Partie II. Investigations dans le champ
Section 2. L’orientation dialogique des rapports et conclusions
B. Une ouverture vers l’échange argumenté
1. Une illustration éclatante : discussions autour de
Segundo Gatti (2005), a utilização do grupo focal em pesquisa vem crescendo em diversas áreas como, por exemplo, saúde, marketing, publicidade, administração e gestão, assim como nas pesquisas em Ciências Humanas. Foi inicialmente empregado como técnica de pesquisa em marketing nos anos 1920 e usada por Robert Merton na década de 1950 com o interesse de estudar as reações das pessoas à propaganda de guerra. Por volta de 1970 e 1980, seu uso como fonte de informação em pesquisa foi comum em áreas muito particulares e no início dos anos 1980 houve a preocupação em adaptar essa técnica ao uso na investigação científica (GATTI, 2005).
O grupo focal consiste em uma discussão estruturada que visa obter um conjunto de informações acerca de determinados assuntos com um grupo de pessoas. Baseia-se em “[...] gerar e analisar a interação entre participantes, em vez de perguntar a mesma questão (ou lista de questões) para cada integrante do grupo por vez, o que seria a abordagem favorecida pelo que é mais usualmente referido como sendo a entrevista de grupo” (BARBOUR, 2009,p.20 ). Um marco diferencial para essa técnica reside no fato de que possibilita uma condução menos diretiva por parte dos pesquisadores e maior integração entre os participantes. Além disso, objetiva identificar percepções, sentimentos, atitudes e ideias dos
participantes a respeito de um determinado assunto, sem a necessidade de consenso, ou seja, possibilita a geração de ideias e opiniões espontâneas.
Para a realização do grupo focal é importante que o grupo de pessoas envolvidas possua experiências conjuntas e atividades em comum a fim de que as discussões tornem-se “[...] um fórum no qual as ideias podem ser clareadas” (GATTI, 2005, p. 33). Neste trabalho, a técnica de grupo focal foi realizada com algumas famílias das crianças sujeitos da pesquisa, com o objetivo de compreender a percepção das mesmas acerca do trabalho desenvolvido na instituição e de que maneira famílias e crianças participam na tomada de decisões, no planejamento da prática pedagógica e, consequentemente, na construção do currículo. Tal escolha se fundamentou no fato de propiciar um contexto de escuta em que os sujeitos (famílias) não se sentissem intimidados a falar, o que poderia acontecer na entrevista individual, considerando a relação entre pesquisadora e sujeitos da pesquisa. Além disso, pelo fato de ser conduzida de maneira menos diretiva e mais livre que a entrevista coletiva, o grupo focal permite maior integração dos participantes. Convém destacar ainda que,
[a] pesquisa com grupos focais tem por objetivo captar, a partir das trocas realizadas no grupo, conceitos, sentimentos, atitudes, crenças, experiências e reações, de um modo que não seria possível com outros métodos, como por exemplo, a observação, a entrevista ou questionários. O grupo focal permite fazer emergir uma multiplicidade de pontos de vista e processos emocionais, pelo próprio contexto de interação criado, permitindo a captação de significados que, com outros meios, poderiam ser difíceis de manifestar (MORGAN e KRUEGER, 1993 apud GATTI, 2005, p. 9).
Nesse sentido, através das sessões de grupo focal, pude conhecer melhor o que pensam essas famílias, seus anseios e angústias em relação ao trabalho desenvolvido na instituição. Certamente muito mais poderia ter sido dito e percebido, se as famílias tivessem a oportunidade e o hábito de expressar sentimentos e opiniões sobre a instituição de educação infantil. Os “[...] grupos focais, em comum com outros métodos qualitativos, apresentam um ótimo desempenho ao proporcionar insights dos processos, em vez dos resultados” (BARBOUR, 2009, p.54). Assim, em complementação às observações, o grupo propiciou interessantes reflexões acerca do envolvimento e participação de crianças e famílias no cotidiano da instituição. Desse modo, cada participante, com seu jeito, sua linguagem, suas experiências, seu modo de ser e de se relacionar, aos poucos se envolveu com as temáticas em questão. Assim, juntos puderam revelar suas percepções e expectativas sobre o currículo desenvolvido na instituição.
