Conforme ponderou John T. Strong, um consenso mais antigo considerava os oráculos contra as nações estrangeiras como uma combinação de material autêntico com material secundário.168 Entretanto, a partir de um artigo de John Priest, publicado em 1965169, este consenso começou a mudar. John Priest argumentou a favor da unidade de todos os oráculos contra as nações, atribuindo-os a Amós. Tanto que, como lembrou John T. Strong, Beth Glazier-McDonald afirmou que “John Priest e outros têm demonstrado, convincentemente, que, ao menos, os oráculos de Tiro e Edom são palavras autênticas de Amós”.170 A favor da autenticidade de todos os oráculos, alinharam-se comentaristas como John H. Hayes, Andersen e Freedman, Shalom M. Paul. Em tempos recentes, de acordo com John T. Strong171, somente Volkmar Fritz172 teria argumentado que os oráculos contra Tiro e Edom seriam secundários.
Colocando-se, à parte, o oráculo contra Israel, costuma-se distinguir dois grupos a partir de sua estrutura173: de um lado reconhecidos, em geral, como
autênticos, estariam os oráculos mais longos contra Damasco, Gaza, Amon e Moab; de outro lado, com a questão da autenticidade em discussão, estariam os oráculos mais breves contra Tiro, Edom e Judá. Segundo John T. Strong174, esta visão representaria o consenso mais antigo, associado a Hans Walter Wolff, que se baseou em considerações de crítica formal. Hans Walter Wolff notou que cada um dos
168 STRONG, John T. Tyre’s isolationist policies in the early sixth century BCE: evidence from the
prophets. Vetus Testamentum, Leiden,v. 47, n. 2, p. 208, 1997.
169 PRIEST, John. The Covenant of Brothers. Journal of Biblical Literature, Atlanta, v. 84, p. 400-
406, 1965.
170 GLAZIER-McDONALD, Beth. Edom in the Prophetic corpus. Annual Meeting of the AAR/SBL.
Kansas City, Missouri, 1991, apud STRONG, p. 208.
171 STRONG, loc. cit.
172 FRITZ, Volkmar. Die Fremdvölkersprüche des Amos. Vetus Testamentum, Leiden, v. 37, n.1,
p. 26-38, 1987.
173 GOSSE, Bernard. Le Recueil d´Oracles contre les Nations du Livre d´Amos et l´Histoire
Deuteronomique. Vetus Testamentum, Leiden, v. 38, n. 1, p. 22, 1988.
oráculos contra as nações apresenta quase que os mesmos elementos: a fórmula de mensageiro, a proclamação de um juízo irrevogável, a acusação específica, o anúncio de punição e a fórmula conclusiva. Entretanto, a forma dos oráculos contra Tiro, Edom e Judá difere da forma dos outros quatro, em que a acusação é ampliada por frases verbais, seu anúncio de punição é reduzido em dois terços, e a fórmula conclusiva se perdeu totalmente. A posição de Hans Walter Wolff já tinha sido sustentada por Julius Wellhausen.175 Mais tarde, esta posição foi reiterada por Werner H. Schmidt.176 Também os argumentos de Hans Walter Wolff foram reforçados e aumentados por James Luther Mays.177 Na linha de Werner H. Schmidt,
James Luther Mays notou a linguagem e a ideologia deuteronomísticas, presentes nestes oráculos, revelando que os mencionados oráculos “não são separados apenas por motivos formais. Antes, são julgados secundários por causa da cumplicidade da forma e da ideologia”178 (tradução nossa).
Mais ou menos, uma década depois, Robert B. Coote179 separou os oráculos contra Tiro, Edom e Judá do resto do material. Em oposição a Hans Walter Wolff e a James Luther Mays, ele datou os quatro oráculos mais antigos contra as nações estrangeiras não no tempo de Amós, mas como obra dos deuteronomistas do tempo de Josias. Além disso, Robert B. Coote considerou, como exílicos, os últimos três oráculos.
