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A identificação dos Bunak enquanto grupo etnolinguístico é recente34. É difícil reconhecer, com rigor, o número total de elementos deste grupo, mas os dados disponíveis apontam para os 100.000, metade em Timor-Leste e igual número em Timor-Ocidental, Indonésia35. Em Timor-Leste, os Bunak predominam no distrito de Bobonaro, Suai (aqui são conhecidos como Maray) e em menor número no distrito de Ainaro. No distrito de Bobonaro localizam-se, predominantemente, nos subdistritos de Bobonaro e de Lolotoe. A parte Bunak do subdistrito de Bobonaro era conhecida, até aos anos trinta, como “Lamakito(s)”, o nome do antigo reino sedeado em Bobonaro.

Uma particularidade assaz pertinente reside no facto de o Bunak, a língua e o povo, se localizar no centro da ilha de Timor, rodeado por grupos etnolinguísticos austronésios (maioritários em Timor-Leste). Schapper (s.d.)36, na recensão dos principais estudos sobre a língua Bunak identifica o Bunak como uma língua SOV (sujeito – objecto – verbo) e relata como a sua classificação linguística foi complexa, estando longe de uma definitiva conclusão: integrada nas línguas Papuas por Capell [1943a; 1943b; 1944], a língua foi descrita como de origem “mista” por Berthe [1963], sendo de novo inscrita como não-austronésia e “West Papuan Phylum” por Cowan [1963] e mais tarde “Trans-New Guinea Phylum” por Wurm [1975-1977]. Voorhoeve [1975] estabelece uma ligação ao subgrupo específico do “South Bird’s Head”, uma região da Papua Nova Guiné.

Recentemente, Hull (2004a e 2004b) reafirma a origem não-austronésia ou papua, confirmado a hipótese do Bunak ter origem nas línguas Papuas da “Trans-New Guinea phylum” faladas na Península de Bomberai na Papua Ocidental, Indonésia, distrito de Fakfak. Esta inclusão não é, no entanto, mas do que uma hipótese actual e o trabalho recente de Donohue e Denham (2010) vem levanta questões sobre a sua origem.

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Berthe (1972) refere que a primeira menção deste povo na literatura antropológica ocorre em 1904, por H.J. Grizen, na sua Mededeelingen omtrent Beloe op Midden-timor, in: Verhandelingen van het Bataviaasch Genootschap, Djakarta (Batavia), (1904), vol. 54, 3ª partie.

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Os números apresentados são uma estimativa. Segundo Voegelin e Voegelin (1977), citado pelo Etnhologue http://www.ethnologue.com/show_language.asp?code=bfn. Os elementos disponíveis no Recenseamento Geral de Timor-Leste efectuado em 2004 também não contemplam estes dados.

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A investigadora, com quem comuniquei por e-mail, efectua ainda a sua pesquisa. Os autores referenciados são apresentados com base na comunicação.

Como virá a ser analisado, a região e a população que a habita é praticamente desconhecida, até ao princípio do séc. XX. A primeira alusão ao nome “bunak” como idioma ocorre apenas em 188237, identificada como a língua falada pelos habitantes do reino de “Lamak Hitus”. Na verdade, o substantivo “Bunak”, na sua acepção de etnónimo está ausente da área conhecida pelos portugueses nos finais do século XIX. Em 1883 Vaquinhas38 não refere o Bunak, mas o “maray”, como dialecto da zona. No entanto, a sua descrição dos reinos de Oeste e, em particular, “Lamaquitos”, é assaz pertinente:

"Reinos de Raimean, Tutuluro, Fahulan e Lamaquitos – Este último reino está dividido em diferentes tribus, que vivem independentes e se guerreiam constantemente, sendo todos desobedientes ao governo e vivendo também independentes uns dos outros.

A população d`estes quatro reinos calcula-se em 60.000 almas e tem 8.000 cabeças de gado. Estes povos são belicosos e vivem do roubo.

Clima, solo e produtos – o clima é frio e pouco saudável.

O reino possue vastas planícies e abunda em água. Tem muito sândalo e alguma cera.

Os dialectos que os povos falam são o tetu, maray, lacalé e mambia (sic)

Todos eles deveriam pagar finta à fazenda; porém não o fazem por estarem desobedientes." (1883, 317)

A esta descrição do grau de independência, endógena e exógena, das diferentes “tribus” é significativa e aproxima-se muito da descrição que recolhi e descreverei sobre a auto-percepção da povoação em estudo.

