Nesse momento, analisaremos um texto que pertence as “Expansões da Escritura” ou mais precisamente o “Livro dos Jubileus278”. “Ao analisar a história textual dos
Jubileus, é difícil ser mais sucinto do que J. C. VanderKam”279, que delineou sua história assim:
1. Jubileus foi escrito em hebraico.
2. Jubileus foi traduzido do Hebraico para o Grego. 3. Jubileus foi traduzido do Hebraico para o Siríaco. 4. Jubileus foi traduzido do Grego para o Latim. 5. Jubileus foi traduzido do Grego para o Etíope280.
“O Livro dos Jubileus existe na íntegra em quatro manuscritos etíopes dos séculos XV – XIX, dos quais dois se acham em Paris, um no Museu Britânico e um na Biblioteca
277CHARLESWORTH, James H. The Old Testament Pseudepigrapha, Vol. 2. New Jersey: Hendrickson
Publishers, 2010, p. 221, 222.
278A primeira menção dos jubileus é encontrada nos textos de Qumran (CD 16.2-4), onde o escritor relata
que um relato exato dos períodos de cegueira de Israel pode ser encontrado em “O livro das divisões dos tempos de acordo com seus jubileus e seus Semanas”. A versão etíope do texto foi expandida sobre esse título para descrever o trabalho da seguinte maneira: “Este é o relato da divisão de dias da Lei e do testemunho de observância anual de acordo com suas semanas (e) seus jubileus em todos Os anos do mundo”. No grego, siríaco, latin e, mais tarde, testemunhas hebraicas, no entanto, o trabalho foi geralmente designado mais brevemente como “O (Livro) dos Jubileus” ou “O Pequeno Gênesis”. O primeiro desses títulos provavelmente representa uma abreviatura simples da descrição mais longa atestada em Qumran. O segundo título serve como uma descrição apropriada do conteúdo do trabalho. Citado por: Ibid. p. 41.
279Citado por: Ibid. p. 41.
da Universidade de Tubingen”281. “Apenas fragmentos do texto grego sobrevivem, sob a forma de citações e resumos em fontes gregas. Os fragmentos gregos foram coletados recentemente por A.-M. Denis e convenientemente apresentado em sua Fragmenta Pseudepigraphorum Graeca”282. “Em 1861, A. M. Ceriani publicou fragmentos de uma tradução latina que abrangiam cerca de um quarto do texto, e foi de novo apresentada por H. Ronsch, em 1874, com novas propostas de emendas”283. Por fim, “em Qumran, vieram à luz fragmentos de nada menos do que nove diferentes manuscritos hebraicos desta obra, prova da importância que se atribuía, ali, ao Livro dos Jubileus”284.
“As descobertas em Qumran também ajudaram a reduzir os limites para o estabelecimento da data dos Jubileus. Elas fornecem novos dados para determinar a data mais recente possível”285. “Os jubileus devem ter sido escritos antes”286:
“(1) da data do primeiro fragmento do texto descoberto em Qumran; (2) da data dos documentos de Qumran que dependem dos jubileus; (3) da data da divisão entre o estabelecimento dos macabeus e a seita que se instalou em Qumran”287.
“O primeiro fragmento publicado de Jubileus proveniente de Qumran é datado no período Asmoneu tardio (c. 75-50 B. C.), mas VanderKam relatou que dois fragmentos não publicados (4Qml6Juba e 4Qml7Jubb) foram datados por FM Cross entre 125-75 a.
C.”288, “mas, por volta de 100 a. C. como a data preferida. VanderKam observa com justiça que é improvável que os dois fragmentos não publicados, que estão escritos em uma escrita semi cursiva, pertençam ao manuscrito original dos jubileus”289. Portanto, “a datação paleográfica dos fragmentos iniciais aponta para uma data anterior a 100 a. C.”290
281ROST, L. Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos
de Qumran. São Paulo: Paulus, 2004, p. 132.
282A.-M. Denis, ed., Fragmenta pseudepigraphorum quae supersunt graeca, pp. 70-102. Cf. também J. T.
Milik, "Recherches sur la version grecque du livre des Jubills," RB 78 (1971) 545-57. Citado por: CHARLESWORTH, James H. The Old Testament Pseudepigrapha, Vol. 2. New Jersey: Hendrickson Publishers, 2010, p. 42.
