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Ando devagar Porque já tive pressa E levo esse sorriso Porque já chorei demais Hoje me sinto mais forte Mais feliz, quem sabe Só levo a certeza De que muito pouco sei Ou nada sei Almir Sater e Renato Teixeira

“Tocando em frente”

ROTEIRO DE VIAGEM: PARTE 2

Três são os grandes momentos ou estações – três capítulos – desta segunda etapa da viagem, que, com o auxílio dos instrumentos teóricos e práticos elaborados na primeira, avança no estudo das origens e evolução do perfil jornalístico basicamente nos Estados Unidos – o Brasil será objeto de consideração na terceira etapa –, tentando compreender o espaço que a ele pode ser reservado no amplo universo da produção de informação jornalística – e também no universo, sempre primeiro, do apelo humano ao “diálogo dos afetos” (Medina). Cuido, neste “Roteiro de viagem: parte 2”, de elucidar primeiro um conjunto de escolhas teóricas e metodológicas, construindo pontes entre o que foi feito na etapa anterior, esta etapa e as seguintes.

Depois desta rápida parte introdutória à segunda etapa de nossa viagem, dirijo o olhar para aquilo que na Estação 5 – a primeira desta segunda etapa, está sendo chamado de “Berço espiritual do perfil jornalístico”, e me refiro com esse título a isso que nas pesquisas se dá o nome de jornalismo literário – como faz Edvaldo Pereira Lima (2009), com quem abro com muito gosto uma ampla e animada conversa nessa parte do trabalho, aprofundando o diálogo que já vem sendo feito com ele no exercício da profissão de professora de curso de Jornalismo em duas instituições superiores de ensino. Outros autores e estudiosos prefeririam a expressão jornalismo narrativo, enquanto outros, ainda, iriam me perguntar por que não falar apenas de jornalismo, sem adjetivações. Digamos que todos eles têm razão e podem se entender naquilo que conta, para além das definições.

Talvez esses últimos estejam mais inclinados a pensar que é na verdade o mau uso do jornalismo e de suas potencialidades que cerceia as amplas e complexas dialogias possíveis do jornalismo com as artes em geral e com a literatura em particular. É o não- jornalismo que inibe o olhar e afasta o repórter da rua, do vento e da chuva, do contato afetuoso com as pessoas e suas histórias, da boa apuração e edição, do texto aquecido no calor da técnica, da ética e da estética, três dimensões do fenômeno jornalístico apontadas por Cremilda Medina que pretendo não esquecer em nenhum momento ao longo deste

trabalho. É fácil observar como paira hoje no horizonte de qualquer discurso sobre a atividade jornalística e sobre o empobrecimento narrativo para o qual uma visão mais complexa do fenômeno chama a atenção, o tempo todo e cada vez com mais forte expressão, a ameaça das tecnologias, quando incapazes em sua fulgurância de entrar em diálogo com a rua, os cheiros e as cores, o cotidiano e a vida, favorecendo nesse caso dramático a preguiça, o desleixo e a irresponsabilidade ética e social.

Um breve olhar inicial para a caixa de ferramentas com as principais técnicas de que se utilizam os mais conhecidos representantes da “arte narrativa da vida real” (LIMA, 2009, p. 351), no ponto 5.1 (“Quatro técnicas principais”), se deixa enriquecer, na sequência, no ponto 5.2 (“Princípios filosóficos ou pilares do jornalismo [literário]”), por uma visita em parte demorada àquilo que Lima (2009, p. 355) chama de “princípios que regem o jornalismo literário”, ou “suas bases filosóficas”.

Nesse ponto do trabalho, ao resumir os dez princípios ou “pilares” de que trata Lima, penso simultaneamente em poder traduzir para o perfil jornalístico aquilo que ele diz sobre o livro-reportagem, ou seja, que “de todas as formas de expressão do jornalismo e da literatura, a modalidade que melhor utiliza o potencial do livro-reportagem é o jornalismo literário” (LIMA, 2009, p. 351). Lima expressa essa ideia no próprio título do capítulo em que trata desses princípios, considerando existir, no caso do livro-reportagem, uma “Simbiose com o jornalismo literário e o futuro” (LIMA, 2009, p. 351).