Um dos primeiros registos visuais deste povo é feito no Álbum Fontoura, uma compilação de 549 fotografias, efectuada entre 1936 e 1940, sob a égide do Governador Álvaro Fontoura. As fotos deste Álbum são utilizadas no estudo de Corrêa (1944). Nos seus dados os “Búnaque” são associados linguisticamente a uma maior incidência de “deuteromalaio”, embora o autor reconheça as dificuldades de uma classificação em que língua e traços fisiológicos se entrecruzam.

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Ferreira, João (1902) indica em 1882 o reino de "Lamaquitos" com 10 000 "almas", entre as quais um cristão. Pela primeira vez refere-se o "Bunac" como língua. Como etnónimo, o termo apenas surge em pleno século XX. Fonte: "Calculo aproximado da população da parte portuguesa de Timor, feito em 1882" In Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa. - Série 20ª, Nº 10 (Outubro 1902), p. 129-131.

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Vaquinhas, José (1883) Timor. In Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa. - 4ª Série, Nº 7 (1883), p. 307-328.

Foto 5 – “Bunak Memo”. Foto 6 – “Bunak Vila Armindo Monteiro –

Bobonaro”. © 2002, Álbum Fontoura AHS do Instituto de Ciências Sociais – Família Almeida

Almeida ( [1976] 1994) desenvolve, de forma mais exaustiva, uma descrição de alguns factos associados a este povo e à sua língua:

Bunak – É a denominação que os Tétum lhes dão, adoptada pelos apelidados, melhormente sob a forma de Buna; porém, o nome que mais lhes agrada, considerando-o verdadeiro, é En Gáe, expressão que tanto designa o povo ou gente Bunak como a língua que fala, e cuja tradução ignoram. Os Maráe, seus parentes (…) chamam-lhes Lâmak Ûlu, o cognome aplicado às pessoas oriundas de Bobonáro – por comerem em pratos de cascas secas de abóbora. (580,581)

Como refere o autor, a designação que os Bunak (ou Buna) se atribuem é en gae. Para alguns, eles serão descendentes de Be Hale, We Hale, Be Hale Bebico ou e Hale We Biku. Almeida dedica particular ênfase à descrição que terá obtido de dois anciãos Buna, sobre a sua origem, nomeadamente a existência de dois antepassados ou “avós” – “Ása Páran e Máu Paran e Ólò Dia e Sói Dia – dois irmãos e duas irmãs” que terão descido do céu, tendo o irmão mais velho casado com ambas, enquanto o mais novo se casou com duas raparigas que terá encontrado no topo de um coqueiro ([1976] 1994, 580-581).

A descrição corresponde a uma variação da gesta de Asa Paran Mau Paran, que será analisada no próximo capítulo. No entanto, a versão apresentada pelo autor em prosa é muito relevante, pelo facto de relatar que, da união do irmão mais novo, terem nascido os En Gáe: Kei Kêna Maláe e Sena Múti Maláe, que terão partido, um para “longínquas paragens”, outro para a ribeira de Loes (Atabai). Com o aumento dos descendentes dos Bunak estes terão chegado a uma região, em Lolotoe, em que dois

casais de anciãos, criados por ”Deus”, separaram a água da terra ainda submersa. Os filhos destes casais dispersaram-se para “Lórò Môno” (Ocidente) e Lórò Sáe (Oriente).

Convém referir que o termo En gae não é usado no dia-a-dia e não foi possível obter uma explicação para o seu significado39. Esotericamente, a auto-identificação dos Bunak nos dísticos que compõem a magalia, a recitação do caminho da Casa, é: En1

Hul2 Gol3 En1 Hot4 Gol3 – pessoas1 novas3 (filhos) da Lua2 pessoas1 novas3 (filhos) do Sol4.

Cinatti (1987) e Cinatti et al. (1987) também contactou com os Bunak. Este antropólogo chegou a estabelecer um pacto de sangue com o Liurai de Ai Asa, povoação vizinha de Tapo. No trabalho sobre a arquitectura timorense (Cinatti et all, 1987, 64-87) na região de Bobonaro é feito um levantamento topográfico de Loro-bá (Lourba) e Malilaite (Malilait). As imagens destas casas, particularmente as da primeira povoação, constituem um acervo único, uma vez que ambas foram destruídas durante a invasão de 1975.

