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O local de nascimento é uma das mais importantes variáveis para a compreensão da constituição social das lideranças empresariais, e mesmo de uma parte da própria elite econômica maranhense. No caso específico, em que se verifica a forte presença de agentes nascidos em outros países, especialmente em Portugal, e que no Maranhão se dedicarão às atividades vinculadas ao comércio e indústria, faz-se necessário um mapeamento de suas origens geográficas, a fim de se analisar o sistema de absorção e engajamento de novos agentes junto àqueles anteriormente já estabelecidos. Nesse sentido, verifica-se que é absolutamente marcante a presença de “estrangeiros”, que formam a maioria absoluta dos diretores da Associação Comercial (Tabela 1):

Tabela 1: Origem Geográfica dos Diretores da ACM

Local de Nascimento Número

Brasil 27

Portugal 27

Outros 2

Total 56

Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1925-1940)

São 56 diretores que possuem informações disponíveis quanto ao local de nascimento. Se for considerado como brasileiro 1 que nasceu no Acre, mesmo enquanto esse território pertencia oficialmente à organização político-administrativa boliviana, o número de diretores da ACM nacionais se iguala aos 27 que são portugueses, como foi consignado na tabela. Como é percebido através dela, porém, o número ainda é menor que o de nascidos para além das fronteiras do país, pois soma-se mais um escocês e um espanhol.

Além disso, está sendo considerado como dado objetivo de diferenciação de nacionalidade o exato local de nascimento. É notável, contudo, que muitos “brasileiros” que figuram na lista são filhos de casais portugueses emigrados para o Maranhão.

Em termos estatutários, o local de nascimento não existe enquanto critério oficial de seleção para o ingresso ou ascensão na ACM. No entanto, ele é de extrema importância para se perceber como se operacionaliza o recrutamento prático de seus líderes.

Para se compreender a elevada presença de lusitanos na condução do alto comércio brasileiro, é necessário se ter de início a percepção de que existe a uma rede internacional de troca estabelecida desde o século dezessete, entre o Brasil e os principais centros econômicos da Europa, cuja principal praça de intercâmbio é Lisboa.

Vencida pelas potências melhor instrumentadas para o comércio ultramarino, Lisboa perde mercados e territórios, sobretudo no Oriente. Porém, caindo escada acima no sistema colonial europeu, a Coroa portuguesa implanta no Atlântico uma economia de produção mais eficazmente explorada do que a economia de circulação de seu império asiático. Na ausência de um excedente regular incorporável às trocas marítimas, a Coroa – secundada pelo capital nacional e estrangeiro – estimula a produção de mercadorias para a economia-mundo, dando origem a uma forma mais avançada de exploração colonial (ALENCASTRO, 2000, p. 30).

Essa teia mercantil, sediada na capital portuguesa, mas estendida também a outras urbes importantes, como o Porto, foi imposta de forma compulsória pelo chamado e decantado “Exclusivo Comercial”, e não se rompeu drasticamente com as mudanças decorrentes da elevação do Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves ou frente à Independência. Ao contrário, foi perdendo lentamente sua força durante todo o curso do século dezenove e início do seguinte, acompanhando a dissolução do antigo império ultramarino lusitano.

Porém, até a segunda metade dos oitocentos, ela ainda detinha considerável valor, inserindo grande número de jovens candidatos ao ingresso no mundo dos negócios. Notável é ainda a existência, até as décadas de 1940 e 1950, de um “[...] sobradinho de esquina, [onde] ficava a „República‟ dos portugueses- caixeiros da Praia Grande” (LIMA, 2002, p. 09), localizado entre a Rua do Sol e a Travessa da Passagem.

Na ponta ludovicense da rede estavam as casas comerciais de portugueses nela já engajados e consolidados, a receber uma parte desse contingente populacional. Esses estabelecimentos mantinham fortes vínculos – não só econômicos - com outras casas de negócio em Portugal, ou lá mantinham pequenas representações comerciais, custeando agentes que executavam a função

de intermediários. Um dado sobressalente dessa mútua conexão está no fato de não ser incomum o estabelecimento de laços de parentesco entre famílias proprietárias de empreendimentos “solidários”, localizados no Maranhão e na “pátria de Camões”.

