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Antes de adentrar por fim o terreno dos dois mais ilustres exemplos de perfis da revista The New Yorker, o de Joseph Mitchell (O segredo de Joe Gould) e o de John Hersey (Hiroshima), volto ao ponto de lá atrás, levantado a partir do comentário de Remnick (Passos, 2017, p. 24) sobre as origens do termo “perfil”, que ele associa a uma sugestão do repórter James Kevin McGuiness a Harold Ross. De lá para cá, em mais de um momento nos aproximamos de leve de David Remnick, sobre quem já sabemos que é o quinto e atual editor-chefe da The New Yorker: assumiu em 1998, aos 39 anos, depois de Harold Ross, o fundador (entre 1925 e 1951, quando faleceu), William Shawn (1951 a 1987, quando a revista passou para o grupo editorial Condé Nast), Robert Gottlieb (1987 a 1992) e Tina Brawn (1992 a 1998). Repórter do The Washington Post por dez anos (a partir de 1982), quatro dos quais como correspondente em Moscou, Remnick entrou para a The New Yorker em 1992 depois de Tina Brown (1993 a 1998), uma editora-chefe de quem João Moreira Salles parece não gostar nem um pouco:
Bum. A mulher era uma espoleta. Aos olhos da velha guarda, sua indicação para o cargo de editora-chefe da New Yorker equivaleria assim a Joãozinho Trinta ser empossado no papel de diretor artístico do Teatro Municipal” [...]. A revista abandonou os seus bons modos. [...] Tina Brown fez o impensável: transformou a veneranda senhora numa revista picante, profana, contingente, ruidosa, fútil, escandalosa e insolente. A festa durou cinco anos, até 1998, quando Brown pediu as contas e foi para Hollywood fundar uma revista (fracassada) (MOREIRA SALLES, 2006, p. 567-568).
Único dos cinco editores-chefes com formação e experiência de repórter, Remnick assumiria o seu atual posto nesta que “talvez seja a revista semanal mais admirada do mundo”74 em meio a esse “Fla X Flu cultural” para, com seu estilo, pôr
ordem na casa, sempre de acordo com Moreira Salles. Alguma coisa boa, no entanto, parece que Tina Brown teve – só para lembrar, “The mountains of pi”, de Richard Preston, foi publicado na gestão dela.
Tina Brown teve o mérito de espanar a poeira que cobria a revista e trazer sangue novo para a casa, mas seu maior talento era farejar pessoas e temas que seriam novidade no dia seguinte, mesmo que por apenas duas semanas. Remnick, ao contrário, é antes de tudo repórter. Isso é essencial para compreender os rumos da New Yorker nos últimos anos, bem como a natureza dos textos desta coletânea [Dentro da floresta]. Até ser alçado ao topo da revista, Remnick foi extraordinariamente prolífico. Todos os textos de Dentro da floresta foram escritos para a revista que hoje dirige (MOREIRA SALLES, 2006, p. 568-569).
Remnick, “mais clássico do que Brown”, faz os textos voltarem a adquirir todo o espaço de que precisavam antigamente – e de novo estou aqui me referindo às condições superfavoráveis ao trabalho com grandes-reportagens e perfis na revista, como já sabemos. A apuração voltou a ser valorizada. Os autores também voltaram a ganhar o título de escritores, e não de jornalistas. O tempo de produção de uma matéria pode agora de novo durar meses. “Não há quase artigos sobre celebridades. Do ponto de vista gráfico, houve o retorno a uma certa concepção cautelosa de civilidade e bom gosto – mais Sempé e (bem) menos Art Spiegelman, o grande artista gráfico trazido por Brown.” Os “artigos” (na acepção dos Estados Unidos) voltaram a adquirir o espírito de “histórias”, que é a palavra que o fundador e primeiro editor-chefe, Harold Ross, gostava de utilizar para
74 “Se hesito em afirmar peremptoriamente que sim, é porque existe a The Economist, a única que lhe faz concorrência em prestígio. [...] pode-se dizer que a Economist é mais útil, enquanto a New Yorker é mais sábia” (MOREIRA SALLES, 2006, p. 568).
demarcar a “diferença entre o que permanece e o que se vai” (MOREIRA SALLES, 2006, p. 569).
