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Eleição de Israel”115. “A primeira é baseada nas promessas à Abraão, ou seja, é graciosa”116, porque não há obrigações a serem observadas. “A outra tradição, condicional, está ligada a Moisés (apesar de sua redação no Deuteronômio ser datada 500 anos após a morte do líder israelita)”117. “Nesta formulação mosaica, nada é assegurado

108KOEHLER & BAUMGARTNER. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. 2 vols.

Boston: Brill Academic, 2001, p. 1702.

109Ibid. p. 1702. 110Ibid. p. 1702. 111Ibid. p. 1703. 112Ibid. p. 1683. 113Ibid. p. 134. 114Ibid. p. 134.

115FINGUERMAN, Ariel. A Eleição de Israel. São Paulo: Humanitas – FAPESP, 2003, p. 29. 116Ibid. p. 29.

a priori e paira sempre no ar a ameaça de castigos terríveis ou de rompimento no caso do

não-cumprimento dos mandamentos”118.

De certo, observaremos que tanto a aliança abrâmica quanto a aliança sinaítica estão presentes no pensamento israelita que está expresso na literatura profética e extra bíblica. Com isso, analisaremos alguns textos tanto da literatura profética quanto da literatura extra bíblica para mostrar que as duas concepções de aliança coexistem juntas.

É de suma importância salientar que a Aliança com a casa de Davi foi baseada na aliança abrâmica, isto é, “as promessas de Deus para o monarca, como fora com o patriarca Abraão, eram incondicionais e mesmo delitos por parte do rei não podiam anulá- las”119. Isto está evidente em 2Sm 7:8-17 (ARA):

8 Agora, pois, assim dirás ao meu servo Davi: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Tomei-te da malhada, de detrás das ovelhas, para que fosses príncipe sobre o meu povo, sobre Israel. 9 E fui contigo, por onde quer que andaste, eliminei os teus inimigos diante de ti e fiz grande o teu nome, como só os grandes têm na terra. 10 Prepararei lugar para o meu povo, para Israel, e o plantarei, para que habite no seu lugar e não mais seja perturbado, e jamais os filhos da perversidade o aflijam, como dantes, 11 desde o dia em que mandei houvesse juízes sobre o meu povo de Israel. Dar-te-ei, porém, descanso de todos os teus inimigos; também o SENHOR te faz saber que ele, o SENHOR, te fará casa. 12 Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. 13 Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino. 14 Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; se vier a transgredir, castigá-lo-ei com varas de homens e com açoites de filhos de homens. 15 Mas a minha misericórdia se não apartará dele, como a retirei de Saul, a quem tirei de diante de ti. 16 Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre. 17 Segundo todas estas palavras e conforme toda esta visão, assim falou Natã a Davi.

“A nação poderia sofrer calamidades se a realeza fosse corrupta, pois a divindade certamente iria puni-la ‘como um pai pune um filho’, mas o juramento de Deus permaneceria eternamente e a dinastia davídica não mais terminaria”120. Ao observar a aliança abrâmica verificamos que ela era uma aliança agraciada, que não previa outras responsabilidades além de ter fé e continuar a ser um homem de boa conduta. Entretanto, na aliança Davídica isso era explicíto: “o rei era obrigado a fazer justiça e a obedecer aos mandamentos divinos, do contrário, seria punido”121. Contudo, “o mais importante é

118Ibid. p. 29. 119Ibid. p. 33.

120FINGUERMAN, Ariel. A Eleição de Israel. São Paulo: Humanitas – FAPESP, 2003, p. 33. 121Ibid. p. 33.

ressaltar a semelhança entre as Alianças de Davi e Abraão: o peso recai sempre nas promessas de Deus e estas eram incondicionais”122:

14 Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; se vier a transgredir, castigá- lo-ei com varas de homens e com açoites de filhos de homens. 15 Mas a minha misericórdia se não apartará dele, como a retirei de Saul, a quem tirei de diante de ti. 2 Sm 7:14-15 (ARA)

18 Naquele mesmo dia, fez o SENHOR aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates. Gn 15:18 (ARA)

“O Primeiro Isaías, assim como todos os outros profetas, viveu em uma época de crise aguda. O império assírio123 avançava de forma irresistível desde a Mesopotâmia até o Mediterrâneo, arrasando no caminho o reino de Israel, em 722 a.e.c.” Segundo Finguerman124:

A população das dez tribos do norte fora deportada, para desaparecer para sempre da história. Quanto a Judá, o profeta viu o reino perder a sua independência e transformar-se em vassalo da Assíria. Quando tentou se rebelar, suas cidades-fortaleza foram esmagadas e a capital Jerusalém, sitiada. O profeta conheceu um Estado judaico enfraquecido e com território minúsculo, sob a constante ameaça de desaparecimento. Este cenário parecia contradizer frontalmente a teologia otimista da aliança de David, que era então amplamente aceita no reino. Quando o exército assírio estava à beira de destruir Judá, também a teologia nacional encontrava-se em perigo de morte.

