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Structure Constructor

Dans le document The Fortran 2003 Handbook (Page 115-118)

4 Data Types

4.3 Intrinsic Types

4.4.15 Structure Constructor

A primeira pessoa com quem tive a oportunidade de conversar foi Seu Marcos, que aguardava o ônibus que o levaria para Arraias. Nessa conversa Seu Marcos lembrou que antes havia mais chuva, e que antigamente na comunidade o plantio era todo realizado manualmente, com enxada e em trabalhos coletivos. Conta que se juntavam quatro ou cinco covieiros, abriam a mata, queimavam, capinavam e coviavam a terra, e que exceto os espaços de plantio, o restante era todo de mata fechada. Falou de sua preocupação é com o excesso de veneno que é usado no entorno da comunidade, nas lavouras das fazendas da região, o que pode ser sentido, segundo ele, pelo forte cheiro que toma conta de tudo. Nossa conversa foi interrompida pela chegada do ônibus, Seu Marcos iria passar uns dias na cidade em função dos festejos que estavam acontecendo em Arraias, mas combinamos de voltar a conversar em outra oportunidade.

Segui pela estrada e cheguei à casa de Dona Odésia, expliquei a ela o motivo de minha visita, nos sentamos em um grande banco de madeira ao lado da casa e ali conversamos longamente em companhia de seu esposo e filhos. Dona Odésia, mulher de grande participação na comunidade, empreende, junto com outras moradoras e moradores, uma árdua luta na manutenção do território e pela garantia de seus direitos. De acordo com sua percepção afirma que aquilo que:

“Hoje pra nós é cultura, antigamente era uma obrigação, que a gente tinha que pisá o arroz, tinha que rancá, rela a mandioca pra secá no tapiti25, cessá na penera, fazê o bejú, hoje em dia a milharina pronta, o porvilho pronto, quem é que vai aprendê fazê as coisa velha? Sendo que tem bem mais fácil hoje? (risos.)

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Tapiti é um tubo com aproximadamente dois metros de comprimento, feito artesanalmente com a palha do buriti trançada, era utilizado para retirar o excesso de água da massa da mandioca, sendo pendurado com um peso na ponta para escoar a água e resíduos durante o processo de secagem da massa.

Dona Odésia conta que antigamente, mesmo tendo que limpar sacas e sacas de arroz e pilar para poder limpar os grãos, ainda prefere essa forma de fazer porque segundo ela: não

tinha gostinho ruim, o fubazinho tirado no pilão era bem mais gostoso. E continua dizendo

que as facilidades da modernidade não superam o sabor dos produtos feitos artesanalmente:

Hummm, a farinha feita no ralo e enxugada no tipiti é bem melhó do que a da oficina, qualquê lugar que fizé ela é mais gostosa. Mas na oficina é mais rápido, e vai esquecendo as tradição, os custume...

Segundo Dona Odésia uma grande preocupação da comunidade é com os jovens e suas possibilidades de viver na comunidade, uma vez que segundo ela: Aqui se vê que não tem

como a pessoa ficá aqui, e aqui não tem meio de sobrevivência, claro que eles tem que saí, todos nós tem que buscá mesmo uma coisa melhó, pra frente. E depois de uma longa pausa

afirma:

Eu gostaria que tivesse, no menos tivesse assim, um desenvolvimento melhó, se tivesse, buscasse um projeto, como tem muito jovem aí, que já terminô o primero ano. Eu mesmo sô uma, eu mesmo sô exemplo, que faz dois anso que terminô (se referindo a um dos filhos) tá aí, porque saí pra onde? O desemprego tá demais, e aqui? Vive aqui de quê né? Esse que é problema, enquanto eu estiver bem, você aqui tá comigo, não vô querê que você saia aí no mundo, de qualquer forma, eu não quero isso pra ele, eu queria que aqui dentro tivesse, tem ali na Cana Brava, ali já era pra tê bastante desenvolvimento, pra muita coisa, pra muito jovem.

Dona Odésia avalia que os problemas enfrentados pela Associação de Moradores da Comunidade e os conflitos internos em função das opiniões divergentes quanto ao reconhecimento como Comunidade Quilombola pelo INCRA, de certa forma desestabilizou a luta por melhores condições de vida e trouxe retrocesso à comunidade.