A personalidade do repórter que assume a editoria-chefe da gigante entre as revistas de jornalismo ainda vivas no mundo de hoje se dá também a conhecer em obras de autoria autônoma que adquiriram fama nos Estados Unidos e fora do país. Ele publicou Lenin’s tomb: the last days of the Soviet Empire (1994, prêmio Pulitzer), King of the world (1999, O rei do mundo, publicado pela Companhia das Letras, traz a biografia de Muhammad Ali, o maior lutador de boxe de todos os tempos) e The bridge: the life and rise of Barack Obama (2011).
O caso de amor entre Remnick, a The New Yorker e – também, embora não só – o perfil jornalístico é bastante perceptível em vários lançamentos dos últimos anos. Em parte pode valer para si mesmo, hoje na revista, o que ele diz em outro contexto sobre o seu trabalho no The Washington Post, quando afirma na Introdução a Dentro da floresta que “trabalhava para um jornal que ainda desfrutava do glamour residual de suas proezas relacionadas com o caso Watergate” (REMNICK, 2006, p. 12) – o escândalo que abalou a vida política dos Estados Unidos no início dos anos 1970 (a primeira reportagem do Washington Post foi em 1972), culminando na renúncia do presidente Richard Nixon em 1974.
Pode-se discutir até que ponto Remnick se vale de algum “glamour residual” da The New Yorker e se é possível usar aqui o termo “resíduo”, mas não é fácil negar o fato de que o prestígio de que a revista goza está na raiz da ideia do lançamento de várias coletâneas que o novo editor-chefe publicou desde o início dos anos 2000. Em 2001 ele lança Wonderful town: New York stories from The New Yorker e, também, Life stories: profiles from The New Yorker (REMNICK, 2001).
No ano seguinte é a vez de Fierce pajamas: an anthology of humor writing from the New Yorker, que ele organizou com Henry Finder, recuperando um lado importante da vocação original da The New Yorker, que é como vimos o humor como parte de um projeto de seu próprio fundador, Harold Ross, para quem a revista podia ser chamada de “comic weekly”. O mesmo tema volta numa publicação de 2010, de novo organizada com Henry Finder, Disquiet, please! More humor writing from The New Yorker. Em 2011, a coletânea organizada por ele é sobre o tema do esporte, que frequentou a revista em muitas
reportagens e perfis ao longo de sua história de mais de 90 anos: The only game in town: sportswriting from The New Yorker. 75
Reporting: writings from The New Yorker saiu em 2006 – e aqui, mais do que o lado do editor que valoriza a história da revista que hoje dirige e a sua forte tradição no mundo da produção de perfis, temos o autor e colaborador que produz ele mesmo alguns dos mais importantes textos jornalísticos, incluindo perfis, publicados nos últimos tempos – o que mostra que sua vocação de repórter que sai para a rua e gasta sola de sapato nunca foi abandonada, mesmo ocupando o cargo que hoje ocupa. No mesmo ano, a obra ganha em português o título de Dentro da floresta: perfis e outros escritos da revista The New Yorker [REMNICK, 2006]), publicada pela Companhia das Letras como parte da coleção “Jornalismo Literário”. O título da obra é complementado na primeira capa pelo seguinte texto: “Na melhor tradição do jornalismo literário, grandes perfis traçados pelo editor da revista The New Yorker”.
A obra reúne 23 textos considerados de excelência no âmbito do jornalismo literário internacional, e os temas são os mesmos que ocupam Remnick desde que estreou no jornalismo como repórter no Washington Post, em 1982: poder, literatura, Rússia, Israel e boxe. Dois dos mais importantes perfis escritos por ele, “A campanha do ostracismo: Al Gore” – seu personagem predileto, por quem ele não consegue esconder sua admiração – e “A campanha do masoquismo: Tony Blair”, aparecem na primeira das cinco partes (os cinco temas) em que se divide o livro. Vêm misturados com as histórias do Katrina (o furacão que destruiu Nova Orleans em agosto de 2005) e da “matriarca da conspiração da mídia liberal” (REMNICK, 2006, p. 54), Katherine Graham, publisher do Washigton Post.
