A I NTRODUCTION GENERALE
D.2 P ROTOCOLES EXPERIMENTAUX
D.2.2 E TUDE 2 : Effets d'une variation aiguë de ou chronique du niveau d'apport
Como vimos, o longo percurso que sedimentamos até aqui, acerca da construção social da inferiorização das emoções e, consequentemente, do feminino, por mais anacrônico que possa parecer, ainda é sustentado por inúmeros discursos patriarcais que insistem em assumir novas roupagens na ciência, na mídia e, claro, no senso comum. Conforme já havíamos anunciado no Capítulo 1, nas obras de autoajuda contempladas em nosso corpus, seja de maneira mais discreta ou mais explícita, a construção da imagem da mulher como um ser naturalmente emotivo, pouco raciocinante, impulsivo e, por isso, desempoderado na relação conjugal é uma constante da base argumentativa dos autores. O equilíbrio racional, a frieza, a contenção são tidas como características usualmente masculinas e, por isso, cabe às mulheres entender tais configurações e segui-las de alguma forma para obterem o sucesso amoroso, seja conquistando um parceiro ou mantendo o seu.
Harvey & Millner (2010), em Comporte-se como uma dama, pense como um homem, dizem querer dar às leitoras “mais poder sobre os homens” e, por isso, apregoam que, se elas adotarem “uma abordagem sábia e objetiva no trato com eles, do jeito deles, agindo como eles, aí elas conseguirão tudo o que quiserem” (p. 11). Para adotarem tal abordagem, que, segundo a obra, não parece fazer parte do comportamento feminino usual, Harvey diz que irá mostrar às leitoras o grande segredo que elas não detêm sobre os homens: “como funciona a mente masculina” (p. 5). Assim, podem racionalizar e planejar suas posturas diante de seu parceiro pensando da forma tal como ele o faz – mesmo que, externamente, isso se oponha a suas ações visíveis, vistas tradicionalmente como as de uma “dama”. Pensar como um homem é resultado garantido de empoderamento, segundo a obra; comportar-se como uma dama é, claro, uma necessidade para que ela seja não masculinizada e ainda atraente (e que a cultura androcêntrica ainda lhe impõe, o que parece desmascarar tal poder a ser obtido111). A esse respeito, citações como as seguintes estarão presentes, no próximo capítulo, em nossa análise argumentativa das imagens da mulher:
“Esse é o amor da mulher. E é um amor que vence a passagem do tempo, o raciocínio lógico e as adversidades da vida.” (p. 24)
“O amor feminino é emocional, acalentador, sincero – doce, gentil, compassivo. Dá para pegar com a mão, de tão concreto.” (p. 40)
“[...] há ocasiões em que nossa mulher fica uma fera conosco e quer que saibamos disso com todos os decibéis possíveis.” (p. 49)
“Quando um homem fala e, principalmente, quando um homem escuta, é preciso que haja uma finalidade objetiva. Não somos do tipo que despeja emoções. Somos do tipo que conserta o que tem de ser consertado.” (p. 50)
“Nossas ações e reações são fruto da lógica. Mas nossas mulheres agem e reagem emocionalmente – o que é um balde de água fria em cima da gente. Muitas vezes descobrimos que a reação de uma mulher se deve não a uma causa racional, mesmo que desconhecida, mas simplesmente à maneira como ela estava se sentindo naquele dia ou nos últimos cinco minutos.” (p. 53)
Argov (2010) não parece se distanciar dessa perspectiva, conforme descrevemos no Capítulo 1. Em Por que os homens se casam com as mulheres poderosas?, a autora assume o ponto de vista da especialista que pretende ensinar as leitoras a como serem pedidas em casamento por seus parceiros, também revelando às mulheres “os segredos roubados do Clube do Bolinha” (p. 11). Para tal, elas devem abandonar a postura de “boazinhas” – leia-se dependentes, emotivas, descontroladas, inseguras – e assumirem a de (supostamente) “poderosas”, por
exemplo, contendo suas emoções e falando pouco e de forma objetiva, a fim de agradarem (ou reproduzirem?112) o homem. Argov, para atribuir credibilidade a seus ensinamentos, diz retratar o próprio pensamento dos homens, e não os dela. As dicotomias fundantes tratadas por nós neste capítulo aparecerão na obra dessa autora por meio de colocações ora cômicas, ora exageradas, mas sempre aparentemente maniqueístas, como as seguintes (também a serem analisadas no próximo capítulo):
Se você fosse uma mosquinha escutando a conversa de um grupo de homens, não seria incomum ouvi-los debater como os homens são “racionais” e as mulheres são canhões sem controle emocional. [...] “Penso em um homem. Daí, tiro toda a razão e a responsabilidade por seus atos.” É assim que muitos homens enxergam as mulheres. [...] Se você bater os pés, esguichar lágrimas pela casa toda e começar a soltar berros tão estridentes que seriam capazes de paralisar um rinoceronte em ataque, ele saberá que tem plenos poderes sobre você. (p. 120)
Quando uma mulher fica atraída cedo demais por causa de suas emoções ou mostra sinais de que não está no controle depois do sexo por causa de suas emoções ou espera um final feliz digno de contos de fada por causa de suas emoções, ela está se oferecendo numa bandeja de prata. Por outro lado: se ela for menos tolerante e mantiver a posse das faculdades mentais, vai chamar a atenção dele quando ele tentar “condicioná-la” a receber menos. (p. 157-158).
