Uma das questões trabalhadas nas entrevistas refere-se ao artigo 43 da LDB. Este artigo trata das finalidades do Ensino Superior e propõe como uma de suas funções o desenvolvimento do espírito científico. As perguntas dirigidas aos professores referem-se às suas práticas em sala de aula que possibilitem ou não o desenvolvimento da pesquisa.
Os professores Um, Quatro, Sete, Oito, Nove e Dez, procuram despertar o espírito investigativo em seus alunos através de desafios e questionamentos e do incentivo à produção de textos científicos.
A professora Um, que trabalha no sentido de formar o sujeito autônomo, tem a seguinte posição relativa ao espírito científico: ...
Mas particularmente a minha visão de educação no ensino superior é justamente levar e conduzir a formação do aluno pra que ele desenvolva principalmente a sua autonomia. Eu entendo que esse espírito pesquisador ele é próximo à autonomia, aliás, o pesquisador ele é um sujeito autônomo.
O professor Quatro incentiva a pesquisa de campo e a pesquisa bibliográfica, como ele afirma:
Se eu levo o aluno à prática através da pesquisa, então, nas matérias caracterizadas como utilitaristas, utilitárias, eu faço pesquisa de campo, isso é uma prática que eu tenho feito já desde que eu leciono no ensino superior. Atualmente eles fazem uma pesquisa, eu oriento a pesquisa bibliográfica, uma revisão bibliográfica. Dessa revisão eles escolhem dois ou três textos ou artigos, ou capítulos de livros que eles acharem mais interessantes, e a partir daí, eles preparam um texto final em que eles vão articular esses três ou dois artigos que eles selecionaram. Eu acho que dessa forma eu posso dar uma contribuição.
Embora sem o apoio à pesquisa na instituição em que trabalha a professora Sete procura desenvolver o espírito investigativo dos alunos com aulas provocativas e com a produção de textos. Ela comenta:
Eu costumo dar aulas bastante provocativas, questionar bastante, perturbá-los bastante com perguntas e trabalho muito com resenhas... Dentro dos trabalhos, dentro da aula, eu procuro despertar essa questão da pesquisa. O problema é que nós não temos recursos para a pesquisa. Somos professores horistas, não podemos desenvolver nenhum tipo de projeto científico, não temos apoio suficiente para isso.
Para o professor Oito, a pesquisa dentro do curso acontece em todas as disciplinas, através da produção de ensaio e papers. Ele afirma: “Então a nossa idéia é fazer com que o aluno produza ensaios, papers, a partir das diferentes disciplinas que ele tem”.
A professora Nove vê o desenvolvimento da pesquisa na universidade da seguinte maneira:
Então, hoje, o aluno de graduação já é incentivado a ter uma produção, já é orientado a participar de congressos, das semanas acadêmicas, e tem também o trabalho de conclusão de curso, que é muito importante para a iniciação científica. Acho que o aluno começa a ter contato com isso, de um lado, pelo trabalho de conclusão de curso, e de outro lado, pela iniciação científica que a própria universidade promove que são as semanas acadêmicas e eles são estimulados pelos professores para participar. Então, ele começa a ter um contato mais cedo com a iniciação científica.
A preocupação com a formação do sujeito numa perspectiva investigativa e reflexiva é, para a professora Dez, uma das coisas boas do curso. Ela afirma:
Isso ainda temos de bom no curso de pedagogia: uma preocupação com a formação para a pesquisa. Por que eu acho que é bom? Por que está implícito nessa preocupação, a idéia de se formar o sujeito numa perspectiva investigativa, numa perspectiva reflexiva, contestadora, que busca aprimorar, ultrapassar o domínio da técnica, que busca o porquê, que busca as razões. E eu entendo que nosso curso de pedagogia tem isso de bom por que pelo pilar do espírito investigativo, nós conseguimos um pouco trazer a idéia daquilo que chamamos de formação humana. Eu vou para a prática buscando enxergar as pessoas, buscando entender as relações humanas, e as relações das pessoas com os conhecimentos teóricos.
Para os professores Três e Cinco, é difícil trabalhar a pesquisa na universidade, devido às condições dos alunos. Para estes professores, os alunos
atualmente apresentam dificuldades com a leitura e a escrita, o que complica o processo formativo.
A professora Três argumenta:
Eu vou depender muito da boa vontade do meu aluno. Quando você pega um aluno que gosta, que se interessa pela pesquisa, e tem a vontade, o desejo de continuar a vida acadêmica é mais tranqüilo. Quando você tem aquele aluno que só quer fazer a graduação para ter o diploma, para poder trabalhar tranqüilo formado dentro dos padrões da lei, envolver a pesquisa com esse aluno é muito complicado. E mais complicado ainda, alunos que não sabem lidar com a pesquisa acadêmica, e como é que você ensina? É um trabalho, é uma alfabetização em nível superior. Por que às vezes, você pega aluno que não sabe ler o texto acadêmico. Não é que não saiba ler, ele não entende. Não consegue identificar a voz do autor que escreveu, a voz de quem ele chamou para dialogar com ele. Não consegue perceber o fio condutor. E ele precisa de tudo isso para poder escrever. E ele não consegue escrever por que todo o seu processo formativo não o levou a isso.
O professor Cinco também encontra dificuldades no trabalho com a pesquisa, mas procura incentivar os alunos na produção de textos acadêmicos, como ele cita:
Os alunos que eu tenho aqui chegam com muitas deficiências em sua formação. Formação no ensino médio e desconhecimento muito grande, e aí tem uma dificuldade, por que nós temos que dar um passo atrás para poder retomar muitas coisas que eles deveriam ter visto. Então para inserir nesse campo de pesquisa é um caminho muito duro, é difícil, com os alunos que eu tenho aqui. Diferentes de outros que têm uma formação melhor, pois o vestibular faz um outro recorte na universidade pública, mas então aqui tem essa dificuldade. No meu caso em particular, eu tento incentivar através de resenhas, leituras de textos científicos, de artigos científicos. Participação em semanas de educação que têm trabalhos científicos sendo apresentados. Esse semestre eu levei os alunos para a Semana de Educação da USP. Meus alunos aqui participaram lá, então tem essa experiência de ver os trabalhos sendo apresentados, para eles enriquecem muito, mais do que estar na sala de aula, a participação fora também é importante.
As professoras Dois e Seis não trabalham com a pesquisa em suas disciplinas. Para elas, o desenvolvimento do espírito científico acontece no curso através da elaboração do TCC. A professora Dois expõe seu pensamento:
É difícil, por que didática em específico é uma matéria muito teórica, mas na imaginação das meninas é prática. Eu tenho que lidar muito com essa questão da prática e puxar isso para a pesquisa é um tanto quanto complicado. Algumas delas vão se sentir interessadas e vão resolver falar disso, mas no TCC, que é a parte da pesquisa, mas não especificamente na disciplina, mas vincular alguma coisa de outra disciplina, por exemplo, alfabetizar se ela for pensar em alfabetização e vincular isso com a teoria e a prática que apresentamos em didática, por exemplo.
A professora Seis é mais direta e diz:
Não trabalho isso. A Faculdade Seis esta passando agora a ser Centro Universitário, então acho que iremos desenvolver isso agora no espaço como um todo, mas na minha disciplina não é uma preocupação que eu tenho não.
Todos os professores citaram a elaboração do TCC como o momento em que mais acontece o desenvolvimento do espírito investigativo no curso, o que foi considerado por todos eles bom para a formação dos alunos.