Quanto à data de redação dos oráculos do segundo grupo, os autores que discutem sua autenticidade estão divididos. Os que negam sua autenticidade situam as passagens depois da queda de Jerusalém, em 587 a.C.; contudo há autores que admitem sua autenticidade ao menos parcialmente.180
Tudo somado, o debate está longe de se encerrar. Apontado como um dos representantes de abordagens mais recentes, que datam do tempo de Amós todos os
175 WELLHAUSEN, Julius. Die kleinen Propheten übersetzt und erklärt. Berlin: George Reimer,
1898. (3th ed. 1963).
176 SCHMIDT, Die deuteronomistiche Redaktion des Amosbuches, p. 168-193. 177 MAYS, Amos: a Commentary, p. 25 e 33 et seq.
178 Are not separated merely on the grounds of form alone. Rather, they are deemed secondary
because of the complicity of form and ideology (STRONG, Tyre’s isolationist policies in the early sixth century BCE: evidence from the prophets, p. 209).
179 COOTE, Amos among the Prophets, 1981.
180 GOSSE, Le Recueil d´Oracles contre les Nations du Livre d´Amos et l´Histoire Deuteronomique,
oráculos contra as nações estrangeiras, Shalom M. Paul181 criticou o consenso representado por Hans Walter Wolff. Ressaltou que “critérios literários adicionais podem ser fornecidos para se demonstrar a unidade básica e a originalidade destes oráculos”.182
Além de não ter considerado a presença da linguagem deuteronomística tão significativa, Shalom M. Paul tratou os oráculos contra Tiro e Judá separadamente.183 Segundo ele, se os oráculos de Amós contra as nações estrangeiras seguem um modelo seqüencial, concatenado, resultado de unidades originalmente independentes, unidas por Amós ou por um editor tardio, ou resultado de uma única composição literária, o processo de um padrão associativo interno forneceria a chave para sua correta inter-relação.184 Também Hartmut N. Rösel185 reconhece este recurso estilístico de ligações com palavras-chave (Stichworte) como uma técnica simples, que estaria na origem do livro de Amós. Para exemplificar a técnica, nos dois primeiros capítulos de Amós, Hartmut N. Rösel apresenta o mencionado modelo literário de concatenação de Shalom M. Paul. Cada estrofe dos oráculos contra as nações viria combinada, por meio de uma expressão, na maioria das vezes mais longa, com a estrofe vizinha onde apareceria o mesmo motivo186:
Aram 1,5
mi ‘bveAy yTiÛr;k.hiw>mi
jb,veÞ %mEïAtw>
Gaza 1,8me( jb,veÞ %mEïAtw>
me( ‘bveAy yTiÛr;k.hiw>
1,6
~Ad)a/l, ryGIïs.h;l.
hm'Þlev. tWlïG" ~t'²Alg>h;-l[;
Tiro 1,9~Adêa/l,
hm'lev. tWlÜG" ~r'úyGIs.h;-l[;(
1,9
~yxi(a; tyrIïB.
Edom 1,11wyxia'
1,11
wym'êx]r; txeäviw
wyxia' br,x,Ûb; Ap’d>r'-l[;
181 PAUL, Amos: a Commentary on the Book of Amos, 1991; id. Amos 1,3—2,3: a Concatenous
Literary Pattern. Jounal of Biblical Literature, Atlanta, v. 90, p. 397-403, 1971.
182 Addicional literary criteria can be supplied to demonstrate the basic unity and originality of these
oracles (PAUL, Amos: a Commentary on the Book of Amos, p. 16). Esta posição de Paul foi muito bem apresentada por STRONG, Tyre’s isolationist policies in the early sixth century BCE, p. 209.
183 PAUL, op. cit., p. 17 e 20. 184 Ibid., p.15.
185 RÖSEL, Hartmut N. Kleine Studien zur Entwicklung des Amosbuches. Vetus Testamentum,
Leiden, v. 43, p. 88-101, 1993.
