Não menos acirrado tem sido o debate em torno do papel fundamental da profecia na história deuteronomística. Em seu valioso artigo sobre a relação entre a história deuteronomística e a proclamação dos profetas clássicos47, Gunther H.
Wittenberg procurou dar sua contribuição para ajudar a resolver um dos enigmas do Antigo Testamento: o porquê do silêncio sobre os profetas na história deuteronomística. Há um consenso geral sobre o papel fundamental da profecia na história deuteronomística.48 Em sintonia com os estudos de Gerhard von Rad49, constatou-se que, na concepção dos deuteronomistas, “a história torna-se história do cumprimento da palavra de Javé como anunciada pelos profetas”.50
Alguns estudiosos suspeitaram que por detrás do “homem de Deus”, em 1Rs 13, houvesse uma referência a Amós, mas, segundo Klaus Koch51, não haveria, obviamente, nenhuma evidência de reconhecimento do livro de Amós em 1Rs 13. Segundo Gunther H. Wittenberg, Gerhard von Rad teria percebido que o corpus
deuteronomisticus não apresenta, diretamente, nenhuma profecia contra os reis
tardios. Tanto que os relatos sobre a deportação da família real e sobre a destruição da Samaria se fundamentam unicamente sobre uma profecia anônima (cf. 2Rs 21,10- 15; 22,15-20).52
Diante dessa constatação, Gunther H. Wittenberg pergunta por que motivo os deuteronomistas não quiseram preencher essa lacuna com oráculos provenientes de Amós e de Oséias. E assevera: “Há também oráculos suficientes contra o culto em Betel em Amós, que poderiam ter sido usados e que teriam se encaixado, perfeitamente, no amplo plano teológico deuteronomístico”53 (tradução nossa). Em
47 WITTENBERG, Gunther H. Amos and Hosea: a contribution to the problem of the
‘profetenschweigen’ in the Deuteronomistic History. Old Testament Essays, Pretoria, v. 6, p. 295- 311, 1993.
48 WITTENBERG, op. cit., p. 295.
49 von RAD, Gerhard. The Deuteronomic theology of History in the book of Kings: the problem of
the Hexateuch and other essays. Edinburgh: Oliver and Boyd, 1966. p. 205-221.
50 WITTENBERG, op. cit., p. 296.
51 KOCH, Klaus. Das Profetenschweigen des deuteronomistischen Geschichtswerks. In:
JEREMIAS, Jörg; PERLITT, Lothar (Hrsg.). Die Botschaft und die Boten: Festschrift für Hans Walter Wolff zum 70. Geburtstag. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1981. p. 117, apud WITTENBERG, op. cit., p. 296.
52 WITTENBERG, loc. cit.
53 There are also enough oracles directed against the cult in Bethel in Amos which could have been
used and which would have fitted perfectly into the overall deuteronomistic theological plan (WITTENBERG, op. cit., p. 297).
seu mencionado artigo, Gunther H. Wittenberg se propôs, num primeiro momento, mostrar a deficiência do argumento sustentado, primeiramente, por Martin Noth, para quem o período exílico teria sido o tempo primário da história deuteronomística (DtrH). Martin Noth, tendo observado que, na DtrH, não existe nenhuma referência às palavras dos profetas clássicos, concluiu que as fontes usadas pelos deuteronomistas não mencionavam os profetas clássicos, porque, no tempo dos deuteronomistas, as coleções dos profetas não teriam ainda existido.54 Para Gunther H. Wittenberg é improvável que coleções dos profetas pré-exílicos não estivessem ainda disponíveis em Judá, pátria da DtrH segundo o mesmo Martin Noth. Dos seis estágios da formação do livro de Amós, vistos por Hans Walter Wolff, quatro já estariam completos antes do exílio. O quinto estágio, o da redação deuteronomística, já analisado anteriormente por Werner H. Schmidt55, teria sido contemporâneo dos autores da DtrH, caso se admita, como correta, a datação de Martin Noth, ou seja, o período exílico em torno da metade do século VI a.C. Mesmo admitindo-se a posição de outros autores, como G. F. Hasel56, que julgam frágeis os argumentos em favor de interpolações e redações tardias, atribuindo, portanto, todo o livro a Amós, continua pertinente a pergunta: “É provável que o autor, que fez um uso tão extenso das fontes escritas, não tenha tido nenhum conhecimento do livro de Amós?”57 (tradução nossa).