Por exemplo, Manuel Maia Ramos, pertencente a abastada família de comerciantes do Porto, formado em técnicas têxteis na Alemanha e tendo administrado unidades industriais dessa natureza em Portugal e no Rio de Janeiro, chega ao Maranhão no final da década de 1920 para dirigir a Companhia de Fiação de Tecidos de Cânhamo. Se por um lado Maia Ramos surge como uma espécie de executivo para redefinir a produção da têxtil, não podendo ser identificado como um líder empresarial, e mesmo sequer figurasse entre os diretores da ACM, os proprietários da fábrica tinham franca influência nos mais elevados cargos dessa instituição.

Manuel Mathias das Neves, acionista majoritário dessa têxtil, havia realizado caminho parecido ao de Maia Ramos, ainda muito jovem, partindo do norte de Portugal para São Luís. Cumpriu o cargo de vogal na Associação Comercial por dois anos, mas Manuel Mathias das Neves Filho, brasileiro, foi eleito seu presidente em 1939.

Contudo, Manuel Mathias das Neves e Manuel Maia Ramos tinham mais em comum do que o prenome tipicamente lusitano. Ambos casaram-se com maranhenses. O primeiro com Marianna Pinheiro, moça de importante família de comerciantes e lavradores locais. Já o segundo teria como consorte Edith Pinheiro Neves, uma das filhas de Manuel Mathias com Marianna. Com esse último enlace, ambas as famílias aproximaram seus ramos separados pelo Atlântico, e passaram a ser correspondentes ativos, inclusive quanto aos assuntos mercantis transnacionais. Outro exemplo é o de Arnaldo Joaquim Júlio Corrêa, maranhense e que foi Vice- Presidente da ACM. Era filho do português de Matosinhos, Joaquim Júlio Correia, que mais tarde se tornaria o proprietário de uma das maiores casas de exportação de algodão em pluma do Maranhão. Joaquim Júlio Corrêa chegou a ser apontado como decano do comércio maranhense na década de 1920, merecendo inclusive uma nota elogiosa, com fotografia, por ocasião de seu aniversário, na revista da Associação Comercial.

Ele chegara a São Luís durante o Império, aos dezesseis anos. Aparentemente não veio só, pois dois irmãos seus também foram comerciantes na cidade. Eduardo Júlio Corrêa está sepultado desde 1898 no antigo cemitério da

Capela de Bom Jesus dos Navegantes. Florêncio Júlio Corrêa, por seu turno, depois de vários anos na Província, retornou a Matosinhos, onde feneceu. Joaquim Júlio Corrêa conseguiu se estabelecer, e casou-se na Igreja da Sé, no ano de 1887, com Emília Rosa d‟Almeida Morais. A sua esposa era maranhense, mas, como Edith Neves Maia Ramos, filha de destacado comerciante lusitano, no caso, José Antônio d‟Almeida Morais, cuja trajetória em nada diferia à dos demais.

Assim, a rede de inserção de portugueses no Maranhão mostrava o quanto seria decisiva para a determinação das características referentes à origem social de boa parte dos diretores da ACM. Mas esse sistema de atração de agentes para o comércio, com algumas poucas modificações, servia folgadamente a outras nacionalidades. Desde meados do século dezoito que os grandes veleiros, atravessando sinuosamente a temerária Barra do Maranhão, faziam desembarcar no porto de São Luís homens portando nomes estranhos ao vernáculo: Belfort, Guilhon, Lapemberg, Lamagnère, Jansen Müller de Praet.

Esses que de início atuaram no “trato”3, diferenciam-se dos agentes estudados na presente análise por formarem uma elite econômica específica. Apesar do início comum, converteram-se, ao passar do tempo e através de vínculos de parentesco, com a nobreza administrativa residente, transfigurando-se em grandes proprietários escravocratas, possuidores de imensas lavouras de arroz e algodão, engenhos e fazendas de gado, constituindo numerosas famílias, bem características do patriarcalismo rural brasileiro. Se as trajetórias em algum momento se modificaram, passando a formar grupos dirigentes mais ou menos diferenciados, as condicionantes de origem continuaram basicamente as mesmas.

No caso de estrangeiros que não compartilhavam das redes de inserção luso-maranhenses, como os de berço anglo-saxão, sejam aqueles de meados do século dezoito ou do século dezenove, e entre esses últimos dois dos mais reconhecidos diretores da ACM, Martinus Hoyer e Henry Airlie, os que conseguiram se firmar no grande comércio e se projetar nessa instituição, engajaram-se ainda bem jovens ao mesmo sistema familiar de apadrinhamento e proteção em linhas anteriores exposto.

