No que se refere a um ideal de curso na concepção dos professores entrevistados, percebe-se uma tendência na preocupação com a prática dos formandos nas professoras Três, Seis e Nove.
Para a professora Três, essa questão pode ser resolvida se o curso de Pedagogia se realizar em tempo integral para melhor aplicação da teoria na prática, conforme ela afirma:
Eu acredito que deveria ser um curso de período integral, este curso deveria fornecer condições para que esse aluno pudesse participar, por exemplo, aqui na instituição tem um colégio, então o acesso ao estágio deveria ser mais tranqüilo, e não é. A viabilização, não sei, de uma bolsa-aluno coisa nesse sentido, para que ele pudesse também se manter, por que para estudar integralmente ele precisa de alguma coisa para se manter.
A professora Seis também acredita que um curso ideal deveria estar voltado para a prática e não para a teoria. Ela diz:
Eu acho que seria ideal um curso que você pudesse estar o tempo todo, ou a maior parte do tempo fazendo pesquisa. Trabalhando, de fato na prática, não tanto na teoria.
A professora Nove sugere a criação de laboratórios para colocar o aluno em contato com a realidade escolar. Ela relata:
Quando ele chega lá para dar determinada aula de um conteúdo, ele não sabe como fazer, e os currículos de formação hoje estão vislumbrando essas questões, que é a instrumentalização do processo de ensinar, que está meio ligado à didática, com a metodologia, enfim, isto está sendo contemplado com laboratórios de didática, onde a aula é dentro do laboratório prático, e nesse laboratório o aluno vai conhecer todos os recursos disponíveis para que ele possa transmitir a matéria que vai lecionar. O laboratório tem o cantinho das letras, da matemática, das ciências e ele vai aprendendo trabalhar com tudo isso, inclusive com as tecnologias, que também fazem parte desse laboratório de didática. Tem um data show, então como é que ele vai usar um data show, como ele vai usar o rádio, como ele pode usar a televisão, enfim, ele terá ali uma noção de como pode usar o palco, o teatrinho de fantoches, como pode usar o livro. Ele vai aprender efetivamente o dia-a-dia, como é que ele vai desenvolver o conteúdo. Eu acho que isso é uma coisa bastante significativa para os cursos de pedagogia e de formação de um modo geral.
Os professores Quatro, Cinco e Sete, acreditam que um curso ideal deva ter boa fundamentação teórica, com uma base de fundamentos.
Para o professor Quatro, o curso deve oferecer somente uma habilitação, um núcleo de disciplinas voltadas para a pesquisa, um outro núcleo para as práticas docentes, e finalmente uma boa base de fundamentos. Ele afirma:
Os fundamentos, na minha concepção são a pedra de toque para você formar um aluno capaz de ter além de uma atuação técnica, uma atuação humana.
Segundo este professor, as disciplinas de fundamentos são sociologia, antropologia, filosofia e história.
O professor Cinco afirma que além de fundamentos teóricos, um curso ideal deve ter bons educadores atuando, para que possa contribuir para a melhoria da educação. Ele relata:
Como formar bons educadores, excelentes educadores que possam contribuir para a melhoria da educação, e não formar educadores como se faz qualquer outra mercadoria em uma fábrica. Acho que excelentes professores, e excelentes professores em termos teóricos. Sem a teoria também acho que não dá.
A professora Sete concorda com o professor Cinco no que se refere aos bons profissionais atuando e acrescenta:
E um curso que não tenha essa paranóia da prática. Que não queira construir a prática dentro da sala de aula do curso universitário, por que não é lá que ela será construída. E construir pesquisa é fundamental. Ou para a extensão universitária, que de fato os alunos tenham a chance de fazer uma investigação científica dentro da pedagogia, coisa que não acontece.
Os professores Um, Oito e Dez, acreditam que um curso ideal é aquele que possa contribuir para o desenvolvimento humano dos alunos.
Para a professora Um isto pode se concretizar em um curso que tenha seu currículo centrado na formação “do profissional competente, pensando nas várias competências do ensino, centrado na reflexidade, uma equipe articulada, isso é fundamental”. Ela ainda acrescenta:
Um projeto pedagógico muito claro, que todos conheçam o projeto pedagógico, tudo seja muito articulado no currículo do curso. E que seja interdisciplinar, eu enxergo como fundamental, não só para o curso de pedagogia, mas para todos os cursos de ensino superior e de educação básica. A interdisciplinaridade é que realmente vai contribuir para que esse meu aluno saia da condição mínima, que o que é chamado de desenvolvimento humano, a inter-relação entre as disciplinas, um trabalho coeso, direcionado, é que são pontos fundamentais para o curso valer a pena na vida do sujeito.
O Professor Oito acredita que o desenvolvimento humano acontecerá num curso com o currículo voltado para esse objetivo no que ele chamou de “núcleo básico de disciplinas”, conforme ele relata:
Cria-se um núcleo básico de disciplinas já com foco no desenvolvimento humano, nós fizemos inclusive isso, nós separamos por núcleo essas disciplinas. Nesse momento em que você separa por disciplina, nós temos feito o seguinte: as disciplinas que são do núcleo que prevêm toda uma formação humana, são as que têm maior carga horária.
Para a professora Dez, a elaboração do currículo do curso deve estar voltada ao que ela chama de “formação do profissional humano”, que vai além das competências técnicas. Ela diz:
Quem está como responsável pela viabilização e dinamização do currículo, para mim, não pode perder de vista que está formando profissional humano. E esse profissional humano tem que ter mais do que competências técnicas, mais do que aspectos técnicos, ele tem que ter fundamentos que possibilitem utilizar a técnica na perspectiva humana, nas relações humanas. Eu acredito que essencialmente, a característica do curso de pedagogia, o princípio maior deveria ser esse. Eu não estou formando técnicos práticos, estou formando profissionais que atuam na relação humana em práticas sociais, e a prática social, por si só, por ser educativa acaba sendo o objeto de estudo do pedagogo.
A professora Dois aponta que um curso ideal para ela seria aquele no qual os alunos fossem mais maduros. Ela relata:
Eu acho que a primeira coisa é a maturidade de alguns alunos para saber o que quer. Percebemos que ah! Eu vou por que gosto de criança, mas não sabe o que é lidar com a criança. Lidar com vinte, quarenta na sala de aula. Lidar com uma é uma coisa, lidar com quarenta é outra. Então não tem essa maturidade. Essa seria uma das principais coisas que a gente percebe.