Aqui não era pra sê essa Lagoa de Pedra, era pra sê OUTRA Lagoa de Pedra, porque a gente correu, que bem lembra você mesma, que a muitos e muitos tempo a gente vem correndo em busca de melhora pra cá, e eu não sei qual motivo, em vez de levantá, afundô. (longa pausa) ela fez foi afundá, parece que era pra corrê pro benefício pra frente, fez foi corrê pra traz. A gente não sabe onde tá e nem por que. E aqui era pra tá bem melhô, ficô pió.

Quando pergunto se, em sua avaliação, a situação da comunidade está piorando, a moradora confirma dizendo: Tá, eu acho eu sim, eu acho não. Tá na cara de todo mundo, tá

vendo que não tá melhorando, tá é quase voltando o tipo de antes. Dona Odésia avalia que

com o reconhecimento a comunidade teve grandes conquistas a partir da mobilização e união dos moradores, que representados pela Associação de Moradores conseguiram trazer benefícios significativos para melhorar as condições de vida, mas que, após os conflitos

internos a comunidade estagnou por um determinado tempo e que agora parece retroceder em suas conquistas:

É, tá voltando. Ela começo desenvolvê, e agora eu tô sentindo que parece que ela tá voltando e quando ela voltá ao tempo de antes, ela não vai voltá igual, ela vai voltá pior. Porque naquela época - de antes- a gente era acostumado a fazê isso tudo que eu tô falando pra você, e hoje as pessoas que eram costumada a fazê as coisas tudo manual, grosseiro, já não existe, e os que existe num aguenta e os novo num sabe.

Pergunto para Dona Odésia que caminhos ela acredita que a comunidade tomará diante das dificuldades que os moradores vem encontrando e ela é enfática em afirmar:

Sobrevivê como? Que se ela chegá a voltá o tempo de antes, ela vai volta pior, e vai acabá, que um jovem desse aí (apontando com a cabeça para um

dos filhos). Sse chega a voltá o tempo de antes, ele não sabe fazê as coisas

que eu sabia fazê. E aí como é que ele vai sobrevivê? Já é: Vô tê que mudá daqui. Não é isso que vai acontecê? Não tem como você fazer um projeto, quando faz assim aqueles projeto agrícola, que fazia, num tá chovendo, ultimamente já tá com dois ano seguido que roça aqui perde, aí fica difícil, vai ficando cada vez mais difícil. Ano passado mesmo nem pro consumo, nada, nada, nada.

Dona Odésia fala da importância do desenvolvimento de projetos que recuperassem a água, porque, de acordo com a moradora, sem água nada pode ser feito e os recursos hídricos estão cada vez mais escassos:

Cabô, cabô tudo, tem uma ali ainda ôi esbarrancô, aí não limpô... começamos lá o ano passado, a gente cerco lá, fizeram uma associação aí, cercô, essa lá se limpa, ela brota água, mas o que eu acabei de falá inda agora? Se a lagoa da Pedra voltá ao tempo de antes, ela num ia voltá mais ruim? Se voltá o tempo de antes, de pegá água no pote, já vai voltá mais ruim do que era, porque a gente já tava acostumado com a água, ía lá e não dexava a cacimba acabá, e hoje nem lugá de abri cacimba não tem mais.

A moradora diz também que as águas das cacimbas estão comprometidas pela contaminação das fossas, e que em função disso não servem mais para o consumo, essa é a mesma avaliação de Dona Zulmira. Com a água do poço salobra e com nível muito baixo, as cacimbas e nascentes contaminadas, o que resta à comunidade para tomar é a água da chuva, armazenada nas cisternas que foram distribuídas nas propriedades rurais no ano passado, pelo Governo Federal.

Durante nossa conversa a moradora revela sua preocupação com os rumos da comunidade e o futuro das próximas gerações frente à realidade que vem se desenhando:

E aí entonce Lagoa de Pedra, Deus nunca há de dexá acontece, mas se ela voltá ao tempo de antes, é como se diz: que Deus tenha misericórdia dessas crianças de dez, doze anos que tão crescendo (grande pausa), a gente torçe

pra que elas sejam uma Lagoa da Pedra, continue melhorando daqui pra frente.

