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Dans le document Cisco Catalyst LAN Switching (Page 179-182)

Os estudos antropológicos sobre o Sudeste da Indonésia são marcados pela actividade pioneira da escola holandesa de Leiden, nos anos trinta, em que a área foi definida por Josselin de Jong como um campo de estudo etnológico. A obra destacada desta escola foi a de van Wouden ([1935] 1965): Tipos de Estrutura Social

no Sudeste da Indonésia (tese que antecede as perspectivas estruturalistas de

Lévi-Strauss). O trabalho analisa, comparativamente, várias sociedades desta área, e o autor advoga que os fenómenos sociais estão firmemente enraizados na totalidade da cultura em causa. Embora a ideia central de Wouden acerca do parentesco assente na complementaridade entre os grupos em presença, os doadores de mulheres e os tomadores de mulheres, caracterizado pelo princípio do casamento assimétrico “connubium”, o autor não deixa de ressalvar o lugar do mito e do ritual.

“Cosmos and society are organised in the same way, and through this emerges the essential interconnexion and similarity of the human and the cosmic. According with our conceptions these are totally different things, but here they form a higher unity, the sacred forces of wich are reflected in myth and ritual. Myth is a sacred narrative, set in the very distant past, about the nature of things. On the distinction between the present and the mythical past rests the differentiation of the sacred and the profane. But the continuity of the profane present is interrupted by ritual, sacred ceremonies, by which the mythical events of the prehistory are repeated over and over again for the next generation. The preservation and continuation of everything is ensured by the interaction of human and cosmic powers in the ritual.” ( [1935] 1965, 2)

Contudo, o princípio de organização social assente nas categorias sociais definidas exclusivamente pelo casamento assimétrico, connubium, foi, lentamente, dando lugar a diferentes perspectivas na abordagem destas sociedades.

A multiplicação dos estudos de terreno, sobretudo a partir da década de setenta, veio enfatizar não o estudo comparativo das estruturas sociais com um núcleo condutor, mas a diversidade das soluções encontradas por cada uma das sociedades. A publicação de The Flow of Life, por Fox (1980), uma obra que pretende homenagear van Wouden, estabelece novos parâmetros para o estudo das sociedades, passando a privilegiar a abordagem individualizada de cada uma delas, tendo como elemento comum a sua expressividade dual:

The vitality of eastern Indonesian societies (…) is not the effect of an adherence to specific organizational structures but rather the result of a continuing preservation of similar metaphors for living which are encoded primarily in a pervasive dyadic form. (1980, 333).

As “narrativas ficcionadas para viver” (Traube, 1986, xix) constituem um repositório de elementos culturais mas, sobretudo, de relações culturais, que estão subjacentes às relações interpessoais entre os membros desse grupo.

Os estudos antropológicos sobre Timor-Leste são escassos. Schoulten (2001) efectuou uma recensão dos principais factos e autores associados aos estudos antropológicos de Timor-Leste. A autora demonstra como Timor fez parte da discussão mais vasta sobre a fronteira de expansão dos tipos fisiológicos “malaios” e os “melanésios” ou “papuas”, como foi discutido por Alfred Russel Wallace. Entre os antropólogos portugueses a autora refere, na primeira metade do século XX, os estudos predominantemente relativos à antropologia física, levados a cabo por Mendes Corrêa na sua principal obra: Timor Português; Contribuições para o seu

estudo antropológico (1944).

António de Almeida (cujos principais estudos estão reunidos na obra póstuma O

Oriente de expressão portuguesa (1994), dá continuidade a este tipo de investigação

e desenvolve uma maior atenção aos estudos de cultura material. O antropólogo liderou a Missão Antropológica de Timor (1953-54), tendo trabalhado com Mendes Corrêa e Ruy Cinatti. Como refere a autora os estudos de carácter fisiológico, mais tarde designados como antropobiológicos, enquadram-se nas preocupações coloniais sobre as capacidades dos diferentes grupos para o trabalho, da promoção da ideia da sua diversidade e do papel civilizador do agente colonial.