186 RÖSEL, Kleine Studien zur Entwicklung des Amosbuches, p. 88, onde ocorrem as
Amon 1,13
d['êl.GIh; tAråh'
~['q.Bi-l[;
1,14-15h['Wrt.Bi
wyr'²f'w>
Moab 2,2-3h['ÞWrt.Bi
h'yr,²f'
Embora alguns autores notem certa fraqueza em algum membro187, no conjunto, não se pode negar, pondera Hartmut N. Rösel, que exista uma concatenação. Considerando que este recurso estilístico, isto é, a correspondência de frases, não é feita ao acaso, secundariamente, mas se encontra entrelaçada no centro dos oráculos, resulta para Hartmut N. Rösel que as seis profecias contra as nações estrangeiras (excetuando-se os oráculos contra Judá e Israel) constituiriam uma unidade, da qual nenhum membro poderia ser retirado.188
Segundo Hartmut N. Rösel, os oráculos contra as nações estrangeiras deveriam ser atribuídos, em seu conjunto, ou ao próprio Amós ou a partir dele.189
Entretanto, em um lugar, a concatenação dos textos causa, textualmente, uma situação secundária na profecia contra Moab (cf. 2,2-3).
Em 2,2b, segundo Hartmut N. Rösel190, o discurso é, antes de tudo, sobre a destruição de Moab na batalha e, em seguida, no v. 3, é sobre o destino dos dominadores. Esta seqüência corresponderia àquela da profecia anterior contra Amon. Enquanto lá a seqüência seria fundamentada objetivamente – os senhores vencidos seriam levados para o exílio depois da derrota, na profecia contra Moab a seqüência estaria defeituosa. A morte generalizada de Moab incluiria aquela dos dominadores. Por isso, com Artur Weiser191, costuma-se propor uma inversão, para se colocar o v.2b no final do oráculo. Nesta seqüência, a profecia corresponderia àquelas contra Damasco (cf. 1,3-5) e Gaza (cf. 1,6-8). Contudo, esta proposta de inversão precisaria ser mais bem avaliada.
De opinião diversa, John T. Strong192 viu defeitos na apresentação de Shalom M. Paul. As concatenações não seriam tão fortes. Questiona se certas ligações
187 GESE, Harmut. Komposition bei Amos. Supplements to Vetus Testament, Leiden, v. 32, p. 74-95,
1981.
188 RÖSEL, Kleine Studien zur Entwicklung des Amosbuches, p. 88-89. 189 Em concordância com FRITZ, Die Fremdvölkersprüche des Amos, p. 26-38. 190 RÖSEL, op. cit., p. 89.
191 WEISER, Artur. Das Buch der zwölf kleinen Propheten: übersetzt und erklärt.
Göttingen:Vandenhoeck & Ruprecht, 1979. p. 133. Cf. Biblia Hebraica Stuttgartensia. Editio secunda emendata opera Rudolph, W. et Rügel, H. P. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1984.
consideradas cruciais para a argumentação de Shalom M. Paul estariam ali realmente presentes. Não vê nenhuma ligação entre Moab e Judá, “mesmo que Shalom M. Paul tenha incluído o oráculo contra Judá como a sétima parte de seu grande
prolegomenon para sua acusação contra Israel”.193 John T. Strong parece ter razão,
quando, por um lado, reconhece uma forte consistência na ligação entre os oráculos contra Damasco (cf. 1,5) e a Filistéia (cf. 1,8), mas, por outro, não vê nenhuma concatenação literária na pretendida ligação entre Edom (cf. 1,11) e Amon (cf. 1,13). É verdade que Shalom M. Paul tentou uma ligação de similaridade, ajuntando os conceitos de “espada” (cf. 1,11) e o de ataque a “mulheres grávidas” (cf. 1,13). Como John T. Strong observou muito bem194, foi exatamente, neste ponto fraco do argumento de Shalom M. Paul, que Hans Walter Wolff teria percebido uma junção entre o material original e o redacional. Outra fraqueza no argumento de Shalom M. Paul, apontado por John T. Strong, diz respeito, nos oráculos contra Tiro e Edom, à ligação mais conceitual do que literária, por ser baseada no único termo comum “seu irmão” (cf. 1,11). Contudo, não me parece que John T. Strong tenha tanta razão ao duvidar da concatenação entre Amon e Moab, ainda que reconhecendo o uso de um vocabulário quase idêntico. A crítica, porém, mais contundente a Shalom M. Paul se refere ao fato de que ele nunca prova, mas somente supõe que este encadeamento remonte a Amós e não a um redator tardio.195 A bem da verdade, John T. Strong lembra que, embora não tenha sido uma questão discutida abertamente, Shalom M. Paul estaria cônscio deste problema.196
Outro aspecto importante tratado por John T. Strong se refere à afirmação de que apenas uma variação na forma não poderia indicar uma redação secundária. Também a linguagem e a ideologia deuteronomísticas, na forma dos três oráculos, não constituiriam um argumento totalmente convincente. “Entretanto, quando alguém observa o fato de que estes dois traços de variação se encontram exclusivamente nos oráculos contra Tiro, Edom e Judá, então a natureza secundária destes oráculos torna-se mais clara”.197 Quanto ao oráculo contra Edom (cf. 1,11-12),