Outros perfis incluem os dos lutadores de boxe Mike Tyson (“Kid Dynamite explode: Mike Tyson” e “O aperto de Tyson”) e Larry Holmes (“Retorno: Larry Holmes”), que ajuda a realçar um dos temas preferidos do repórter e construtor de perfis. Na parte relativa à literatura, além do perfil de escritores estadunidenses menos famosos, como Philip Roth (“Em campo aberto: Philip Roth”) e Don DeLillo (“Não mais, ainda não: Don DeLillo”), em “O exílio: Soljenitsyn em Vermont”, Remnick visita o Prêmio Nobel russo então exilado numa pequena cidade americana, em 1994, enquanto ele
75 O atual editor-chefe colaborou com outras produções pela editora Penguin Random House, de Nova York, que vivem do resgate da tradição da revista, organizadas por Henry Finder: The 40s: the story of a decade by The New Yorker, em 2015, The 50s: The story of a decade by The New Yorker, em 2016, e The 60s: the story of a decade by The New Yorker, em 2017, cuja introdução é escrita por ele.
apronta as malas para retornar à Rússia. A Rússia que é onde Remnick o visita, no ano de 2001, em “Dentro da floresta: Soljenitsyn em Moscou” – o título que ajudou a dar nome à publicação do livro em português. “O nível do espírito: Amós Oz” apresenta o perfil do “romancista mais conhecido de Israel” (REMNICK, 2006, p. 407).
Em “Saída do castelo: Václav Ravel”, de 2003, Remnick se ocupa com a história do presidente tcheco em sua última semana de governo. O olhar atento, a escuta e a atenção para com os detalhes reconstroem em palavras a cena do instante da despedida, cujos sentidos se tecem a partir de outros vários momentos de escuta e de atenção por parte do repórter:
Em seu último dia no castelo de Praga como presidente da República Tcheca, Václav Ravel gravou uma breve despedida à nação e depois atendeu uma ligação de Geoge Bush. Ravel, que assumira o cargo treze anos antes usando uma calça emprestada que chegava só até o tornozelo, agora estava de terno azul-marinho bem ajustado, camisa branca e uma gravata que indubitavelmente já cumprira sua missão em reuniões de cúpula e funerais. Uma equipe de eficientes assessores se mantinha a postos, na ante-sala do gabinete. Um garçom de guardanapo branco dobrado no braço servia um cálice de vinho branco. A luz do sol entrava por todas as janelas, e os candelabros lançavam seu brilho sobre as flores e os tapetes orientais (REMNICK, 2006, p. 178).
A metáfora da luz do sol entrando por todas as janelas e do brilho dos candelabros sobre flores e tapetes parece escolhida a dedo para o momento da despedida do escritor, intelectual e dramaturgo tcheco que foi o último presidente da Tchecoslováquia e primeiro da República Tcheca, conhecido por sua firme defesa da resistência não-violenta e um ícone dos mais importantes da chamada “Revolução de Veludo”, que, no final dos anos 1880, contribuiu para o fim do regime comunista no país.
O apelo à metáfora e ao símbolo, que Edvaldo Pereira Lima (2009, p. 378) propõe como um dos princípios basilares de toda boa narrativa jornalística, se faz presente, aqui como em outras histórias do livro, de forma pujante.76 Isso talvez deva ser compreendido, com os necessários ajustes, junto com a ideia expressa por Moreira Salles, de uma pretensa birra de Remnick contra essa mesma metáfora:
Remnick também tem o bom senso de fugir do cacoete das metáforas, esse mal que assola os textos (e os filmes) de não-ficção. É um pecado que transforma toda observação factual numa lição exemplar. Tudo significa, como se a superfície dos fatos não bastasse. O mal infesta
76 Outras histórias, só para citar mais alguns exemplos, como as da parte ainda referente ao Oriente Médio: “O outsider: Benjamin Netanyahu”, “Raiva e razão: Sari Nusseibeh e a OLP”, “Após Arafat” e “O jogo de democracia: o Hamas chega ao poder na Palestina”.
todas as áreas do jornalismo, mas parece ser particularmente virulento na cobertura esportiva. Remnick não perdoa: “Como a ficção medíocre, as lutas pelo campeonato mundial dos pesos pesados são invariavelmente sobrecarregadas com a solenidade de sentidos mais profundos. Não basta que um home abale o cérebro do outro e o deixa cambaleante. É preciso haver política também – ou, pelo menos, grandes porções de símbolos, subtramas históricas, uma cobertura metafísica” (MOREIRA SALLES, 2006, p. 575).
