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Two-Case Delivery Technique

4.3 Transparent Access

É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal maneira que num dado momento a tua fala seja a tua prática.

Paulo Freire

Em 2010, o ano em que iniciei os estudos de doutorado, assiti a um vídeo profundamente intrigante. O registro audiovisual possuía um formato indefinido, um híbrido de entrevista e documentário com o filósofo francês Gilles Deleuze. Dentre os muitos assuntos que foram abordados, um, em especial, me inquietou; dizia o filósofo francês: “uma interrogação não é um problema. Uma pergunta não é uma questão”.

Para o filósofo francês, existia uma arte que envolvia nossas questões, nossos problemas e, sendo assim, uma simples interrogação deveria ser asssociada a qualquer curiosidade humana. Uma curiosidade mínima, específica ou, ainda, referente a uma necessidade daquele que a realiza. Tais perguntas, mesmo que profundas ou difíceis de serem respondidas, se vinculariam a uma qualidade ocasional. Contudo, uma questão, superaria esta condição.

Segundo Deleuze, a questão agrega em si uma motivação maior, que abrange uma totalidade. A questão não é uma simples curiosidade; ela impulsiona e para o ser. Ao mesmo tempo em que ela o movimenta, o instiga em uma ânsia de resposta, também o faz ficar parado. O filósofo afirmava, então, que uma boa questão era aquela que promovia a questão. Não necessariamente vinculando-se à sua capacidade de resposta. Muitas questões já obtiveram respostas válidas que capitularam; outras, perdem força e depois retornam; outras, ainda, permanecem à espera de uma.

Enfim, a provocação deleuziana me causou uma grande inquietação. Sobretudo, para alguém que trabalharia nos próximos anos com a necessidade de uma hipótese bem

estruturada, com um problema que deveria ser bem apresentado e aprofundado. O grilo89 deleuziano ficou cricrilando em meus ouvidos.

Muitos fatores entraram e saíram desta pesquisa até que a presente tese encontrasse este formato final. Mas a ideia de que esta deveria dialogar com questões que promovessem outras questões sempre me acompanhou. Por mais que as palavras de Deleuze possam parecer um mero jogo com elas próprias, elas são reveladoras.

Esta tese buscou conciliar, portanto, movimentos de avanço e estanques, do parar e do prosseguir. Ironicamente, todo o processo foi grávido de situações similares: começos, paradas, paradas, recomeços... Estupor e entusiasmo. De modo consciente (pelas necessidades práticas da vida) e, também, inconsciente (por partir de um ser humano, um caminhante, um buscador).

Iniciei este trabalho afirmando que era dedicado ao Teatro. Mais do que dedicado a esta forma de expressão e comunicação humana, a esta linguagem artística, ao próprio fazer teatral, a pesquisa é voltada para aqueles que, de qualquer maneira, se irmanam a ele.

Toda tese anseia pelo outro: o outro que a lê, que a escuta, analisa; enfim, que dedica a ela alguns poucos momentos de sua reflexão na existência. Quando digo tese, não me refiro exclusivamente a esta própria, que aqui, ao ser escrita, se compõe. Mas, uso a palavra em sua semântica mais genuína: a de ideia, pensamento, que necessariamente é dotada de um espectro de convencimento. Meu intuio abraçou esta vontade, a de que a sua valia não fosse por si mesma; mas, sobretudo, pelo que ela pudesse fazer parar e fazer seguir no outro que, por acaso, com ela se encontre.

Esta é uma tese de aprendizados da prática teatral, e, por que não, da própria vida. O teatro está inserido no meio, no seio, no veio da vida. Infelizmente, esta grande riqueza não consegue ser mensurada com uma “régua precisa” pelas vias formais da academia. Mas isto não é um lamento, é apenas uma constatação pessoal. Neste sentido, antes de iniciar reflexões conclusivas sobre esta pesquisa e a importância do mestre Constantin Stanislavski nela, gostaria de tecer minha gratidão, também, aos diversos mestres que me ajudaram a conhecer e reconhecer o ânimo que buscou inflamar este trabalho. Mestres diversos que marcaram a minha vida. Com certeza, Stanislavski me chegou, de modo mais pleno, porque, antes dele, estes outros existiram.