Em um segundo momento, Gunther H. Wittenberg apresentou as soluções propostas por Klaus Koch58 e Frank Crüsemann59, os quais teriam concluído que a solução de Martin Noth para o problema não poderia ser aceita. A omissão de Amós e Oséias, na DtrH, não se deveria, segundo eles, à suposta falta de disponibilidade destas coleções de oráculos, mas a uma decisão consciente. O deuteronomista teria tido reservas quanto à mensagem destes profetas.60 Frank Crüsemann perguntou se o
54 NOTH, Martin. The Deuteronomistic History. Sheffield: JSOT Press, 1981. p. 86, apud
WITTENBERG, Amos and Hosea, p. 297.
55 SCHMIDT, Werner H. Die deuteronomistische Redaktion des Amosbuches: zu den theologischen
Unterschieden zwischen dem Prophetenwort und seinem Sammler. Zeitschrift für die
alttestamentliche Wissenschaft, Berlin, v. 77, p.168-193. 1965.
56 HASEL, Gerhard F. Understanding the book of Amos: basic issues in current interpretations.
Grand Rapids: Baker Books, 1991.
57 Is it probable that the author, who made such extensive use of written sources, should have had no
knowledge of the book of Amos? (WITTENBERG, op. cit., p. 298).
58 KOCH, Das Profetenschweigen des deuteronomistischen Geschichtswerks, p. 121.
59 CRÜSEMANN, Frank. Kritik an Amos in deuteronomistichen Geschichtswerk: Erwägungen zu
2. Könige 14, 27. In: Wolff, Hans Walter (Hrsg.). Probleme biblischer Theologie. Gerhard von Rad zum 70. Geburtstag. München: C. Kaiser, 1971. p. 57.
motivo da desaprovação da mensagem seria porque o deuteronomista teria negado a possibilidade de uma destruição total para Israel (cf. 8,2), considerando-se que, durante o período mais sombrio do exílio, a radical mensagem de juízo de Amós não teria sido recebida como palavra de Deus, sendo, portanto, omitida pela DtrH.61 Klaus Koch, tendo observado que, na DtrH, nenhum profeta havia anunciado o exílio, sugeriu que as profecias de desgraça dos profetas clássicos teriam sido consideradas radicais para serem incluídas em sua obra.62 Julgando não convincentes as soluções anteriores, que pressupõem uma origem exílica para a DtrH, Gunther H. Wittenberg se propôs, num terceiro momento, indagar por uma situação pré-exílica da DtrH. Registram-se aqui apenas as suas conclusões.63 A partir de um consenso, aparentemente alcançado, estabelecido por Martin Noth quanto à origem exílica e a composição da DtrH, Gunther H. Wittenberg apresentou, inicialmente, as teorias de críticos literários que se posicionam como vozes discordantes deste consenso. De acordo com F. M. Cross, teria havido duas edições do complexo deuteronomístico de tradições: uma pré-exílica, a promulgação fundamental da DtrH, e outra exílica, que teria retocado a versão mais antiga para atualizá-la.64 Na visão de F. M. Cross, dois temas permeiam os Livros dos Reis: o do pecado de Jeroboão (símbolo da infidelidade), que atinge seu ápice na peroração sobre a queda da Samaria (cf. 2Rs 17,1-23), e o da eleição da casa de Davi (símbolo da fidelidade), que começando em 2Sm, atinge seu clímax na reforma de Josias (cf. 2Rs 22,1—23,25), com a centralização do culto e a celebração da Páscoa em Jerusalém. Para F. M. Cross, estes dois temas combinados podem ter-se originado da reforma josiânica, à qual eles teriam servido de plataforma.65 Apoiando esta teoria, R. D. Nelson66 afirmou que a política de Josias teria encontrado muita oposição e que a original DtrH teria tido o objetivo de enfrentar tais oposições, para ressaltar a antiguidade da lei deuteronomística e a centralização como um traço da adoração mais antiga (cf. Js 8,30-35). A política religiosa de Josias teria sido descrita, segundo
61 WITTENBERG, Amos and Hosea, op. cit., p. 299, citando a argumentação de CRÜSEMANN,
Kritik an Amos in deuteronomistichen Geschichtswerk , p. 62-63.