Em Isaías tanto a aliança davídica quanto a aliança sinaítica são ressaltadas. Em Isaías 9:1-7 (ARA) a confiança nas promessas feita a Davi está explicita:

1 Mas para a terra que estava aflita não continuará a obscuridade. Deus, nos primeiros tempos, tornou desprezível a terra de Zebulom e a terra de Naftali; mas, nos últimos, tornará glorioso o caminho do mar, além do Jordão, Galiléia dos gentios.

2 O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz.

3 Tens multiplicado este povo, a alegria lhe aumentaste; alegram-se eles diante de ti, como se alegram na ceifa e como exultam quando repartem os despojos. 4 Porque tu quebraste o jugo que pesava sobre eles, a vara que lhes feria os ombros e o cetro do seu opressor, como no dia dos midianitas;

5 porque toda bota com que anda o guerreiro no tumulto da batalha e toda veste revolvida em sangue serão queimadas, servirão de pasto ao fogo.

6 Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz;

7 para que se aumente o seu governo, e venha paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre. O zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto.

122Ibid. p. 33.

123BRIGHT, 1980, CAPÍTULO 7. Citado por: FINGUERMAN, Ariel. A Eleição de Israel. São Paulo:

Humanitas – FAPESP, 2003, p. 39.

Já em Isaías 24:1-6 (ARA) está exposto a maldição presente na aliança sinaítica, ou seja, os castigos terríveis e a possibilidade de quebra da aliança por causa da falta de obediência aos mandamentos de Deus:

1 Eis que o SENHOR vai devastar e desolar a terra, vai transtornar a sua superfície e lhe dispersar os moradores.

2 O que suceder ao povo sucederá ao sacerdote; ao servo, como ao seu senhor; à serva, como à sua dona; ao comprador, como ao vendedor; ao que empresta, como ao que toma emprestado; ao credor, como ao devedor.

3 A terra será de todo devastada e totalmente saqueada, porque o SENHOR é quem proferiu esta palavra.

4 A terra pranteia e se murcha; o mundo enfraquece e se murcha; enlanguescem os mais altos do povo da terra.

5 Na verdade, a terra está contaminada por causa dos seus moradores, porquanto transgridem as leis, violam os estatutos e quebram a aliança eterna. 6 Por isso, a maldição consome a terra, e os que habitam nela se tornam culpados; por isso, serão queimados os moradores da terra, e poucos homens restarão.

“Em Isaías, portanto, a promessa da Aliança de Davi se encontra com as condições do Pacto de Moisés”125. A promessa feita a Davi se cumpriria incondicionalmente, mas o

povo sofreria as punições necessárias por causa da transgressão das leis. “Assim, Isaías acabou por moldar uma interpretação da Aliança com Israel que possibilitou à teologia nacional explicar a calamidade a partir de suas próprias premissas”126. Em outras palavras, o profeta Isaías se utilizou da aliança davídica que é incondicional e irrevogável para mostrar que mesmo em face da destruição do reino do norte e da condição de vassalo do reino do sul motivada pela quebra da aliança mosaica, o povo remanescente de Israel seria agraciado com as promessas feitas a casa de Davi, ou seja, que “o reino de Davi seria estabelecido para sempre” (Is 9:7).

“Porém, um século mais tarde, a Assíria havia desaparecido, mas o novo império babilônico dominava agora a Ásia ocidental”127. “Após uma frustrada rebelião judaica, o exército da Babilônia queimou Jerusalém em 587 a.e.c., exilou o rei davídico e destruiu para sempre o Estado de Judá”128. “Jeremias explicou a tragédia retomando com vigor a tradição da aliança mosaica”129. Em Jr 32:17-23 (ARA) está explícita a causa da condenação de Judá:

17 Ah! SENHOR Deus, eis que fizeste os céus e a terra com o teu grande poder e com o teu braço estendido; coisa alguma te é demasiadamente maravilhosa.

