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Array Constructors

Dans le document The Fortran 2003 Handbook (Page 118-125)

4 Data Types

4.5 Array Constructors

Busquei com os mais velhos também pinçar memórias sobre as brincadeiras que fizeram parte de sua infância. Dona Zulmira, entre gargalhadas, me contou como se brincava em seu tempo de meninice, falou então saudosa, das brincadeiras que agregavam muitas crianças da comunidade, a exemplo da Roda de Munturo, que ela descreve como sendo assim:

Nós se juntava, um bocado, era eu, essa comadre Mariinha, comadre Josefa e juntava os mais velho e os mais novo, buniiiito, juntava, pegava no braço pra dança roda de munturu. Era brincá assim: um juntava de um lado, outra do outro, uma ficava sozinha né, e outra ficava do outro lado, ficava com um bocado de menino arrodiado, e a que tava sozinha era a rica, cantava, como é que é? Eu sô pobre, pobre, pobre de mavé, mavé, mavé. A rica: Eu sô rica, rica, rica de mavé, mavé, mavé, dizei o nome de seus filho. Eu só sei que tira um di cá, seus filho, aí passava pra outra, pra que não tinha nenhum, eu esqueci as música tudo, era bunito, e acabava que a que tava pobre ficava sozinha e a que era rica ficava toda cheia de mininu, e tudo era graça! Era pra fazê graça.

Relembrando sua infância, as brincadeiras de roda, o agrupamento de meninas e meninos nos jogos coletivos, mas também a rotina de trabalho que as crianças tinham e as responsabilidades partilhadas com os adultos nos fazeres domésticos e na roça, Dona odésia fala que sua infância foi muito diferente em relação à infância que as crianças têm hoje na comunidade.

Na época que eu fui criança, eu fui uma criança muito cheia de trabalho, a gente num tinha tempo de tá brincando, estusiano as coisas né, porque a 40, 50, até 30 anos atrás os pais, eles eram mais cuidadosos, mais rígido com as pessoas né, com os filho. Então era o seguinte: se ía um poco pra escola quem tinha idade de estuda, chegava da escola, ía pro trabalho, se não fosse pra escola ía era trabalhá, era tipo assim vamô supô: trabalho escravo né? Que hoje não, hoje a criança tem o direito de ir pro colégio, tem o direito de ír, é lei, de chegá, brinca, expressá as suas idéias, e antes nós não tinha esse direito, então por isso a gente também não aprendeu muita coisa, a gente lembra, mas muito poco. Eu brincava de cambota, eu acho que você lembra de cambota. (risos)

Ela lembra as brincadeiras que faziam nas poucas horas de lazer, como fazer cambota, pular corda, pular elástico e fazer boneca de pano, o que ela confirma que faz até hoje: Fazia

de pano mesmo, até hoje ainda faço, fiz aquela... não tem aquela novela? Velho Chico? E aí tem uma senhora Dona Encarnação? Aí fui olhando pra ela e fazendo uma boneca.

Enquanto aguarda seu marido pegar a boneca em cima do guarda-roupa para me mostrar, Dona Odésia relembra os outros brinquedos e brincadeiras de sua infância.

[...] às vez tinha umas brincadeira que a gente brincava de bonequinha de sabugo, porque fazia de pano, não tinha condições de comprá do mercado, nós marrava um sabugo. Fazia boneca de sabugo pra podê brincá, rasgava tira de pano, embolava, marrava de novo, fazia um vestido, a gente brincava era assim, fazia casinha no mato, cortava as rama, fazia as casa, fazia as panelinha de barro, que era as loiça, as mobília.

Dona Odésia relembra que antigamente na comunidade era comum o uso de barro na confecção de brinquedos e outros objetos, e que construíam diferentes utensílios, entretanto fala que hoje não encontram mais esse barro na comunidade: “Tem que se um barro...ele é

visguento assim, a gente cola,é pra fazê forno de farinha”.