Paradoxalmente, muita da etnografia feita em Timor-Leste, no período, não foi desenvolvida por antropólogos de formação académica nesta área disciplinar mas por padres, agentes administrativos e militares (uma tradição antiga, veja-se Armando Corrêa (1935) ou Viriato Vale (1953). Trata-se de uma multiplicidade de documentos e folhetos avulsos que se encontram, ainda, por trabalhar. Os exemplos que se seguem ilustram a pertinência da revisitação de muitos destes trabalhos.

O padre Jorge Barros Duarte teve um destaque particular pela variedade das suas publicações, nomeadamente no Jornal Seara, jornal católico publicado localmente. É de realçar, pela sua descrição da envolvência social e a construção da casa sagrada na região de Maubisse (1975). No entanto, a sua obra mais conhecida é, sem dúvida,

Ritos e Mitos Ataúros (1984), essencial para uma redescoberta desta ilha.

Dentre os agentes administrativos locais e militares que se dedicaram ao estudo de grupos etnolinguísticos locais de que resultaram estudos académicos32, refira-se Carmo (1965) com o seu estudo sobre os Mambai, e Gomes (1972), sobre os Fataluku. Numa abordagem mais ampla e comparativa, cite-se a obra de Menezes ([1965] 2006), uma investigação na esteira do que foi efectuado no âmbito do ISCSPU e em que se procedia à análise do contacto entre culturas e as mudanças daí resultantes.

A pesquisa antropológica relativa a Timor-Leste desenvolveu-se, nos anos setenta e oitenta, quando se publica uma série de trabalhos que resultam de investigação de terreno. Uma das primeiras obras foi a de Hicks ([1976] 2004), na qual o autor examina, junto dos Tétum de Viqueque, os rituais de reprodução e de regeneração, de fertilidade, da relação entre os vivos e as suas relações com os antepassados, tendo por eixo a mulher. Para o autor, o sagrado (ou espiritual) é a fonte da fertilidade. A maioria dos rituais públicos tem como principal objectivo a reprodução da vida – humana, animal ou vegetal.

Todavia, para além da dimensão simbólica, os mitos de origem possuem um propósito social. Para Hicks, o mito:“(…) therefore serves to justify the social prerogative of contemporary social groups, including status hierarchy in wich aristocrats (datos) are

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Por norma, estes trabalhos foram elaborados no contexto de dissertações de licenciatura no âmbito do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas – ISCSPU.

superior to the commoners (ema rai) (…)” ([1976] 2004, 31). A gestão do ritual evoca o que Hocart (1954) refere sobre o papel criador deste processo: “By using rituals as a means of tapping the generative powers of each spiritual agency, human beings empower themselves into bringing not only new life but also abundance in many forms into their world.” ([1976] (2004, 32).

A investigação etnográfica de Clamagirand (1980, 1982)33 analisa a organização social e a prática ritual da comunidade Kemak (ema) de Marobo (localizada a cerca de sete quilómetros de Tapo), demonstrando como a coesão social é alcançada através da prática ritual. Trata-se de uma descrição densa da articulação do sistema de aliança assente em Casas sagradas “uma” no seio da comunidade. Os rituais analisados incluem o ciclo de vida individual, os que se prendem com a vida da casa e os rituais colectivos anuais.

Para a autora, ao nível pessoal, cada indivíduo pertence a uma “casa” que lhe dá o nome e uma rede de alianças, prefigurando um conjunto de relações. No domínio privado, as relações de reciprocidade caracterizam as relações entre vivos e mortos. No entanto, ao nível colectivo, a organização social assenta numa hierarquia de casas organizadas em torno das casas da chefatura. Ao nível comunitário, a hierarquia domina as relações entre os vivos e os antepassados.

