SARTRE Front-end
A.4/ I NSERTION DANS L ’ ´ EQUIPE DE RECHERCHE
Referências das mais significativas sobre a origem social dos diretores da Associação Comercial do Maranhão estão vinculadas às características dos processos de educação aos quais foram sujeitos. Nesse ponto específico, é sobressalente a falta de informações, tanto mais se perquira no tempo, em especial para os períodos anteriores à segunda metade dos oitocentos. Isso se dá por vários motivos.
Objetivamente, a manutenção em arquivo de registros escolares, no Estado, é de franca escassez ou mesmo inexiste em alguns casos. Mas não é só. Com efeito, a posse e exibição de títulos escolares não era – ou mesmo nunca foi – um requisito protocolar de ingresso na instituição ora abordada.
Além do mais, em pelo menos um depoimento oral (RESENDE, 2010), a vida de dedicação aos estudos seria quase que incompatível com a carreira de empresário, haja vista a grande demanda de tempo necessária para cada uma dessas atividades: “[...] em razão do trabalho, quase nenhum desses comerciantes se interessou por estudar”.
Conscientemente ou não, a busca pela instrução escolar, fosse básica ou acadêmica, não teria sido uma via imprescindível de ingresso nos círculos do alto
empresariado local. Nesse caso, o diploma não se tornaria uma garantia segura de acesso, enquanto uma espécie de direito de entrada, jamais conseguindo, nessas circunstâncias, desempenhar ou ocupar as mesmas funções da família ou dos laços de parentesco (BOURDIEU, 2002).
Mas é preciso considerar algumas variáveis significativas. Primeiramente, é necessário não esquecer que o domínio de fundamentos da linguagem escrita, e mais ainda, a posse de noções básicas de cálculo e sua consignação em papel (no caso de comerciantes), eram marcadores de diferenciação social importantes tanto em Portugal quanto no Maranhão, essa uma região na qual a quase totalidade de sua população desconhecia completamente tais coisas.
Saber ler e escrever não obrigava a frequência a aulas em instituições de ensino. Eram relativamente comuns os casos em que parentes próximos que haviam se graduado como bacharéis ou se formado em seminários católicos instruíssem nas primeiras letras os jovens de sua família, ou mesmo vizinhos e até quem pagasse por tal serviço.
Dessa forma, não se deve crer que os recursos de natureza educacional perpassariam obrigatoriamente pelas entidades oficiais de ensino ou pelo porte de um título por estas emitido. Poder-se-ia falar então da preponderância de um capital cultural “incorporado”, mas ainda não “institucionalizado” (BOURDIEU, 1998, p. 74 - 78), ao menos durante boa parte do século dezenove.
Assim mesmo, verifica-se que um número considerável de diretores, especialmente no século seguinte, possuíam formação acadêmica. Com destaque, aqueles cujos ancestrais imediatos também já haviam concluído cursos superiores.
É necessário não se perder de vista que durante o período cronológico definido para a presente pesquisa, qual seja a passagem do século dezenove ao vinte, houve de fato algumas transformações relativas às características dos marcadores de distinção social, em diferentes níveis e em diferentes instâncias, com maior ou menor grau de profundidade.
Diz-se isso porque, no tocante às formas de capital cultural que se convertem em recurso para a configuração da liderança desse segmento da elite econômica, a partir das décadas de 1920 e 1930, com a consolidação e difusão de cursos superiores pelo país, inclusive na capital maranhense, há um gradual e tênue direcionamento de importância para o seu “[...] estado institucionalizado” (BOURDIEU, 1998, p. 78, grifo nosso).