Provavelmente a voz do repórter que descreveu, como poucos, cada movimento de uma luta em que um homem tem por objetivo maior estraçalhar o outro – sem metáfora – se faça ouvir aqui, e é preciso prestar atenção. Mas talvez deva ser matizada pela própria experiência de David Remnick de tanto louvar e voltar a trazer à luz em seus livros, como ninguém, o simbolismo e o uso generoso de metáforas em toda a tradição da The New Yorker. Esse prestígio imenso de que a revista ainda hoje goza lhe ajudou, e muito, a resolver uma das dificuldades maiores de todo e qualquer repórter que é a abordagem de suas fontes e a aproximação a seus personagens. “Em geral, essa prerrogativa independe do seu talento ou da sua capacidade de persuasão”, argumenta Moreira Salles (2006, p. 573).
O tema da cooperação, que é da mais alta relevância, sobretudo, para a produção de um perfil jornalístico – por causa das características materiais e espirituais desse gênero de escrita que têm sido apresentadas por mim, por autores e pesquisadores de perfis desde o primeiro capítulo desta tese –, será retomado na quarta etapa da viagem na análise ali realizada sobre o projeto “Jornalistando”. Antecipando essa discussão, vamos acompanhar o que diz nesta parte do nosso trabalho João Moreira Salles sobre o nosso heroico editor-chefe, repórter e autor da The New Yorker:
As portas não se abrem para Remnick, mas para a revista New Yorker. Nas páginas deste livro, Remnick janta ao lado de Putin, conversa com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (e também com o pai dele), liga para o número pessoal de Yithak Shamir (que atende ao primeiro toque), liga para Shimon Peres, troca ideias com Václav Havel no último fim de semana de seu governo, assiste a patética (e divertidíssima) entrevista de TV que Tony Blair, em tempos eleitorais, concede a dois fedelhos de dez anos cuja especialidade são perguntas impertinentes [...] e, num dos perfis mais extraordinários do livro, tem vários encontros com Soljenitsyn durante os anos de exílio nos Estados Unidos. Se trabalhasse no diário de La Paz, Remnick provavelmente não teria tanta sorte (MOREIRA SALLES, 2006, p. 573).
Em um dos seus comentários sobre a obra, Moreira Salles (2006, p. 570) volta ao tema do protagonismo de The New Yorker quando diz que grande parte dos textos nela reunidos “pertence a uma família jornalística praticamente inventada pela New Yorker, a dos perfis”. São dois os ramos dessa família: o dos anônimos, “cujo maior praticante foi Joseph Mitchell, autor de O segredo de Joe Gould”, e o dos célebres e poderosos: “Remnick se interessa mais pelo segundo ramo.”
A observação é das mais importantes para a consideração que se pode fazer sobre a diversidade imensa de possibilidades que o perfil jornalístico encerra – como é diversa a vida, como são diversas as pessoas e como é diverso o mundo. Essa observação coloca sob o prisma da complexidade e da compreensão, por exemplo, o tema do olhar – insubordinado sempre, por distintas razões –, sobre o qual esta pesquisa vem insistindo desde o seu começo. Esse olhar complexo e também compreensivo coloca para conversar o humano que habita o anti-heroi cotidiano tanto quanto se expressa no herói ou o não- herói que vive num palácio distante dos barracões de papelão ou de zinco das pessoas forjadas no fogo das artes do “sevirol” (Medina).
Talvez, por isso mesmo, mais do que famílias tivéssemos que pensar em clãs inteiros. Ou talvez, para usar de novo uma metáfora, em viagens: múltiplas, agradáveis e às vezes desagradáveis viagens, mas sempre importantes e transformadoras do olhar do viajante que vai de fato (porque há os que dizem ir, mas que não vão, também no mundo do jornalismo: são pessoas amarradas às vicissitudes de seu estreito mundo comum, o da caverna; ou que vão em busca de respostas que já pensam dispor, aos montes e para todos os gostos, em geral dos representantes do poder, em sua caixa de ferramentas).
Ou, talvez ainda, podemos usar essa outra metáfora, tão comum à prática do jornalismo: a da rua. Uma rua que, num exemplo a ser estudado mais adiante – o do projeto “São Paulo de Perfil” –, projeta a luz da metáfora de nossos sonhos de repórteres, escritores e autores até o infinito: “A transcendência, a rua levada ao infinito, reza pelas metáforas do Guia das almas”, em negrito no original, o título do décimo terceiro livro dos vinte e seis que compõem um dos mais ambiciosos projetos brasileiros de perfil jornalístico até hoje.77
77 A citação encontra-se em “Tudo quer dizer alguma coisa? São Paulo de Perfil, metáfora da cidadania”, de Cremilda Medina (2018), um conjunto de transparências de um power-point utilizado pela autora para aulas e conferências sobre o projeto, um material já citado antes.