A sua obra Motivos Artísticos Timorenses e a sua Integração (1987) apresenta uma condição única. Neste trabalho, muitas das fotos não apresentam legenda, mas é perceptível que várias pertencem à zona de Bobonaro (reconhecíveis por locais e pessoas). De entre as que não estão legendadas, foi possível detectar duas de Tapo: a número 29, do opi op, na página 48, e outra, a número 36, do mot e opi op repleto de pessoas no decorrer de um ritual, na página 5540.

Entre os autores portugueses contemporâneos, Guterres e Santos41 (1992) e Guterres (1992, 1994), são os únicos que apresentam trabalhos sobre os Bunak, publicando uma série de artigos que analisam a sua organização social e política.

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Uma hipótese é o facto de esta ser a forma reflexa de “a e`” – chamar a comida. Trata-se de um rito efectuado durante a Il po` ho – buscar a água sagrada – que assisti em 2005. En gae (ga e) seria assim uma autodenominação “o povo que chama a comida”.

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No Museu Nacional de Etnologia em Lisboa pude ver o filme do espólio de Ruy Cinatti que corresponde a estas imagens (graças à amabilidade do seu Director, Professor Doutor Joaquim Pais de Brito e do antropólogo Alexandre Oliveira). Infelizmente, as imagens não têm o registo de som, cujo paradeiro se ignora.

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O Padre Apolinário Maria Aparício Guterres, natural de Baucau, esteve em Bobonaro, entre 1968 e 1975, período em que recolheu narrativas orais (1992). João dos Santos é natural de Saburai, suco Bunak situado junto à fronteira com a Indonésia, na vertente Oeste da montanha. Em Portugal, desde 1975, tem exercido intensa actividade cultural com grupos de dança timorenses, o último dos quais se denomina “Bei Gua”.

Na sociedade búnak vemos no Taz um “miniestado” organizado, onde existe uma estrutura familiar, educativa, política, judicial, religiosa, militar e económica baseada num sistema de linhagens. (…) O contacto com os portugueses originou “inovações” em relação à sua cultura, sem, contudo, perder as suas características fundamentais. (1992, 155-156) [negritos SIC]

Os dados de Guterres (1992) são, no entanto, complexos e difíceis de enquadrar, pois não tornaexplícito a que locais se refere e a sua generalização não se coaduna com situações díspares existentes entre povoações, na região.

Os únicos antropólogos que se debruçaram sobre os Bunak, com extenso trabalho de campo são Berthe (1970) e Friedberg (1972, 1980, 1986). Os seus estudos centraram- se sobre os Bunak da região de Lakmaras, Indonésia. No entanto, Friedberg (1972) também efectuou estadias junto dos Bunak da região de Bobonaro e de Lolotoe.

Os estudos pioneiros de Berthe (1959, 1961, 1963, 1965, 1972) sobre a língua Bunak, o sistema de casamento e as narrativas mitológicas deste povo. Segundo Berthe, os estatutos das Casas são permanentes e hierarquizados, dependendo da posse de certos bens nobiliárquicos e não na posse da terra.

Les status dévolus aux maisons sont permanents et hiérarchisés ; cependant, le pouvoir politique est fondé non pas sur la propriété du sol, mais sur la force propre des patrimoines conservés dans les maisons nobles, et tout particulièrement des blasons : les dato-bul, d’origine divine. Les nobles sont tous ceux qui, par naissance, adoption ou mariage, sont membres de maisons détentrices de blasons. (1961,7)

A aliança tem um papel central na organização social, indicando o autor a existência de dois tipos de aliados: os malu-ai e os kau-k’a. Os primeiros resultam da relação estabelecida pelo casamento sul sulik, patrilocal e patrilinear, do qual emergem, respectivamente, os malu – dadores de mulheres, e os ai – os tomadores de mulheres da Casa. As relações kau-ka’a – irmão mais novo e irmão mais velho, são estabelecidas por duas Casas através de juramento, com o compromisso de se auxiliarem mutuamente (1961, 7 e 8).