Para a realização do grupo focal, foi necessário um planejamento minucioso no qual foram considerados os seguintes elementos: tema, objetivo, duração, questões norteadoras, procedimentos e avaliação. Além disso, o recrutamento dos participantes, a composição do grupo, o local de realização dos encontros, bem como os recursos para o registro dos dados foram fundamentais para garantir o bom entrosamento do grupo e a plena participação dos sujeitos. No total, foram realizados três encontros com duração de aproximadamente 1 hora e 30 minutos, que contaram com a participação de seis a oito componentes, sendo eles: quatro mães, um pai, uma tia e duas avós. Ao final do terceiro encontro, havia se instalado um clima de intimidade e confiança no grupo, fato avaliado positivamente pelos participantes.
O recrutamento foi o primeiro desafio, pois as famílias mais participativas nem sempre são aquelas com mais disponibilidade. Inicialmente, a proposta foi apresentada durante uma das reuniões mensais feita sob a coordenação da professora da turma. Após a explicação e apresentação dos objetivos, as famílias se manifestaram favoráveis à participação no grupo, porém muitos relataram dificuldades com o tempo em função do trabalho e do cuidado com as crianças. Foi sugerido pelas famílias que seria mais adequado no período de aula, pois assim que deixassem as crianças, os pais/mães aproveitariam para participar do grupo. Sendo assim, enviei convites a todas as famílias das duas turmas envolvidas, convidando-os para o primeiro encontro.
A composição do grupo foi outro aspecto importante, tendo em vista que ao primeiro encontro compareceram apenas oito pessoas12, quatro de cada turma. É importante destacar que, mesmo não participando, muitas mães me procuraram para se justificar quanto à ausência no grupo. Isso foi importante, pois revelou que os motivos do grupo reduzido não residem em algum tipo de desinteresse na atividade, mas em função de condições objetivas como trabalho e cuidado com os outros filhos. Mesmo assim, foi possível realizar a técnica de grupo focal tendo em vista que, conforme Gatti (2005), para garantir maior profundidade nas interações é preferível que o grupo tenha em torno de seis a dez participantes. Outro aspecto destacado pela autora se refere ao fato de que “[...] ausências de último momento são muito comuns, e que é preciso lidar com essa situação, procurando não prejudicar o atendimento dos objetivos da pesquisa, mediante rearranjos que garantam isso” (GATTI, 2005, p. 23).
12 O primeiro encontro contou com a participação de oito pessoas, quatro de cada turma. No segundo encontro,
compareceram apenas cinco participantes, pois um teve um compromisso de trabalho e as outras duas tiveram problemas de saúde na família. O grupo decidiu pela realização do encontro. Já no terceiro encontro, vieram sete participantes, uma delas não compareceu e não informou o motivo, além disso, logo no início do trabalho, soubemos que o pai de uma das crianças havia sofrido um acidente e por isso uma mãe teve que se ausentar. Assim, o último encontro teve a participação de seis componentes.
Na tentativa de garantir o acolhimento e a interação dos participantes, seria necessária a organização de um espaço que fosse neutro, acessível e silencioso. Contudo, esse foi outro desafio, pois a instituição não contava com nenhuma sala disponível. Além disso, próximo à instituição não havia outro espaço favorável para a realização do trabalho. Nesse sentido, Barbour (2009, p. 75) salienta que os pesquisadores também precisam ser “[...] flexíveis em relação ao espaço onde eles realizam os grupos focais para poderem maximizar a participação”. Sendo assim, optei por utilizar a área coberta próxima ao bosque que é bastante ventilada e fica afastada das salas de atividade. Para a organização, foram colocadas duas mesas centrais e cadeiras em círculo, na tentativa de propiciar um ambiente favorável à discussão e interação.
Para o registro das falas, foram utilizadas gravação em áudio e vídeo com o pleno consentimento dos participantes. É oportuno destacar que mesmo ciente de que a gravação em vídeo pode tornar-se um instrumento bastante “intrusivo”, como alerta Gatti (2005), esse recurso foi necessário para garantir a qualidade do registro, uma vez que por tratar-se de um ambiente aberto que sofre interferências de barulhos externos, somente a gravação em áudio poderia não ser suficientemente audível no momento da transcrição. Na tentativa de diminuir algum tipo de constrangimento, a gravação foi feita com apenas uma câmera doméstica por uma assistente de pesquisa já conhecida pelas famílias, em decorrência de sua participação em eventos da instituição.