125BRIGHT, 1980, p. 395-7. Citado por: FINGUERMAN, Ariel. A Eleição de Israel. São Paulo: Humanitas

– FAPESP, 2003, p. 40.

126FINGUERMAN, Ariel. A Eleição de Israel. São Paulo: Humanitas – FAPESP, 2003, p. 40. 127Ibid. p. 40.

128Ibid. p. 40. 129Ibid. p. 41.

18 Tu usas de misericórdia para com milhares e retribuis a iniquidade dos pais nos filhos; tu és o grande, o poderoso Deus, cujo nome é o SENHOR dos Exércitos,

19 grande em conselho e magnífico em obras; porque os teus olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos filhos dos homens, para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas obras.

20 Tu puseste sinais e maravilhas na terra do Egito até ao dia de hoje, tanto em Israel como entre outros homens; e te fizeste um nome, qual o que tens neste dia.

21 Tiraste o teu povo de Israel da terra do Egito, com sinais e maravilhas, com mão poderosa e braço estendido e com grande espanto;

22 e lhe deste esta terra, que com juramento prometeste a seus pais, terra que mana leite e mel.

23 Entraram nela e dela tomaram posse, mas não obedeceram à tua voz, nem andaram na tua lei; de tudo o que lhes mandaste que fizessem, nada fizeram; pelo que trouxeste sobre eles todo este mal.

O povo de Israel havia entrado na terra prometida e tomado posse, mas desobedeceu a lei de Deus e por isso Deus trouxe este mal sobre eles, ou seja, Deus permitiu que os babilônios destruíssem o Estado de Judá.

“Apoiando-se assim na aliança mosaica, o profeta rejeitou com vigor a cega confiança nacional nas promessas davídicas”130.

“Em seu célebre discurso no templo de Jerusalém, Jeremias atacou uma das bases da tradição davídica, a inviolabilidade da cidade, transmitindo as palavras do Deus de Israel”131:

9 Que é isso? Furtais e matais, cometeis adultério e jurais falsamente, queimais incenso a Baal e andais após outros deuses que não conheceis,

10 e depois vindes, e vos pondes diante de mim nesta casa que se chama pelo meu nome, e dizeis: Estamos salvos; sim, só para continuardes a praticar estas abominações!

11 Será esta casa que se chama pelo meu nome um covil de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o SENHOR. Jr 7:9-11 (ARA) 4 Dize-lhes, pois: Assim diz o SENHOR: Se não me derdes ouvidos para andardes na minha lei, que pus diante de vós,

5 para que ouvísseis as palavras dos meus servos, os profetas, que, começando de madrugada, vos envio, posto que até aqui não me ouvistes,

6 então, farei que esta casa seja como Siló e farei desta cidade maldição para todas as nações da terra. Jr 26:4-6 (ARA)

O povo de Israel (Judá) acreditava que Jerusalém nunca seria subjugada, vencida ou destruída, pois se apoiavam na “crença de que Deus escolhera Jerusalém como morada de seu ‘nome’”132, isso está expresso nos salmos 78 e 132:

68 Escolheu, antes, a tribo de Judá, o monte Sião, que ele amava.

130FINGUERMAN, Ariel. A Eleição de Israel. São Paulo: Humanitas – FAPESP, 2003, p. 41. 131Ibid. p. 41.

69 E construiu o seu santuário durável como os céus e firme como a terra que fundou para sempre.

70 Também escolheu a Davi, seu servo, e o tomou dos redis das ovelhas; 71 tirou-o do cuidado das ovelhas e suas crias, para ser o pastor de Jacó, seu povo, e de Israel, sua herança. Sl 78:68-71 (ARA)

13 Pois o SENHOR escolheu a Sião, preferiu-a por sua morada:

14 Este é para sempre o lugar do meu repouso; aqui habitarei, pois o preferi. Sl 132: 13-14 (ARA)

O profeta afirmou que se o povo de Israel (Judá) não obedecesse a lei do Senhor, a aliança sinaítica seria quebrada e por causa disso, a cidade seria destruída. Está evidente que para Jeremias nesse caso, a aliança sinaítica tem supremacia sobre a aliança davídica, isto é, observar os mandamentos é mais importante do que acreditar na inviolabilidade de Jerusalém e que a garantia da não destruição de Jerusalém é o cumprimento da lei e não simplesmente crer passivamente na aliança davídica.