A obra póstuma Bei Gua Itinéraire des Ancêtres Mytes des Bunaq de Timor, de 1972, analisa a origem das diferentes linhas de antepassados, o seu encontro e posterior dispersão na ilha de Timor, com particular incidência na zona central da ilha. A memória destes percursos, dos seus antepassados, do estabelecimento das Casas e

da forma como determinados bens móveis patrimoniais entraram nessa Casa, legitimam a posição política de cada Casa.

Neste trabalho, Berthe descreve a existências dois grandes tipos narrativos: o primeiro compreende o Bei Gua, o itinerário dos antepassados; a Hina Gua, as origens dos animais domesticados; e a A Gua, a origem das plantas cultivadas. O segundo tipo corresponde ao Tete Tiep, as guerras. O caminho dos antepassados entre os Bunak relata a história da Casa, é, simultaneamente, um relato, um mapa de um percurso e das relações de aliança com o espaço e com os outros (Berthe, 1972).

O trabalho de Friedberg (1978, 1980, 1982, 1990) sobre os Bunak é vasto, aliando ao domínio da etnobotânica uma densa descrição da organização sociopolítica. De uma forma mais concreta Friedberg (1978) afirma sobre a casa (deu), na sociedade Bunak:

L`unite sociologique de base est deu, terme signifiant à la fois l`habitation et la Maison au sens de groupe lignager exogame. Les Maisons sont regroupées en villages qui contrairement à ce qui se passe chez les voisin ont une réalité territoriale et politique. (1978,15)

Friedberg (1989, 549-551) refere ainda que a organização social local assenta na Casa, tanto a nível ritual como economicamente. O estatuto mais elevado é atribuído à Casa do chefe feminino, complementado pela Casa do chefe masculino: detentores do poder oe nola’ – ‘extendended power’. Apesar do seu domínio, estão subordinados aos chefes rituais das suas respectivas Casas, os detentores do poder oe til ‘restricted power’ (1989, 550). Cada Casa possui os seus malu ai ba’a, os seus aliados por casamento, com quem estabelece relações de circulação de pessoas e bens, sobretudo aquando das grandes cerimónias de reconstrução ou reparação de casas e de funerais. Existem dois tipos de casamento: o sul1 sulik2 – lança1 e espada2 – de residência virilocal, e filiação patrilinear, na qual a mulher entra na Casa do marido e constitui uma linhagem específica, o dil; e o ton1 terel2 – juntos1 em comum2 – de residência uxorilocal, mais comum, no qual a mulher e os seus filhos se mantêm ligados à sua Casa de origem. A Casa da linhagem é habitada por dois elementos, a irmã e o irmão classificatórios, descendentes dos antepassados que fundaram a Casa.

As casas de linhagem estão agrupadas em aldeias (tas) e cada aldeia possui o seu próprio território. As aldeias constituem uma realidade territorial e política, fonte de

subsistência, como refere Friedberg. No centro da aldeia existe o local de dança – mot – e um altar colectivo chamado bosok o op – “altar montanha” – que representa a “força da vida” dos seus habitantes. Também é chamado pana getel mone goron – “raízes de mulher, folhas do homem” – uma metáfora da vitalidade dual essencial: a feminina e a masculina.

Nem todas as casas de linhagem possuem o mesmo estatuto, havendo casas nobres e casas comuns. Entre as casas nobres existe uma diferenciação entre a casa do chefe feminino (um homem), que tem um estatuto superior e se ocupa do interior, e a casa do chefe masculino, que se ocupa do exterior, das relações da aldeia com o mundo exterior. Há, ainda, outras casas nobres que auxiliam os chefes principais. No entanto, estes chefes encontram-se submetidos, no interior das suas casas sagradas, aos seus chefes internos, que são os guardiães dos objectos sagrados e os responsáveis pelos rituais individuais e colectivos de membros da sua Casa.

Esta resenha dos principais elementos estruturantes da sociedade Bunak recolhidos pela autora na região de Lamaknen permitiram contrastar as semelhanças e dissemelhanças com os dados etnográficos obtidos na região de Lamak Hitus e, em particular, no povoado em estudo. Um aspecto a ressalvar, desde já ,para a discussão que se seguirá, é o facto de a casa de linhagem não ser designada em Lamaknen como casa sagrada (deu po’), denominação correntemente adoptada pelos Bunak de Tapo.

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