L 'établissement comme lieu de changement
3.4. UNE CUL TURE D'ETABLISSEMENT OUVERTE AU CHANGEMENT:
O professor, ao implementar o saber a ensinar - materializado nos currículos e livros didáticos - no Sistema Didático, configura o saber ensinado.
A transposição realizada agora é dita transposição interna, pois será realizada pelo professor dentro do sistema de ensino no intuito de ministrar os conteúdos estabelecidos no saber a ensinar. Esta transposição será concretizada em sua prática na sala de aula. O nome transposição interna vem contrastar com a dita transposição externa, que foi tratada até a etapa anterior deste trabalho, quando descrevíamos as modificações ocorridas na transição entre saber sábio e saber a ensinar, realizada pelos divulgadores, autores de livros didáticos e programas curriculares.
Vale a pena ressaltar que os responsáveis pela transposição externa, que resultará nos livros-texto para o Ensino Médio, se diferenciam substancialmente daqueles que se dedicam ao ensino universitário, na medida em que o sistema didático universitário se diferencia do sistema didático do Ensino Médio. Em particular, a relação professor-aluno e os objetivos a serem alcançados pela formação do aluno são profundamente diferentes nestes dois níveis. A universidade se aproxima bastante do contexto em que o saber sábio é produzido, e nela a formação dos alunos se dá em busca de um novo profissional atuante em áreas próximas a estes saberes. Já o Ensino Médio se encontra distante da comunidade científica e busca a formação geral do cidadão. Pretende-se, em tese, que ele consiga compreender e interagir minimamente com o mundo que o rodeia. Dentro desta perspectiva, a textualização do saber ocorre com menos transformações no primeiro domínio quando comparado com o segundo. Isto se deve à proximidade/afastamento dos domínios em relação às áreas de produção dos saberes.
Quando analisarmos os livros didáticos do ensino médio, veremos que para a maior parte dos conteúdos contidos nos livros do Ensino Médio – mais especificamente os referentes à física clássica -, a textualização do saber se resume a uma simplificação da apresentação contida nos livros universitários.
Esta simplificação se manifesta na linguagem utilizada na conceituação e se estende no que se refere aos recursos matemáticos utilizados, bem como nas eventuais demonstrações matemáticas. Quanto à apresentação dos conceitos, a
simplicidade vai ao extremo e pode ser percebida na seqüência ordenada do conteúdo, descaracterizando o processo histórico de sua elaboração(PINHO, p. 230, 2000).
Portanto, enquanto durante a preparação dos livros di dáticos universitários existe uma transposição “real”, de fato, o mesmo não se dá em relação ao Ensino Médio. Quando conteúdos de física são selecionados no saber sábio para fazerem parte do saber a ensinar universitário, estes passam por todos os processo s de transformação descritos anteriormente, como a desincretização e a despersonalização. Portanto, embora o ambiente escolar universitário esteja próximo à comunidade científica, a forma de apresentação dos conteúdos difere significativamente da história da pesquisa original.
No entanto, comparando os livros didáticos do Ensino Médio com os universitários, vemos que a física clássica apresentada no primeiro caso se reduz a uma simplificação na linguagem (matemática ou científica) e nos conceitos. Dizemos e ntão que, neste último caso, não houve uma transposição “real”, uma vez que esse material simplificado será o apoio e a referência para que o professor desempenhe seu papel na sala de aula. E é exatamente neste novo espaço, o da preparação e do lecionar, q ue se estabelece o terceiro patamar do saber – o saber ensinado.
No trecho selecionado abaixo, podemos atentar para uma característica importante da prática docente no contexto da sala de aula: a legitimação do saber através da despersonalização.
O saber que produz a transposição didática será portanto um saber exilado de suas origens e separado da sua produção histórica na esfera do saber sábio, legitimando- se (...) como algo que não é de nenhum tempo nem de nenhum lugar, e não (...) mediante o recurso da autoridade de um produtor, qualquer que seja(CHEVALLARD, p. 18, 1991).
