Mollica (2007, p. 10) lembra que “A variação linguística constitui fenômeno universal e pressupõe a existência de formas linguísticas alternativas denominadas variantes”. Assim, levar os alunos a perceberem as variantes linguísticas presentes nas variações e a respeitá-las como legítimas, certamente ampliará sua capacidade de realizar análises linguísticas mais consistentes.
A oficina para os alunos aprenderem a noção de variante ocorreu da seguinte forma:
20
Os números entre parênteses correspondem aos números atribuídos aos alunos que emitiram as opiniões anteriormente..
1º ) Na oficina 5,havia solicitadoaos alunos, como tarefa de casa, que observassem e anotassem todas as variantes linguísticas que lhes chamassem a atenção nas conversas rotineiras que escutassem21. Começo, então, a dialogar com eles:
Pesquisadora –Boa tarde, meninos, qual foi o nome que demos à aula que estamos iniciando agora?
Aluno(a) 10 – Oficina de oralidade Pesquisadora –E qual é o objetivo dela? Aluno(a) 11 – Trabalhar a linguagem oral.
Pesquisadora – Hoje vamos trabalhar com uma expressão que aprendemos na oficina passada, quando ficamos conhecendo o contínuo rural-urbano e que é muito significativa para compreendermos cada vez melhor a variação linguística. Alguém se lembra?
Alunos em coro – Variantes linguísticas.
Pesquisadora –Muito bem. Vou desenhar no quadro o contínuo rural-urbano e nele vocês vão alocar todas as variantes que observaram em diferentes falas ou em textos que temos lido.
Surgiram as seguintes variantes, dentre outras:
2º ) Então, sugeri duas atividades: a) alocarem as variantes no contínuo rural-urbano; b) apresentarem todas as variantes que conseguissem para cada palavra apresentada. Como exemplo, citei: “foguera – fogueira – fuguera – fugueira”. Os alunos se esmeraram em descobrir as diferentes possibilidades e foi uma aula muito produtiva.
Passo a relatar algumas observações feitas pelos alunos e que considerei mais coerentes com reflexões sociolinguísticas:
Aluno(a) 12 – Existe tudo o que é jeito de falar.
Aluno(a) 13 – É que a língua da gente vai arranjando modos mais fáceis, é mais fácil falar “ropa” do que roUpa.
Aluno(a) 14 – Quem é que inventou essa tal de norma culta? Aluno(a) 15 – Só pode ter sido a escola, né?
Aluno(a) 14 –Mas eu posso falar como eu quero, né?
Pesquisadora – Na verdade, você pode falar como quiser. Alíngua não é do livro, não é do dicionário, nem da gramática, a língua é nossa, é dos seus falantes.Aescola quer ensinar para vocês, dentre tantas maneiras de falar, a norma culta. Por que será?
Aluno(a) 15 – Porque a escola quer que a gente conheça todos os tipos de falares.
21
É indispensável que fique aqui reiterado o esclarecimento de que não foi exigido dos alunos o uso da metalinguagem “variante linguística”, bem como das demais que surgiram nas oficinas. Entretanto, como eu as utilizei para me referir aos diferentes fatos linguísticos, muitas delas foram incorporadas por eles, de acordo com seu interesse pessoal de ampliação do universo vocabular.
framengo – vó - ocê_- xícra – fuguera – fio – ropa – cantá – forgado – incontrá – faltô muitos aluno - verdadero - cê – falano – fessora – feiz – ceis tá- gaiz - as criança – a gente vamos.
Aluno(a) 16 – Mesmo a gente já sabendo falar português, para a gente saber mais e mais a nossa língua.
Aluno(a) 17 – Para a gente aprender a falar de um jeito certo a LP. Pesquisadora –Jeito certo ou diferente?
Aluno(a) 17 – Diferente.
Aluno(a) 18 – Para a gente avaliar as falas e saber qual que a gente vai querer falar em certas ocasiões.
Pesquisadora –Vocês estão raciocinando muito bem sobre as variações linguísticas. Estão de parabéns!