283ROST, L. Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos
de Qumran. São Paulo: Paulus, 2004, p. 132.
284Ibid. p. 133.
285CHARLESWORTH, James H. The Old Testament Pseudepigrapha, Vol. 2. New Jersey: Hendrickson
Publishers, 2010, p. 43.
286Ibid. p. 43. 287Ibid. p. 43. 288Ibid. p. 43. 289Ibid. p. 43.
290VanderKam, Textual and Historical Studies, pp. 215f. Citado por: CHARLESWORTH, James H. The
Segundo Charlesworth291:
O autor dos jubileus era um judeu que morava na Palestina. Essa visão pode ser apoiada por uma série de observações. O fato de ele escrever em hebraico favoreceria uma formação palestina. Sua escrita pode refletir a consciência de que nem todos os seus contemporâneos estavam completamente familiarizados com o idioma, porque ele diz que mesmo o pai Abraão teve que aprender o hebraico. No entanto, ele entendeu que o conhecimento do hebraico era absolutamente necessário para o estudo dos livros sagrados (12:25 27). Ele usou um texto bíblico palestino. O autor provavelmente pertencia a uma família sacerdotal. Isso pode explicar seu interesse especial na origem dos festivais, a determinação dos tempos sagrados e sua preocupação incessante por detalhes rituais (21:7-18). No material suplementar que ele traz para o relato do Gênesis, Levi tem prioridade sobre os filhos de Jacó (capítulos 30- 32), mesmo sendo estabelecido antes de Judá (31:12f.). Levi é também aquele que é encarregado de uma biblioteca de livros (45:16) contendo sabedoria celestial revelada a Jacó (32: 21-26) e tradições sagradas passadas de patriarcas anteriores.
Para Charlesworth292 é importante observar que:
A interpretação estrita da lei pelo autor, seu apelo a um conjunto distinto de tradições que relataram a vida cultual e a piedade dos patriarcas, sua hostilidade às nações vizinhas, seu aborrecimento para as práticas dos gentios, sua insistente demanda de obediência aos mandamentos de Deus em um tempo de apostasia, sua crença de que Deus estava prestes a criar um novo espírito dentro do seu povo, o que tornaria possível um relacionamento adequado entre Deus e Israel, e sua preocupação com a adesão a um calendário de 364 dias são algumas das características que o identificam como parte de um segmento zeloso, conservador e piedoso do judaísmo que estava unido por seu próprio conjunto de tradições, expectativas e práticas.
“O Livro dos Jubileus começa com um discurso de Deus dirigido a Moisés, no dia 16 do terceiro mês do primeiro ano da saída dos israelitas do Egito, no qual Moisés é convidado a escalar o monte a ali receber as duas tábuas de pedra contendo a Lei”293. “Em
seguida, o anjo da presença toma a palavra, por ordem de Deus, e narra a história, desde o início da criação até o momento preciso em que Moisés recebe a Lei”294. Esse discurso para Rost295:
Pressupõe o Pentateuco, ou pelo menos o Gênesis, e os 20 primeiros capítulos do Êxodo, e os submete a um processo de remanejamento parafrástico no qual ele deriva uma grande quantidade de determinações legais da Torah a partir de situações da história dos primórdios e da época dos patriarcas, com a finalidade de expor a própria concepção da Lei que o autor tinha.
291CHARLESWORTH, James H. The Old Testament Pseudepigrapha, Vol. 2. New Jersey: Hendrickson
Publishers, 2010, p. 45.
292Ibid. p. 45.
293ROST, L. Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos
de Qumran. São Paulo: Paulus, 2004, p. 133.
294Ibid. p. 133. 295Ibid. p. 136.
O Livro dos Jubileus traz um conteúdo teológico baseado em cinco temas principais: “As Tábuas Celestiais, A Eleição de Israel e a separação dos demais povos, Escatologia, Pecados para Morte e Expiação dos pecados e a Origem do mal”296. Diante disso, focaremos no tema da Eleição de Israel, ou seja, verificaremos como o autor formula a sua concepção de Eleição e Aliança direcionada para o povo de Israel.
Em primeiro lugar aparece no Livro dos Jubileus referências a aliança sinaítica que servirá de base para a compreensão da relação de Deus com o povo de Israel:
Esta é a Conta da Divisão de Dias da Lei e o Testemunho de Observância Anual de acordo com suas Semanas (de anos) e seus Jubileus297 durante todos
os Anos do Mundo, assim como o Senhor disse a Moisés no Monte Sinai quando ele subiu para receber as tábuas da lei e o mandamento segundo a palavra do SENHOR, como ele disse a ele: “Suba ao topo da montanha” (Êx 24:12)298.
7 “E você, escreva para si todas essas palavras que eu farei que você conheça hoje, pois eu conheço sua rebeldia e sua teimosia antes que eu os faça entrar na terra que jurei a seus pais, Abraão, Isaque e Jacó. 8 dizendo: Vou dar à sua semente uma terra que flui com leite e mel / E eles comerão e ficarão satisfeitos, e eles se voltarão para deuses estranhos, para aqueles que não pode salvá-los de qualquer aflição. E este testemunho será ouvido 9 como testemunho contra eles, para que eles esqueçam todos os meus mandamentos, tudo o que eu lhes ordenar, e eles caminharão após os gentios e depois da sua impureza e vergonha. E eles servirão seus deuses, e eles 10 se tornarão um escândalo para eles e uma aflição e um tormento e uma armadilha. E muitos serão destruídos e apreendidos e cairão na mão do inimigo porque abandonaram minhas ordenanças e meus mandamentos e as festas da minha aliança e dos meus sábados e do meu lugar sagrado, que eu santifiquei entre eles e meu tabernáculo E meu santuário, que eu santifiquei para mim no meio da terra, para que eu pusesse meu nome sobre ele e pudesse habitar 11 (lá). E eles farão para eles lugares altos e bosques e ídolos esculpidos. E cada um deles adorará o seu próprio (ídolo) para se desviar. E sacrificarão seus filhos aos demônios e a todas as obras do erro de seu coração.
12 “E eu lhes enviarei testemunhas para que eu possa testemunhar a eles, mas eles não vão ouvir. E eles vão mesmo matar as testemunhas. E eles perseguirão os que buscam a Lei, e eles vão negligenciar tudo e começar a fazer o mal aos meus olhos, e esconderei a minha face deles, e os entregarei ao poder das nações para serem cativos, saqueados e devorados. E os retirarei do meio da terra, e os espalharei entre as nações. E esquecerão todas as minhas leis e todos os meus mandamentos e todos os meus juízos, e eles errarão em relação a novas luas, sábados, 15 festivais, jubileus e ordenanças.
15 Depois, eles se voltarão para mim dentre as nações com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças. E eu os ajuntarei do meio de todas as nações. E eles me buscarão para que eu possa ser encontrado por eles.
296MACHO, Alejandro D. Apocrifos Del Antiguo Testamento. Tomo I. Madrid: Ediciones Cristiandad,
1982, p. 181-186.
297A fim de fornecer uma estrutura cronológica para lidar com eventos que cobrem um longo período de
tempo, o autor usou um sistema baseado em múltiplos de sete, o número de dias na semana. Sete anos são tratados como uma semana de anos, e sete semanas de anos equivalem a um jubileu. Citado por: CHARLESWORTH, James H. The Old Testament Pseudepigrapha, Vol. 2. New Jersey: Hendrickson Publishers, 2010, p. 52.
Quando eles me buscarem com todo o seu coração e com toda a sua alma, revelarei a eles uma abundância de paz em justiça. E com todo o meu coração e com toda a minha alma, eu os transplantarei como uma planta justa. E eles serão uma benção e não uma maldição. E eles serão a cabeça e não a cauda. E edificarei o meu santuário no meio deles, e habitarei com eles. E eu serei seu Deus e eles serão meu povo verdadeiramente e corretamente. “E não os abandonarei, e não serei alienado deles, porque eu sou o SENHOR, seu Deus”299.
Na aliança sinaítica, Deus escolhe o povo de Israel para fazer um pacto. Como um contrato entre ambas as partes, tanto Deus quanto Israel se comprometem a cumprir as exigências desse contrato. Do lado de Deus, a divindade se compromete abençoar o povo com uma terra para se estabelecerem, com provisões (como chuva, alimento) para o povo ter o que comer e com vitória sobre os seus inimigos (para que tenham paz na própria terra e ninguém os remova dela). Do lado do povo de Israel, eles se comprometem a cumprir “todos” os mandamentos de Deus para que continuem desfrutando das bênçãos de Deus (terra, alimento, vitória, paz). Entretanto, se o povo não cumprir “todos” os mandamentos de Deus, eles sofrerão punições até chegar ao ponto de quebrarem a aliança com Deus. Isso mostra que o povo de Israel é “salvo” das punições (perderem a terra, serem escravizados por outros povos, serem destruídos completamente pelos estrangeiros) se pertencerem a aliança com Deus, mas o povo de Israel pode perder a “salvação” (serem destruídos completamente) se quebrarem a aliança com Deus e desse modo não pertencerem mais a ela. Isso mostra que a “salvação” de Israel é pertencer a aliança com Deus e permanecer nela.