Tomou-se conhecimento, durante a pesquisa, da existência de uma obra genealógica recente – mas provavelmente já esgotada, e por esse motivo não 3 O “trato” é palavra que tem como significado “negócio” ou “comércio”. Muito em uso até meados do século dezenove.

encontrada –, com os seguintes dados: “Os Hoyer e os Broadbert Hoyer da Casa de Belfort, de Martinus Hoyer Gomes, ed. do Autor, São Vicente (SP), 2006” (COLÉGIO BRASILEIRO DE GENEALOGIA, 2007, p. 3). Martinus Hoyer, como antes dito, não pertence à população pesquisada, mas foi diretor e presidente da “Comissão da Praça”, entidade que imediatamente antecedeu à ACM. Seu caso é exemplar por demonstrar como o pertencimento às redes familiares já estabelecidas economicamente poderiam proporcionar a um jovem estrangeiro, mesmo de origem geográfica não-lusitana, um ingresso exitoso na carreira de empresário. Veio para São Luís a convite de um tio, Martinus Aníbal Boldt, oficial da marinha dinamarquesa lotado no Maranhão e casado com a filha de um desembargador, que ficou responsável pela educação da criança, que mais tarde seria empregado da firma inglesa “Moon & Cia”.

Mas a julgar pelo título da obra (e em boa medida pelo nome do autor), se houver de fato algum tipo de vinculação familiar, ou se esta foi acionada, entre o comerciante oitocentista Martinus Hoyer e o apresador de índios e grande lavrador do Maranhão do século dezoito, o irlandês Lourenço Belfort (Lawrence ou Lancellote, como citam alguns documentos), Martinus, chegado a São Luís ainda bem jovem no ano de 1829, não deve ter tido maiores problemas em acessar as mais importantes instâncias de poder da antiga província.

Isso porque os descendentes de Lourenço Belfort eram nobres fidalgos portugueses e titulares nobiliárquicos locais, entre eles Sebastião Gomes da Silva Belfort,

[...] estudante de matemática por Coimbra, acadêmico de direito, sem concluir o curso, vereador à Câmara Municipal de São Luís, membro da junta governativa presidida por d. Joaquim de N. S. de Nazaré. Era fidalgo cavaleiro da Casa Real portuguesa e cavaleiro da Ordem de Cristo. Faleceu no posto de brigadeiro do regimento de milícias do Itapecuru [...]” (COUTINHO, 2005, p. 237).

Antônio Raimundo Teixeira Vieira Belfort, Barão do Gurupi “[...] bacharel em direito, magistrado, parlamentar [...]” (COUTINHO, 2005, p. 282), Joaquim Raimundo Nunes Belfort, Barão de Santa Rosa

[...] lavrador, político, proprietário de engenhos de açúcar [...] varão de muitas letras, mas era político liberal de prestígio e republicano histórico [...] na exposição do açúcar e do algodão ocorrida em 1883, promovida pela Associação Comercial do Maranhão, sob a chancela do presidente da província Ovídio João Paulo de Andrade, entre os que receberam menção honrosa pela qualidade superior de seus produtos, incluía-se o barão de Santa Rosa (COUTINHO, 2005, p. 344 - 345).

Manoel Gomes da Silva Belfort, Barão de Coroatá, “[...] foi vereador à Câmara Municipal de São Luís, deputado provincial em várias legislaturas e, por duas vezes, presidente da Assembléia (COUTINHO, 2005, p. 444).

Martinus Hoyer é consagrado na ACM como o principal empresário maranhense de meados do século XIX. Isso não só por possuir diversos empreendimentos industriais de grande porte, como também por publicar obras sobre economia e política nacionais. Segundo Holanda (2010, p. 40), ele:

[...] pertence a uma espécie de estrangeiros intimamente enfronhados nos assuntos da terra adotiva que vicejou em várias partes do Império durante o segundo reinado, como o francês Henrique Augusto Milet em Pernambuco, ou o alemão Karl Von Koseritz no Rio Grande do Sul, ou, em São Paulo, o irlandês Ricardo Gumbleton Daunt [...].