O profeta Jeremias mais uma vez afirma a supremacia da aliança sinaítica sobre outro aspecto da aliança davídica: a eternidade da dinastia davídica. Isso está expresso em Jr 22:1-5 (ARA):

1 Assim diz o SENHOR: Desce à casa do rei de Judá, e anuncia ali esta palavra, 2 e dize: Ouve a palavra do SENHOR, ó rei de Judá, que te assentas no trono de Davi, tu, os teus servos e o teu povo, que entrais por estas portas.

3 Assim diz o SENHOR: Executai o direito e a justiça e livrai o oprimido das mãos do opressor; não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar.

4 Porque, se, deveras, cumprirdes esta palavra, entrarão pelas portas desta casa os reis que se assentarão no trono de Davi, em carros e montados em cavalos, eles, os seus servos e o seu povo.

5 Mas, se não derdes ouvidos a estas palavras, juro por mim mesmo, diz o SENHOR, que esta casa se tornará em desolação.

Novamente o profeta afirma, se o rei de Judá cumprir os mandamentos de Deus (as prescrições estabelecidas na aliança sinaítica), a dinastia davídica será preservada no trono de Judá, mas se não cumprir os mandamentos de Deus, então, a dinastia davídica não será preservada e “esta casa se tornará em desolação”. Mais uma vez fica evidente que a garantia da permanência da dinastia davídica no trono de Judá é o cumprimento da lei e não simplesmente acreditar que só pelo fato de Deus ter feito a promessa de uma dinastia davídica isso acontecerá sem o exercício do “direito e da justiça”.

Por fim, “Jeremias não negou a possibilidade de realização das promessas da tradição davídica”133:

133BRIGHT, 1980, p. 395-7. Citado por: FINGUERMAN, Ariel. A Eleição de Israel. São Paulo: Humanitas

5 Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra.

6 Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa. Jr 23:5-6 (ARA)

“Projetou para o futuro o restabelecimento da dinastia de David e do Estado de Judá, estabilizados por monarcas que, ao contrário dos reis que conhecera, exerceriam o poder segundo os mandamentos divinos”134. De certo, isso só acontecerá se o rei ou reis na sucessão davídica, executarem o “juízo e a justiça”, ou seja, se cumprirem a lei do Senhor estabelecida pela aliança sinaítica no Sinai.

Nesse momento, analisaremos a diversidade da posição judaica a respeito da aliança com Deus por meio da literatura extra bíblica (Qumran, Apócrifos e pseudo- epígrafos do Antigo Testamento).

“Os apócrifos são escritos judaicos surgidos em parte na Palestina e em parte na Diáspora, durante o período que vai do século III a.C. até o século I d.C.”135 “Provavelmente, só foram excluídos do grupo de livros permitidos no seio da comunidade judaica, depois de terem sido incorporados ao Cânon grego do Antigo Testamento por parte da comunidade cristã”136. “Os pseudepígrafos, ao invés, são escritos judaicos que só eram estimados dentro de determinados grupos, embora tenham surgido quase na mesma época que os apócrifos”137.

O adjetivo ἀπόκρυφος significa “mantido à parte, escondido”, ele vem do verbo

ἀποκρύπτω que significa “manter escondido, secreto, oculto: algo138; fornecer um

esconderijo para alguém, ocultar, esconder”139. Já ψευδεπίγρᾰφος vem da união do

substantivo ψεῦδος “mentira, falsidade”140 com o verbo γράφω “escrever”141. O primeiro termo, então, significa “algo escrito que é mantido em oculto, secreto”, por outro lado, o segundo termo significa “algo escrito com falsidade, mentira”. Entretanto, é importante destacar que “a palavra usada em data posterior pelos rabis para designar estes livros extracanônicos, incorporados ou não na Septuaginta, era hisonim significando (livros)

134FINGUERMAN, Ariel. A Eleição de Israel. São Paulo: Humanitas – FAPESP, 2003, p. 42.

135ROST, L. Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos

de Qumran. São Paulo: Paulus, 2004, p. 23.

136Ibid.p. 23. 137Ibid.p. 23.

138RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento. Tradução: Irineu Rabuske. São Paulo:

Paulus, 2005, p. 67.