No Livro dos Jubileus, quando o Senhor prediz a restauração dos israelitas, ele anuncia uma questão muito importante para se manter como participante da aliança sinaítica que é o cumprimento de “todos os mandamentos”:
E suas almas se apegarão a mim e a todos os meus mandamentos. E eles cumprirão meus mandamentos. 25 E eu serei um pai para eles, e eles serão filhos para mim. E todos serão chamados de “filhos do Deus vivo”300. Essa afirmação de “cumprir todos os mandamentos” é uma alusão a várias passagens da aliança sinaítica. Em seguida mostraremos os textos que dizem claramente para que se “guarde toda ordenança, mandamento, lei” e os principais textos que trazem os princípios da aliança sinaítica:
O dever de “guardar toda ordenança, mandamento, lei”:
299Ibid. p. 52, 53. 300Ibid. p. 54.
לָּכ kɔl: “todo, toda” aparece nos seguintes textos (Dt 8:1; Dt 11:8, 22, 32; Dt
13:18; Dt 26:18; Dt 27:1; Dt 28:1; Dt 29:29; Dt 30:8), nos demais textos aparece a forma
plural “mandamentos, ordenanças” (Êx 19:8; Êx 24:3,7; Dt 4:2, 40; Dt 5:1, 31; Dt 7:11; Dt 8: 6; Dt 10:12, 13; Lv 19:37; Lv 20:8; Lv 20:22).
Os princípios da aliança sinaítica:
- Êxodo 19:1-6 (proposta da aliança), vv.7-8 (o povo aceita a proposta de aliança); Êx 20 (os dez mandamentos); Êx 21, 22, 23 (diversas leis que regulam o comportamento social e religioso); Êx 24:3,4, 6-8 (o povo de Israel aceita os termos da aliança, ou seja, cumprir todos os mandamentos); Êx 34: 1-9 (Tábuas Novas da Lei), vv. 10-28 (as exigências da da aliança); Êx 35 (a Lei do Sábado).
- Lv 19 (diversas leis), v.19, 37 (obedecer as leis de Deus); Lv 20 (punições
individuais (ser excluído do povo ou morte) para as transgressões); Lv 24:10-23
(punição de morte para quem blasfemar o nome do Senhor); Lv 26:1-13 (a recompensa da obediência), v. 9 (Deus guardará a aliança com o povo), vv. 14-39 (a punição da desobediência “v. 44: o rompimento da aliança gera destruição total do povo e do
indivíduo), vv. 40-45 (renovação da aliança por causa do arrependimento do povo ou do
indivíduo).
- Dt 4:1-14 (exortação à obediência), vv. 15-31 (a proibição da Idolatria), vv. 44- 49 (estabelecimento da lei); Dt 5 (os dez mandamentos), v. 3 (essa aliança foi feita com o povo de Israel e não com os seus antepassados); Dt 6:1-9 (amar ao Senhor), vv. 10 (Exortação à obediência); Dt 7 (os povos estrangeiros serão expulsos da terra), vv. 12-26 (as bençãos que vem por causa da obediência), v. 12 (se obedecerem as ordenanças,
Deus manterá a aliança com o povo); Dt 8 (obedecer toda a lei), vv. 10-20 (não seixar
de obedecer os mandamentos do Senhor), v. 20 (se não obedecerem os mandamentos, eles serão destruídos); Dt 9:1-6 (não é por causa da justiça do povo de Israel que o Senhor lhes dá a terra); Dt 10 (Tábuas semelhantes às primeiras), v. 13 (obedecer aos mandamentos); Dt 11 (amar a Deus e obedecer todos os seus mandamentos); Dt 12 (os mandamentos que o povo deve cumprir), Dt 13 (não adorar outros deuses); Dt 14:1-21 (regras de pureza e impureza), vv. 22-29 (entregar os dízimos); Dt 15 (o ano do cancelamento da dívidas, a libertação dos escravos, as primeiras criações); Dt 16 (a Páscoa, as festas, e as funções do Juízes); Dt 17 (advertências, julgamentos e decretos); Dt 18 (a herança dos sacerdotes e levitas, advertências contra praticas entrangeiras e o profeta do Senhor); Dt 20 (as leis a respeito das guerras), Dt 21 (diversas leis); Dt 22 (leis
sobre animais e o casamento); Dt 23, 24, 25 (diversas leis); Dt 26:16-19 (exortação à obediência); Dt 27 (as maldições pronunciadas no monte Ebal), v. 26 (maldito quaquer um que não colocar em pratica as palavras desta lei); Dt 28:1-14 (as bênçãos pronunciadas no monte Ebal), vv. 15-68 (as maldições da desobediência); Dt 29 (a renovação da aliança motivada pelo arrependimento); Dt 30 (perdão para quem se arrepende, morte ou vida).