Apesar de não se incluir na população objeto deste estudo, foi diretor presidente da “Comissão da Praça”, a instituição de empresários que precedeu a Associação Comercial do Maranhão. Essa mantém, em seu salão nobre, atrás da tribuna, um óleo sobre tela de grandes proporções, confeccionado na década de 1880, onde Hoyer é a figura principal, ladeada por ícones clássicos do comércio, como porto, caixas e naus mercantes.

Além dele, outros empresários como Cândido José Ribeiro e Arnaldo de Jesus Ferreira, cada um em sua própria época, são apresentados pelas diretorias da Associação Comercial como espécies de “heróis” do empresariado, por terem conseguido realizar não só feitos da ordem privada, como edificar grandes empreendimentos materiais (indústrias, estradas, etc.), mas também “projetar” os objetivos e as realizações da instituição à qual pertenciam. Seus nomes eram frequentemente citados em sessões solenes e, no caso de Hoyer, uma celebração especial foi organizada para o descerramento da pintura que até os dias atuais encima o plenário da ACM, contando com a presença de poetas e escritores da terra. Sob esse processo Coradini (1998, p. 212), informa que:

O que distingue os agentes sociais considerados como heróis dos meramente dominantes é o fato de que essa posição de herói e aquilo que ela representa em termos de valores culturais representados pela „figura‟ ou imagem social são consagrados e passam a fazer parte da ordem do sagrado, em oposição ao profano. Daí, inclusive, o caráter fortemente ritualizado e solene das liturgias de canonização desses processos de heroicização, visto que a história se realiza em seu estado „objetivado‟, „incorporado‟, mas também „reificado‟.

José da Cunha Santos Júnior, por sua vez, foi um dos reformuladores da Comissão da Praça e fundadores da Associação Comercial do Maranhão em 1878, maranhense educado na Inglaterra, foi por muito tempo diretor da firma “Cunha Santos & Filho”, criada por seu pai. Mas José da Cunha Santos, o pai, não era brasileiro, nem português. Havia nascido na Espanha. Como informa Viveiros (1954, p. 426), é ignorado o ano de sua imigração para o Maranhão. Chegara trazido por um capitão de veleiro, ainda menino.

Em sua juventude, atendia pelo nome de Santo José da Cunha, e vivia das miúdas rendas colhidas de uma franciscana barraca montada à beira do lodaçal do Bacanga, ao lado da Casa das Tulhas, o antigo mercado da Praia Grande. Ali atracavam as canoas e alvarengas que abasteciam os grandes navios fundeados de fronte à cidade.

Santo José não estava só.

Por todo o entorno desse prédio de um único pavimento, dividido em pequenas lojas e tomando toda uma quadra do citado bairro, aglomeravam-se dezenas de outras precárias tendas. Seus donos de tudo alienavam: farinhas, peixes e camarões secos, frutas da terra, galinhas, patos, porcos, peles e animais silvestres. Na disputa pela preferência do comprador miúdo havia também os negros de ganho, oferecendo seus produtos e serviços. Comercializavam-se outros homens cativos, recém chegados da África ou das fazendas interioranas, em leilões promovidos em plena rua. O mercado tinha maior movimento antes das horas mais quentes do dia, ou ainda segundo as marés cheias, quando aos bergantins e

clippers4 podiam fundear próximos ao cais outrora existente naquela localidade.

Nesse ambiente de profusos calor e suor, em meio ao povo que para ali acorria ao som estridente dos gritos dos pregoeiros, dividindo espaço com os muitos urubus que saltavam ao chão à cata das entranhas dos animais abatidos ali mesmo, sobreviviam os pequenos comerciantes da cidade. Por de trás daquelas amontoadas bancas estavam muitos brasileiros e portugueses, mas também pessoas de outras nacionalidades, como Santo José. Ele se ocupava em fornecer água potável para as embarcações chagadas ou de partida, assim como breu e alcatrão, ambos utilizados para reparos e isolamento dos vasos de comércio, em um processo conhecido por “calafetagem”.

4 Embarcações à vela de grande porte, utilizadas como transporte de pessoas e mercadorias durante o século dezenove.

Especificamente a água gozava de demanda considerável, pois as tripulações dos veleiros eram numerosas e os trechos percorridos, longos. Sendo gênero de primeira necessidade e, portanto, imprescindível, a água potável configuraria um produto de garantida aceitação, cujos lucros com a sua comercialização poderiam ser bem compensadores.

Santo José não descobrira nada de novo.

