4 Data Types
4.1 Data Type Selection
Ver um altar da Roda de São Gonçalo remete a Bastide (1985, p.229) e sua descrição minuciosa das formas de resistência e de permanência dos ritos africanos em diferentes tempos e lugares no Brasil Colônia:
Os santos foram máscaras brancas colocadas nos rostos negros das divindades ancestrais. [...] O segredo não era uma medida de proteção suficiente para a sobrevivência dos calundus; invasões da milícia ou da polícia podiam, a cada instante, interromper o cerimonial; era preciso, portanto, dissimular o mais possível aos olhos dos brancos o caráter africano do culto que aí se rendia, colocando sobre o pegi, onde as pedras de santo consumiam as oferendas, um altar católico, enfeitado com flores de papel, toalhas brancas, imagens e pinturas de santos. Escolhiam-se evidentemente os santos que mais se aproximavam das divindades verdadeiramente adoradas, mas os cânticos que subiam ao altar iluminado de velas eram dirigidos de fato a Ogum e não a São Jorge, a Omulu e não a São Lázaro. A imagem que a comunidade utiliza na Roda, é a de São Gonçalo Violeiro. Nessa representação o santo é um homem usando chapéu preto, uma viola nas mãos e uma capa marrom, que cobre uma camisa verde e uma calça azul, o traje acompanha uma bota na cor preta. De acordo com a tradição oral, era essa a roupa usada por São Gonçalo em suas andanças pelos vilarejos por onde passava, em sua vida eremita, bebendo dançando e tocando violão, em grandes rodas de viola
Ao entardecer, antes do início da Roda, o grupo realiza um ensaio geral, conduzido pelos mestres, que repassam as diversas partes da dança, a importância do ensaio, segundo eles, é para que nada dê errado na homenagem ao santo, uma vez que a promessa deve ser cumprida a contento.
Ao cair da noite começam a chegar os primeiros participantes, gradativamente a comunidade fica repleta de pessoas, que chegam em carros, camionetas, motos, cavalos, bicicletas ou a pé. São moradores dos vilarejos vizinhos, do povoado de Canabrava, da cidade de Arraias e Campos Belos.
O primeiro momento da festividade é a janta, que é servida na casa de um dos moradores, lá se inicia o rito com os Mestres, tocadores e rodeiras se servindo em primeiro lugar, isso acontece após a oração inicial chamada de Benditinho, a oração cantada precede o momento em que os guias e rodeiras se servem, na sequência as crianças são servidas e a partir daí os demais participantes vão gradativamente entrando na casa e se servindo até que todos tenham jantado e estejam satisfeitos.
Assim que todos terminam as mulheres recolhem os utensílios que estavam dispostos para a janta, o guia-mestre coloca três potes de farinha sobre a mesa acompanhados cada um
deles de uma faca um garfo dispostos em forma de cruz. Esses elementos simbolizam que o pagador da promessa deu o alimento na presença de São Gonçalo e que todos comeram e ficaram satisfeitos. Esse ritual é cumprido invariavelmente em todas as Rodas que são realizadas na comunidade. Nesse sentido o caráter ritualístico da roda pode ser percebido na sacralização dos espaços, dos objetos e dos signos, o que se evidencia em todas as etapas do festejo. Nesse aspecto Abib (2005, p. 99) pontua a relevância do rito nas comunidades tradicionais e suas manifestações culturais:
A função do ritual, presente na maioria das manifestações tradicionais da cultura popular, é de suma importância, pois motiva os sujeitos a se debruçarem sobre o passado em busca dos marcos temporais ou especiais, que se constituem nas referências reais da lembrança. É o ritual que permite a transposição do aqui e do agora para tempos imemoráveis, para locais sagrados, com a arché, enquanto origem, enquanto fonte continuamente suscitadora de sentidos.
Pode-se perceber essa ritualidade nas festas públicas realizadas também nas religiões de matriz africana, o banquete sagrado é servido fartamente a todos os presentes.
Após o jantar, as rodeiras e os Guias iniciam sua preparação para a Roda colocando suas roupas litúrgicas. As mulheres se vestem com camisa e saia brancas, os Guias usam camisa e calça também brancas. Todos os participantes utilizam uma fita vermelha que é colocada cruzando um dos ombros e amarrada na cintura. A roupa litúrgica, assim como em outras expressões religiosas de matriz africana tem um forte significado. A roupa é mais do que uma paramentação, é extensão do corpo das rodeiras, assim como os arcos, cada uma tem sua roupa e sua fita que, de acordo com Edna (rodeira de São Gonçalo, merendeira da escola), é uma fita de reverência, como se fosse o cordão de São Francisco e vai tudo junto no caixão.
De forma que as rodeiras têm que ter aqueles vestido só pra aquele assunto e um vestido social, que o dia que morre enterra com ele, é tradição. Edna continua dizendo que sempre
participou da Roda, diz que desde antigamente a roupa das rodeiras não passa para outra pessoa, “cada rodeira tem a sua roupa” diz também que “antigamente toda rodeira era
enterrada com a roupa e com a fita (cordão)”, conta também que Dona Maria Dias (parteira
da comunidade) lhe pediu que quando fizesse a passagem fosse enterrada com sua roupa (de rodeira). “É o desejo, a vontade dela, tem que respeitar” complementa.
Nesse aspecto me reporto à relação que a roupa nas expressões culturais e religiosas de matriz africana exercem nas cerimônias e celebrações, existem sentidos e significados nos tecidos, nas cores, nas indumentárias, nos momentos que são usadas e como são usadas. As pessoas se reconhecem e são identificadas a partir da roupa litúrgica que vestem. Assim, a
roupa além de ser parte inalienável nos ritos, ainda tem estreita relação com as passagens de vida e de morte.
FOTO 14: Roda de São Gonçalo