Estas preocupações são compartilhadas por Dona Zulmira que também me chama a atenção para a contaminação das cacimbas e olhos d`agua em função das fossas: E aqui nós tá

na cacimba aí filha e ali tem olho d`agua, dava a gente carreá na cabeça igual nós carreava, eu já não carreio que eu já tô um bagaço, mais depois que fez esses banhero aí pra cima ninguém quis mais, fica ruim num fica?

Nascida e criada na comunidade, Dona Zulmira, com 68 anos, diz que algumas coisas que chegaram à comunidade não foram incorporadas em seu cotidiano, por exemplo, os banheiros, que, construídos nas outras casas são utilizados pelos moradores, ao contrário de Dona Zulmira que mesmo tendo um também construído em sua casa, não o utiliza.

Além do uso do banheiro ressalta que os modos de produção utilizados antigamente garantiam uma maior qualidade de vida, exemplifica falando da produção da cachaça e do fumo. Segundo Dona Zulmira seu avó tinha um alambique e produzia a cachaça artesanalmente: E meu avó, eu fico assim pensando: como é que o povo hoje ficô! Meu avó morreu caquinho,ó, velhinho, se ele num alcançô os cem ano tava berando de fazê, igual a minha vó, e bebia qui... Eles tinha alambiqui!

Dona Zulmira conta que o modo de produção da cachaça atualmente é muito diferente daquela produzida artesanalmente pela comunidade nos tempos passados, e também que a quantidade de produtos que são adicionados para acelerar a fermentação da cachaça é o que faz mal a saúde.

Hoje bebe que perde o sentido, a mistura, é mistura, a misturada. Mas nós botava era milho, torrava o milho e colocava lá no cocho, aquele milho azedava, tirava, pegava, botava, num sei como é que eles enchia, jogava lá dentro da garrafa, puro e hoje não, eles põe, nós vê falá que põe até soda pra modo de chega ligero.

Pergunto para Dona Zulmira como se fazia a produção da cachaça a partir do milho e ela então detalha como era produzida a cachaça por seus antepassados.

Azeda, pode sê o milho sem triturá mesmo, dexa lá azedá, depois quebra, pode ralá, azedá, vai lá depois faz tipo um fermento né, jogava no cocho, arriava, mexia com sal, cachaça, num tinha nada de mistura de nada e hoje né! Junta muita coisa e é por isso que ficô ruim demais num é? Fica doido, morre!

Dona Zulmira alerta que as mesmas mudanças na produção da cachaça também aconteceram na produção da olha de fumo. Segundo a moradora antigamente as pessoas

plantavam o fumo e as plantações eram livres de agrotóxico, o que já não acontece atualmente, segundo ela o fumo já recebe veneno no início da produção e não é a folha pura

como se plantava e colhia antigamente.

Além da produção do fumo, Dona Zulmira diz que percebe uma grande diferença no plantio de outras culturas também, a exemplo do arroz e do feijão, que eram plantados manualmente. Segundo ela dessa forma havia uma maior rentabilidade na produção dos grãos:

Mas de alguns anos pra cá é que nóis veio conhece essa tal da plantadeira que joga dentro e sai plantando, era nos braço e plantava e colhia era muito. Arroz? Ninguém fazia esses negócio di estiva não, fazia esse negócio de saca, hoje é saca, tirava o saco, não é mais complicado, espalhava todinha ela, nós pegava saia todinha fazendo aquelas troxa, aquela ruma de arroz, começava a fazê o cupim, rodiava, rodiava, rodiava até lá em cima.

Com relação aos grãos beneficados nos cilos, Dona Zulmira diz que a qualidade é muito diferente daqueles pilados em casa, e como nos últimos anos, em decorrência das secas, a comunidade não conseguiu produzir para o próprio consumo, assim os moradores estão comprando os alimentos nos mercados:

Eu num posso comprá aquele arroz limpo, empacotado, eles come com boca boa e eu sinto parece que esse trem não me sustenta não! Parece que tá fraco o arroz, mas é nada, é o costume, comê arroz pilado do pilão, um arroz feio né, encardido, não fica limpo igual. Eu digo: Fio, cozinha de lá, que eu cozinho de cá, minha panelinha aqui. Agora eu tô com medo, sabê de onde vem, de onde é que colheu né, e esse ano num teve, estranho né, já tá com muitos anos que tem seca, às vez tem a seca mermo, mas pra ficá de tudinho assim, sem ninguém colhê arroz não ficô, e aqui esse ano ficô.