193 STRONG, Tyre’s isolationist policies in the early sixth century BCE, p. 210. 194 Ibid., p. 211.
195 STRONG, loc. cit.
196 PAUL, Amos: a Commentary on the Book of Amos, p. 15; id. Amos 1,3—2,3: a Concatenous
Literary Pattern, p. 403.
é quase certo que não seja autêntico.198 Tanto Otto Eissfeldt199, para quem a estrofe “parece condenar a atitude de Edom depois de 587”, quanto Hans Walter Wolff200, consideram essa estrofe um oráculo incorporado, no texto, pela redação deuteronomística. A ampliação do ciclo, introduzindo oráculos contra Tiro e Edom, lembra a maneira especialmente enfática com que Ezequiel lança ameaças contra Tiro (cf. Ez 26-28) e Edom (cf. Ez 25,12-14).201 Isso teria induzido alguns comentaristas a situar este oráculo no período exílico. Segundo Hans Walter Wolff, a escola deuteronomística, muito cautelosa em sua obra teológica, não incluiu somente Judá na proclamação contra Israel. Primeiro, incorporou oráculos adicionais contra outras nações, especificamente contra Tiro e Edom (cf. Am 1,9-12), que, em vista da situação do período exílico, não poderiam ficar de fora.202 Depois, procurou completar a descrição dos atos de Javé na história da salvação. Enquanto em Am 2,9 o profeta mencionou somente o dom da terra, a redação enxertou, como complemento, a referência às tradições do Êxodo e do deserto (cf. 2,10). Referiu-se ao envio de carismáticos, pedindo, de modo parenético, o assentimento dos ouvintes quanto às benfeitorias de Javé (cf. 2,11), para depois reprová-los por seu comportamento culposo para com os nazireus e os profetas (cf. 2,12). Assim, a culpa é considerada no contexto da história da salvação. Para Hans Walter Wolff, que menciona Walther Zimmerli203, com base nos oráculos paralelos, em Ezequiel, a data dos oráculos contra Tiro e Edom poderia ser fixada no período posterior a 587. Além disso, a coalizão, em que Edom, Tiro e Judá aparecem com Moab e Amon, já é documentada em Jr 27,3.204
Esta é também a posição assumida por James Luther Mays, para quem, no período exílico, círculos deuteronomísticos, preocupados com a preservação das tradições proféticas, teriam acrescentado o oráculo, para responder à situação da época.205 Segundo Bruce E. Willoughby, todas as nações menores, no âmbito siro- palestinense, teriam sido, em períodos alternados, Estados independentes e fortes;
198 BARTON, J. Amos’ Oracles against the Nations: A Study of Amos 1,3—2,5. Cambridge:
Cambridge University Press, 1980. p. 24, apud GOSSE, Le Recueil d´Oracles contre les Nations du Livre d´Amos et l´Histoire Deuteronomique, p. 22, nota 4.