Nessa linha de raciocínio, o que quero propor como interpretação do fenômeno estudado é que o jornalismo literário, como aqui está sendo entendido e qualquer que seja o nome que a ele atribuamos, apresenta-se como um berço espiritual para o perfil jornalístico, do mesmo modo que o faz na visão de Lima em relação ao livro-reportagem. Assim, os dez princípios filosóficos que sustentam o jornalismo literário o fazem, em meu entendimento, também em relação ao perfil jornalístico, como pretendo reforçar ao longo de toda esta segunda etapa da viagem e também nas etapas seguintes: a parte (o perfil jornalístico) está no todo (o jornalismo literário) e o todo nas partes.

Assim, nos ocuparemos – o uso do plural pretende dizer neste caso que levo junto nessa viagem os meus diletos leitores e leitoras – nesse segundo tópico da Estação 5, no espaço que julgo suficiente dedicar ao assunto com cada um desses princípios. O objetivo é que, depois dessa exposição, eu disponha de um conjunto de ferramentas, categorias ou noções que me auxiliem na análise – melhor seria dizer na interpretação – que tem por meta, mais uma vez, traçar o perfil do perfil jornalístico por meio da observação de modos concretos de ser e de fazer, como também de modos de se expressar sobre o tema a partir

da experiência, do estudo e da pesquisa. Os princípios são estes: 1) Exatidão e precisão, 2) Contar (uma) história, 3) Humanização, 4) Compreensão, 5) Universalização temática, 6) Estilo próprio e voz autoral, 7) Imersão, 8) Simbolismo, 9) Criatividade e 10) Responsabilidade ética.44

Ocupar-se com uma lista de princípios, ainda mais quando “filosóficos”, tem uma vantagem prática, que é a de toda lista: facilita o entendimento das linhas de força que regem os fenômenos de que estou tratando, pondo com certo didatismo alguma ordem, mesmo correndo o risco da simplificação, num terreno no qual o que de fato vige são diferentes tipos de (inter)cruzamentos de significados e práticas. Essa muleta didático- prática não deve, porém, turvar a nossa visão para a realidade de que as coisas precisam ser vistas em sua complexidade, em suas misturas, em sua tessitura de relações, sem reducionismos.45 Tampouco devo me esquivar da ideia crítica, como adiantei, de que no raso e no fundo esses princípios, de diferentes maneiras, constituem a base filosófica do fenômeno jornalístico como tal em sua melhor forma de expressão.

Distanciando-me o quanto desejável e possível de formas toscas, desumanas, tecnocráticas e ideologicamente comprometidas de prática jornalística, o que fica patente na apresentação desses princípios é a aposta ou crença num “tipo-ideal” (Max Weber) de jornalismo. Ora, um tipo-ideal, se tem a vantagem de na vida alimentar a esperança e, na pesquisa, a utopia da compreensão, como sugere Weber (2004), pode às vezes encerrar o

44 A apresentação dos dez princípios constitui parte substancial do capítulo 5 (“Simbiose com o jornalismo literário e o futuro”) de Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura (LIMA, 2009), que ocupa as páginas 351 a 448 da obra. O capítulo 5 passou a existir na quarta edição do livro, revista e ampliada, que é a que estou utilizando. Um resumo dos dez princípios aparece no capítulo II de Jornalismo literário: tradição e inovação, de Monica Martinez. “Os dez pilares do jornalismo literário” (MARTINEZ, 2016, p. 45-49). Saiu originalmente em revista, com o título “O novo capítulo 5: jornalismo com alma”: Líbero, ano XI, n. 22, p. 151-152, dez. 2008. Disponível em: <http://seer.casperlibero.edu.br/index.php/libero/article/viewFile/578/550>. Acessado em: 20 nov. 2018. 45 Em mais de um momento essas misturas serão observadas ao longo do texto, no contato com os diferentes princípios apresentados por Lima. Merece especial destaque uma das três categorias levantadas no estudo dos perfis trazidos como exemplos no primeiro capítulo desta tese: o olhar do repórter, ou o que lá chamávamos de “o gesto do olhar” (as outras duas são “o foco no humano”, que também perpassa o conjunto dos princípios filosóficos apresentados por Lima, e “os retalhos de uma vida”, que diz mais respeito a princípios específicos, mas não de forma exclusiva, como o do “estilo próprio e voz autoral”, “universalização temática” etc.). O próprio autor, aliás, chama a atenção, também mais de uma vez, para a confluência de princípios. Por exemplo, ao tratar do “estilo próprio e voz autoral” e introduzir o princípio da “imersão”, onde ele diz: “Os princípios que alicerçam a prática do jornalismo literário fazem parte de um conjunto integrado. Cada um deles alimenta e reforça o outro e é essa contribuição mútua que dá consistência à modalidade como um todo. A humanização evita os estereótipos, tanto quanto possível, visando retratar os seres humanos na sua inteireza complexa, com virtudes e defeitos. Por isso as pessoas não são tratadas meramente como fontes de informação; são personagens e protagonistas de histórias. Humanizar, nesse sentido, inclui também o próprio autor da narrativa. Esse princípio, por sua vez, está diretamente ligado à voz autoral e ao estilo. Os três estão conectados diretamente ao princípio que apresento a seguir”, que é o princípio da “imersão” (LIMA, 2009, p. 372-373. Grifos do autor).