Por exemplo, João Sales de Oliveira Itapary, diretor da ACM na década de 1940, tinha como progenitor José Joaquim Seguins de Oliveira, o Barão de Itapary, que por sua vez recebera esse título de nobreza no ano de 1886, em razão de ter concedido alforria a toda sua vasta escravaria. Era formado em Direito pela faculdade de Olinda, nascido em 1858 e falecido em 1929
O BARÃO DE ITAPARY
Perdeu, ontem, a sociedade maranhense um dos seus elementos de mais notável destaque, o venerando senhor José Joaquim Seguins de Oliveira, Barão de Itapary. Nasceu ele nesta capital a 17 de junho de 1858, e foram seus pais o coronel José Antônio do Oliveira e D. Maria Isabel Seguins. O saudoso extinto, que militou na política do Estado, filiado ao Partido Conservador, sempre com muita altivez e nobreza de caráter, por ocasião da campanha abolicionista, teve um gesto humanitário e, sobretudo, digno dos mais francos encômios. Dois anos antes do 13 de maio, levado pelos impulsos de seu generoso coração, libertou para mais de 400 escravos que possuía, o que lhe valeu a Princesa Isabel conferir-lhe, por intermédio do Gabinete João Alfredo, o título de barão de Itapary. Era ele o último titular do Maranhão. Tendo contraído matrimônio com a Ex.ma. Sra. Hortência Salles de Oliveira, Baronesa de Itapary, houve desse consórcio os seguintes filhos: – o Sr. Aníbal de Oliveira Itapary, casado com a Ex.ma. Sra. d. Georgina Boabayd Itapary; Dr. João Salles Itapary, casado com a Ex.ma. Sra. d. Maria Martins Itapary; e as senhoritas Maria e Ema Itapary. Deixa ainda os seguintes netos: Apolinário e Aníbal, filhos do Sr. Aníbal Itapary; Hortência e Violeta, filhas do Dr. Joaquim Itapary; e Maria Hortência e Maria Alice, filhas do Dr. João Itapary. De há muito vinha o Barão de Itapary acometido de pertinaz enfermidade. Em busca dos recursos da ciência médica, empreendeu várias viagens ao sul do país, obtendo algumas melhoras. Agravou-se, nestes últimos tempos, o seu estado e, apesar do rigoroso tratamento que lhe foi prescrito, veio, ontem, a falecer às 9 horas. NA CÂMARA ARDENTE. Durante o dia e a noite de ontem, a casa de residência do Barão de Itapary, à Rua Rio Branco n° 2, esteve sempre cheia de pessoas amigas, que foram levar à família enlutada o conforto do seu carinho. Figuras de realce, políticos, magistrados, advogados, médicos, membros do alto comércio, enfim grande número de famílias de nossa sociedade velaram, durante o dia e a noite, o féretro onde repousavam os restos mortais do venerando morto (COUTINHO, 2005, p. 388).
Não é pouco crível que a maioria deles houvesse de fato passado por algum tipo de processo educativo “institucional”, ainda que fosse apenas para a aprendizagem das primeiras letras e conhecimentos básicos. Verificou-se que, em números absolutos, a quantidade de diretores que frequentaram escolas é maior do que a dos que não o fizeram. Com efeito, são 18 contra 11.
Para outros 120 não houve informação. Seriam então 62% e 38% respectivamente, considerando-se aqueles com dados disponíveis. Se inexistente a exigência estatutária de formação escolar para o ingresso nos quadros da Associação Comercial do Maranhão, mesmo que para os seus cargos de direção,
ainda assim não se pode deixar de considerar que a sua posse detinha uma importância determinante (Tabela 2):
Tabela 2: Cargos de direção da ACM em relação ao número de diretores com e sem formação escolar através de instituição de ensino
Formação/Cargo Presidente Com formação 3 Sem formação 2 Vice-presidente 6 1 Primeiro secretário 0 0 Segundo secretário 3 1 Tesoureiro 0 1 Vogal 6 6 Total 18 11
Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1925-1940); Viveiros (1954)
Na demonstração da Tabela 2, têm-se os cargos mais elevados alcançados pelos diretores da ACM, postos em comparação àqueles que possuem informações quanto à existência ou não de qualquer tipo de instrução escolar para si. Como anteriormente dito, o número absoluto de diretores sem instrução “oficial” é flagrantemente menor. Entretanto, a divisão por cargo ocupado proporciona uma análise mais minudenciada a esse respeito.
Se a quantidade de presidentes é mais ou menos equivalente, e os vogais são em número idêntico, a diferença entre os vice-presidentes é bem definida. Notoriamente, não houve a mesma progressão de cargo entre os vogais sem instrução, se comparados aos com esse recurso. Os vice-presidentes executavam as tarefas diretamente vinculadas à gestão da entidade, e mesmo promoviam ativamente a intermediação com outras, posto que o cargo de presidente possuía um caráter de cunho honorífico, voltado à representação oficial, relativamente desligado desse tipo de atividade. No caso do cargo de vogal, verifica-se que este é, sem dúvida, o mais baixo na escala de poder no corpo administrativo da instituição. Por exemplo, os agentes nele investidos não podem representá-la frente a outras organizações, cabendo tão somente votar as resoluções propostas, ainda que pudessem se manifestar nas reuniões, com consignação resumida em ata de suas falas.