A função da despersonalização no saber ensinado, então, assume um papel diferente daquele assumido no saber sábio. No primeiro patamar, sua função era a da difusão do saber e, a partir dali, da produção social de conhecimento. Mas, no seio do funcionamento didático, a função assumida é completamente diferente: trata-se aqui da reprodução e da representação do saber, sem estar submetido às mesmas exigências de produtividade. O jogo do saber adota agora um aspecto totalmente diferente. A didática entra nessa
relação como uma forma de otimizar as conexões do aluno, frente as informações que se deseja repassar.
Essa legitimação do saber, bem como todos os processos da transposição interna, tem como objetivo a adequação do saber a ensinar ao sistema didático. À respeito da inclusão do saber no sistema didático:
O Sistema Didático não é mais fruto de nossa vontade, pois seu funcionamento – sem falar sequer de seu bom funcionamento - supõe que a “matéria” (professor, alunos, saber) que irá ocupar cada um dos lugares, satisfaça certos requisitos didáticos específicos. Para que o ensino de um determinado elemento de saber seja meramente possível, esse elemento deve ter sofrido certas deformações, que o tornarão apto para ser ensinado. O saber-tal-como-é-ensinado, o saber ensinado, é necessariamente distinto do saber-inicialmente- designado-como-o-que-deve-ser-ensinado, o saber a ensinar(CHEVALLARD, p. 16, 1991).
Neste trecho, o autor denota a inevitabilidade da transformação do saber até chegar à sala de aula, frente à necessidade de adequação do saber ensinado ao Sistema Didático.
No entanto, este não é o único processo que ocorre no Sistema Didático, pois não podemos esquecer que este não se encontra isolado. O sistema didático é um sistema aberto e, para que este sobreviva, deve ser compatível com o meio. O autor(CHEVALLARD, p. 28, 1991) representa essa relação segundo a figura abaixo:
Entorno Sistema de Ensino,
stricto sensu
Noosfera Sistema didático
Nesta ilustração, podemos perceber que os sistemas didáticos encontram-se circundados pelo sistema de ensino, que reúne o conjunto de sistemas didáticos e tem um conjunto diversificado de dispositivos estruturais que permitem o funcionamento didático e que intervêm no sistema didático em diversos níveis. Inclui, por exemplo, oficiais que regulam os fluxos de alunos entre os sistemas didáticos, assegurando a formação do conjunto de SD de modo viável.
O sistema de ensino possui, por sua vez, um entorno denominado noosfera. Esta esfera comporta desde os representantes do sistema de ensino, com ou sem mandato (desde o presidente de uma associação de ensino até um simples professor militante), até os representantes da sociedade (os pais de alunos, os especialistas da disciplina e os emissários dos órgãos políticos). Estes dois nichos interagem por meio de uma fronteira composta por todos aqueles que ocupam os postos principais do funcionamento didático, se enfrentam problemas que surgem do encontro com a sociedade e suas exigências; ali os conflitos se desenvolvem e se resolvem via negociação.
À respeito dessa fronteira:
Toda uma atividade ordinária ocorre ali, fora dos períodos de crise (em que esta se acentua), sob a forma de doutrinas propostas, defendidas e discutidas, de produção e de debates de idéias – sobre o que poderia se modificar e sobre o que convém fazer – Em resumo, estamos aqui na esfera de onde se pensa – segundo modalidades talvez muito diferentes – o funcionamento didático. (CHEVALLARD, p. 28, 1991).
Nos momentos de crise, em que são discutidas modificações no ensino, uma série de saberes sábios concorrem pela sua inserção no contexto escolar. A noosfera fica mais evidente, pois cabe a ela decidir qual deles deve ou não ser selecionado, seguindo os critérios apontados anteriormente.
4.4 A TEMPORALIDADE AO LONGO DA TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA