A utilização da Não-Violência Activa em Portugal está ainda em fase embrionária. Embora algumas acções possam ser enquadráveis no método da NVA, não se pode afirmar que tenha sido essa a intenção específica da organização desencadeante da acção ou que tenha existido sequer planeamento e adequação premeditada para que assim seja considerada. Parece-nos ser mais fruto do acaso do que do planeamento. A mobilização social verificável em Portugal possui um assento localizado e direccionado, desencadeado por populações locais através de uma estrutura organizativa temporária e ocasional, advinda na maior parte das vezes de uma reacção Nimby. Sendo ainda um termo e uma técnica em desenvolvimento no nosso país, pode a NVA ser um processo bem capaz de desencadear reacções positivas. Necessário será é educar e dirigir as técnicas e métodos correctamente, evitando assim a ocorrência de “descarrilamentos” emocionais durante a acção, exemplos tidos em acções ocorridas noutros países.
Tal como já referido anteriormente, as acções de defesa ambiental no nosso país são pouco expressivas. Embora possa existir teoricamente uma consciência ambiental e ecológica, na prática verificamos uma completa anestesia interventiva activa. O povo delegou por completo no poder político a problemática ambiental, relegando este, por diversos motivos económicos e mesmo políticos, para segundo plano as questões ambientais. No entanto, existe a esperança de que a posição social ambiental se modifique, que se exerça uma cidadania mais activa e interventiva, sem a qual não será possível a prática de qualquer tipo de acção em prol do ambiente.
Mediante a já explicada passividade social de natureza ambiental, redundância será afirmar observar-se uma inexistência de acções assentes na natureza da NVA, verificando-se apenas a existência de algumas acções denominadas como tal mas que se encontram desprovidas de alguns fundamentos essenciais para assim serem consideradas.
Certo será que, com a maturação da sociedade e da própria maturação da intervenção social activa, poderá ser aberto um novo caminho que se dirija na direcção da NVA. Note-se que é perceptível na nossa sociedade sinais de bom encaminhamento e de prossecução destes meios em direcção de objectivos ambientais. No entanto, tudo tem o seu timming tal como a NVA terá indiscutivelmente o seu. Com o evoluir do pensamento e da própria acção para o colectivo social, também evoluirão as formas de manifestação desse pensamento e da sua concretização física. Objectivando-nos numa frase enunciada por José Oliveira Mendes (AAVV, 2005:161) “Só é vencido quem
deixa de lutar” e diríamos nós, quem deixa de acreditar. “Os movimentos sociais, os protestos e as novas possibilidades de produzir cidadania devem ser lidos como reveladores de democratização das sociedades. Indo para além das análises unilaterais de participação política, convencional ou não-convencional, tomamos as acções de protesto e de reivindicação como indicadores e como protagonistas inerentes a todo o processo democrático. Os protestos e as reivindicações não são formas patológicas de acção política, mas formas expressivas de realização de cidadania em contexto democrático (AAVV, 2005:04).
Em regra, as organizações governamentais pouco relevo possuem na utilização deste tipo de métodos de intervenção. Em parte esta posição deve-se ao facto de se encontrarem intimamente ligadas ao poder político ou deste dependerem economicamente, o que poderá influenciar a opção por métodos de luta mais negativos para o poder político. “O Estado, heterogéneo e fragmentado, sendo autoritário, é
incompleto e contraditório nas suas práticas e políticas, actuando de forma oscilante e imprevisível entre um Estado predador e um Estado protector. Este mesmo autoritarismo do Estado é analisado por Manuel Villaverde Cabral (2004), falando este autor de um despotismo administrativo e de um distanciamento histórico entre as elites do poder e a população. Constatando nos diferentes estudos que realizou sobre a realidade portuguesa uma distância ao poder político, que atravessa todas as camadas
da população, o que pode parecer paradoxal num país que viveu tão intensamente uma revolução política há somente trinta anos” (AAVV, 2005:101).
Por outro lado, em regra são as ONG`s que mais fazem ecoar no público a problemática ambiental e serão certamente estas mesmas ONG`s as que mais facilmente utilizarão métodos menos convencionais de luta pela defesa ambiental. Exemplos disso a nível mundial são as acções visíveis desenvolvidas pelas mais diversas ONG`s. O preciso e apurado estudo e adaptação das técnicas e métodos de NVA às causas ambientais; à própria estrutura das organizações em específico e aos normativos legais e sociais existentes especificamente em cada país, certamente a NVA pode possuir um papel fulcral e primordial no contínuo e eficaz desenvolvimento das políticas de defesa ambiental. No entanto e segundo Mendes e Seixas (AAVV, 2005:106) “parece
consensual para os cientistas sociais que a participação política em Portugal é de baixa intensidade e a vida associativa marcada por uma fraca adesão”, advindo
directamente como marcador da continuidade estrutural da sociedade portuguesa e atribuindo a responsabilidade de tal facto ao secular desfasamento entre classes sociais. Ora, certamente se compreenderá a dificuldade de uma abordagem ao tema da NVA e da sua actividade e utilidades na defesa das problemáticas ambientais em Portugal se as presentes variáveis por si só, em Portugal, possuem um ténue e tímido percurso. O futuro do exercício de uma cidadania ambiental activa passa, ainda que de modo parcial, pela utilização da NVA e das suas técnicas para a defesa do ambiente, um dos temas mais focados socialmente.