“A ד ַחׇּי ַה ךְ ֶר ֶס - Serek196 há-Yahad - faz parte do primeiro lote de grandes
manuscritos descobertos na gruta 1, em 1946”. “A princípio, a Regra da Comunidade foi chamada de Manual da Disciplina, sendo conhecida por este nome em muitas publicações”197. “Durante certo tempo, porém, a Regra da Comunidade foi também designada de “documento da seita”, na falta de outra designação que parecesse melhor”198. “No entanto, uma crítica foi feita a esta expressão pela evidente razão de que todos os manuscritos são documentos da seita”199. “Estudos posteriores do texto mostraram que os membros de Qumran a chamavam de Regra da Comunidade”200. “De fato, uma das características que se destacam na vida daquelas pessoas é a da sua vida comunitária: na Regra da Comunidade da gruta 1, a seita de Qumran é chamada de ד ַחַי ("comunidade") 76 vezes”201. “Os termos ךְ ֶר ֶס202 (regra, norma ou legislação) e ד ַחַי203 (comunidade, assembléia ou reunião) refletem ainda o estilo de agrupamento daquelas pessoas e nos permitem classificar a obra sob o gênero específico ‘literatura sectária legal’”204.
196VÁSQUEZ ALLEGUE, J., Los Hijos de La Luz Los Hijos de Las Tinieblas, p. 58. A letra "S" vem a ser
a sigla na qual se cita o manuscrito de forma universalmente aceita (manuscrito Serek); cf. 1QS 1,1. Citado por: MENDONÇA, Sandrélly da Matta. O CRISTO-LUZ NO QUARTO EVANGELHO E O TEMA DA "LUZ" EM QUMRAN: Perspectiva Literária do Quarto Evangelho a partir da sua relação com a Regra da Comunidade. Tese de Doutorado. Departamento de Teologia. Programa de Pós-graduação em Teologia. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0510384/CA. Rio de Janeiro: março de 2009, p. 42.
197Ibid. p.42. 198Ibid. p.42.
199BURROWS, M., Os Documentos do Mar Morto, p. 241. Citado por: Ibid. p.42. 200Ibid. p.42.
201LAMADRID, A. G., Los Descubrimientos del Mar Muerto, p. 126. Citado por: Ibid. p.42.
202HARRIS, R. L.; ARCHER, G. L., WALKE, B. K., Dicionário Internacional de Teologia do AT, p. 608.
Citado por: Ibid. p.43.
203HARRIS, R. L.; ARCHER, G. L., WALKE, B. K., Dicionário Internacional de Teologia do AT, p. 609.
Citado por: Ibid. p.43.
204VÁSQUEZ ALLEGUE, J., Los Hijos de la Luz y los Hijos de las Tinieblas, p. 59. Outras classificações
apenas situam o manuscrito de 1QS dentro da literatura sectária, na parte de regras ou literatura legal própria do grupo de Qumran. Sobre o assunto, temos a obra de García Martínez, F., Literatura Judia Intertestamentária, p. 21-22. Citado por: MENDONÇA, Sandrélly da Matta. O CRISTO-LUZ NO
“A Regra da Comunidade pode ser definida como ‘sectária’ pelo fato de sua redação final e seu conteúdo se situarem no momento de maior esplendor da vida comunitária de Qumran enquanto um grupo separado do judaísmo oficial de Jerusalém”205; “e como ‘legal’ porque seu conteúdo predominante está centrado na descrição de normas e leis que organizam o grupo, mas, por outro lado, incluem também tratados teológicos, exposições históricas, exegese, exortações orais, etc.”206 “Entre os demais escritos do grupo de Qumran, a Regra da Comunidade foi, sem dúvida, o documento legislativo mais importante”207, “uma vez que contém as normas de vida e a razão de ser que davam sentido ao compromisso que aqueles homens tinham assumido”208. “No entanto, não se trata de um livro de regra exaustivo, mas de um auxílio para os membros já experientes no modo de vida comunitário”209.
“A partir dos estudos de Murphy-O´Connor210, chegou-se à conclusão de que a
Regra da Comunidade é o reflexo de uma série de etapas redacionais e correções sobre um núcleo primitivo”. “Ele destacou, assim, quatro etapas redacionais em 1QS que teriam relação com os períodos de ocupação em Qumran”211:
• Estágio 1: 1QS 8,1-10a. 12b-16a; 9,3-10,8
O "Manifesto" composto pelo Mestre da Justiça126. É o núcleo no qual o restante da Regra da Comunidade se desenvolveu. Esta seção é dominada pelo tema da santidade sacerdotal, ao qual o ideal da separação está intimamente ligado.
• Estágio 2: 1QS 8,10b-12a; 8,16b-9,2
Legislação penal para uma pequena comunidade. Trata-se de uma pequena legislação penal fora de contexto em seu estado atual na Regra da Comunidade.
• Estágio 3: 1QS 5,1-13a; 6,8b-7,25
QUARTO EVANGELHO E O TEMA DA "LUZ" EM QUMRAN: Perspectiva Literária do Quarto Evangelho a partir da sua relação com a Regra da Comunidade. Tese de Doutorado. Departamento de Teologia. Programa de Pós-graduação em Teologia. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0510384/CA. Rio de Janeiro: março de 2009, p. 43.
205Ibid. p.43. 206Ibid. p.43.
207VÁSQUEZ ALLEGUE, J., Los Hijos de la Luz y los Hijos de las Tinieblas, p. 72-73. Outras
classificações apenas situam o manuscrito de 1QS dentro da literatura sectária, na parte de regras ou literatura legal própria do grupo de Qumran. Sobre o assunto, temos a obra de García Martínez, F., Literatura Judia Intertestamentária, p. 21-22. Citado por: MENDONÇA, Sandrélly da Matta. O CRISTO- LUZ NO QUARTO EVANGELHO E O TEMA DA "LUZ" EM QUMRAN: Perspectiva Literária do Quarto Evangelho a partir da sua relação com a Regra da Comunidade. Tese de Doutorado. Departamento de Teologia. Programa de Pós-graduação em Teologia. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0510384/CA. Rio de Janeiro: março de 2009, p. 43.
208SUSSMANN, A.; PELED, R., Scrolls from the Sea, p. 60. Citado por: Ibid. p.43.
209ALEXANDER, P. S., The Redaction-History of Serekh Há-Yahada: A Proposal in RQ 17 (1996), p.
439. Citado por: Ibid. p.43.
210MURPHY-O´CONNOR, J., La Gènese Littéraire de la Règle de la Communauté in RB 4 (1969), p. 61-
66. Citado por: Ibid. p.45.
211MURPHY-O´CONNOR, J., La Gènese Littéraire de la Règle de la Communauté in RB 76 (1969), p.
Redefinição da natureza da comunidade e legislação penal para uma grande comunidade. O elemento principal é a autoridade (cf. 5,2-3), o que denota a institucionalização, característica tardia no desenvolvimento da comunidade.
• Estágio 4: 1QS 1,1-4,26; 5,13b-6,8a; 10,9-11,22
Material de fontes diversas combinadas para formar uma exortação e autêntica observância. Este estágio foi escrito na esperança de infundir um novo esforço para a conversão genuína do coração, ou seja, para retornar ao fervor inicial do movimento. Isto se deve à diminuição no fervor por causa da entrada de um número considerável de novos membros na comunidade. Mais do que uma pura confiança nas palavras do Mestre da Justiça, estes recém- chegados procuravam abrigo e proteção na comunidade do deserto. Inevitavelmente, a situação conduziu a uma tensão entre os membros antigos, altamente motivados, e os refugiados, não tão motivados assim212.
Analisaremos o exemplar da gruta I, 1QRegra da Comunidade (1QS Col. I; Col. II e Col. V;), no qual “a Regra se inscreve na linha do Deuteronômio que prevê uma renovação da aliança na entrada em Canaã, detalhando as bênçãos e as maldições (cf. Dt 28-30)”213.
Na “1QRegra da Comunidade (1QS Col. I)”214 aparece a primeira referência a
aliança sinaítica:
1 Para [o Instrutor...] ... [livro da da Reg]ra da Comunidade: para buscar 2 a
Deus [com todo o coração e com toda alma; para] fazer o que é bom e o que é reto em sua presença, como 3 ordenou pela mão de Moisés e pela mão de todos
os seus servos os Profetas; para amar tudo 4 o que ele escolhe e odiar tudo o
que ele rejeita; para manter-se distante de todo mal, 5 e apegar-se a todas as
boas obras; para operar a verdade, a justiça e o direito 6 na terra, e não caminhar
na obstinação de um coração culpável e de olhos luxuriosos 7 fazendo todo
mal; para admitir na aliança da graça a todos os que se oferecem voluntariamente para praticar os preceitos de Deus, 8 a fim de que se unam no
conselho de Deus e caminhem perfeitamente em sua presença, de acordo com todas 9 '' as coisas reveladas sobre os tempos fixados de seus testemunhos [...]
[...] Não se apartarão de nenhum 14 de todos os mandatos de Deus sobre os seus
tempos: não adiantarão os seus tempos nem atrasarão 15 nenhuma de sus festas.
Não se desviarão de seus preceitos verdadeiros para ir à direita ou à esquerda [...]
Os “preceitos” de Deus (lei, mandamentos) são importantes para a comunidade, pois estabelecem quais são as boas obras e quais são as más obras. Para com isso, mostrar que aquele que pratica corretamente os preceitos de Deus “se une no seu conselho e caminha perfeitamente em sua presença”. Esses preceitos foram ordenados “pela mão de
212MURPHY-O´CONNOR, J., The Essenes in Palestine in BA 40 (1977), p. 114. Citado por:
MENDONÇA, Sandrélly da Matta. O CRISTO-LUZ NO QUARTO EVANGELHO E O TEMA DA "LUZ" EM QUMRAN: Perspectiva Literária do Quarto Evangelho a partir da sua relação com a Regra da Comunidade. Tese de Doutorado. Departamento de Teologia. Programa de Pós-graduação em Teologia. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0510384/CA. Rio de Janeiro: março de 2009, p. 46, 47.
213Ibid. p.67.
Moisés”, ou seja, foram estabelecidos no contrato/aliança entre Deus e o povo de Israel no monte Sinai.
Na “1QRegra da Comunidade (1QS Col. II)”215 os sacerdotes proferem as bênçãos e maldições seguindo o modelo da aliança sinaítica descrita em (Dt 28-30):
[...] E os sacerdotes abençoarão todos 2 os homens do lote de Deus que
caminham perfeitos em todos os seus caminhos e dirão: “Que vos abençoe com todo o bem
3 e que vos guarde de todo o mal. Que ilumine vosso coração com a
inteligência de vida e vos agracie com conhecimento eterno.
4 Que leve sobre vós o rosto de sua graça para paz eterna”. E os levitas
amaldiçoarão todos os homens
5 do lote de Belial. Tomarão a palavra e dirão: “Maldito sejas por todas as tuas
ímpias obras culpáveis. Que te entregue (Deus) ao terror,
6 em mãos aos vingadores de vinganças. Que faça cair sobre ti a destruição
pela mão de todos os executores de castigos.
7 Maldito sejas, sem misericórdia, pelas trevas de tuas obras, e sejas condenado 8 à obscuridade do fogo eterno. Que Deus não tenha misericórdia quando o
invocares, nem te perdoe quando expiares tuas culpas.
9 Que ele erga o rosto de sua ira para vingar-se de ti, e não haja paz para ti na
boca dos que intercedem”.
10 E todos os que entrarem na aliança dirão depois dos que abençoam e os que
amaldiçoam: “Amém, Amém”.
11 Vacat. E os sacerdotes e os levitas continuarão dizendo: «Maldito pelos
ídolos que seu coração venera
12 quem entra nesta aliança deixando diante de si seu tropeço culpável para cair
nele.
13 Quando escuta as palavras desta aliança, felicita-se em seu coração dizendo:
"Terei paz,
14 apesar de que ando na obstinação do meu coração". Porém seu espírito será
destruído, o seco com o úmido, sem perdão.
15 Que a ira de Deus e a cólera de seus juízos o consumam para destruição
eterna. Que se lhe peguem todas
16 as maldições desta aliança. Que Deus o separe para o mal, e que seja cortado
do meio de todos os filhos da luz por apartar-se do seguimento de Deus
17 por causa de seus ídolos e de seu tropeço culpável. Que ponha o seu lote
entre os malditos para sempre” [...]
Os homens que “caminham perfeitos em todos os seus caminhos” serão recompensados com bênçãos estabelecidas pela aliança (ser guardado de todo mal, inteligência de vida, conhecimento eterno, graça, paz eterna). Por outro lado, os homens que “andam obstinados em seus corações” serão recompensados com maldições estabelecidas pela aliança (seu espírito será destruído, o seco com o úmido, sem perdão, ser cortado do meio do povo, destruição eterna). Certamente, o não cumprimento dos preceitos da aliança levaria a um rompimento desse contrato estabelecido entre o povo e Deus, mas aqui fica claro que o rompimento da aliança também pode acontecer entre o
indivíduo que não se sujeita aos preceitos da aliança e Deus. Efetivamente, a aliança sinaítica conduzia e organizava o comportamento dos membros da comunidade.
Na “1QRegra da Comunidade (1QS Col. V)”216 mais uma vez aparece o modelo de aliança sinaítica:
[...] 7 para declarar culpáveis todos os que rompem o preceito. Estas são as suas
normas de conduta sobre todos estes preceitos quando são admitidos na comunidade. Todo o que entra no conselho da comunidade 8 entrará na aliança
de Deus em presença de todos os que se oferecem voluntariamente. Comprometer-se-á com um juramento obrigatório a retornar à lei de Moisés, com tudo o que prescreve, com todo 9 o coração e com toda a alma, segundo
tudo o que foi revelado dela aos filhos de Sadoc, os sacerdotes que observam a aliança e interpretam a sua vontade, e à multidão dos homens de sua aliança
10 que juntos se oferecem voluntariamente para a sua verdade e para caminhar
segundo sua vontade. Que pela aliança se comprometa a separar-se de todos os homens de iniquidade que caminham 11 por caminhos de impiedade. Pois eles
não são contados em sua aliança, já que não buscaram nem investigaram os seus preceitos para conhecer as coisas ocultas nas quais erraram 12 por sua
culpa, e porque fizeram com insolência as coisas reveladas; por isso se levantará a cólera para o juízo, para executar vinganças pelas maldições da aliança, para infligir-lhes castigos 13 enormes, para destruição eterna sem que
haja um resto [...]
Todos os que “entram no conselho da comunidade” também devem “entrar na aliança de Deus, ou seja, deve comprometer-se com um juramento obrigatório a retornar à lei de Moisés”. Entretanto, “todos os que rompem o preceito, são declarados culpáveis”. O sistema condicional da aliança sinaítica se mostra fortemente enraizado na conduta da comunidade, ou seja, para fazer parte dela é obrigatório fazer parte da aliança sinaítica e praticar seus preceitos (leis, mandamentos). Por isso, há uma diferença entre aqueles que pertencem à aliança e aqueles que não pertencem, isto é, haverá “destruição eterna” para quem não pratica os preceitos da aliança.