O negócio de venda de água para navios era bem antigo, sendo inclusive explorado por vários fornecedores. Assim, inserido em um ávido meio concorrencial, provavelmente ele seguiria a trajetória comum a diversos outros pequenos comerciantes. Meio ascendente, meio descendente, sua atividade não lhe asseguraria muito mais do que a modéstia.

Mas a água que Santo José comercializava provinha das fontes de propriedade de Ana Joaquina Jansen Pereira (1787-1869), uma das mais ricas mulheres de seu tempo, proprietária de terras e vasta escravaria, no interior da Província e em São Luís, onde também detinha grande número de imóveis urbanos, dos quais retirava alugueis. Era a principal referência na liderança do Partido Liberal do Maranhão. Segundo informa Moura (1992, p. 56), contava-se na cidade que:

No seu palacete, dizia o povo, não se fechavam as portas nem se apagavam as luzes‟. Dia e noite, ferviam ali dentro as tricas políticas e os enredos privados da terra. Nada se fazia sem a palavra de ordem ou aquiescência do sobrado. Chamavam simplesmente assim o famoso imóvel de azulejos da Rua Grande [...].

Ana Jansen nascera (Figura 1) sem posses, porém. Casou-se inicialmente com Antônio Lobo da Silva Leite. Enviuvando, desposou em seguida um militar, o Coronel de Milícias, e muito rico comerciante português, Isidoro Rodrigues Pereira. Com o falecimento deste em 1825, ela passa a conduzir o vasto patrimônio legado pelo agora desaparecido esposo. Ainda casaria com Antônio Xavier da Silva Leite, com o qual não teve descendentes. No entanto, Ana Augusta Jansen Pereira, filha havida antes do terceiro matrimônio, no dia 15 de janeiro de 1849, teve núpcias com o primo, Manuel Jansen Ferreira (Figura 2), advogado, professor e posteriormente comerciante, um dos mais influentes diretores da Associação Comercial do Maranhão.

Figura 1: Ana Augusta Jansen Pereira, década de 1860. Carte de

Visite, Fotógrafo: “Phot. Guimarães & Cia”, Rio de Janeiro

Fonte: Acervo pessoal do autor

Figura 2: Manuel Jansen Ferreira, década de 1880 Fonte: Viveiros (1954)

Mas não era apenas essa a vinculação dos Jansen com a ACM.

Santo José consegue projetar-se ao conseguir, frente à Ana Joaquina, o privilégio da compra de água de suas fontes. Logo após a segunda viuvez desta, o espanhol é convidado a ser padrinho de um de seus filhos. Com os laços de compadrio firmados entre si, forma-se uma sociedade em que ambos passam também a fornecer água a residências, através de carros pipa de tração animal. Mesmo sem muita higiene, até a fundação da “Companhia de Águas do Rio Anil” –

da qual esses sócios foram grandes opositores – não havia outra forma de abastecimento hídrico regular em São Luís.

Já de muito, Santo José da Cunha havia mudado a grafia de seu nome para José da Cunha Santos. Isso ocorrera a 19 de setembro de 1840 (VIVEIROS, 1954, p. 426), e os motivos talvez estivessem relacionados à necessidade de seu “aportuguesamento”, o que sinalizaria como um dos recursos de ingresso para o meio empresarial.

Porém, é apenas na década de 1880 que a sua casa comercial se torna uma das maiores do comércio maranhense do século dezenove, fornecendo grande sortimento de produtos náuticos e para a construção civil. A esse tempo, estava retornando da Inglaterra, onde se graduara em técnicas comerciais, o seu filho primogênito, José da Cunha Santos Júnior, que assumiria a condução dos negócios do pai e seria um dos fundadores da ACM. Apesar dos portugueses de fato nunca terem desaparecido completamente desse campo, ao menos até o final do século vinte, passam a enfrentar a “concorrência” de novos agentes, de maneira mais ou menos próxima ao que eles mesmos haviam feito frente aos grandes lavradores escravocratas.

O aparecimento de sírio-libaneses no grande comércio e indústria maranhenses em meados das décadas de 1920 e 1930 marca o início de um processo de substituição de elites econômicas no que toca às origens geográficas. Esses agentes, em boa parte já eram médios comerciantes, intermediando a venda dos produtos saídos de São Luís e difundindo-os nas povoações produtoras de algodão, farinha e couros. Diferentemente dos portugueses e seus descendentes, estabelecidos principalmente na capital, os sírio-libaneses em Caxias, Codó,

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