Feito o enquadramento teórico do problema em análise, é então nosso objectivo nesta parte do trabalho analisar a acção desencadeada pelo movimento ambiental Verde Eufémia.
Com o intuito de uma melhor compreensão da acção, de seguida procederemos à descrição das imagens captadas em vídeo e disponibilizadas no sítio da internet do movimento ambiental Verde Eufémia63.
O vídeo em análise, com cerca de 12 minutos, inicia com um pequeno texto introdutório da acção. “No dia 17 de Agosto de 2007, cerca de 150 pessoas deslocaram-se à
Herdade da Lameira, em Silves, para realizar um protesto contra o cultivo de transgénicos. O Algarve foi a primeira região em Portugal a declarar-se Zona Livre de Transgénicos. Esta propriedade, a primeira na região a cultivar milho transgénico MON810, violou a declaração e desrespeitou a vontade dos cidadãos.”
Após esta nota introdutória, o vídeo, mostra um pequeno excerto da notícia de abertura do Noticiário da TVI daquele dia: A acção desencadeada em Silves.
Sob o “Cantar Alentejano” de Zeca Afonso, em grande plano, visiona-se a entrada dos 150 participantes na acção pelos campos cultivados da Herdade da Lameira onde, de forma concertada, procedem ao corte e esmagamento dos pés de milho transgénico existentes no raio pelos mesmos delimitado – 1 hectare –, deixando-os prostrados na zona do plantação onde foram “colhidos”.
Durante esta acção, onde é visível a sua actuação de rosto completamente coberto através da utilização de acessórios como lenços, máscaras, chapéus e bonés, são
captadas imagens da chegada de diversos órgãos de comunicação social (OCS) que, de imediato, põem o seu equipamento em funcionamento na captura de imagens.
Visivelmente transtornado, um agricultor, quando confrontado com um microfone alerta: “não venha para aqui gravar essa m…, senão eu parto-lhe isso!”.
Na imagem uma das agricultoras protesta enquanto em voz de fundo, uma voz masculina (presumivelmente de um agricultor) em tom enervado diz: “transgénicos:
morrem 5 nas Filipinas e quantos morrem à fome porque não têm milho?”, afirmação
contraposta com um texto aposto onde se lê que “ [a fome] não é o resultado de uma
suposta escassez de alimentos, mas sim de uma desadequada distribuição a nível mundial (Amartya Sem, Prémio Nobel da Economia). Os transgénicos e o seu regime de patentes roubam o direito à semente aos camponeses. Os problemas da fome e subnutrição ficam subjugados aos interesses económicos de meia dúzia de multinacionais”.
A gravação continua com registos de imagens avulso do corte do milho transgénico; do protesto verbal e impotente dos agricultores e do intenso registo jornalístico de tudo o que se passa em volta, para que nada deixe de constar. Um indivíduo em cima de um muro que ladeia a Herdade da Lameira prega entusiasticamente à comunicação social que “a causa é boa, é uma causa… que não é feita assim, nestas condições. Não é feita
assim!”, seguido de mais um texto apontando que “após anos de campanha contra os
transgénicos, cerca de 70% da população portuguesa não sabia o que é um OGM64.
Após a acção, a maioria da população tomou conhecimento de que já há mais de 4000 hectares de milho transgénico (MON810) plantados no país.”
O vídeo continua mostrando a destruição da plantação de milho transgénico, ordenado como se de um varrimento em linha numa acção militar se tratasse. E continuando, irrompem pelo campo de cultivo, levantando em jeito de troféu um dos activistas, um pé de milho, partindo-o ao meio. A plantação, ao mesmo tempo que é regada por um sistema de rega automática, é dizimada pelos activistas.
A um certo momento, três activistas são abordados por duas pessoas onde é audível que debatem entusiasticamente argumentos pró e contra o milho transgénico. “Uma equipa
de investigadores (Seralini e tal.) descobriu alterações no sistema imunitário, bem como lesões nos rins e fígado de ratos alimentados com o milho MON863. Esta variedade de milho Bt foi aprovada para consumo pela Autoridade Europeia, com base nos estudos da Monsanto. Praticamente não existe investigação independente nesta área.”