A maioria dos alunos havia realizado a tarefa de casa e praticamente todos se sentiram muito motivados para participarem da atividade proposta. Essa oficina, então, cumpriu sua finalidade a sinalizou positivamente para a continuidade dos trabalhos posteriores.
Oficina 6: Conhecendo o contínuo de monitoração estilística
A nossa clientela, principalmente aquela das escolas públicas, tem poucas oportunidades de ouvirem e praticarem normas linguísticas mais próximas às normas cultas. Assim, cabe à escola criar situações de contato com essas práticas, visando ao empoderamento. Em acordo com essa assertiva, Criado (2006) acredita que a modalidade oral mereça um trato didático que leve o aluno a extrapolar a coloquialidade, levando-o à prática de textos orais de estruturas mais elaboradas, através de monitoração estilística.
A partir dessa crença, elaborei a presente oficina que passo a descrever: 1º ) Apresentei aos alunos o contínuo de monitoração estilística e questionei: Vocês disseram que é difícil monitorar a língua. O que significa “monitorar a língua”? Aluno(a) 14 − Falar mais difícil.
Aluno(a) 15 − Falar mais certinho. Aluno(a) 16 − Falar mais formal. Aluno(a) 17 – Falar a língua culta. Pesquisadora −E o que é a norma culta?
Aluno(a) 14 – É o modo das pessoas mais importantes falarem: presidente, diretora, etc.
Aluno(a) 15 – É o modo mais monitorado de falar. Aluno(a) 16 – É usar a língua formal.
Aluno(a) 17 – É a língua que a gente aprende na escola. Pesquisadora –Muito bem! É tudo isso.
Continuei dialogando com os alunos: “Para que aprender a norma culta?” e eles responderam:
Aluno(a) 1− É porque a escola tem que ensinar aquilo que a gente não sabe. Aluno(a) 2 − Pra gente saber falar de maneiras diferentes.
Aluno(a) 3– É. Assim a gente pode falar de acordo com a ocasião.
Aluno(a) 4 – Quando a gente quiser falar com pessoas de outros grupos, a gente vai saber.
Aluno(a)5 – Meu avô falou que tudo o que a gente aprende, um dia pode servir para alguma coisa!
Pesquisadora −É isso mesmo! Aprendendo os recursos da norma culta, estaremos competentes para nos expressarmos em qualquer situação de maneira adequada.
Os alunos compreenderam com facilidade o contínuo de monitoração estilística e apreciaram muito aprendê-lo. Depois começaram a citar exemplos de construções mais monitoradas:
Aluno(a) 6 − Quando eu converso com minha vó, eu tomo cuidado para não falar gíria, senão ela não entende.
Aluno(a) 7 – Com o diretor eu não falo palavrão, senão levo fumo.
Aluno(a) 8– Com o meu pai, eu posso falar gíria, só não posso falar palavrão.
Aluno(a) 9 – Com os meus colegas eu falo de qualquer jeito, do mesmo modo que eles falam comigo.
Aluno(a)10 – Pra falar a verdade, feio mesmo é falar “nós vai”, “os menino”, “eles estuda”. O resto não fica tão ruim. Gíria, até os professores falam.
Aluno(a)11 – Acho que, se a gente praticar bem a norma culta, a gente sempre vai falar a norma culta, porque vai ficar bem acostumado.
Pesquisadora − Tudo o que vocês falaram foi ótimo. Mas, já temos discutido muito sobre a ideia de que não existem modos feios de falar. Na verdade, são modos diferentes, usados em situações diferentes. Por isso, é importante que vocês conheçam os recursos da norma culta para poderem usá-los nos momentos em que acharem necessário.
Como em todas as oficinas, os alunos das duas escolas se apropriaram da palavra e se sentiram muito importantes por poderem emitir suas opiniões e serem ouvidos com respeito. Algumas vezes, as discordâncias entre eles geravam inícios de conflitos e eu tinha que intervir, para restabelecer o diálogo democrático, fato ocorrido nas duas realidades.