risco de nos fazer esquecer que, no miúdo, a miséria e o erro fazem parte do real tanto quanto a riqueza e os sucessos de nossas iniciativas. No concreto da vida o jornalismo de qualidade, se quisermos chamá-lo assim, se faz e refaz o tempo todo no confronto com suas diferentes versões e também inversões, ou mesmo perversões. Outro modo não há, enquanto nos movermos no mundo humano e não dos deuses e deusas.

A busca por ferramentas e categorias de que eu falava antes revela um lado que não é nem de longe desprezível quando pensamos em termos metodológicos: umas e outras agregam maior substância à análise de conteúdos que tenho vindo realizando desde a primeira etapa de nossa viagem pelo mundo da teoria e da prática do perfil jornalístico. Mas de novo é preciso alertar para um risco que não pretendo correr, para um erro que muito apreciaria evitar: trata-se do erro comum, porque largamente amparado numa visão cientificista da pesquisa e da elaboração teórica, de querer colocar o método e a técnica – a carroça – na frente dos burros.

Complexos de vários modos e em dinâmico e vivo confronto com uma miríade de linhas de sentidos que se cruzam, esbarram, alimentam e tecem a narrativa geral e incerta sobre o fenômeno, esses princípios não podem ser aplicados com a compulsão matemática ou a camisa de força do objetivismo, com o rolo compressor do metro, da régua e do esquadro. A ideia de compreensão, que acompanha às vezes clara e às vezes subliminarmente o esforço interpretativo aqui empreendido, não irá de forma alguma permitir que nos apropriemos à força desses princípios para vê-los aplicados sem pena e sem dó, ou não aplicados, no exercício da produção e escrita do perfil jornalístico.

Aliás, não é assim que fiz até aqui e nem será assim que farei daqui para a frente até onde a inteligência de espírito me socorrer, porque a seriedade e o rigor que um empreendimento científico exige não deveria jamais extinguir o calor e o vigor das dinâmicas da vida. A liberdade de espírito a que aspiro nesta pesquisa, junto com a possibilidade de garantir algum prazer possível na difícil arte de pesquisar, me pode, como assim o desejo, livrar da mordaça do método, sobretudo nesta área de conhecimento que é a nossa, das humanas e sociais.

Os dois momentos subsequentes dessa viagem pelo mundo do perfil jornalístico são os seguintes, com os seus respectivos títulos e a sua numeração: na Estação 6, “O resfriado de Frank Sinatra”, estudo com algum investimento extra de tempo e espaço o perfil “Frank Sinatra has a cold” (“Frank Sinatra está resfriado”), escrito por Gay Talese e que com ou sem razão virou uma espécie de menina-dos-olhos da feitura do perfil jornalístico, talvez o mais famoso entre os famosos. Na Estação 7, sobre o “Berço material

do perfil jornalístico”, trato da história da revista americana The New Yorker e de sua relação positiva com o perfil jornalístico, além de trazer com mais profundidade que em outros casos alguns exemplos de trabalhos produzidos para ela.

Assim, depois de abordar no ponto 7.1 o assunto do “Espaço e tempo favoráveis” oferecidos pela mais famosa revista jornalística do planeta, converso, no ponto 7.2 (“David Remnick: memória ativa e espírito vivo”), com o atual editor da revista sobre o seu trabalho de produção de perfis jornalísticos, para em seguida, no ponto 7.3 (“Joseph Mitchell e ‘O segredo de Joe Gould’: saber escutar”), estudar um dos personagens mais brilhantes da história da The New Yorker, e encerrar, no ponto 7.4 (“John Hersey e ‘Hiroshima’: saber compreender”), com essa que os estudiosos costumam classificar como uma das mais importantes reportagens do século XX e com os usos, que nela faz o seu autor, do perfil jornalístico.

Estação 5

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