É isso o que a maior parte dos homens procura em uma esposa. Esta é a garota dos sonhos dele, completa: uma mulher feminina que não se deixa dominar pelas emoções e pela insegurança. Há uma dignidade silenciosa em algumas mulheres. [...] Ela não berra. Não grita. (p. 239-240).
Você conquistará a atenção imediata dele quando usar palavras desprovidas de emoção (algo para o qual ele está completamente despreparado): [...] “Vamos analisar a situação de maneira racional e lógica.” [...] Agora é você quem está segurando as rédeas e decide o rumo da relação. (p. 147-149).
A partir de todo o resgate histórico e de todas as reflexões feitas por nós neste capítulo, não há como se negar o fato de que, de forma geral, as mulheres de fato parecem expressar mais suas emoções, exprimir-se de maneira explicitamente mais afetuosa e passional. Entretanto, outra certeza conjugada a esta é a de que tal quadro não parece ser essencialmente biológico, mas, sobretudo, fruto de um complexa construção histórica, cultural e social, que acaba por “moldar” o ser-no-mundo feminino dessa forma.
If, following Durkheim, we are willing to suppose that the structure and nature of social relationships themselves influence cultural perceptions and modes of thinking, we can now illuminate this long-standing claim of social science. [...] Since women must work within a social system that obscures their goals and interests, they are apt to develop ways of seeing, feeling and acting that seem to be “intuitive” and unsystematic – with a sensitivity to other people that permits them to survive. They may, then, be “expressive”. [...] It is because men enter the world of articulated
social relations that they appear to us as intellectual, rational, or instrumental; and the fact that women are excluded from that world makes them seem to think and behave in another mode. (ROSALDO & LAMPHERE, 1993, p. 30)113.
Se as emoções femininas ainda insistem em ser vistas contemporaneamente mais como uma “falta de” – de controle, de autonomia, de razão, de poder – que como uma potência acional e racional, favorável ao sujeito que dela se utiliza – como queremos defender –, tal desequilíbrio parece refletir outros desníveis. Assim,
[...] torna-se bem claro o processo de construção social da inferioridade. O processo correlato é o da construção social da superioridade. Da mesma forma que não há ricos sem pobres, não há superiores sem inferiores. Logo, a construção social da supremacia masculina exige a construção social da subordinação feminina. Mulher dócil é contrapartida de homem macho. Mulher frágil é contrapartida de macho forte. Mulher emotiva é a outra metade de homem racional. Mulher inferior é a outra face da moeda do macho superior. (SAFFIOTI, 1987, p. 13).
113 Tradução livre da autora: “Se, seguindo Durkheim, estamos dispostos a supor que a estrutura e natureza das
próprias relações sociais influenciam as percepções culturais e modos de pensamento, podemos agora esclarecer essa afirmação de longa data da ciência social. [...] Uma vez que as mulheres têm de trabalhar dentro de um sistema social que obscurece seus objetivos e interesses, elas estão aptas a desenvolver formas de ver, sentir e agir que parecem ser "intuitivas" e assistemáticas - com uma sensibilidade direcionada para as outras pessoas que as permite sobreviver. Elas devem, então, ser "expressivas". [...] É porque os homens entram no mundo das relações sociais articuladas que eles aparecem para nós como intelectuais, racionais, ou instrumentais, e o fato de que as mulheres são excluídas desse mundo faz com que pareçam pensar e se comportar de outro modo.”.
3 A CONSTRUÇÃO DISCURSIVA DAS IMAGENS E EMOÇÕES FEMININAS: DESVELANDO O PROJETO ARGUMENTATIVO
3.1 A Análise Argumentativa do Discurso e sua abordagem linguístico-discursiva-