No primeiro encontro, de início, cada participante colocou seu nome no crachá e conversamos informalmente sobre como seria o trabalho do grupo, esse momento foi importante como aquecimento para os participantes. Quando senti que já estavam à vontade para falar, iniciei os trabalhos me apresentando e pedindo que eles também se apresentassem. Em seguida, falei sobre o objetivo do encontro, a temática que seria desenvolvida e mais uma vez solicitei a autorização para a gravação em áudio e vídeo. O trabalho foi realizado a partir da seguinte temática: Envolvimento das crianças nas atividades oferecidas pela instituição de educação infantil e teve como questões orientadoras: As crianças participam/se envolvem nas atividades promovidas pela professora? De que maneira? O que facilita a participação/envolvimento das crianças nas atividades promovidas pela professora? E o que dificulta? Que sugestões dariam para possibilitar/estimular isso? Há possibilidade de participação das crianças nas atividades propostas? Qual/ais? O que facilita a participação/envolvimento das crianças nas atividades propostas? E o que dificulta? Que sugestões dariam para possibilitar/estimular isso?
Considerando que a tarefa do moderador é a de facilitar o grupo e nunca controlá- lo, convém salientar que como essa foi a primeira experiência do grupo, no papel de moderadora, por várias vezes precisei intervir, estimulando e encorajando a participação de todos, tendo em vista que é preciso que o moderador seja “teoricamente sensível” em todo o processo de pesquisa, para poder perceber lacunas na cobertura ou potenciais para explorar distinções/diferenças adicionais (BARBOUR, 2009, p.101). Assim, aos poucos o grupo foi interagindo melhor, superando a timidez inicial e ao final do encontro, conseguiram apresentar com certa tranquilidade suas impressões sobre o tema proposto.
No segundo encontro, a temática adotada foi: Envolvimento das famílias nas atividades oferecidas pela instituição de educação infantil. Para tanto, foram utilizadas as seguintes questões de orientação: As famílias participam/se envolvem nas atividades oferecidas? Como acontece isso? O que facilita a participação/envolvimento das famílias nas atividades propostas? E o que dificulta? Como poderia/deveria ser a participação/envolvimento das famílias nas atividades oferecidas? Apesar de em menor número em relação ao encontro anterior, a participação das famílias foi bastante interessante e minha intervenção como moderadora foi pontual, apenas para lançar alguma questão orientadora da discussão.
Já o terceiro e último encontro teve como tema geral: Presença dos saberes e experiências de crianças e famílias no cotidiano da instituição e como questões orientadoras: Os saberes e experiências que as crianças trazem de casa são percebidos e valorizados pela instituição de educação infantil? Por quê? De que maneira? As curiosidades e desejos das crianças e famílias são respeitados/valorizados no cotidiano? Por quê? De que maneira? Sugestões para que isso seja mais estimulado, esteja mais presente etc.? Esse último encontro foi marcado por uma excelente participação e interação do grupo.
Por fim, considero importante destacar que na “[...] análise da interação grupal, é importante, portanto, examinar as vozes individuais na discussão” (BARBOUR, 2009, p.55). Dessa maneira, durante os encontros, não procurei gerar consensos entre as falas, mas garantir que as percepções dos sujeitos pudessem ser reveladas. Assim, o pai, as mães, a tia e as avós tiveram a oportunidade de ter sua opinião respeitada e considerada no conjunto das falas. Foi importante localizar consensos e contradições a fim de que a voz do grupo pudesse expressar também a percepção individual dos sujeitos que carregada de historicidade e especificidades revelasse o que essas famílias compreendem e esperam sobre a prática pedagógica desenvolvida na instituição.
Tendo escutado professoras e famílias, chegou o momento tão esperado: o de dar voz às crianças. Para tanto, seria necessária a criação de uma estratégia em que elas pudessem falar sobre seu cotidiano na instituição de educação infantil e colaborar na compreensão do objeto em estudo.