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La composition des séries

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Polynômes et séries

3. Calculs rapides sur les séries

3.4 La composition des séries

Depois do primeiro capítulo introdutivo «Goa e os portugueses», seguem três capítulos que ainda não se debruçam especificamente na literatura indo-portuguesa, mas que preparam o terreno para o início da narração da história literária, focando-se, mais uma vez, na descrição do contexto social em que se deu o processo de conversão religiosa dos autóctones e das consequências que este teve no substrato cultural goês. Os capítulos em questão são: «A língua», «Formação psicológica do povo Goês» e «A Igreja e o seu papel preponderante na formação de uma cultura goesa». Os três capítulos estão ligados entre si pelo evento da Inquisição, que é tida como o acontecimento histórico que mudou para sempre, não apenas a identidade cultural dos goeses, mas até a sua própria feição psicológica. Partindo da proibição da língua vernácula e queimação dos livros em concani, até a imposição da aprendizagem da língua portuguesa, Devi e Seabra acreditam que, por diferentes fatores, todos esses processos coercivos criaram no goês uma espécie de personalidade dupla, sendo que a responsabilidade da geração desse caos identitário não é atribuída às políticas de colonização portuguesa, mas sim aos excessos da Igreja católica: «não tardou que o ardor missionário começasse a produzir os excessos em que, com tanta frequência, o Cristianismo tem caído. Não interessam ao nosso objectivo as medidas de carácter civil tomadas pelos Portugueses, mas é da maior importância o facto de terem sido queimados todos os livros vernâculos» (DEVI & SEABRA, 1971: 40). A reconstrução que os autores fazem das várias fases da persecução de hindus, católicos goeses recém- convertidos e cristãos-novos,182 demonstra como houve várias fases em que a rigidez dos decretos oscilava conforme a presença de uma ou outra autoridade governamental que atenuava o teor das medidas legislativas, insistindo, assim, na ideia de que o Reino tenha tido responsabilidades limitadas na atuação do tribunal inquisitorial.183

Em linhas gerais, os três capítulos abordam os mesmos tópicos, apresentados em três diferentes fases da colonização. Os autores distinguem, essencialmente, três momentos datáveis entre 182 Devi e Seabra fazem questão de referir que a Inquisição não atingiu apenas os hindus recém convertidos, mas também

os cristãos-novos – os judeus convertidos ao catolicismo –, os quais emigravam da Península Ibérica para a Índia Portuguesa à procura de novas alianças comerciais. Os autores, através de diferentes referências historiográficas, explicam como ter juntado a perseguição dos cristão-novos com aquela dos hindus e dos novos católicos goeses, beneficiou os portugueses: «Destruir o paganismo (hinduísmo) e perseguir o Judeu traria dois principais benefícios: a conversão do gentio e a destruição da concorrência comercial que os filhos de Israel faziam aos cristãos» (DEVI & SEABRA, 1971: 73).

183 No capítulo «A Igreja e o seu papel preponderante na formação de uma cultura goesa», mais uma vez

desresponsabilizando os portugueses dos efeitos devastadores da Inquisição na destruição da cultura da população autóctone, Devi e Seabra escrevem: «Seja como for, um território de elevada civilização viu-se sùbitamente despojado da sua superstrutura cultural. Não há que disso lançar culpas sobre ninguém. Os Portugueses não foram piores – frequentemente foram até bastante melhores – do que os outros povos colonizadores da época. Se, por vezes, principalmente no sector religioso, os Portugueses eram tão intolerantes, isso deve-se menos ao carácter do povo luso do que ao papel assumido pela sua religião em certos momentos históricos, carácter que determinou também a feição preponderantemente política da empresa colonial portuguesa» (DEVI & SEABRA, 1971: 89).

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a chegada dos portugueses ao Malabar e a expulsão dos jesuítas, em que se viu encenar a censura do concani e de toda a sua produção textual, o estabelecimento de instituições de ensino de português e, finalmente, o regresso ao uso do concani na literatura catequética. Devi e Seabra assumem, perante a ação dos portugueses, uma posição às vezes justificativa, outrora reprobatória. Neste último caso, quando os autores tecem comentários negativos é porque julgam que a responsabilidade de tais ações não recai diretamente no arbítrio da administração colonial, mas sim nas escolhas dos funcionários que atuaram de maneira insensata.184 É acompanhado o percurso legislativo que regulamentou, de maneira alternada, a proibição do concani e a sua adoção para uso didático, sendo que esse último uso leva Devi e Seabra a pensar que, num dado momento da história, uma literatura em concani tenha surgido – se bem que de cunho exclusivamente religioso. Na perspetiva dos autores, dado que o concani nunca beneficiou de um processo de sistematização, nunca se enraizou em Goa uma literatura escrita nessa língua.185 Ulteriormente, eles reportam que, em época contemporânea, não tinha havido nenhum interesse do governo português em suportar as escolas de concani, sendo a atenção muito mais focada nas escolas onde era ministrado o ensino do marata, do urdu e do inglês.186