199 EISSFELDT, The Old Testament: an Introduction…, p. 400. 200 WOLFF, Joel and Amos, p. 112.
201 Ibid., p. 151. 202 Ibid., p. 112.
203 ZIMMERLI, Walther. Ezechiel. Neukirchen Vluyn: Neukirchener Verlag, 1969. p. 588-589. 204 WOLFF, op. cit., p. 151.
depois eles se tornaram províncias, sujeitas ao sistema de vassalagem, desde o século VIII a.C. até a conquista do Oriente Próximo por Ciro, rei da Pérsia. Portanto, teria havido inúmeras ocasiões para se condenar cada uma delas. Assim, as profecias de Ezequiel, quase dois séculos mais tarde, não impediriam de se admitir que também os profetas poderiam ter tido problemas com aquelas nações no século VIII. Acrescente-se a isso o fato de que a supressão destes oráculos de sua posição atual, comprometeria a estrutura inteira dos capítulos 1-2, cancelando o movimento em direção ao ápice da série, ou seja, o oráculo contra Israel.206
Quanto ao oráculo contra Judá (cf. 2,4-5), segundo John Barton, certamente, não é de Amós. Sua linguagem deuteronomística sugere o século sétimo ou o século sexto.207 O oráculo seria do tempo exílico, resultado de redação de círculos deuteronomísticos.208 Otto Eissfeldt considera esta estrofe uma expansão do texto, segundo ele, “digna de nota, devido às suas expressões muito gerais e deuteronomísticas”.209 Como se sabe, são da mesma opinião autores como Emile Osty210 e Hans Walter Wolff. Segundo John Barton, o oráculo contra Tiro (cf. 1,9- 10) muito provavelmente não é de Amós.211 Como no caso do oráculo contra Edom (cf. 1,11-12), também, aqui, tanto Otto Eissfeldt quanto Hans Walter Wolff consideraram esta estrofe uma adição.212 Segundo Bruce E. Willoughby213, tem sido argumentado que os oráculos contra Tiro deveriam ser datados depois de 604 a.C., no tempo de Nabucodonosor II (cf. Ez 26,1—28,19). Esta opinião está em concordância com James Luther Mays, para quem este oráculo refletiria a situação histórica do período exílico.214 O enfoque de John T. Strong foi o de “identificar os referenciais históricos específicos por detrás do oráculo contra Tiro”.215 O autor afirma que o oráculo contra Tiro recorda a aliança rompida no tempo da queda de Judá, um dado que, segundo ele, auxiliaria o estudioso numa compreensão mais
206 WILLOUGHBY, Amos, Book of, p. 210.
207 BARTON, Amos’ Oracles against the Nations, p. 24, apud GOSSE, Le Recueil d´Oracles contre
les Nations du Livre d´Amos et l´Histoire Deuteronomique, p. 22, nota 4.
208 MAYS, Amos: a Commentary, p. 14.
209 EISSFELDT, Otto. The Old Testament: an Introduction …, p. 400.
210 OSTY, Emile. Amos, Osee. In: La Sainte Bible: traduite en français sous la direction de l’École
Biblique de Jérusalem. Paris: Éditions du Cerf, 1951.
211 BARTON, Amos’ Oracles against the Nations, p. 24, apud GOSSE, Le Recueil d´Oracles contre
les Nations du Livre d´Amos et l’Histoire Deuteronomique, p. 22, nota 4.
212 EISSFELDT, op. cit., p. 400. 213 WILLOUGHBY, op. cit., p. 210. 214 MAYS, op. cit., p. 13.
ampla dos conflitos políticos, tradicionais e proféticos que teriam emergido durante o exílio.216
Partindo da análise diacrônica dos oráculos contra as nações estrangeiras, John T. Strong concorda com Hans Walter Wolff quanto à mudança na forma nos julgamentos e nas fórmulas conclusivas dos oráculos contra as nações estrangeiras e contra Judá.217 Nos oráculos contra Damasco (cf. 1,3a-5c), Filistéia (cf. 1,6a-8c), Amon (cf. 1,13a-15b) e Moab (cf. 2,1a -3b), o anúncio de juízo acrescenta, depois da fórmula introdutória ao juízo (cf. 1,4; 1,7; 1,14a; 2,2a) duas linhas (cf. 1,5a-5b; 1,8a- 8b; 1,14b-15a; 2,2b-3a).
