Sobre a questão da monitoração estilística, Bortoni-Ricardo (2004, p. 62) defende a ideia de que, quando falamos, alternamos “[...] estilos monitorados, que exigem muita atenção e planejamento, e estilos não-monitorados, realizados com um mínimo de atenção à forma da língua”. Em seguida, explica que a opção por normas mais formais justifica-se pelo fato de o nosso interlocutor ser mais importante do que nós, porque queremos causar boa impressão ou para nos adequarmos ao contexto no qual nosso discurso ocorre.
A monitoração estilística, assim, configura-se como um tema de relevância dentro do estudo de língua, com vistas ao desmonte dos estigmas negativos ou como forma de se ter acesso a posições mais interessantes. Por esse motivo, planejei a oficina 12, objetivando a reflexão sobre esse assunto.
Na oportunidade, apresentei aos alunos o contínuo de monitoração estilística proposto por Bortoni-Ricardo (2004, p. 61- 62) e o desenhei no quadro para facilitar sua compreensão. Alguns já conheciam as expressões “mais monitorado” e “menos monitorado” e me auxiliaram na explicação do contínuo. A turma demonstrou, em sua grande maioria, uma boa compreensão do assunto, o que ficou evidente na execução da atividade proposta: encaixar adequadamente as situações citadas pela professora nos pontos do contínuo: “conversar com o vereador do bairro”: língua mais monitorada; “conversar informalmente com os colegas no recreio”: língua menos monitorada; ”entrevista de emprego”: língua mais monitorada. E outros exemplos.
Em seguida, iniciei um diálogo com os alunos sobre a importância da monitoração estilística em várias situações da vida. Nas opiniões deles, as que mais demandam esse esforço são as entrevistas, principalmente as de emprego, fato justificado pela preocupação com a sobrevivência, sempre presente em suas vidas.
Como estava nos meus planos encerrar os trabalhos das oficinas, no final do ano letivo, com a realização de entrevistas, propus aos alunos apresentarmos duas dramatizações de entrevistas de emprego, uma, em que o entrevistado utilizasse linguagem coloquial e outra, em que o entrevistado praticasse uma linguagem mais monitorada. Na preparação das dramatizações, planejamos, conjuntamente, como deveria ser cada uma, ocasião em que os alunos opinaram sobre a linguagem, o vestuário e o gestual mais adequado a cada apresentação.
As dramatizações configuram-se como importantes aportes didáticos, pois oportunizam a representação criativa e lúdica da realidade, propiciando reflexões, denúncias e anúncios de transformações da mesma.
As duas duplas, escolhidas entre algumas que se dispuseram a concretizar as dramatizações, solicitaram um pequeno tempo para preparação, o que foi realizado em um curto período fora da sala de aula. As dramatizações foram bem diferentes nas duas situações.
Na primeira cena, o entrevistado entrou gesticulando, falando alto, demonstrando muita intimidade com o entrevistador que encontrava pela primeira vez, dando-lhe tapinha nas costas. Sentou-se displicentemente na cadeira, na maior deselegância. E passo a relatar um trecho do diálogo:
Entrevistador pergunta: − Você gosta de trabalhar?
− Gostar de trabalhá eu num gosto não. O caso é que tô precisando de grana. Trabalhá é chato demais. Aposto que ocê também trabalha só por causa da bufunfa, é ou não é? Então o que pintá, nois tá dentro!
− Há outros candidatos também interessados!
− Mais, como eu, ocê num acha nenhum, veio! Como é que é? Ocê vai me dá o serviço ou não?
Na segunda cena, o entrevistado entrou pedindo licença, apresentou-se, sentando-se com elegância. Caprichou na monitoração da língua, mostrando-se simpático, confiante, esperando o seu turno para falar. Realizou as concordâncias verbais e nominais e usou um vocabulário bem elaborado. Esse comportamento evidenciou a percepção que o aluno já possui do habitus da modalidade culta de interação social, em relação ao gênero “entrevista de emprego”. Também mostrou que seu interesse em conseguir um bem o levou à adesão ao habitus cotado como mais valoroso em “termo de troca” no “mercado social” (CUNHA, 1979). Essa percepção
configura-se como um elemento de grande valor nos momentos de se fazerem opções linguísticas e comportamentais desejáveis, nas diferentes interações sociais.