Essas passagens mostram que o povo de Israel se compromete a cumprir todas as ordenanças de Deus pronunciadas por meio de Moisés (Êx 19:8; Êx 24:3,7). Entretanto, há algumas passagens bíblicas que a ordem de Deus ao povo de Israel é para que “cumpram todos os mandamentos” e não só uma parte deles (Dt 4:2, 40; Dt 5:1, 31; Dt 7:11; Dt 8:1, 6; Dt 10:12, 13; Dt 11:8, 22, 32; Dt 13:18; Dt 26:18; Dt 27:1; Dt 28:1; Dt
29:29; Dt 30:8; Lv 19:37; Lv 20:8; Lv 20:22). Isso implica em permanência na aliança
com Deus, isto é, se não cumprirem “todos os mandamentos” o povo ou o indivíduo pode quebrar a aliança com Deus e sofrer a exclusão da comunidade e até a morte. Em Lv 20 há um catálogo de situações que o indivíduo não pode praticar, pois se colocar em prática, ele é automaticamente “excluído da comunidade e morto”, ou seja, ele quebra a aliança com Deus e por isso ele é rejeitado. Já em Lv 26:44 e Dt 7:12 se o povo de Israel “cumprir todos os mandamentos de Deus”, ele manterá sua aliança com eles, mas se o povo não cumprir sua parte, a aliança será quebrada e o povo será rejeitado. Com isso, observamos que existe a responsabilidade de “cumprir todos os mandamentos de Deus” tanto pelo indivíduo quanto pelo povo de Israel e que dependendo do tipo de proibição que é praticada e do tempo de permanência dessa prática proibida, pode gerar exclusão da comunidade e morte. Essas são as piores consequências da quebra da aliança com Deus.
Em dez textos bíblicos está explícito que o povo de Israel deve “cumprir todos os mandamentos”:
1Cuidareis de cumprir todos os mandamentos que hoje vos ordeno, para que
vivais, e vos multipliqueis, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR prometeu sob juramento a vossos pais. Dt 8:1 (ARA)
8 Guardai, pois, todos os mandamentos que hoje vos ordeno, para que sejais
fortes, e entreis, e possuais a terra para onde vos dirigis; Dt 11:8 (ARA)
22 Porque, se diligentemente guardardes todos estes mandamentos que vos
ordeno para os guardardes, amando o SENHOR, vosso Deus, andando em todos os seus caminhos, e a ele vos achegardes, Dt 11:22 (ARA)
32 Tende, pois, cuidado em cumprir todos os estatutos e os juízos que eu,
hoje, vos prescrevo. Dt 11:32 (ARA)
18 se ouvires a voz do SENHOR, teu Deus, e guardares todos os seus
mandamentos que hoje te ordeno, para fazeres o que é reto aos olhos do
18 E o SENHOR, hoje, te fez dizer que lhe serás por povo seu próprio, como te
disse, e que guardarás todos os seus mandamentos. Dt 26:18 (ARA)
1Moisés e os anciãos de Israel deram ordem ao povo, dizendo: Guarda todos
estes mandamentos que, hoje, te ordeno. Dt 27:1 (ARA)
1Se atentamente ouvires a voz do SENHOR, teu Deus, tendo cuidado de
guardar todos os seus mandamentos que hoje te ordeno, o SENHOR, teu
Deus, te exaltará sobre todas as nações da terra. Dt 28:1 (ARA)
29As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as
reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que
cumpramos todas as palavras desta lei. Dt 29:29 (ARA)
8 De novo, pois, darás ouvidos à voz do SENHOR; cumprirás todos os seus
mandamentos que hoje te ordeno. Dt 30:8 (ARA)
Em oito passagens aparece as mesmas palavras no texto hebraico: לָּכ kɔl e הָּו ְּצ ִמ
miṣwāh (substantivo feminino singular) e em duas passagens aparece duas palavras diferentes: ל ָּכ kɔl e קֹחḥōq(substantivo masculino plural) em (Dt 11:32),לָּכ kɔl e ה ָּרוֹתּ
tôrāh (substantivo feminino singular) em (Dt 29:28).