A importância dos ritos resulta do facto de serem um elo de ligação, uma charneira entre o passado – o momento em que os antepassados constituíram a comunidade – e o presente – o momento em que os descendentes dão continuidade à comunidade (1980, 294). O mito surge como um discurso fundador, estruturando a ordem do universo, colocando em perspectiva a origem e o sentido do rito e do social.

Porém, como refere a autora, o ritual não se resume à perpetuação de uma imagem do passado; é, também, um momento em que as tensões actuais se revelam:

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Brigitte Clamagirand, Henri Campagnolo e Maria Olímpia Lameiras-Campagnolo fizeram parte da Missão Etnológica francesa, financiada pela Junta de Investigações do Ultramar e pelo Centre National de la Recherche Scientifique (RCP 61, responsável: George Condominas), que efectuou estudos no Timor Português nos finais dos anos sessenta, princípio dos anos setenta. Esta missão foi, inicialmente, coordenada por Louis Berthe, sucedido por Claudine Friedberg.

Le rituel, point de contact entre le social et le mythe, est également une charnière entre le présent et le passé: il reflète les tensions et les ajustements actuels mais il rappelle les normes ancestrales et assure la cohésion sociale par la participation à une même vision du monde où social et mythe s’ordonnent dans un système classificatoire dualiste. (1980, 294)

Para Clamagirand, ao nível social existe um sistema classificatório com dois elementos opostos, o masculino – quente, associado ao poder organizador [poder de manutenção, gestão corrente] – e o feminino – frio, associado ao poder criador. Ambos os poderes estão conjugados em dois chefes masculinos, o bei, quente masculino que trata e gere os produtos do território, e o bei, frio, feminino, que “chama a chuva”. Este sistema classificatório liga a organização social e o mito, fazendo uma correspondência entre ambos.

Com base em trabalho efectuado junto dos Makassae, Forman (1980) enfatiza a ideologia associada ao papel da troca – idioma de vida – na descendência e aliança entre os grupos sociais. O ritual desempenha, nesse contexto (analisando, sobretudo, os rituais mortuários), uma estratégia face à ameaça provocada pela ameaça da morte sobre a continuidade da vida e dos laços sociais.

Trabalhando entre os Mambae, Traube (1980, 1980a, 1986, 1989) analisa a sua vida social e a cosmologia, através da troca ritual que se opera entre vivos e entre estes e os antepassados. Um elemento essencial dessa prática ritual reside no saber e no saber-dizer, na posse de alguns elementos da sociedade relativos ao discurso de origem, ao saber-fazer ritual.

Como a autora refere, a interpretação deste conteúdo é percepcionada, pelos próprios Mambae, como desigual entre os seus membros; no domínio ritual, a opacidade e o carácter enigmático que lhe estão associados é parte substancial da sua eficácia performativa (1986, 237). No domínio da organização social, a afirmação da autora é reveladora da interpenetração de ambos os domínios:

“It is no exaggeration to say that social organization in this society is ritual organization. Social groups in Mambai society are defined and ranked by their complementary but unequal contributions to the ritual promotion of life (…) The hierarchical distintion between life-givers and life-receivers is continually recreated in social practices.” (1986,13).

Também sobre Timor-Leste, e os Fataluku, em particular, trabalharam Henri e Maria Olimpia Lameiras-Campagnolo. Henri Campagnolo (1979) debruçou-se, sobretudo, no domínio da linguística, enquanto Maria Olímpia Lameiras-Campagnolo fez incidir o seu estudo sobre a casa, o objecto de tese do doutoramento que defendeu em França.

Radicados em Portugal, ambos continuaram a pesquisa junto da comunidade timorense que veio para Portugal após 1975. Alguns dos seus textos (1992, 1994) abordam, numa perspectiva geral, as características da identidade timorense. Uma das iniciativas desenvolvidas em colaboração com o Museu Nacional de Etnologia foi a exposição, e o catálogo: Povos de Timor, Povo de Timor Vida. Aliança. Morte, (1992). No âmbito desta exposição foi efectuado um seminário sobre Timor-Leste no qual participaram os investigadores envolvidos na missão referida.

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