62 WITTENBERG, op. cit., p. 299.
63 Para uma discussão mais detalhada sobre este tópico, cf. ibid., p. 299-306.
64 CROSS, F. M. Canaanite myth and Hebrew Epic. Cambridge, Mass: Harvard University, 1973.
p. 274.
65 Ibid., p. 279-284, apud WITTENBERG, op. cit., p. 300.
66 NELSON, R. D. The double redaction of the deuteronomistic History. Ainda em sintonia com o
autor, cf. COOTE, Robert B. Power, politics and the making of the Bible: an introduction. Philadelphia: Fortress Press, 1990. p. 59-66.
R. D. Nelson, como a única esperança para a nação num período de grande tumulto.67
Entretanto, Gunther H. Wittenberg criticou a visão da DtrH, proposta pelos autores anteriores, como propaganda imperial. Tal visão suscitaria mais perguntas do que respostas. De modo perspicaz, o autor pergunta: por que todo o interesse do autor se concentrou no lado religioso da reforma de Josias? Por que a adoração de outros deuses – especialmente cananeus – é um tema central de todo o livro? Se o Deuteronômio estava à disposição das ordens de Josias, por que ele contém a lei do rei, em Dt 17,14-20, que restringe, severamente, o poder real? Se os interesses da monarquia eram de suma importância na redação da DtrH, por que a ênfase é colocada na obediência de Josias à lei?68
Para encontrar respostas a estas perguntas, Gunther H. Wittenberg se propôs pesquisar o background da história do movimento deuteronomístico que teria levado à reforma de Josias. Partiu dos estudos de Bernhard Lang referentes à origem e ao desenvolvimento do monoteísmo judaico.69
Segundo Bernhard Lang, o que teria caracterizado a história religiosa de Israel foi mais o destino flutuante de um movimento de minoria, o ‘somente Javé’, e não tanto o esforço pela restauração da original ortodoxia monolátrica. A apresentação da história, nos Livros dos Reis, feita pelo movimento ‘somente Javé’, não deveria induzir ao erro o estudioso moderno, como se ela fosse a visão preconceituosa do partido vitorioso.70 A seguir, Gunther H. Wittenberg apresentou as quatro fases71, pelas quais teria passado, de acordo com Morton Smith72 e Bernhard Lang, o movimento ‘somente Javé’.
Em síntese, (a) a fase da oposição de Elias e Eliseu à adoração de Baal no Reino do Norte; (b) a fase do profeta Oséias (cf. Os 13,4)73: “o livro de Oséias, cuja influência pode ser comprovada, sem dificuldade, duzentos anos mais tarde, deve ser
67 NELSON, The double redaction of the deuteronomistic History p. 122, apud WITTENBERG,
Amos and Hosea, p. 301.
68 WITTENBERG, op. cit., p. 301-302.
69 LANG, Bernhard. Monotheism and the prophetic minority: an essay in biblical History and
sociology. Sheffield: The Almond Press, 1983.
70 Ibid., p. 18-19, apud WITTENBERG, op. cit., p. 302. 71 WITTENBERG, op. cit., p. 302-303.
72 SMITH, Morton. Palestinian parties and politics that shaped the Old Testament. New York:
Columbia University Press, 1971.