Por outro lado, partilhando a mesma opinião que expressou Filinto Cristo Dias nos finais da sua carreira – como foi ilustrado no capítulo anterior –, o excesso de zelo no procurar a perfeição na fala do português, levou com que o português de Goa fosse estigmatizado, e consequentemente, os goeses viram reduzidas todas as possibilidades para que se criasse «uma literatura numa linguagem genuinamente goesa, com prejuízo da sua própria identidade cultural» (DEVI & SEABRA, 1971: 61). À luz dessa última frase, o mais óbvio seria afirmar que a ideia de literatura que Devi e Seabra conceituam tem uma relação que liga a identidade cultural à língua de expressão, mas a ideia de

184 «A atitude dos Portugueses para com o concanim é, de facto, caso único na história da expansão portuguesa no

Mundo, e, de certo, paradoxal, como pode ver-se pelo facto de, em 1548, o bispo D. Fr. João de Albuquerque andar ainda a coligir livros vernáculos para queimar, quando já em 1541, no assento que o Vedor da Fazenda Fernão Rodrigues de Castel Branco fez com os gãocares das Ilhas sobre a cessão dos bens dos pagodes à Igreja, figurava o seguinte artigo: “E havendo ahy pelo tempo em diante alguns clerigos sacerdotes naturaes desta terra, que sejam aptos para o sobredito, elles serão os capellães das ditas Ermidas, pera a gente da terra levar disso mais contentamento, e tomar delles com melhor vontade o ensino, assy por causa da lingua, como da natureza”. Isto prova apenas, em abono dos Portugueses, que a guerra de extermínio desencadeada contra o concanim não foi parte de um plano preestabelecido, mas produto de curteza de ideias de funcionários ou sacerdotes ignorantes» (DEVI & SEABRA, 1971: 44).

185 Devi e Seabra falam apenas da existência de uma expressão literária popular em concani, florescida, entre o fim do

século XIX e o início do século XX, numa colónia goesa em Bombaim (DEVI & SEABRA, 1971: 49).

186 «A curteza de vistas tem sido de tal ordem que se chegou a apoiar o ensino das línguas estrangeiras, sem que o

concanim merecesse a devida atenção. No ensino público, por exemplo, ministrava-se, em 1960, ensino misto português- marata em 4 estabelecimentos de ensino, e português-urdu em 12 escolas. Quanto a escolas particulares, em 1960 o Estado subsidiava 174 escolas em marata e apenas 47 em português. Até o número de escolas ministrando ensino em inglês, e subsidiadas pelo Governo, era superior aos das escolas em português, pois aquelas elevavam-se a 74, ao lado de 6 em urdu. E nem uma só escola em concanim, que é a língua da quase totalidade da população» (DEVI & SEABRA, 1971: 48).

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identidade cultural a que eles se referem, ao longo da história literária, é evasiva, da mesma forma que, como temos visto, é a aceção literatura indo-portuguesa.

O capítulo sucessivo, «Formação psicológica do povo goês», aborda o desnorteamento identitário causado pela conversão religiosa e o impacto da Igreja católica na evolução do génio goês. Isso problematiza, ainda mais, o âmbito em que tal identidade cultural é inscritível, sendo que parte da análise que Devi e Seabra elaboram concerne tanto o goês católico quanto o goês hindu. Por exemplo, com o fervor religioso que caracterizaria o «homo goanensis do nosso tempo» (DEVI & SEABRA, 1971: 69) – efeito exponencial da ação intimidatória da Inquisição –, eles referem-se à maneira sentida de viver a religiosidade do goês católico. Contudo, a transformação da índole goesa, devida às repercussões da conversão forçada na sociedade dos séculos XVI e XVII, na opinião dos autores, teria abrangido também a psicologia do goês hindu:

