4 Data Types
5.1 Type Declaration Statements
Os moradores contam de festas e folguedos ligados às datas religiosas e outros realizados em momentos de confraternização e brincadeira. Dona Zulmira relembra que:
“Fazia promessa pra São Gonçalo, quando dava no dia treze é rezá Santa Luzia, três de dezembro, janero é São Sebastião, junto de janero, fazê as promessa, e fazia os chá casero e a pessoa ficava bem”. Entretanto hoje, segundo a moradora, muitas dessas práticas estão esquecidas na comunidade:
Foi dexaaaando, largando de mããão, foram dexando de laaado, foi fazê as coisa mais diferente, e as coisa que fazia, foram dexando, como muitas outra coisa mais antiga acabô né. Não tem mais Roda de São Gonçalo, num tem mais súcia, quanta súcia eu num sambei!
Dona Zulmira me remete a alguns elementos presentes na cosmologia africana: o culto às divindades, o conhecimento sobre as propriedades das ervas, os festejos, a confraternização, como por exemplon a súcia, também chamada de samba pelos moradores mais antigos, é parte fundamental de festas religiosas realizadas na comunidade, a exemplo de outras comunidades tradicionais do Estado do Tocantins:
O súca? Ô, o súça veio que tem o Divino né e tem o Santo Reis, Santo Reis todos eles começava, quando chega cantá o canto dos Santo Reis, mas tem que tê o suça, é uma cultura né, eu falo que sim, na hora que tava que gira, que o Reis era assim antigamente , hoje não, hoje tá mais diferente um poco, mas nun tinha bandera, eles vinha caladinho, chegava ali ô (apontando para
o portão), bem cedinho cantá nas casa das pessoa, já programava, quando
dava fé tava eles batendo já, nego já na porta, e cantavum, uns levantava e outros não, as esmola já dexava, era tempo de meu pai, as esmola já dexava aonde eles pegava, a divindade, às veis ía lá, mas já no meu tempo eles entravam pra dentro, entra, canta lá fora, mas o canto é lá fora, não canta dentro de casa, mas pra dentro de casa tem que manda abrí a porta, cendê a luz né, então já na hora de acompanha com a súça.
De acordo com os relatos dos moradores a dança e a música eram atividades que envolviam e agregavam os moradores, que promoviam rodas de súcia ou samba, improvisavam instrumentos e confraternizavam juntos:
[...] pegava o berimbau pegava arco, fazia, amarrava as corda, que fazia as corda de violão hoje, que nós chamava berimbau, pegava juntava um e outro tudo dançando, não era sanfona e nem era som nenhum, era esse berimbau e divertia até tarde da noite, depois cada um ía pras suas casa, ía durmi, tinha Zé Torcínio, irmão do meu pai, fazia esse berimbau, fazia e eu tocava, nós dançava, tinha cada música de danaaaá, e tudo que pegava o rumo dançava, berimbau e divertiu muito.
Dona Odésia lembra com entusiasmo das rodas de súcia que participou e o envolvimento dos moradores:
A gente cantava assim brincando, mas pra profissionalizá mesmo não (risos), isso aí era mais com os homem lá, que eles batiam os zabumba, o pandero, e arrochava lá e a gente dançava. Mas dava que a gente gosta mesmo é da zoada, lá de todo mundo reunido, cada um qué gritá mais alto, pra animá bem, aí é assim...
As festas e reuniões que aconteciam antes na comunidade, foram com o passar do tempo esquecidas e não fazem mais parte do cotidiano. Quando conversamos sobre a súcia hoje na comunidade Dona Zulmira diz que as meninas não querem mais sambar:
Bota as menina nova pra sambá, eu pego, eu tenho neta, minha neta, a filha da Marlene, a sararazinha, falei pra ela: vamo sambá aqui, quando você fô sambá cadê? Mas uai, e tanto que eu sambei, olha aprendi sambá, eu mais comadi Djanira, nós era duas, só um batendo no tambô e nós pulando, nós pulando, qualquê samba assim que tinha nós pulava di dentro, nós saía de ponta, hoje não suço mais porque as perna não...
Dona Zulmira nos compromete em “botá as menina pra samba”, mas sua fala vai muito além do sambar literalmente, entendo que botá pra sambá é mergulhar na memória, é enfiar o corpo por inteiro no chão da memória e da história da comunidade, é se entregar ao toque do zabumba, do pandeiro, com os pés no chão fazer estremecer a terra, a vida e recriar o sentido que envolve o corpo, o visível e o invisível, o visto e o sentido, envolvendo as
crianças na ancestralidade de sua história. De acordo com Macedo (2015) é essencialmente na infância que os valores socioculturais são potentemente transmitidos e utilizados nos processos internos constitutivos da criança, ou seja: “crescer entre as narrativas, entre as histórias que compõem a tradição oral de uma cultura, dentro e fora do contexto escolar, é essencial no processo educacional”. (p.49), conceito este muito bem elaborado também por Dona Zulmira quando me diz que é preciso botá as menina pra sambá.
Petit (2015) ressalta que a cosmovisão africana e a tradição oral, historicamente desvalorizadas no Brasil, não são ensinadas na educação formal, o contato que as crianças estabelecem com suas tradições acaba por se concretizando no espaço familiar e comunitário, segundo a autora “nas práticas religiosas, nas práticas de solidariedade, entre grupos comunitários, em artes tradicionais (artesanais), festas populares e em toda sorte de brincadeiras que envolvem o coletivo.”
Esta percepção pode ser reforçada quando Costa afirma que: Fé, ancestralidade, sagrado, historicidade, oralidade, comunitarismo, hierarquia, ritual, tradição, alegria e devoção fazem parte da pedagogia que se configura nesses espaços. (p.40. 2011), faz-se assim necessário, trazer essas vivências, essas experiências e histórias para dentro da sala de aula, por meio da tradição oral e da cosmogonia que constitui a comunidade, botando as
menina pra sambá.