73 Diferentemente de Oséias, Amós não revela nenhuma polêmica contra os falsos deuses (cf.
visto como o mais antigo documento clássico do movimento”74; (c) fase iniciada com a queda da Samaria em 722 a.C., quando os partidários do movimento ‘somente Javé’ teriam fugido para Judá. Citando Bernhard Lang75, o autor ressaltou a influência do livro de Oséias sobre o movimento “somente Javé” e sobre a reforma empreendida por Ezequias:
Através de acréscimos e do processo editorial, o livro de Oséias foi reaplicado à situação no sul e continuou a exercer sua influência no movimento. A crise ocasionada pela política expansionista assíria ofereceu ao movimento sua primeira chance para realizar seus objetivos em Judá. Eles foram capazes de influenciar a reforma de Ezequias, que marca, em Judá, o início de uma práxis cultual inspirada nos profetas.76 (tradução nossa).
(d) A fase da reforma de Josias, em 622 a.C., é considerada a mais importante. Segundo os autores citados, nesse tempo, havia partidários do movimento ‘somente Javé’ entre os sacerdotes do templo de Jerusalém e na corte. Nessa fase, o rei conquistou o movimento, que, tendo sido, por muito tempo no passado, a visão de uma minoria oposicionista, passou a ser a posição dominante em Judá.77
Em substância, Gunther H. Wittenberg considerou correta a visão de Bernhard Lang sobre o desenvolvimento do movimento ‘somente Javé’. Entretanto, Wittenberg viu defeito no tratamento que Bernhard Lang fez do movimento ‘somente Javé’, considerando-o somente um movimento religioso. Bernhard Lang teria, em sua abordagem, ignorado a base social do conflito religioso. Como afirmou Gunther H. Wittenberg,
A luta de resistência, iniciada por Elias e Eliseu não era simplesmente uma luta contra politeísmo cananeu, sobretudo na forma de adoração do Baal de Tiro, mas foi ao mesmo tempo, uma luta contra o sistema cananeu de estratificação social e autocracia legitimada pela realeza divina. A religião cananéia de Baal era,
74 LANG, Monotheism and the prophetic minority, p. 30. 75 Ibid., p. 38.
76 Through additions and a process of editing, the book of Hosea was reapplied to the situation in
the south and thus continued to exert its influence on the movement. The crisis brought about by the Assyrian policy of expansion offered the movement its first chance of realizing its goals in Judah. They were able to influence Hezekiah’s reform, which marks the beginning of a prophet- inspired cult praxis in Judah (WITTENBERG, Amos and Hosea, p. 303).
essencialmente, legitimação religiosa do poder estatal centralizado no rei.78 (tradução nossa).
Nesse contexto, Gunther H. Wittenberg lembrou que A. Phillips havia argumentado que o Deuteronômio teria sido influenciado pelas tradições de Oséias e Amós, juntamente com outros profetas do século VIII.79 Por essa razão, Gunther H. Wittenberg pergunta a seguir pelos grupos que estariam por detrás da reforma josiânica.80 São-lhe de grande interesse as conclusões tiradas por R. E. Clements81, ao considerar as seguintes alternativas: os círculos de altos funcionários em Jerusalém próximos ao rei; os sacerdotes de Jerusalém; os círculos proféticos. Contra a primeira alternativa, R. E. Clements põe a objeção relativa à lei do rei em Dt 17,14- 20, considerando inconcebível que o Deuteronômio pudesse, ele próprio, ser a obra de um círculo fortemente pró-monarca. A segunda alternativa enfrenta dificuldade com a passagem em 2Rs 23,9, que mostra claramente que o argumento do Deuteronômio, de que todos os levitas poderiam ser sacerdotes, não era aceito pelos sacerdotes de Jerusalém. Isso torna improvável que