Ao mudar o videograma, quatro agricultores impõem-se fisicamente contra a acção dos activistas. Empurrando um activista, um dos agricultores questiona o que ele anda ali a fazer, ofendendo-o verbalmente e ordenando-lhe:”desaparece daqui c…. Vai para o c…
homem!”, enquanto outro indica que “acabou-se agora! Acabou!”.
Em contínuo avanço dos activistas sobre a plantação de milho transgénico, um dos agricultores argumenta para as câmaras que as plantações de milho transgénico “evitam
três tratamentos com insecticidas que vão poluir as águas. Ninguém sabe do que é que fala”, sendo aposto novo texto alertando que “o milho transgénico MON810 liberta continuamente a toxina Bt para o ambiente. A emissão de toxina pela planta transgénica é 3000 a 5000 vezes superior às pulverizações na agricultura convencional e biológica. Além dos impactes na saúde humana e dos riscos para o ambiente, é previsível o aparecimento de super-pragas resistentes ao Bt.”.
Ao acompanhamento musical do “Milho Verde” de Zeca Afonso, um dos agricultores faz uso do seu telefone (presumivelmente em contacto com a autoridade policial local, dando conhecimento dos acontecimentos), enquanto que os activistas, atarefados, ceifam o campo.
Assinalando marcha de urgência, uma viatura da GNR chega ao local. O dono da plantação, por completo transtornado e alterado, avança de punho erguido contra um activista, sendo de imediato sustido por um agricultor e por outros activistas, evitando assim (pelo menos pela percepção das imagens) a agressão ao activista.
Quando questionado sobre o possível porquê da presença dos activistas na sua plantação, o proprietário, José Menezes, afirma que “provavelmente por causa da
droga, estamos no meio do Algarve, onde há muita droga. Se pensavam que encontravam droga dentro do milho, estão enganados. Verificaram que não…”.
Entoando “Não OGM!!!”, continuam os esporádicos empurrões e puxões dos agricultores para com os activistas que afirmam ser “vergonhoso da vossa parte” a acção. De repente, por entre os gritos e entoações, surgem três estalidos idênticos à deflagração de pólvora proveniente de disparos de armas de fogo ligeiras, desconhecendo-se a sua origem.
Um agricultor puxa violentamente em passo de corrida um activista pela mão. Um outro activista, em socorro do mesmo, pontapeia pelas costas o agricultor.
Continuando as entoações de palavras de ordem (“Não OGM!”), os activistas, na presença e aparente passividade da GNR que presencia todos os actos desde a sua chegada sem intervir, unem-se num coeso grupo.
“O movimento quer também declarar que não se trata de acto contra o agricultor em si, contra o proprietário. O alvo do movimento é o Estado que continua a minar os direitos democráticos dos cidadãos. A querer impor o consumo de transgénicos a todos os cidadãos portugueses e europeus e um pouco por todo o mundo e a enganar os agricultores, prometendo-lhes melhores cultivos, melhores colheitas”.
Após a chegada de mais uma viatura da GNR e aparentemente sobre orientação destes, gritando “Não OGM!” abandonam pacificamente o campo de milho transgénico em direcção à estrada sobranceira à plantação. Escoltados pela GNR, dão inicio a uma marcha apeada, dançando entusiasticamente pela estrada, acompanhados pela sonoridade de tambores, e outros instrumentos de percussão; de cartazes alusivos ao perigo de contaminação dos transgénicos e palavras de ordem.
Passando por uma vila pacata, abordam a população, demonstrando as razões da acção aos populares que olham admirados com toda aquela azáfama provocada pelos activistas, sempre sobre o olhar atento da GNR e dos jornalistas que os acompanham.
Como desfecho final, são apresentados excertos de páginas de OCS que noticiaram a acção, terminando com uma observação de uma plantação de milho transgénico e com o texto alusivo a acção:”Nesta acção simbólica, foi ceifado menos de um hectare de
milho transgénico. O Movimento Verde Eufémia ofereceu ao agricultor milho biológico suficiente para replantar os 51 hectares de milho transgénico. Ele não aceitou. Três pessoas presentes na acção foram identificadas pela polícia. Neste momento decorre uma investigação. A sociedade civil precisa de tornar-se parte da tomada de decisão, num assunto que afecta todos nós e sobre o qual a ciência não pode fornecer respostas claras. A luta contra os transgénicos continua…”.