A moradora conta que há um tempo, no período das águas, quando estava com a família limpando uma cacimba, encontrou um pouco desse barro branco e com ele confeccionou um pote. Ela pede ao marido que pegue o potinho de barro no armário da cozinha e me dá de presente. Enquanto aguardamos ela relembra o que faziam com o barro na infância:

“Fazia prato, panela, cuscuzero. Esse aqui eu fiz ele nas água agora, nós caçando uma cacimba ali, eu arranjei esse trem, eu falei: ô menino, era assim que nós fazia pote prá brincá. Tava limpando a cacimba, foi bem lá, saiu esse barrinho lá, eu peguei e fiz esse potinho, eu falei, dexei ele lá secando, aí era os brinquedo meu, eu guardei ele como brinquedo mesmo”.

Olhando para os filhos e para uma das filhas, Dona Odésia relembra que em sua infância não havia separação entre as brincadeiras de meninos e meninas, todos brincavam juntos, sem a imposição de brincadeiras a partir do gênero, como relata:

Era assim que a gente brincava, fazia as loiça, fazia carrinho de boi, brincava, não era só mais as menina mulher não! Porque aonde eu fui criada eu não brincava só com menina mulher. Tinha um companheiro, um menino, então tanto ele brincava com a boneca mais eu, mas eu brincava com os brinquedo masculino mais ele. Nós fazia carrinho de buriti, carro de boi, fazia engenho, fazia a canga, pegava uma tora de sabugo, do braço do burit verde pra pôr no carro, que não tinha os burro, ia fazê o boi, era cavalo de pau. Olha bem: brinquei muito de cavalo de pau, a mãe brigava muito né, que diz que falava assim: essa é fema, agora correndo com essa tora de pau entre perna discarrerando na estrada. Pra nós era uma diversão né, tava nem aí, tava bonito, a gente tava feliz.

A relação que se estabelecia com o corpo e com as atribuições a partir do gênero, embora tivessem a definição de atividades, não parecem estar pautadas na hierarquização do papel da mulher e do homem na comunidade. O olhar sobre o corpo nos remete às inferências de Fanon (2008) sobre a diferença da construção da sexualidade no branco europeu e na cultura africana, bem como a relação que se estabece com o corpo a partir dessas concepções.

Essa afirmativa é perceptível na fala de Dona Zulmira quando se reporta a sua infância na comunidade:

“Brincavam junto, não tinha reparo nenhum, hoje tem muito reparo, tem muita coisa pió, porque hoje um menino homem hoje não pode vê mais uma criancinha pelada né, e aquele tempo não, no tempo podia, grandona... nós ficavu nu, era que nem índio, não tinha esse negócio de repará, eu falei que num tinha maldade, hoje se não fô trancafiado é uma coisa, que eu acho, ficô mais ruim mais violência.”

As lembranças dessa mais velha me fazem lembar das palavras de Mãe Beata quando explica que “no terreiro as crianças crescem partilhando o amor, as coisas do seu Egbé, aprendem fundamentalmente a respeitar a ancestralidade”. E continua: “Aqui respeitamos todas as diferenças, e isso é partilhado desde sempre com as crianças de nosso terreiro, ninguém discrimina negro ou branco, ninguém discrimina a mulher”. (Caputo, 2012, p. 135). Os princípios a que se refer Mãe Beata me parecem traduzidos e congluentes com a descrição que Dona Zulmira faz da relação que havia na comunidade, sem botar reparo uns nos outros.

A mudança nas relações interpessoais e nas formas de brincar a que refere Dona Zulmira é compartilhada por Dona Odésia quando ressalta que, hoje em dia, as crianças não brincam mais como antigamente:

Eu não vejo as crianças brincando como brincava antigamente, o meu ali, eu tenho dois menino, nós com 12 ano tava no mato brincando, hoje preocupa né, eu tenho que fazê uma tarefa, eu tenho que acessá aqui a internet pra buscá uma coisa, buscá uma informação nova, o passado pra eles, isso já passaram, eles quê coisa daqui pra frente, eles não vão querê oiá lá trás. (risos)

Seu Marcos complementa dizendo que quando mais jovem as brincadeiras eram muito diferentes de hoje, segundo ele as crianças não brincam mais e que tudo era mata, onde as crianças brincavam se agarrando em cipós: “eu vivia com o facão na mão prá mod’cortá cipó

pros menino balançá”.

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