Polynômes et séries
2. Multiplication rapide
2.7 Un concept important : les fonctions de multiplication
Antes de dar a lume A literatura indo-portuguesa, Manuel de Seabra já tinha integrado a coleção Antologia da terra portuguesa, em 1962, publicada pela Livraria Bertrand, por iniciativa de Luís Forjaz Trigueiros, então na administração da editora (BAUBETA, 2007: 147). O organizador das antologias sublinha, no primeiro volume dedicado ao Minho (1957), que a intenção do projeto era traçar um «plano de interpretação nacional» (TRIGUEIROS, 1957: xvi) que representasse a paisagem geográfica e humana portuguesa, tendo convidado para a redação dos vários volumes autores que tinham laços afetivos ou conhecimentos prévios, na qualidade de especialistas, sobre as literaturas em questão. À luz disso, não surpreende que Forjaz Trigueiros encarregasse Manuel de Seabra da escrita do volume Goa, Damão e Dio, cumprindo este tanto requisitos afetivos como
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científicos. Em 1962, Seabra estava já casado com Vimala Devi, tendo os dois iniciado, nessa altura, as investigações para a compilação da sua história literária. Por isso, para levar avante essa tarefa, nada melhor do que o perfil biográfico de Seabra, o qual é descrito na capa do livro como «estudioso da História da vida e dos costumes portugueses no Oriente e especialmente na Índia» (1962: s.p.).
A coleção contava com 18 volumes antológicos, publicados entre 1957 e 1965, quatro dos quais foram sistematizados pelo próprio Forjaz Trigueiros.175 No volume antológico Goa, Damão e Dio, Manuel de Seabra seleciona textos de autores goeses e portugueses, cumprindo um critério que reconhece aos portugueses uma identidade oriental e, vice-versa, aos goeses uma identidade autenticamente católica e portuguesa. Essa abordagem será continuada, e reforçada, em A literatura indo-portuguesa pela presença do lusotropicalismo; por esse motivo, acredita-se que a antologia Goa, Damão e Dio constitui uma espécie de projeto preparatório para a obra de 1971 ou, de forma mais geral, uma espécie de primeira arrumação de ideias sobre o assunto.
Numa nota final do livro, Seabra explica: «Procurei, dentro do possível, através dos autores antologiados, apresentar uma panorâmica dos vários aspectos da vida e da terra da Índia Portuguesa», agradecendo, para tal efeito, a ajuda de Luís Forjaz Trigueiros, Amândio César – o curador do volume Trás-Os-Montes e Alto Douro – e a própria Vimala Devi (1962, s.p.). De facto, o pequeno livro é composto por uma série de textos de diferentes géneros literários, apresentados cronologicamente e que pretendem fornecer uma representação da experiência portuguesa na Índia, principalmente em Goa.
A antologia abre com o Auto da Índia de Gil Vicente e termina com a poesia de Vimala Devi, «Vénus drávidas», extraída do livro Súria, ainda inédito naquela época, passando, ainda, pela literatura dos Descobrimentos, por Camões, Frei Luís de Sousa, Leonardo Pais e António João de Frias, Bocage, Almeida Garrett, Fernando Pessoa e por autores goeses do século XX como Nascimento Mendonça, Paulino Dias, Adeodato Barreto e Orlando da Costa. É interessante notar como, no fim do livro, Manuel de Seabra se preocupa em assentar duas especificações. Primeiramente, aponta quem são os autores goeses que figuram na antologia.176 Ele escreve: «Alguns dizem-no expressamente; da maioria, porém, o leitor não se aperceberá, dada a autenticidade e a
175 Os volumes foram publicados da seguinte forma e ordem: O Minho (1957), A Madeira (1958), Alto e Baixo Alentejo
(1958), O Douro Litoral (1959), Trás-Os-Montes e Alto Douro (1959), O Ribatejo (1960), Beira Baixa (1960), O Porto (1960), Lisboa (1960), Beira Alta (1961), Angola (1961), Goa, Damão e Dio (1962), O Algarve (1963), Moçambique (1963), Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Macau e Timor (1963), Beira Litoral (1964), Os Açores (1965),
Estremadura (s.d.). Luís Forjaz Trigueiros sistematizou os volumes sobre o Minho e o Ultramar Português, exceção feita
pelo volume sobre a Índia Portuguesa, deixado ao cuidado de Manuel de Seabra.
176 Na opinião de Seabra, os autores goeses são: Fernão Lopes do Oriente, D. António Alvares da Cunha, Leonardo Pais,
Francisco Luís Gomes, Jacinto Caetano Barreto Miranda, Cristovão Aires, Caetano Francisco Xavier Gracias, Amâncio Gracias, Alberto Xavier, Nascimento Mendonça, Froilano de Melo, Paulino Dias, A. Gonçalves Pereira, Adeodato Barreto, Orlando da Costa e Vimala Devi.