Como indicado pela Tabela 2, e muito provavelmente o era concretamente, os agentes sem instrução escolar através de instituições de ensino ou cursos regulares a ocupar os cargos de vogal sofriam maiores bloqueios de ascensão dentro da ACM do que o contrário, o que bem demonstra seu peso valorativo. Assim, o avanço do cargo de vogal para os superiores era muito mais problemático para aqueles que se encontravam sob essa circunstância. Dessa forma, os agentes que possuem formação escolar “tradicional” não passaram, necessariamente, pela progressão de cargo, logrando de pronto o ingresso em posições de superioridade, notadamente a vice-presidência, ante-sala do cargo institucional mais elevado.
Como anteriormente dito, a falta de um sistema escolar oficial para as primeiras letras, ou no mínimo sua incipiência, impunha a necessidade de instrução a partir de membros da própria família, ou de professores, até o século dezenove intitulados de “mestres”, que desempenhavam essa função apenas de forma secundária. Geralmente o faziam a título de complementação de renda, posto que a rigor desempenhavam primordialmente outras atividades, como o sacerdócio.
A fundação do Liceu Maranhense na primeira metade dos oitocentos, e de outro razoável número de escolas públicas e privadas na seguinte, ainda que de vida efêmera, em especial para esse último tipo, específicas para moças e rapazes até a idade média de dezesseis anos, contribuiu para uma relativa diversificação educacional em São Luís, antes entregue quase totalmente aos colégios das ordens católicas.
Contudo, inexistia na capital maranhense uma entidade dedicada à formação de pessoas que fossem atuar diretamente no comércio, ao menos até a criação do “Centro Caixeiral”. A institucionalização das profissões de “comerciante” e “auxiliar do comércio”, em especial após a edição das primeiras leis de regulação do trabalho e a crescente complexidade das transações econômico-financeiras verificadas no início do regime republicano, implicou no surgimento de diversas escolas de nível técnico nessa área, pelo país.
Em um meio marcado por uma proposta de ensino sem muita aplicabilidade imediata, de acesso extremamente limitado e voltado para a aprendizagem de conhecimentos ditos “eruditos”, como latim e grego, essa associação de aprendizes mercadores se transformou rapidamente em um marco de
referência para a educação profissional dos agentes que se engajavam nas atividades relacionadas ao comércio.
O Centro não era uma instituição apenas para homens. Mulheres também se formaram através dele, mas, principalmente, para exercerem um labor estritamente técnico, e alheio ao comando das empresas. Isso é corroborado pelo fato de não se ter encontrado nomes femininos em qualquer lista de diretores de unidades fabris ou casas comerciais durante a época me que se centrou a pesquisa. Também as mulheres restaram excluídas das diretorias da ACM no mesmo período. Contudo, poderiam ainda atuar no exercício do magistério, na área de suas graduações. Um dos cursos disponíveis para esse público era o de datilografia, pelo qual se formou Marieta de Oliveira Serrão (Figura 5):
Figura 5: Formanda em datilografia, Marieta de Oliveira Serrão Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1926)
Contudo, os indivíduos do sexo masculino formados no Centro Caixeiral eram apresentados como possuidores de conhecimento técnico especializado, aptos a exercerem cargos de direção nos empreendimentos econômicos onde já laboravam, ou naqueles onde houvesse demanda por esse tipo de trabalhador. Apesar de seu caráter subsidiário, dado que se trata de uma sociedade que não tem a profissão como medida de hierarquização (CORADINI, 1997), o capital simbólico
de reconhecimento – obviamente sem desconsiderar os laços de parentesco e apadrinhamento –, dos egressos dessa escola entre o empresariado era claro. Por exemplo, muitos contadores recém-formados na citada escola eram recebidos e se tornaram gestores de grandes casas de comércio e indústrias, depois figurando entre os diretores da ACM.