“A palavra לֹכ kōl, em uma ou outra forma, corresponde de diversas maneiras a “cada”, “todo” em português”301. “A forma não flexionada precede o substantivo que
modifica e pode encontrar-se unida a ele com maqqēp̄ (־לָּכ kɔl-) ou permanecer independente (לֹכ kōl)”302.
“O vocábulo הָּו ְּצ ִמ miṣwāh aparece 180 vezes na Bíblia hebraica, só em Deuteronômio aparece 43 vezes”303. “Ele tem o significado de ‘comissão, mandamento
(individual), (conjunto de todos os) mandamentos, direitos: promulgados por pessoas 1Rs 2:43; por homens Is 29:13; dado por Deus (sempre em Gn-Dt)’”304.
“O vocábulo קֹחḥōq tem o significado de ‘porção, termo, tarefa prescrita, porção apropriada, obrigação, parte atribuída, tempo determinado, limite, lei, regulação, regra, prescrição’”305. “Ele é atestado no siríaco como ḥuqqā ‘regra’ no árabe como ḥaqq e no etíope como ḥeq e ḥeg”306. Esse vocábulo tem “sua origem na raiz verbal קקח ḥqq
301LAMBDIN, Thomas O. Gramática do Hebraico Bíblico. São Paulo: Paulus, 2016, p. 93. 302Ibid. p. 93.
303KOEHLER & BAUMGARTNER. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. 2 vols.
Boston: Brill Academic, 2001, p. 622.
304Ibid. p. 622. 305Ibid. p. 346. 306Ibid. p. 346
que significa no aramaico judaico: ‘esvaziar, esculpir’, no fenício ‘esculpir, estipular por escrito’, no árabe ḥaqqa ‘fazer sulcos’, ḥaqq ‘dever, obrigação’, no hebraico ‘qal: esculpir, inscrever, ordenar, decretar’”307.
“O vocábulo ה ָּרוֹתּ tôrāh na forma do substantivo. Veja Gesenius-Kautzsch Gramm. §95p; Bauer-Leander Heb. 495m: raiz הרי yrh, mas há incerteza sobre se o substantivo deve ser derivado de I הרי ou III הרי;”308 Isso dá origem à possibilidade de “tomar ה ָּרוֹתּ como uma palavra de empréstimo do acadiano. têrtu(m), instrução (AHw. 1350f), para outras propostas, veja Gunnar Östborn Tōrā no Antigo Testamento (1945) 4-22; Também THAT 2: 1032”309. “O que é mais provável uma conexão com III הרי no sentido de esticar o dedo, ou a mão, para apontar uma rota (Gesenius-Buhl Handw. 318a), cf. ה ֶרוֹמ וי ָּתֹע ְּב ְּצ ֶא ְּב Pr 6:13, então especialmente Östborn loc. Cit. 4ff, 33, 169; König Wb. 161b;”310 “Veja também KBL :: Koehler Theol.4 195: I הרי; THAT 2: 1032 menciona as propostas, mas sem expressar qualquer preferência: a questão (da etimologia) não pode ser adiantada, a menos que um novo material esteja disponível”311. “No hebraico, portanto, com o sentido de ‘instrução, direção, regra’. Que vem da raiz III
הרי ‘instruir, ensinar’”312.
Portanto, a הָּו ְּצ ִמ miṣwāh “comissão, mandamento”, קֹחḥōq “lei, regra” e a ה ָּרוֹתּ
tôrāh “instrução, direção, regra” devem ser cumpridos totalmente tanto pelo povo quanto
pelo indivíduo para que sua permanência na aliança com Deus seja preservada. Neste