cavalo pertencia a Vitorino José Rodrigues.
O Racing Club Maranhense organizou-se em forma de sociedade, sendo deliberado que não teria mais que cem sócios. Desde a corrida inaugural, reunindo os associados, caberia ao vencedor um prêmio substancial de cem contos de réis. Os sócios participantes deveriam trajar-se como requeria a um jockey: na apresentação, o disputante dizia o seu nome, para conhecimento das autoridades e do público presente, exibindo as cores de sua indumentária, bem assim como dava o nome do cavalo que montava (MARTINS, 1989, p.196).
Por sua vez, José Manuel Vinhaes, que igualmente ocuparia a presidência da Associação Comercial, participou da “União Velocipédica Maranhense”, agremiação que fomentava voltas de bicicleta nos arrabaldes da cidade, como a que se passou no dia 19 de Dezembro de 1900, onde foi “Diretor de Corridas”, ladeado por Joaquim Alves dos Santos. No entanto, os torneios mais disputados foram os de futebol e, para isso, esse mesmo Joaquim Alves dos Santos contribuiria bastante. Ao final do ano de 1905, reuniram-se na residência da família do comerciante português João Alves dos Santos, proprietário da “Fábrica Santa Isabel”, da Companhia Fabril Maranhense, os seus filhos, Chrispim, Antônio, Joaquim e Manoel Alves dos Santos, acompanhados de diversos convidados, dentre eles Carlos Soares de Oliveira Neves (Figura 13), também português, para fundarem a “Foot Ball Association of Maranhão”, entidade que regulamentaria a prática do esporte, e planejaria um campeonato regional a partir do também inaugurado “Fabril
Atletic Club”, que contaria com duas equipes de jogadores.
Figura 13: Carlos Soares de Oliveira Neves
Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1931)
A sede se localizava onde antes estava hospedado o campo Santo da Irmandade de Bom Jesus dos Passos, bem defronte à têxtil “Santa Izabel”, agora transfigurado em campo de futebol. Presentemente, lá existe o Estádio Nhozinho Santos, que homenageia o antigo proprietário da fábrica e do terreno. Estavam os sócios bem instruídos por patrícios daqueles que haviam criado esse entretenimento, os ingleses John Shipton, John Moon e Ernest Dobler, empresários
estabelecidos na cidade e responsáveis pela “Boat Steamship Co. Ld.”, a Mala Real Inglesa, e pela “Booth Line & Co. Ld.”, companhia responsável pelo vapor “Brunswick” que vazia linha até Londres com escalas em São Luís e outras cidades americanas. Esses mesmos súditos de Eduardo VII acompanharam Joaquim Alves em uma viagem para a Grã-Bretanha, onde, anos antes, também havia estado seu sócio, e amigo, Cândido José Ribeiro. Ambos de lá voltaram versados e diplomados em técnicas comerciais e têxteis, sendo elas as mais citadas referências meritórias de ambos os dirigentes empresariais. Daqueles dois primários times montados, o “Black and White” e o “Red and White”, sairiam João Alves dos Santos, como presidente da ACM, Chrispim Alves dos Santos, como Vice-Presidente e Carlos Soares de Oliveira Neves, como Tesoureiro.
Também trocaram passes de bola: Acrísio José Tavares, sócio- proprietário da “Companhia de Fiação e Tecidos do Rio Anil”, presidente em 1917 do “Anilense Foot Ball Club”, Segundo Secretário da Associação Comercial; Clóvis Vieira da Silva (1886-1916), filho primogênito de Manuel Ignácio Dias Vieira, que foi seu Presidente por três mandatos consecutivos; Belarmino Borgnheth e Saturnino Bello, que exerceram cada um o cargo de Vogal por apenas um ano, mas sendo o último alçado ao cargo de Governador do Estado em 1950. Ainda contam-se Antônio dos Santos Moreira, Tesoureiro, Saturnino Bello, Vogal, José Francisco Jorge, Segundo Secretário, José da Cunha Santos Guimarães, Vogal, e Gerson Corrêa Marques, Presidente, que foram os fundadores de “Sport Club Luso-Brasileiro”.
Antes e depois dos jogos, afastados dos deveres e obrigações profissionais, aqueles industriais e comerciantes poderiam tratar de assuntos que não dissessem respeito à política-econômica do país, expansão ou retração dos mercados, impostos e concorrência externa. Tais encontros, no entanto, forneciam a ocasião ideal para se argumentar “incidentemente” essas e outras questões de interesse comum. No caso da nobreza francesa, no curso de uma caçada organizada em meio à parentela de titulares, discutia-se, por exemplo, entre o ministro das finanças e o Conde de Brissac, as estratégias pouco satisfatórias de sucessão implementadas para certa liderança empresarial (SAINT-MARTIN, 1980, tradução nossa).
Outras associações havia em que temas da ordem econômica e política poderiam ser debatidos não só por chefes de grandes empresas – ainda que estes, dentro dessas ligas, também se organizassem hierarquicamente – como também
magistrados, literatos e políticos, entre elas o Lions Club e o Rotary Club, estruturados no Maranhão na década de 1930. Um caso do último, um de seus fundadores no Estado foi Acyr Barbosa Marques, diretor da ACM e seu presidente durante parte da década de 1940. Até o ano de 2010, o governador da aérea “20 D
4490”, que compreende o território maranhense na disposição dessa entidade é um
descendente direto de seu organizador, Acyr Barbosa Marques Neto.
Dentre o que foi narrado, é possível constatar-se que a lógica de organização familiar e os laços de amizade e apadrinhamento não só adentram as instituições que oficialmente se afirmam como possuidoras de finalidades específicas e impessoais, como também se tornam a sua estrutura principal, especialmente nas organizações montadas em sociedades periféricas, como é o caso da Associação Comercial e do Maranhão no entresséculos. Em outra vertente, as lideranças são recrutadas, produzidas e reproduzidas a partir desse mesmo arranjo. Processos complexos que avaliam e avalizam os agentes segundo os patrimônios de relações herdados, além dos recursos que lhes estão disponíveis ao acionamento quando necessário para a ascensão no grupo, ou mesmo a manutenção das posições já ocupadas, determinam a aptidão ou não para o ingresso no grupo dirigente.
Assim, as carreiras profissionais e as titulações escolares servem antes como marcadores de hierarquização ou representação úteis aos agentes apenas se conjugadas, sob a forma de subsídio, à capacidade dos mesmos em se vincularem ou pertencerem a ramos “tradicionais” e “especializados” não só na atividade empresarial, como também em outros espaços que possam contribuir para o controle dos mecanismos de poder. Com efeito, a organização de empresários se transforma em uma instância precípua de consagração dos membros de seu grupo dirigente, onde os recursos de natureza familiar e de amizade são apresentados e recebidos como legítimos, autenticadores definitivos da diferenciação entre os líderes e dos liderados.
Dessa forma, a representação empresarial já está desvinculada da fiscalização direta de seus empreendimentos econômicos, tarefa que é delegada a familiares ou indivíduos de confiança, participantes ativos nos processos de seleção patronal. Tempo livre e recursos sociais suficientemente acumulados permitem o investimento em ambientes até então por si não explorados, mas de igual maneira potencialmente lucrativos, como a literatura e a política.
3 FALANDO EM NOME E PARA A ACM: os “intérpretes” e suas origens sociais