Além dos alimentos cultivados na comunidade e livres de agrotóxico, conversamos também sobre a importância da medicina natural, e que, atualmente, as pessoas recorrem aos médicos até em caso de gripe. Segundo a moradora muitas vezes os remédios de farmácia apenas disfarçam os sintomas da gripe e não a eliminam do organismo: Bom, melhora rápido,

às vez, mas às vez até melhora antes da hora que fica guardada, fica guardada, corta logo ali, pronto. Ah melhorei, a cabeça aliviô, dói mais não! Mas ela ficô guardada na cabeça, pensa que não, ela lá vem outra vez.

Converso também com outro morador, Seu Otávio, nascido e criado na comunidade, hoje com 72 anos, ele rememora algumas de suas lembranças, que em sua fala parecem meio embotadas, isso por conta de um AVC que sofreu: a cabeça não ficô mais completa como era,

eu num fiquei no sentido ainda. Mesmo assim Seu Otávio concorda em conversarmos um

Seu Otávio diz ter observado que os jovens têm ido embora da comunidade e segundo sua análise o motivo é a falta de perspectivas futuras: “Porque num se arranja emprego,

então fica meio complicado, estudá, formá, pra i pra roça ninguém quê”? Como diz: vai ficá mesmo pruns velho que num tem pra onde saí, tem que fica é aqui mesmo.

Segundo Seu Otávio há muita resistência dos mais jovens em ouvir as experiências e ensinamentos dos mais velhos: eles hoje com coisa de ter as experiência mais, eles quê dizê

que esses vélho é conversando sem sabê de nada, não adianta a gente falá algumas coisa, porque eles acredita no que tá se passando hoje. E continua afirmando que, quanto mais

jovens, maior é a resistência em ouvir o ensinamentos dos mais antigos, sua fala revela também o movimento de permanências e rupturas que são inerentes às comunidades e a sua sobrevivência :

Difícil, é difícil, é difícil, eu acho difícil, alguns ainda entende, outros não, alguns mais velho é que sempre continua do mesmo jeito que era, mudô muitas coisa, porque ou queira ou não queira, tem que mudá, mas nem toda as coisa.

Pergunto então ao mais velho, o que, em sua concepção, não poderia mudar na comunidade e Seu Otávio então fala de uma realidade já relatada por outros moradores, que é a venda de parte do território pelos moradores para outras pessoas, de fora da comunidade, abrindo mão, muitas vezes, do lugar de produção de seu próprio sustento.

Num tem como mudá porque...olha o plantio da gente, porque tem gente que vende as arinha (área de terra) que tem e vai pra cidade, eu acho que não pode, não é de acerto, a gente tem que plantá o da gente pra favorecê algumas coisa, vivê só do comprá só é meio complicado, eu tenho ajuda dos idoso, os que tão aposento, mas mesmo assim não dá pra resolvê tudo que quer, dá não.

A fala de Seu Otávio nos remete a uma realidade que perdura há anos nas áreas rurais, a especulação fundiária, a ausência de perspectivas e a invasão dos territórios das comunidades tradicionais pelos latifundiários que desconsideram as relações de territorialidade dessas populações e seus vínculos com o lugar que habitam.

Os moradores falam das mudanças e permanências que percebem na comunidade, ou seja, as comunidades tradicionais mantêm práticas e elementos de sua ancestralidade, mas também ressemantizam com sagacidade outras formas de ser e fazer, sem entretanto, descaracterizarem-se. Ou seja: mesmo que depois eles volta em busca daquilo que passô

muitos e muitos anos, mas que a vontade é de segui pra frente é e sim, claro que tá certo.(

cada cultura tem suas raízes, raízes estas, que são dinâmicas e históricas, não fixando as pessoas em determinado padrão cultural engessado.

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