Sua organização se deu logo nos primeiros meses do regime republicano, com a fundação se realizando no dia 22 de janeiro de 1890. Antes dele, havia a possibilidade de instrução específica para o comércio apenas fora da Província, com uns poucos se dirigindo para a Europa com esse fim. Inicialmente, a partir de março de 1891, o Centro oferecia um curso composto das seguintes cadeiras, com seus respectivos professores
Português – Raimundo Tribuzi, substituído por José Ribeiro do Amaral [um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras – grifo nosso]; Francês – Dr. Álvares Pereira;
Geografia – Dr. Justo Jansen Ferreira; Inglês – Dr. Nestor Rosa;
Aritmética – Major Arthur E. Pereira; Escrituração – Antônio J. de Almeida;
Direito Comercial – Dr. Manuel Jansen Ferreira [advogado, comerciante e diretor da ACM] (VIVEIROS, 1964, p. 126, grifo nosso).
O projeto do Centro Caixeiral evoluiu para a instalação do “Curso Superior do Comércio”, na segunda década do Século XX, conforme as disposições legais decorrentes do Decreto Federal nº 3.582, de 25 de novembro de 1918, e fiscalização da União. Segundo Viveiros (1964, p. 130 - 131), “[...] lá houve uma sociedade de Tiro de Guerra para a instrução militar de seus sócios [...]”. Em 1925 mantinha uma “Escola do Comércio”, que oferecia “[...] o curso preparatório e curso teórico-prático, profissional [...].”. Os cursos possuíam as seguintes disciplinas:
Curso preparatório – rudimentos de Português, Aritmética, Geografia, Geometria, História do Brasil, Ciências Físicas e Naturais e Caligrafia. Curso Profissional – está dividido em 5 anos, compreendendo as seguintes matérias: Português, Francês, Inglês, Alemão, Italiano, Geografia, Cosmografia, Corografia, Aritmética, Álgebra, História Universal e do Brasil, Escrituração Mercantil, Contabilidade, Direito Comercial e Economia Política (VIVEIROS, 1964, p. 130 - 131).
O Centro tem em seu nome uma antiga denominação dirigida para os aprendizes da profissão de comerciante. O caixeiro cuidava originalmente da mensuração e registro dos produtos entrados e saídos da casa comercial onde laborava, preenchendo os livros contábeis e rubricando nas caixas que
transportavam os bens, a propriedade dos mesmos e certas especificações como peso e número.
Além disso, coordenava uma série de outras tarefas acessórias, como organização e exposição dos objetos negociados, limpeza da loja e atendimento de balcão. Campos (2009, p. 261) declina, a partir de sua experiência pessoal, como um caixeiro se identificava com seu trabalho, inclusive pela posição social por ele ocupada dentro do grupo:
Os homens que nunca viveram no comércio não podem compreender, absolutamente, a mentalidade comercial. O comércio antigo constituía, sob o ponto de vista social, um mundo à parte, com a sua aristocracia e a sua moral, e um padrão especial para julgamento das virtudes e dos defeitos. O empregado de uma firma identificava-se de tal maneira com ela, que participava do orgulho dos chefes, no seio da classe. O auxiliar de uma grande casa exportadora ou importadora sentia tamanha vaidade da sua condição, que, despedido, não aceitava emprego senão em estabelecimento do mesmo gênero, e de equivalente prestígio na praça. Por isso mesmo, cada um procurava manter-se no lugar conquistado, sofrendo, embora, dos chefes, as mais terríveis humilhações. O patrão era quase um pai. E era preferível o castigo sofrido em família, ao desdém lá fora, diante dos companheiros. O empregado no comércio era, em suma, como essas senhoras que, no lar, apanham do marido, mas nos passeios perante a sociedade, sentem profundo e secreto orgulho de serem portadoras do seu nome.
E eu, caixeiro de Dias de Matos & Cia., mercearia modesta, mas honrada, era animado pela mentalidade de minha classe. De passagem pela Praça Gonçalves Dias, rodeada de palmeiras, nunca levantei os olhos para contemplar o poeta, lá em cima. Nunca, porém, deixei de olhar uma casa de secos e molhados que havia quase à esquina, para, examinando-lhe o sortimento, e o letreiro das tabuletas, e a arrumação das mercadorias, estabelecer, com íntimo desvanecimento, confronto com as pilhas de latas de leite, de azeitonas, de marmelada, de ervilhas, de paio, de banha de porco, e com os caracteres góticos, feitos por mim, com alvaiade diluído, nas louças de madeira da Casa Trasmontana.