5.3. 4QMMT הרותה השעמ תצקמ (Miqsat Ma‘aseh Ha-Torah)
Analisaremos um documento que pertence aos Textos Haláquicos, ou mais precisamente a Carta Haláquica. Este vocábulo vem do Hebraico הָּכי ִלֲה hălîḵāh (substantivo feminino) que significa “caminho, avanço”217. Esse “caminho” conduz o
povo de Israel a fazer o que é correto conforme os preceitos da Torá. Com isso, os textos
216Ibid. p.51
217KOEHLER & BAUMGARTNER. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. 2 vols.
Haláquicos são um conjunto de leis que procuram regulamentar a conduta do povo judeu para que eles vivam de acordo com os mandamentos da Torá.
Um documento que faz parte desse contexto da ה ָּכי ִלֲה hălîḵāh é o 4QMMT הרותה השעמ תצקמ (Miqsat Ma‘aseh Ha-Torah) que significa: “Algumas das Obras da Lei”. “O documento começa com um calendário sectário (seção A, vv.1-3), que pode ou não pertencer ao MMT original; continua com uma série de regras especiais (seção B, vv.4-94), e termina com uma exortação (seção C, vv.95-118)”218. Segundo Wright, “parece ser uma carta, escrita em meados do século II a.C., do líder do grupo de Qumran ao líder de um grupo maior, do qual a seita de Qumran já fazia parte”219. Entretanto, Vermes afirma que “o MMT foi chamado de epístola, mas, como não possui as fórmulas introdutórias e conclusivas de uma carta, é mais provável que seja um tipo de tratado legal”220. Concordamos com a afirmação do autor porque não há no documento uma apresentação inicial de quem está escrevendo, não há um destinatário explícito e não há uma conclusão. Por outro lado, também concordamos com a afirmação de Wright que o documento parace ser uma carta, pois nela há um catálogo de leis de pureza e no final há uma exortação para que se faça conforme foi descrito. Portanto, nossa hipótese é que o documento seja uma carta com um “conjunto de leis” endereçada a alguém. De acordo com Vermes, o “conjunto de leis”:
É dirigido a uma única personalidade de liderança que é comparada ao rei Davi. A dramatis personae consiste em um grupo "nós", um grupo "vocês" e um grupo "eles". O grupo responsável pelo MMT, que se refere a si mesmos como "nós", procura separar o líder do grupo "vocês" dos pontos de vista errôneos propostos pelo grupo "eles"221.
A primeira referência a esse grupo sectário de Qumran se encontra no início da
coluna I do Documento de Damasco:
[...] E no tempo da ira, aos trezentos 6 e noventa anos após tê-los entregue nas
mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia, 7 visitou-os e fez brotar de Israel e
de Aarão um broto da plantação para possuir 8 a sua terra e para engordar com
os bens de seu solo. E eles compreenderam sua iniquidade e souberam que 9
eram homens culpáveis; porém eram como cegos e como quem às apalpadelas busca o caminho 10 durante vinte anos. E Deus considerou suas obras porque o
buscavam com o coração perfeito, 11 e suscitou para eles um Mestre de Justiça
para guiá-los no caminho de seu coração. Vacat. E para dar a conhecer 12 às
218VERMES, GEZA. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Revised Edition. New York: Penguin
Classics, 2004, p. 221.
2194QMMT and Paul: Justification, ‘Works’ and Eschatology (2006). In: WRIGHT. N. T. Pauline
Perspectives Essays on Paul, 1978-2013. Minneapolis: Fortress Press, 2013, p. 334.
220VERMES, GEZA. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Revised Edition. New York: Penguin
Classics, 2004, p. 221.