sacerdotes de Jerusalém apoiassem substancialmente o Deuteronômio. Quanto à terceira alternativa, mesmo cônscio da influência dos profetas sobre os deuteronomistas, R. E. Clements julgou improvável que círculos proféticos tivessem escrito o Deuteronômio ou a DtrH. Moisés foi tido por um profeta, em Dt 18,15-22, contudo, ali, os profetas teriam sido vistos de um modo totalmente diferente na tarefa de pregadores da penitência, convocando Israel a um retorno à observância da lei (cf. 2Rs 17,13-16); ora, esta visão difere substancialmente daquilo que se conhece a partir dos livros proféticos. Tudo pesado, a conclusão de R. E. Clements não poderia ser mais cautelosa. O deuteronomista não poderia ser identificado diretamente com nenhuma classe profissional no antigo Israel. Talvez fosse melhor se pensar num Partido Reformista, aglutinando diversos grupos de liderança.82 Entretanto, Gunther H. Wittenberg estranhou que R. E. Clements tivesse omitido o grupo social judaíta ‘povo da terra’,
78 But the resistance struggle initiated by Elijah and Elisha was not simply a struggle against
Canaanite polytheism, mainly in the form of the worship of the Tyrian Baal, but it was at the same time a struggle against the Canaanite system of social stratification and autocracy legitimated by the ideology of divine kingship. Canaanite Baal religion was, in essence, religious legitimation of state power centering on the king (WITTENBERG, Amos and Hosea, p. 303-304).
79 PHILLIPS, A. Prophecy and Law. In: COGGINS, Richard; Phillips, Anthony; KNIBB, Michael
(Eds). Israel’s prophetic tradition: essays in honour of Peter R. Ackroyd. Cambridge: Cambridge University Press, 1982, p. 228-229.
80 WITTENBERG, op. cit., p. 304-305.
81 CLEMENTS, R. E. Deuteronomy. Sheffield: JSOT Press, 1989. p. 77-79. 82 WITTENBERG, op. cit., p. 305.
#ra ~[
, que teria desempenhado um papel decisivo na colocação de Josias no trono de Judá (cf. 2Rs 22,1).83 Wittenberg lembrou ainda que Gerhard von Rad haviadefendido, firmemente, que a origem do Deuteronômio se encontrava entre a população livre do campo.84 Também J. Alberto Soggin85 teria enfatizado a importância do
#ra ~[
para todo o movimento deuteronomístico, mostrandouma relação íntima entre as aspirações político-religiosas da comunidade de latifundiários judaicos livres e aquelas do historiador deuteronomístico. Segundo Soggin, esta classe social preservou as tradições que o próprio historiador defendia, e ela teve o poder político necessário para implementar reforma.86 (tradução nossa).
Em um último momento de seus estudos, Gunther H. Wittenberg procurou responder à questão de fundo: por que a DtrH, em estreita conexão com o
#ra ~[
, desaprovou Amós e Oséias, omitindo-os em sua história? De passagem, vale lembrar aqui as palavras de Gunther H. Wittenberg: “A atitude de Oséias para com a monarquia foi provavelmente o principal assunto da discussão. Em todo o Antigo Testamento não existe uma crítica mais franca à instituição da monarquia do que Oséias (Os 13,11)”87 (tradução nossa). Dispensando-se os comentários sobre Oséias, convém voltar-se, agora, para Amós, cuja preocupação não estava centralizada na questão da adoração de outros deuses, mas na crise social. Deste modo, se consolidava uma luta de classe de latifundiários, comerciantes de grãos e funcionários reais em prejuízo da massa empobrecida dos camponeses, criando a ocasião para as denúncias e o anúncio de julgamento de Amós.88 Por sua vez, o “povo da terra”,#ra ~[
, teria apoiado as
83 WITTENBERG, Amos and Hosea, p. 305.
84 von RAD, Gerhard. Studies in Deuteronomy. London: SCM, 1953. p. 60-69.