139BAUER, W; ARNDT, W; GINGRICH, F.W., A Greek-English Lexicon of the New Testament and

Christian Literature. Chicago Press, 2001, p. 114.

140Ibid.p. 1097.

‘exteriores’ ou ‘de fora’”142. “A palavra ‘apócrifo’ veio a ter o mesmo sentido, a saber, os

livros que ficaram fora do cânon”143. O substantivo κανών significa “medida, limite, fronteira, norma, regra”144, provavelmente veio emprestada da palavra hebraica הֶנ ָּק

qānh que significa “cana, vara”145. “O Cânon é a lista de livros contidos nas Escrituras,

ou seja, os livros reconhecidos como dignos de serem incluídos entre os escritos sagrados de uma comunidade de adoradores”146. Mas, de qual Cânon os livros apócrifos ficaram fora? O primeiro Cânon a ser estabelecido foi o Cânon hebraico. “A constituição desse Cânon foi guiada pelos critérios de autoridade e antiguidade”147. Em relação a autoridade,

os textos atribuídos a autoria mosaica ou profética foram reconhecidos como sagrados, já por outro lado, os textos que pertenciam a uma data anterior ao encerramento da continuidade dos profetas foram considerados os mais antigos148. Então, segundo Rost:

O primeiro passo para a “canonização” começara já com o compromisso assumido com o Deuteronômio, no reinado de Josias, em 621 a.C.; que só no século I d.C. é que a comunidade judaica se vê diante da necessidade de estabelecer uma delimitação clara em relação aos livros recebidos dos pais, medida esta em que a preocupação de se defender contra a proliferação desordenada da literatura nos diversos grupos, entre os quais o Cristianismo nascente, teve uma grande influência149.

Em sua obra Antiguidades dos Judeus Contra Apion, Josefo relata a quantidade de livros que pertenciam ao Cânon e o princípio que determinou a entrada deles para esse grupo de escritos sagrados:

É, pois, natural, ou melhor dizendo, necessário, que não exista entre nós uma multiplicidade de livros em contradição entre si, senão somente vinte e dois150

que contêm os registros de toda a história e que com toda justiça são dignos de confiança.

Deles existem cinco de Moisés, os quais contêm as leis e a tradição desde a criação do homem até a morte de Moisés. Compreendem, mais ou menos, um período de três mil anos.

Desde a morte de Moisés até Artaxerxes, sucessor de Xerxes como rei dos persas, aos profetas posteriores a Moisés foram deixados os feitos do seu tempo

142RUSSEL, D. S. Desvelamento divino. São Paulo: Paulus, 1997, p. 20. 143Ibid.p. 20.

144RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento. Tradução: Irineu Rabuske. São Paulo:

Paulus, 2005, p. 249.

145KOEHLER & BAUMGARTNER. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. 2 vols.

Boston: Brill Academic, 2001, p. 1113.

146BRUCE, F. F. O Cânon das Escrituras. São Paulo: Hagnos, 2011, p. 17.

147BARRERA, Julio Trebolle. A Bíblia Judaica e A Bíblia Cristã: Introdução à história da Bíblia.

Petrópolis: Editora Vozes, 1999, p. 181.

148Ibid.

149ROST, L. Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos

de Qumran. São Paulo: Paulus, 2004, p. 16.

150Para obter esse número, igual ao das letras do alfabeto judeu, Flávio Josefo incluiu Ruth em Juízes e

Lamentações em Jeremias. Citado por: GODOY, A. C. em JOSEFO, Flávio. Antiguidades dos Judeus Contra Apion. Curitiba: Juruá Editora, 2015, p. 21.

em treze livros (Os treze livros proféticos, segundo Josefo são: Josué, Juízes- Ruth, 1-2 Samuel, 1-2 Reis, Isaías, Jeremias-Lamentações, Ezequiel, 12 profetas, Job, Daniel, 1-2 Crônicas, Ester, Esdras-Neemias.) Os quatro restantes (Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares) contêm hinos a Deus e conselhos morais aos homens151.

É interessante observar a afirmação de Josefo concernente a “autoridade” desses escritos, isto é, Moisés como autor de cinco livros e os livros proféticos, por outro lado ele também menciona a questão da “antiguidade” desses escritos, “livros que compreendem, mais ou menos, um período de três mil anos”; livros que registram “desde

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