O goês católico, na verdade, é fervoroso, e ao mesmo tempo exclusivista. Enquanto que o hindu e o islamita de Goa respeitam e até por vezes veneram figuras cristãs, o católico goês continua ainda hoje, em pleno século XX, a chamar infiel ao muçulmano e pagão ao hindu, o que pouco contribui para o estabelecimento de uma paz social. Por outro, a estrutura social de Goa, um semifeudalismo agravado com a existência de castas, faz do Goês (e aqui não nos referimos apenas ao católico) um egotista fora do seu grupo socio-religioso, e dentro do seu grupo socio-religioso fora do seu clã, e dentro do seu clã fora do seu agregado familiar. Na realidade, é o que se passa em muitas sociedades de tipo misto capitalista-feudal, com relações de produção híbricas,187 mas

trata-se também de um fenómeno psicológico e social que assume proporções alarmantes quando as novas relações de produção de feição capitalista destruíram apenas os deveres de suzerania, mas mantendo os direitos e apropriando-se deles, e que, no caso particular de Goa, é extremamente agravado por quase três séculos de rigor teológico e perseguições religiosas. (DEVI & SEABRA, 1971: 69-70)

No decorrer da obra, o salto do goês católico para o goês hindu, ou, ainda mais frequente, para o goês genérico, é muitas vezes impercetível ou não referido. Embora eles falem de «traumatismo psicológico» só no caso do católico goês «que tinha de fingir um fervor que é possível muitas vezes não sentisse para que ninguém se lembrasse de lançar dúvidas sobre a pureza da sua fé» (DEVI & SEABRA, 1971: 78), a generalização que às vezes Devi e Seabra cumprem habilita a compreensão da identidade cultural goesa como algo comum a católicos e hindus. Fica para averiguar, no estudo dessa história literária, como a literatura indo-portuguesa possa ser simultaneamente o reflexo das duas entidades envolvidas.

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No quarto capítulo, «A Igreja e o seu papel preponderante na formação de uma cultura goesa» – o último dessa introdução quadripartida –, é enfatizado o papel da Igreja na «ressureição» (DEVI & SEABRA, 1971: 89) de uma superstrutura cultural188 em Goa, depois da destruição de todo o património textual em concani. «Principalmente os jesuítas dedicaram-se a essa ressurreição com maior entusiasmo» (DEVI & SEABRA, 1971: 89). O emprego do termo ressureição é contraditório, porque na realidade não se tratou de recuperar um repertório literário perdido, mas de constituir do zero um novo repertório religioso, com propósitos didáticos, tanto em português como nas línguas vernáculas, como no caso do Krista Purana do jesuíta inglês Thomas Stephens, escrito em concani e marata, levado como exemplo pelos autores. Além disso, eles realçam a fundação dos colégios e das escolas paroquiais, importante não só do ponto de vista didático, mas também pela possibilidade de produção literária, uma vez que essas instituições hospedaram as primeiras tipografias em Goa, como, por exemplo, o Colégio de São Paulo. À luz do esforço da Igreja na criação de um circuíto cultural em Goa – se bem que de cunho exclusivamente religioso e catequético –, Devi e Seabra chegam à seguinte conclusão:

Pode dizer-se que, na verdade, que a Igreja se penitenciou assim do erro que a cegueira da intolerância a fizera cometer ao mandar queimar os livros em concanim. O certo é que, depois disso, se o concanim sobreviveu literàriamente, à Igreja, e principalmente aos jesuítas, o deve. Pode dizer-se que os primeiros escritores em concanim foram sacerdotes cristãos, e nunca é de mais salientar o êxito, junto das massas, que teve o Purâna, de Thomas Estevão. Alguns autores chegam mesmo a defender a tese de que a literatura em concanim foi originada pelos sacerdotes cristãos e que antes da chegada dos Portugueses a língua literária de Goa seria o marata. Esta tese é principalmente defendida pelo Prof. A. K. Priolkar no prefácio da recente reedição do clássico concanim

Sancto Antónichy Acharyã, do padre António Saldanha.

Como vimos, as primeiras escolas foram fundadas em Cochim por Afonso de Albuquerque, com umas cartilhas que o rei lhe mandou. E, por carta régia de 1545, D. João III mandava que se fundassem escolas paroquiais em todas as aldeias da ilha de Goa onde houvesse cristãos, o que teve enormes influência na expansão da cultura lusitana, que, fundida com elementos culturais autóctones, viria a formar aquilo a que hoje chamaremos a cultura goesa. (DEVI & SEABRA, 1971: 92)

Por isso, na sua opinião, a nova cultura goesa seria em parte o produto da recuperação e reelaboração de algo preexistente à chegada dos portugueses – «elementos culturais autóctones» –, representada não apenas pelas línguas vernáculas, mas também pelas formas literárias, como o caso 188 A expressão «superestrutura cultural», conceito procedente da filosofia marxista, é utilizada pelos próprios autores no

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do Krista Purana que retoma a forma dos puranas hindus. Por outro lado, essa cultura seria composta por toda a literatura religiosa em português produzida com finalidade didática, sendo que a expulsão dos jesuítas de todo o império português significou, para os autores, um declínio cultural que teve fim apenas com a reativação da impressão e publicação em Goa em 1821.

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