85 SOGGIN, J. Alberto. Der judäische ’am-há’arets und das Königtum in Juda: ein Beiträge zum
Studium der deuteronomistichen Geschichtsschreibung. Vetus Testamentum, Leiden, v. 13, p. 187-195, 1963.
86 an intimate relationship between the political and religious aspirations of the free Judaean
landowning community and those of the deuteronomistic historian. According to Soggin, this social class preserved the traditions which the historian himself advocated, and it had the political, power necessary to implement reform (WITTENBERG, op. cit., p. 306).
87 It was Hosea’s attitude towards the monarchy which was probably the main bone of contention.
In the whole of The Old Testament there is no more outspoken critic of the institution of monarchy than Hosea (Hs 13:11)” (Ibid., p. 308). Posição já defendida por SCHMIDT, Werner H. Kritik am Königtum. In: WOLFF, Hans Walter (Hrsg.). Probleme biblischer Theologie: Gerhard von Rad zum 70. Geburtstag. München: Kaiser, 1971. p. 440-461).
88 WITTENBERG, Gunther H. Amos 6.1-7: ‘They dismiss the day of disaster but you bring near the
reformas sociais89, porque ter-se-ia visto também beneficiado pela redução dos tributos, inclusive do dízimo.90 Gunther H. Wittenberg lembrou ainda que um determinado setor do
#ra ~[
, teria tirado vantagem do desenvolvimento social e tivesse contribuído para a exploração dos concidadãos judaítas mais pobres, “que se afundavam cada vez mais em dívidas”.91As acusações de Jeremias e Ezequiel mostram (Jr 34; Ez 22,29) que o #ra ~[, no período final da monarquia, tinha se tornado uma classe rica de proprietários, que participava da opressão das camadas mais pobres do povo, juntamente com os comerciantes e outros feudatários na cidade de Jerusalém.92 (tradução nossa).
. De acordo com Gunther H. Wittenberg, um apoio à reforma não significava uma aceitação da legitimidade das denúncias de Amós. Diante de uma situação de otimismo nacionalista, sobretudo na última parte do reinado de Josias, quando já estaria presumivelmente escrita a primeira edição da DtrH, somado ao declínio do poder assírio e à restauração da antiga milícia do “povo da terra”, a mensagem radical de Amós não poderia mais ser tolerada. Esta seria a razão pela qual Amós teria sido excluído da DtrH.93 De modo claro, Gunther H. Wittenberg conclui:
Somente durante o exílio, quando Jerusalém tinha sido destruída e a monarquia judaíta tinha, portanto, chegado à sua ruína, houve prontidão em ouvir a mensagem integral dos profetas em toda a sua aspereza. Eis porque seus livros foram preservados. Mas era tarde demais para serem incluídos na DtrH, visto que o formato básico da DtrH já tinha sido determinado em sua primeira edição pré- exílica. Então, os editores a mantiveram inalterada.94 (tradução nossa).
89 Já se mostrou que a expressão “povo da terra” ocorre relacionada com o campesinato judeu
(cf. SIQUEIRA, Tércio Machado. O povo da terra no período monárquico. Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 1997.
90 CRÜSEMANN, Frank, Der Zehnte in der israelitischen Königszeit, p. 21-47, apud
WITTENBERG, Amos and Hosea, p. 306.
91 Ibid., p. 307.
92 The indictments of Jeremiah and Ezekiel show (Jr 34 and Ezk 22,29) that the #ra ~[ in the latter
part of the monarchy had become a rich land-owning class who participated in the oppression of the poorer sections of the people, together with the merchants and other feudatories in the city of Jerusalem (WITTENBERG, loc. cit.).
93 WITTENBERG, loc. cit.
94 Only during the exile, when Jerusalem had been destroyed and the Judahite monarchy had also
met its fate, was there a willingness to listen to the total message of the prophets in all its harshness. This is why their books were preserved. It was, however, too late for them to be included in the Deuteronomistic History because the basic format had been determined by the first pre-exilic edition. This was left unchanged by the exilic redactors (Ibid., p. 309).