Ao longo de dois anos passei pela comunidade estudada, a caminho de Lolotoe, o subdistrito montanhoso mais distante da sede do distrito, localizado junto à fronteira com a Indonésia. Por algumas vezes parei para tomar café, convidado pelos professores, meus alunos (foto 1 e 2) . Numa ocasião, pude visitar o tas mil17, a aldeia onde se localizam as casas sagradas, e a sua praça de dança e respectivos altares. Foi uma surpresa, pois, da estrada, não podia vislumbrar-se estas estruturas. Numa destas passagens, conheci o matas Paulo Mota, nomeado por todos a quem falava em
17 Tas é, por norma, equiparado a knua – “povoação” em Tétum. Mas, não é possível fazer esta tradução
linear em Bunak. O tas é uma povoação que apresenta certas condições: a existência de um mot - a praça de dança cerimonial, um opi op – um altar colectivo da comunidade constituído pelo empilhamento de pedras de grandes dimensões, e as casas sagradas em número que varia de acordo com a povoação. O tas mil é, traduzindo literalmente, o tas interior, o local no tas onde se localizam os elementos referenciados (entre outros).
Bobonaro como a pessoa a quem devia dirigir-me para saber mais sobre a tradição e os antepassados.
Foto 1 – Tapo, cemitério e vista do tas a partir da estrada. 2000.
Foto 2 – Tapo, paragem para café. 2000.
Por um feliz acaso, presenciei, nesta aldeia, a preparação da deslocação dos seus responsáveis como oradores nas comemorações da independência em Díli, que teve lugar no dia 20 de Maio de 2002. A barreira da língua impôs-se de forma dura, pois tudo foi discutido em Bunak. No entanto, a tradução sucinta do tema revelou a preocupação dos homens em presença: quem iria falar, o que iria ser dito e a questão da tradução.
Em Agosto de 2002, nas vésperas da minha partida de Timor-Leste, tive a oportunidade de testemunhar, parcialmente, o ritual an1 tia2 – capim1 atear2, em Tapo. O convite para estar presente tinha sido formulado pelos professores primários naturais daquela localidade, depois de auscultados os mais velhos. Tratava-se de um convite que vinha ao encontro do pedido por mim manifestado, em várias ocasiões, para ver as suas “tradições”.
Durante a tarde, tive a oportunidade de conversar com alguns responsáveis rituais locais, em particular com o matas Paulo Mota, considerado um dos mais importantes
lal1 gomo2 – palavra1 senhor / mestre2 – “senhor da palavra”, regionais e nacionais18. Enquanto conversávamos, a chegada de um grupo de caça foi anunciada pelos
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A reputação deste ancião, com mais de setenta anos, resultava da sua capacidade como lal gomo, de ser responsável da Casa Sagrada Namau Deu Atag e de pertencer aos hima1 gonin2 – os três2 pilares1 – uma das instituições da comunidade. O matas Paulo Mota foi o representante do distrito de Bobonaro nas comemorações de 20 de Maio de 2002 em Díli, onde se deslocou, acompanhado pelo bei José Tilman.
cânticos de celebração, que avisavam, desta forma, que traziam um porco-selvagem. À noite reunimo-nos em zon1 galag2 – porco-selvagem1 assar2 – um local sobranceiro à entrada do povoado, onde se situam as suas dezoito deu1 po’2 – casas1 sagradas2, e aguardámos. O emprego do termo sagrado deriva da palavra po’, equiparado ao termo Tétum lulik, que pode ser igualmente traduzido ou interpretado como “interdito”, “sagrado”.
Os cânticos de celebração, similares ao que tinha ouvido de tarde, anunciaram a chegada do grupo que se tinha deslocado à planície de Maliana e que trazia arroz e as cabeças de porcos selvagens, apanhados pelos caçadores de Memo. O acolhimento foi feito por um responsável ritual que interpelou, formalmente, o grupo, sobre o sucesso da sua expedição, com um cântico. Ignorando a minha presença, a surpresa dos que chegavam, perante a minha presença, assemelhava-se à minha ante o que testemunhava.
A noite foi passada junto das fogueiras, enquanto os homens discutiam as vicissitudes da caça, as novidades da deslocação e eram decididas as penas a aplicar a quem tinha prevaricado, naquele período. Finda a discussão, um grupo dirigiu-se ao centro do povoado sagrado, ao mot – a praça de dança – à base do opi1 op2 – montanha1
serra2, reprodução da montanha sagrada. As mulheres, provenientes cada uma da sua Casa sagrada, procederam ao ajuntamento do arroz, sob a luz do magap – uma longa tocha feita de bambu – e das lanternas. De regresso a Zon Galag, as mulheres encetaram a preparação do arroz, em plena madrugada.
De manhã, iniciou-se o esquartejamento da carne dos porcos-selvagens apanhados e foi feita a sua distribuição, pelas várias casas sagradas que constituem a comunidade de Tapo. Trata-se de um processo moroso e complicado, em que cada Casa recebe um punhado de arroz e uma porção de carne, de acordo com o seu estatuto na comunidade. As discussões/prelecções proferidas pelos vários responsáveis rituais eram-me, na altura, indecifráveis. Após a distribuição da carne e do arroz, todo o grupo se dirigiu para as suas casas sagradas, no tas, onde teve lugar uma nova redistribuição por cada família nuclear. O ritual não terminou mas, como era chegada a hora de partir, foi pedida autorização aos mais velhos para me ausentar, tendo sido transportando de motorizada até Bobonaro.
Nesse mesmo dia, ao descer a montanha em direcção à planície de Maliana, comecei a pensar na possibilidade de trabalhar sobre estes rituais que se realizavam nos povoados mais isolados e sobre a razão por que ainda os fariam. Na minha memória perduravam as palavras de despedida na “conversa a brincar19” do matas Paulo Mota: “ (…) os dias não se acabam, as semanas não se acabam, os meses não se acabam,
os anos não se acabam. Havemos de nos encontrar de novo.20”
Foto 3 – Tapo: an tia, ipi piral no mot 21
. 2000.
Foto 4 – Matas Paulo Mota, em segundo plano, bei Júlio. 2002.
Na realidade, tive a oportunidade de me reencontrar com o matas Paulo Mota, nos anos seguintes. Uma série de reencontros e desencontros com conversas adiadas e entrevistas suspensas. O último destes encontros ocorreu uma semana antes da sua morte, depois de eu passar um ano no terreno. As suas palavras são parcas, o seu cansaço é visível e admite que não voltaremos a encontrar-nos mais. O seu acto final foi, como a prece do matas Caetano, uma fonte de estima e responsabilidade. Ofereceu-me o seu lenço adat22, que colocou na minha c
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Tétum: koalia halimar, espécie de cavaqueio, sem proferir o nome de entidades tutelares.
20 Tétum: “Loron sidauk remata, semana sidauk remata, fulan sidauk remata, tinan sidauk remata. Ita sei
hasoru malu.” (Diário, 10.08.02).
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O mot é a praça de dança sagrada, situada no centro da aldeia. O espaço é referido nos textos rituais como saran mot. O termo saran é traduzido por Berthe (1965) como sinónimo de praça de dança, derivado da palavra Tétum sadan ou ksadan. Costa (2001, 290), traduz sadan, como substantivo, por “Sítio considerado sagrado (lulik) (…)” e, como adjectivo, por “limpo, calvo”.
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O termo adat, que tem a sua origem no malaio indonésio, pode ser traduzido como “tradição”, “costume”, “acto sagrado”, sendo igualmente comum a tradução como “direito costumeiro”.