Outro ponto que não posso deixar de associar a esta reflexão final é a fundamental relevância que a trajetória possibilitou para tais descobertas, uma vez que foi pela vivência na

89 Pensei em dizer que era um “carrapato deleuziano”; mas, a qualidade sonora e semântica do grilo, me fez

docência que esta pesquisa tomou corpo. E mais, as duas, docência e pesquisa, foram concomitantes. Tendo me dado, inclusive, a rica oportunidade de conjugar no processo analítico as experiências em duas instuições federais distintas. Isto, com toda certeza, gerou uma potência criadora bem mais significativa. Mesmo com todas as demandas e dificuldades, louvo esta possibilidade.

Ainda quanto à força da experiência docente, necessário também é destacar nesta conclusão as percepções da vivência atual. Um trabalho a partir das compreensões éticas é significativo para qualquer curso. Porém, para uma Licenciatura, mais do que dotado de importância, este trabalho é essencial. A docência no curso de Teatro-Licenciatura da UFC me está sendo pródiga em aprendizados. No que se refere especificamente à disciplina “Ética e Prática teatral”, isto ainda se potencializa.

Diante das regulares e expressivas participações dos alunos nos debates e das inquietações pessoais apresentadas nas aulas, a disciplina foi abordada como um locus de reflexão daqueles que já estavam às portas da formatura; mas que, muitas vezes, ainda expunham suas dúvidas e temores com a futura condição de docente-artista-pesquisador. Perceber sinceridade em muitos momentos de depoimentos em sala de aula e a integridade da maioria dos ensaios escritos foi gratificante para este professor. Mais do que tudo, constatei alunos engajados com sua arte e com o seu curso.

Portanto, é justamente a partir das reflexões vivenciadas em sala de aula, decorrentes do objeto de estudo desta pesquisa, que posso afirmar que os alunos da disciplina “Ética e Prática teatral” obtiveram êxito na compreensão de que ele, o próprio sujeito, é o responsável primeiro pela sua criação artística, bem como pela manutenção de um ambiente propício para sua prática.

Neste sentido, foi a partir dos conceitos e noções fundamentais da ética que os alunos puderam construir saberes sobre princípios éticos que contribuem e alicerçam a formação do profissional das artes cênicas. Pois, tal reflexão, necessariamente, possibilita aos sujeitos efetivos de uma ação artística teatral que observem criticamente e amadureçam as relações com os seus pares, bem como elucidem as suas reais condições de trabalho.

Pelo exposto, asseguro que a percepção destes alunos ampliou-se, na medida em que, mesmo aqueles que não estavam totalmente de acordo com os ensinamentos de Constantin Stanislavski, tiveram acesso aos referenciais éticos defendidos pelo mestre russo e construíram a sua percepção sobre os temas discutidos.

Além disto, os princípios éticos apontados na presente tese se configuram como contribuições reais que Stanislavski lega a todo aquele que opte por ter no seu sistema um processo formativo. Pois, o formato utilizado pelo diretor-pedagogo em sua trilogia condensa técnica, ética e arte como pilares na formação de um ator.

Por meio de tais compreensões, é possível concluir que os ensinamentos teatrais aqui descritos, sustentados pelas próprias necessidades da prática coletiva, ratificam e resultam plenamente na aprendizagem de uma autonomia. Sendo assim, é possível também concluir que o ator somente torna-se verdadeiramente autônomo no teatro quando consegue, através da sua própria reflexão, superar as amarras do individualismo e do egocentrismo, adquirindo uma capacidade de se relacionar e afirmar no coletivo, orientando-se por princípios éticos, os quais adquiriu plena consciência ao longo do seu processo de formação.

Neste sentido, acredito que fica comprovado não somente o valor, mas também a necessidade desta pesquisa, sob um ângulo atual e válido. Devolver à sociedade um trabalho sobre princípios éticos em formato de tese de doutorado é, para este professor, mais do que uma obrigação formal, é uma possibilidade de dar voz a um aprendizado decorrente das obervações e vivências deste educador e artista.

Que outras pesquisas de natureza semelhante ou aproximada possam ser realizadas a partir de outros teatrólogos. Nacionais, inclusive, já que o teatro brasileiro possui força e substância para este debate.

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