últimas gerações o que ele havia feito à geração futura, a congregação dos traidores. 13 Estes são os que se apartam do caminho [...]222
Segundo Collins, “os 390 anos apontariam para uma data no início do segundo século a.C. Mas o número é simbólico (cf. Ezequiel 4,5), e é muito duvidoso se alguma informação cronológica pode ser derivada dele”223. Para o autor, “parece claro que a
separação da seita se deu na era asmoneia, não depois da época de Alexandre Janeu, provavelmente no reinado de João Hircano”224. O grupo sectário judaico de Qumran se
separou do judaísmo oficial de Jerusalém e “as razões pelas quais a seita rompeu com o resto do judaísmo são abordadas na coluna 3 do Documento de Damasco e, especialmente, na chamada Carta Haláquica, 4QMMT”225. É importante destacar que “essas razões dizem respeito à discordância sobre o calendário litúrgico e a interpretação das leis de pureza”226. Na coluna I do Documento de Damasco está claro que Deus
escolheu uma porção do povo judeu após o exílo babilônico que reconheceram que eram culpados diante dele, e o “buscavam com o coração perfeito”, por isso, ele “suscitou para eles um Mestre de Justiça para guiá-los no caminho de seu coração”. Esse grupo segue o que é correto segundo as leis de Deus ao contrário da “congregação dos traidores que se apartam do caminho”. Diante disso, veremos no 4QMMT como o grupo sectário (nós) descreve seu argumento ao grupo (vocês ou vós) para combater o ponto de vista equivocado do outro grupo (eles). No entanto, focaremos em como essa seita compreende sua relação com a Torá, isto é, como ela entende o vínculo da tríade: aliança, lei, indivíduo.
Em toda literatura judaica do período do Segundo Templo, somente no 4QMMT aparece a expressão הרותה השעמ תצקמ (Miqsat Ma‘aseh Ha-Torah). Alguns estudiosos divergem na tradução do vocábulo השעמ Ma‘aseh. Vermes traduz a espressão dessa forma: (4Q398 14 -17 ii combinado com 4Q399) “algumas das observâncias da Lei”227. O autor traduz השעמ Ma‘aseh como “observâncias”. Por outro lado, Martínez
na sua obra em Espanhol e consequentemente na tradução dessa obra para o português
222MARTÍNEZ, Florentino Garcia. Textos de Qumran. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 76.
223COLLINS, John J. A imaginação apocalíptica: Uma introdução à literatura apocalíptica judaica. São
Paulo: Paulus, 2010, p. 218.
224Ibid. p.218. 225Ibid. p.219. 226Ibid. p.219.
227VERMES, GEZA. The Complete Dead Sea Scrolls in English. Revised Edition. New York: Penguin
traduz a expressão dessa forma: (v.113) “alguns dos preceitos da Torá”228. O autor traduz השעמ Ma‘aseh como “preceitos”. Entretanto, em sua obra posterior traduzida para os falantes de língua inglesa, a expressão é traduzida de outra forma: (v.113) “algumas das obras da Torá”229. Agora o vocábulo השעמ Ma‘aseh é traduzido por “obras”. Mas, qual
tradução está correta? Vamos analisar todos os vocábulos.
O primeiro vocábulo ת ָּצ ְּק ִמ: é um substantivo feminino ת ָּצ ְּק que significa: “uma parte de, alguns/algumas de”230. O segundo vocábulo ה ֶשֲע ַמ: é um substantivo masculino
que significa: “obra, trabalho, feito, obras e feitos de Deus, realização humana”231. E o terceiro vocábulo ה ָּרוֹתּ: é um substantivo feminino que significa: “instrução, direção, regra”232. Ao unir todos esses vocábulos podemos traduzir essa expressão que aparece em
4QMMT (v. 113) dessa forma: “Algumas das Obras da Lei”. Portanto, optamos por traduzir o vocábulo השעמ Ma‘aseh por “Obras” assim como está traduzido no texto de Martínez na versão inglesa por entendermos que essa tradução expressa de forma mais correta o significado do vocábulo em hebraico. De fato, essas “Obras da Lei” se referem aos mandamentos/prescrições da Torá que devem ser cumpridos.
Logo após o calendário (seção A, vv.1-3), o grupo sectário continua com uma série de regras especiais (seção B, vv.4-94) que envolvem leis de pureza ritual (todas as coisas que são consideradas impuras, tais como: oferenda dos gentios, os leprosos, cegos e surdos, correntes líquidas do corpo, cadáver, mistura de duas espécies diferentes tanto