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portugalidade da sua essência cultural e linguística» (SEABRA, 1962: s.p.). Os autores portugueses e goeses são contemplados através da mesma lente, que foca e engrandece a identidade católica de ambos. Com efeito, se averiguarmos os excertos dos autores goeses antologiados por Seabra, verificamos que se tratam, na maioria dos casos, de textos referentes à observância de tradições católicas na Índia, como Origens do cristianismo na Índia de Amâncio Gracias, de 1903, uma poesia de Adeodato Barreto intitulada «Natal cristão», publicada postumamente em O livro da vida, em 1940, um artigo de Vimala Devi intitulado «Natal de Goa», publicado na revista Panorama em 1961, e um trecho do romance de Orlando da Costa O signo da ira (1961), a que Seabra dá o nome de «Procissão em Goa», entre outros exemplos.
Contudo, a parte mais emblemática do volume é a própria introdução assinada por Manuel de Seabra e escrita antes de dezembro de 1961, não aludindo à anexação de Goa, Damão e Diu, mas apenas à de Dadrá e Nagar-Aveli. De facto, a segunda especificação que ele assinala nas notas finais é que, apesar de o volume se encontrar já acabado «no momento em que ocorreu a trágica invasão do Estado da Índia», conseguiu inserir alguns textos de autores que documentaram esse facto, como por exemplo o artigo de Maria Ondina Braga «A última noite de Goa» (1962) e a poesia de Natércia Freire India 1961 (1962) – curadora, esta última, do volume sobre o Ribatejo da mesma coleção. A Índia Portuguesa é configurada num quadro imaginativo idilíco, constituindo-se como componente essencial da caracterização ontológica do português. Olhando para os termos com que vem sendo adjetivada, podemos dar-nos conta de que a Índia não é representada enquanto espaço singular, mas enquanto contentor de todas as inquietações que animaram o empreendimento colonial. Para exemplo disso, leiam-se algumas frases: «o sonho da Índia sempre viveu no coração e no sangue de Portugal» (SEABRA, 1962: 7); «a primeira Índia foi o fabuloso Al-Gharb» (SEABRA, 1962: 7); «depois, a Índia foi o mar» (SEABRA, 1962: 7); «a Miragem eterna que se agita em todos os peitos lusitanos» (SEABRA, 1962: 8); «a Índia fora encontrada» (SEABRA, 1962: 8); «ao sonho da Índia sacrificamos tudo» (SEABRA, 1962: 8); «o Estado Português da Índia é um caso ímpar – como o Brasil noutro aspecto – da presença lusa no Mundo»; «na Índia, aconteceu encontro» (SEABRA, 1962: 9); e, por fim, «A Índia lusa engloba, pois, inexoràvelmente, todas as regiões onde Portugal continua presente em espírito, em cultura, em civilização» (SEABRA, 1962: 10).
Se por um lado Seabra afirma que a Índia é lusa e nela aconteceu o encontro, por outro escreve que «Portugal não é um país europeu» (SEABRA, 1962: 11), lembrando ao leitor que essa antologia é o fruto de «cinco séculos de portugalidade» (SEABRA, 1962: 11). O título original que Manuel de Seabra tinha pensado para o volume era Como os nossos escritores viram o Oriente, mas essa ideia teve deve ser modificada, de forma a ir ao encontro das exigências editoriais. De facto, na coleção Antologia da terra portuguesa, o volume inerente às outras colónias asiáticas, Macau e
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Timor, só foi publicado um ano depois, em 1963, no mesmo livro sobre Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Principe, ao cuidado do próprio Luís Forjaz Trigueiros. O ambicioso título originalmente proposto, Como os nossos escritores viram o Oriente, talvez pudesse não ter ilustrado os conteúdos da antologia, dado que o Oriente, como uma sinédoque, teria sido representado apenas por uma pequena parte no livro, ou seja, a Índia Portuguesa. Na realidade, julga-se que no livro organizado por Manuel de Seabra, a Índia, como é retratada na introdução e nos textos antologiados, é já uma figura de linguagem, uma sinédoque que resume toda a retórica imperial e reflete a ideia da hiperidentidade portuguesa problematizada por Eduardo Lourenço (1999; 2014), ilustrada, justamente, pela seguinte citação de Seabra: «A Índia fora encontrada. O seu achamento cumpriu, daí em diante, o destino universal da Nação. Aí se definiram, se corporizaram, as virtudes imanentes no nosso povo, virtudes de tolerância, de compreensão, de amor» (SEABRA, 1962: 8).