Os grandes e opulentos príncipes italianos da Renascença tratavam com desdém um duque de Módena. E os vendeiros do Maranhão não eram mais, no meu julgamento, do que insignificantes duques de Módena, a que eu, caixeiro de confiança de Dias Matos & Cia., olhava superiormente, como um valido, prestigioso homem da corte, do doge de Veneza ou de Gênova.
Humberto de Campos Veras (1886-1934), ou simplesmente “Humberto de Campos”, é um dos principais escritores maranhenses, e alcançou reconhecimento nacional, tendo publicado inúmeras obras sobre os mais variados temas, destacando-se no gênero das crônicas. Nasceu na antiga povoação de Miritiba – que hoje é um município rebatizado com o nome de seu ilustre filho – no litoral leste do Estado.
O pai faleceu quando o futuro cronista tinha pouco mais de sete anos. As condições financeiras da família permitiram que fosse enviado a trabalhar em São
Luís como caixeiro da firma de um tio, mas os parcos recursos não lhe deixaram ingressar em escola. Isso não o impediu de aprender as primeiras letras, ainda que tardiamente.
Incentivado por seus próprios parentes da capital, desenvolveu a escrita e o raciocínio lógico, de aplicação corrente no comércio. Era presenteado com livros didáticos e obras clássicas, o que lhe fomentou o gosto pela leitura, e a sua boa redação, a escrever e ter publicados nos jornais da cidade seus contos e poemas. Aos dezessete anos se muda para Belém, onde labora como jornalista. A partir de então, a carreira literária de Humberto de Campos apenas progride, sendo eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1920.
Episódio dos mais interessantes é que, mesmo após sua morte em meados da década de trinta, diversos novos textos começam a aparecer sob a sua identificação, mas redigidos por Francisco Cândido Xavier, ou simplesmente “Chico Xavier”, um dos principais difusores do espiritismo no Brasil. Quando “Chico Xavier” desenvolve sua “mediunidade” pelo final da adolescência, Humberto de Campos não só já era um escritor de larga aceitação por todo o país como também deputado federal por seu Estado, sendo reeleito inúmeras vezes até perder o mandato com a Revolução de 1930. Nem por isso deixou a administração pública, pois foi nomeado por Getúlio Vargas como diretor da Fundação Casa Ruy Barbosa.
Mas a descrição feita pelo emérito escritor quanto aos idos de caixeiro no Maranhão, merece algumas observações. A primeira toca à temporalidade, vez que esta pesquisa se debruça justamente sobre a época em que Humberto de Campos se ocupava da organização de mercadorias nas estantes da “Casa Transmontana”. Em seguida, por ser o caso de um agente que não estará inserido no grupo dirigente de empresários, mas que dispõe e se vale de recursos semelhantes aos utilizados naquele, como o ingresso na atividade a partir dos laços de parentesco. Outra observação pertinente é quanto às duas reconversões operadas com muito sucesso, de início saindo do comércio e investindo na via literária e depois de consolidado nesta, para a política.
A principal nota, todavia, se refere ao fato de que um empregado do comércio não se identificava, ao menos nesse caso, como pertencente a uma “classe explorada” por uns poucos e violentos indivíduos, os patrões. O corte realizado, talvez despropositadamente, na unidimensionalidade de um mundo social que tem sido apresentado como construído de forma exclusiva sobre a égide da
produção econômica, em tese estruturado na divisão entre dois blocos fixos e antagonistas, os “explorados” e “exploradores”, revela as lutas constantemente travadas conforme os condicionantes em jogo e toda uma série de outras dimensões simbólicas de grande importância.
Dentre essas está a identificação pessoal frente a indivíduos em escala superior de poder, associados e aproximados à própria lógica de organização familiar, como o patrão, que era quase como um “pai” ou um “marido”. De igual forma a criação e fluência na leitura e difusão de códigos de diferenciação social próprios, como o pertencimento a um determinado tipo de casa comercial prestigiosa