Os oráculos contra Tiro (cf. 1,9a-10), Edom (cf. 1,11a-12) e Judá (cf. 2,4a-5) apresentam somente a fórmula, usando-a necessariamente como juízo mesmo (cf. 1,10; 1,12; 2,5). Além disso, a fórmula conclusiva,
hw")hy> rm:ïa'
(1,5c.8c.15b), teria se perdido nos oráculos contra Tiro, Edom e Judá. Como ressaltou John T. Strong 218, esta observação é muito pertinente à discussão por causa do clímax proporcionado pela fórmula conclusiva ao oráculo contra Israel (cf. 2,16): “dito de Javé”,hw")hy>-~aun
>. O argumento de Hans Walter Wolff é que Amós teria usado especificamente “disse Javé” (2,3b) para encerrar seus penúltimos oráculos contra Damasco, Filistéia, Amon e Moab. Quando Amós concluiu seu oráculo, tendo Israel como alvo principal, ele teria usado uma fórmula diferente: “dito de Javé”,hw")hy>-~aun.
. Contudo, não é nada fácil entender a relação entrehw")hy> rm:ïa'
ehw")hy>-~aun>
, porque, antes de Amós, não se acham documentadas essas expressões como fórmula de conclusão.219 Entretanto, segundo John T. Strong, o próprio Amós teria escolhido essas fórmulas de conclusão:A evidência interna, nesse caso, indica que Amós teria escolhido, muito cuidadosamente, estas duas fórmulas de conclusão e as teria usado para funções muito específicas. O fato de que os oráculos contra Tiro, Edom e Judá não contenham fórmulas de conclusão não parece ser uma função da variação de estilo de Amós, mas,
216 STRONG, Tyre’s isolationist policies in the early sixth century BCE, p. 207-208.
217 Para maiores detalhes, basta conferir a análise formal dos oráculos de Amós contra as nações em
STRONG, op. cit., p. 213-214.
218 STRONG, op. cit., p. 212.
219 It is possible that the expression hw")hy>-~aun> as such either originated with Amos or belonged to the
particular stock of traditions upon which he drew. For, the precise expression is not attested in any text securely datable before the time of Amos (Ps 110,1? ), nor is it identificable as belonging
to the Language of earlier, specifically Israelite cultic proclamation (WOLFF, Joel and Amos, p. 143).
muito mais, uma alteração proposital da forma pelo redator para identificar estes oráculos adicionais como novas palavras proféticas220, uma alteração, dever-se-ia notar, que é, contudo, imitativa da fórmula de Amós no mais alto grau.221 (tradução nossa).
“Aproximando-se da análise de Werner H. Schmidt, James Luther Mays222 observa que o vocabulário no oráculo contra Judá é decididamente deuteronomístico. Em resumo, ele nota que o termo ‘Torah de Javé’, usado em conjunção com as palavras ‘decretos’ e ‘observar’ é um traço do estilo deuteronomístico, e que
~h,êybez>Ki
, “suas mentiras”, usado para indicar falsos deuses, é um conceito deuteronomístico”.223 A propósito, convém lembrar a dificuldade encontrada porShalom M. Paul ao questionar a origem deuteronomística de cada um destes termos mencionados acima:
Em resumo, a fraseologia, em geral, se assemelha a esta escola mais tardia de literatura e tendo mesmo sido denominada proto- deuteronomística, mas quando os termos são examinados individualmente, os resultados estão longe de serem conclusivos.224(tradução nossa).
Segundo John T. Strong, o argumento de James Luther Mays não depende primariamente do vocabulário específico, mas de um conceito mais amplo de desobediência à aliança, não só alvo real da acusação, mas também “preocupação básica da tradição deuteronomística”.225 John T. Strong reconhece a importância dessa argumentação de James Luther Mays, uma vez que tanto os oráculos contra Judá, quanto os oráculos contra Tiro e Edom focalizam as infidelidades à aliança devido às ações contra seus “irmãos”. Como lembrou George Farr, Os 10,4 acusa seu
220 The C editor seems to have imitated the B-Stage model, or the common source they both shared
for these oracles, and modified them slightly from the model in order to make them stand out for the elite readers who were attuned to such subtleties (COOTE, Amos among the Prophets, p. 113).