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Le Coq du clocher

Dans le document LES CONTES DU MILIEU DU MONDE (Page 31-44)

O sufixo diminutivo /inho/ é um morfema de grau de significativa ocorrência na língua portuguesa brasileira. Além de assinalar o grau diminutivo sintético, agrega também uma carga de emotividade positiva ou negativa ao que se declara. Dessa maneira, seu sentido não se restringe à noção de tamanho reduzido, mas também expõe o que o objeto enfocado pode ter de melhor ou de pior, em uma situação concreta de comunicação. Assim, o sufixo /inho/ tem um sentido expressivo e um sentido denotativo de tamanho, intensidade ou quantidade reduzidas. Neste último caso, podemos citar como exemplos: “Comprei uma bicicletinha para o Bernardo”; “Está um calorzinho gostoso”; “Comeu pouquinho porque não quer engordar”.

Do ponto de vista prático, pode-se agregar ao diminutivo novos valores afetivos criados com a intenção de carinho: “Você é muito fofinha”; de suavização do discurso: “Você já está bem crescidinho para ter esse comportamento”; de mecanismo de aproximação “Podemos trocar uma palavrinha”, ou valores depreciativos: “Pode guardar seu dinheirinho que ele não me faz falta nenhuma”; “Um arranhãozinho de nada!”.

Do ponto de vista fonético, analisando-se esse diminutivo superlativo sintético à luz da análise variacionista, evidencia-se, na variedade popular da língua oral, a par de sua forma canônica /inho/, a sua contraparte popular /im/, resultante de uma acomodação fonética. Com exceção da grande Belo Horizonte que, por ter atraído falantes de diversas cidades brasileiras, assistiu a um nivelamento das variações linguísticas, essa redução do sufixo diminutivo é típica do falar mineiro, a par de outras duas também ocorrentes: [kafeziñu] - [kafeziw] - [kafezi]. (RIBEIRO et alii, 1977).

Em nossa cultura, essa variante encontra-se fortemente identificada com os falares rurais, caipiras, desprestigiados, apesar de também estar muito presente nos falares urbanos. Esse fato justifica plenamente uma atenção especial em se trabalhar a forma urbana comum /inho/ nas oficinas de oralidade, tal como se concretizou. Os alunos sujeitos dessa pesquisa evidenciaram, nas várias situações de oralidade a que foram expostos, a prática constante da variante /im/ para o diminutivo.

Como recurso didático para se trabalhar essa questão, utilizei-me de um texto do gênero “piada” que é muito praticado e apreciado por nossos alunos. Além disso, segundo Possenti (1998), é particularmente propício para um trabalho sobre questões fonológicas, morfológicas ou sintáticas, pois, segundo o autor, as piadas, por estarem com seus enunciados sempre entre dois ou mais sentidos, obrigam o ouvinte a desenvolver uma ampliação de leitura, a fazer uma leitura subliminar e a ampliar seu campo conceitual.

Como os alunos haviam recebidode presente uma coleção de livros de piadinhas e estavam muito interessados na leitura dos mesmos, para motivar a reflexão sobre o uso da variante /im/, li para eles uma dentre elas que ilustrou, de forma lúdica, a questão:

Figura 2: Piada

Fonte: <http://www.asperipecias.com/charges/sabe-por-que-minas-nao-tem-mar> Acesso em: 12/08/2012

Questionados sobre a questão do /im/, os alunos emitiram opiniões consistentes a partir de reflexões linguísticas:

Dois caipiras conversavam e um perguntou ao outro:

− Pedrim,sabe por que Minas não tem mar?

− Sei não, Zezim!

− Ora, é porque nois,mineirim, quando terminamos de rezar o “Páinosso”, cheim de fé, dizemos:

A− As pessoas acham que é só mineiro que fala assim! C−Mas todo mundo fala assim. Até a diretora X!

D− É porque as pessoas acham que todo mineiro é capiau! E − Pensam que todo mineiro é burro!

F − Quando todo mundo fala de um jeito, fica difícil falar de outra maneira!

Pesquisadora− Concordo quando vocês me dizem que “todo mundo fala assim”. Pode não ser “todo mundo”, mas é uma variante muito usada que podemos perceber no nosso dia-a- dia. Parabéns, vocês são muito bons observadores!

As opiniões de C e F confirmam sua compreensão de que essa variante não é apenas da variedade rural, mas se encontra expressa na fala em geral, até na utilizada pela diretora, cuja autoridade confere legitimidade à variante em questão.

Como atividade estrutural para o treino do uso de /inho/, distribuí aos alunos uma atividade escrita com 28 frases e solicitei-lhes que as lessem oralmente, colocando as palavras destacadas no diminutivo, utilizando-se das duas variantes. Segue citado um exemplo. Os demais encontram-se no Anexo C:

Meu caderno está novo em folha. Hoje vou chegar cedo em casa.

Os alunos apresentaram as seguintes opções: − Meu caderno está novinho em folha.

− Meu caderno está “novim” em folha. Em seguida, perguntei aos alunos:

Pesquisadora − Qual das duas maneiras de falar vocês acham que pertence à variedade culta?

C − Menininho, bonitinho, espertinho! B − Por quê?

D − Por que capiau é que fala diferente disso! N − Por que o pessoal importante fala assim!

Pesquisadora − É verdade. Então isso significa que existem dois modos diferentes de falar, cada falante escolhe o seu.

M − Tem gente que não escolhe. Só sabe um jeito de falar! D − É mesmo. É gente que nunca foi à escola.

Pesquisadora − Alunos, alguém disse que capiau é que fala meninim, bonitim, espertim. O que vocês acham disso?

N − Que isso não está certo, porque todo mundo fala assim, até a diretora.

Pesquisadora − É, você observou muito bem! É um modo de falar muito comum, principalmente para nós, mineiros.

P – É, mas é um modo muito feio de falar, né? Quando a gente ouve os alunos falando /inho/ é que vemos como é feio falar /im/(Referindo-se ao sufixo do diminutivo).

Sobre a colocação do último aluno “... como é feio falar /im/”, não houve intervenção imediata sobre essa visão preconceituosa, devido ao término da aula. Entretanto, a questão foi retomada em oficinas posteriores para a reflexão de todos.

Quanto à tarefa da oficina, os alunos a realizaram sem dificuldade, monitorando a língua e utilizando os recursos de ambas as normas, a popular e a culta. Foi uma boa ocasião de reflexão e de aprendizagem.

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