A atitude do entrevistado apontou, também, para o valor da ação pedagógica que, através de atividades contínuas e sistemáticas, poderá criar condições para que seus alunos interiorizem habitus geradores de práticas peculiares à norma oral culta: postura física, gestual, entonação de voz, uso de recursos de polidez, escolha de vocabulário e sintaxe adequados a cada gênero textual.
Na avaliação dessa segunda entrevista, a turma foi unânime em concordar que o entrevistado foi “esperto” e que certamente conseguirá o emprego. Apresento, agora, um trecho da dramatização:
Entrevistador convida:
− Moço, faça o favor de entrar!
− Obrigado, senhor! (E espera que o entrevistador o convide a se sentar). − Qual é a sua profissão?
− Na verdade, sou pedreiro. Mas, na necessidade, também faço vários outros serviços na obra.
− Muito bem! Você tem experiência?
− Não tenho muita, mas aprendo com facilidade e sou muito esforçado!
− Bem, mas temos outros interessados no emprego e vamos avaliar com calma. − Está bem, mas o senhor não vai se decepcionar se me chamar para trabalhar na sua obra.
Acredito que a observação das duas situações, de maneira descontraída, representou uma oportunidade produtiva para os alunos estabelecerem medidas de valor com relação às opções linguísticas que adotamos. Também os preparou para o manejo eficiente desse gênero textual, não só visando à realização das entrevistas na finalização das oficinas, como aumentando sua competência linguística para as situações do dia-a- dia.
Após as dramatizações, estabeleci com os alunos uma avaliação das duas performances e obtive reflexões sociolinguísticas significativas:
A − O sujeito da primeira entrevista já chega falando que não gosta de trabalhar... Como é que o patrão vai poder confiar no trabalho dele?
T − Ele fala muita gíria, dependendo da pessoa (entrevistador), pode nem compreender o que ele está falando!
C − Pois eu acho que ele foi sincero. Gente sincera é legal!
P − É, mas ele poderia deixar pra ser sincero depois! (De conseguir o emprego). Professora regente − Nem eu ia querer um empregado atrevido assim!
E − O caso é que a gente tem que ser esperto. Usar cada modo de falar para as horas diferentes.
Pesquisadora − Eu concordo com a sua opinião. E se existem vários modos de falar, a gente deve escolher o mais adequado.
M − É, professora, o caso é que não é todo mundo que aprende isso na escola! Pesquisadora − É, M, isso também é uma verdade!
A − Já na segunda entrevista, o rapaz foi muito esperto! T − É mesmo! Foi todo educado.
C – E usou a norma culta.
P − Ainda falou bem dele mesmo!
Pesquisadora − Eu gostei do segundo entrevistado. E vou contratá-lo para a minha obra!
C – Você tem uma obra, professora? Pesquisadora − Não, é só uma brincadeira.
As dramatizações foram muito apreciadas por todos. Constituíram um momento descontraído de aprendizagem, por meio da visualização de situações que permitiram aos alunos refletirem sobre duas possibilidades plausíveis. Frente ao ridículo da primeira dramatização, acredito que os alunos, em uma situação real de entrevista, optarão por um comportamento mais formal e, certamente, buscarão a prática da norma linguística culta.
As duas encenações evidenciaram que os alunos já haviam entendido que situações diversas exigem diferentes realizações linguísticas. O cuidado em reproduzir espontaneamente as falas dos personagens demonstrou um esforço de representar variações linguísticas dialetais. Essa consciência das diferenças dialetais teve o efeito de desinibir e aproximar os alunos.
Finalizando, estabeleci com os discentes um diálogo sobre as diferentes formas na realização oral de um mesmo falante. Durante as discussões, eles apresentaram várias situações que justificam a diversidade de estilos linguísticos de um mesmo usuário: as brigas que podem envolver até palavrões, a conversa com a professora, com o pastor da igreja, com os colegas no recreio, a ocasião de uma entrevista de emprego, etc.