2. Service Examples
2.5. Transfer - Attended
Paralelamente à Escrita Despótica e Imperial, representante do Grande Invisível, permanece vivo o grafismo como escritura, escrita outra, menor e selvagem. Esta é a escrita das materialidades descrentes, das superfícies sensuais, dos trabalhos de desterritorialização e decodificação. Esta é a dos grandes artistas disruptores, distópicos, rebeldes e não-assimilados às boas maneiras disciplinares da instituição literária. A potência do falso que move esta escrita é encontrável disseminadamente nas contradições próprias à modernidade – potência presente na crítica utópica da modernidade como crítica à própria modernidade; potência presente na capacidade intelectual de revalorizar o corpo como esfera privilegiada para discussão de idéias e políticas; potência presente na avaliação constante dos discursos em cena, inclusive o próprio, isto é, habilidade metadiscursiva26. Nessa escrita outra, o corpo se desfaz
violenta e temporariamente do despotismo da escrita fonética, almejando liberar os
fluxos dos desejos e dos sentidos das jaulas e enquadramentos unidimensionais. E é precisamente aí, na liberação dos fluxos, que o escritor-poeta se encontra com essa escrita selvagem, uma escrita potencializada pelo trabalho do corpo, materializada nas superfícies sensuais dos suportes, das folhas lisas, das páginas desenhadas, das telas multicoloridas e dos mundos multiplicados. Montada tridimensionalmente na forma de neografismos vários, essa escrita se reconecta ao corpo erótico e tribal, tendo nele seu motor e suporte privilegiado de multiplicação, não de constrição e de ordem. Uma escrita do corpo é escrita como corpo – uma escritacorpo. Se a escrita despótica hoje
26 Os textos do livro O inumano: considerações sobre o tempo, de Jean-François LYOTARD, elaboram
reflexões bastante pertinentes sobre tópicos relativos à modernidade: corpo, arte, técnica, vanguarda, pensamento, comunicação, matéria, memória, sublime e tempo.
divide espaço, se confunde e se indiferencia com os fluxos monetários, os fluxos turísticos, os fluxos de imagens, os fluxos informacionais, enfim, os inumeráveis fluxos semióticos que rasgam a superfície do planeta, escaneando e codificando as forças que nele se movimentam, esta escritacorpo é a diferença em relação ao despotismo, o sutil, mas significante, desvio, o deslocamento nonsense, o ruído ininteligível, a doce perversão, o grito, o sangue espargido na página. Uma alegre semiótica do sangue. Na escrita como jogo, há o jogo que quer ser (levado a sério) e o jogo que não é nada (sério).
Se por um lado, a escrita unifica e sistematiza os diversos despotismos imperiais, por outro lado, ela também comporta a desterritorialização do corpo, do grafismo e da terra. Novas bases para as noções de organização e de desorganização; cosmos e caos; ordem e desordem simultâneas. Na verdade, um estremecimento das bases, pois um despoder deve surgir precisamente dos solos estáveis para uma nova experiência do possível, que tem o corpo como primeiro e único começo27. Assim como os organismos complexos, a escrita selvagem é entrópica, numa ininterrupta troca de energia com o fora, separado dela por uma membrana porosa, revestida da mesma matéria que cobre o corpo – a pele mestiça que me afasta e me aproxima do exterior. Pele como terceiro espaço, caosmos, dentro e fora, o dentro como dobradura do fora. Assim, os órgãos dessa escrita são máquinas francamente exteriores de fabricação de signos materiais, gráficos do corpo, riscos no chão de terra por onde se dança celerado, com o lápis na mão, com todos os dedos tamborilando o teclado, conectando-se a outras máquinas e
fazendo um híbrido de máquina e organismo. Um ser anorgânico, um composto fragmentado de homo erectus, homo faber e homo ludens.
O corpo bípede acabou por transformar o cérebro, modificá-lo, desenvolvê-lo e fazê-lo ganhar proeminência e prioridade diante do corpo ele mesmo. Os impulsos quantitativos e exteriores de energia na transformação do corpo, migraram para o cérebro e nele se sedentarizam, fazendo da inteligência e da memória cascas protetoras de auto-conservação, que passam a envolver todo o corpo em processos qualitativos e interiores de significação, portadores de imagens da sua submissão à “consciência”, que então passa a ser reconhecida como “essência” unificadora da “pessoa”. Esse enfraquecimento exterior quantificável dos corpos, sua servidão a uma “essência interior” qualificada por uma memória antiquária, é minado na medida em que os laços entre estados corporais e cérebro são reelaborados, que o caminho que leva de um ao outro é retraçado28. A busca da vida nesse corpo enfermiço na sua madureza e acabamento é um empreendimento de liberação de forças eróticas, de matérias sensoriais, de estímulos bioquímicos que inscrevem novos percursos, novas veredas, principalmente as tortuosas, mas que sejam os percursos e as veredas próprias a esse corpo, por ele próprio construídos. Desse modo, as afecções corporais se tornam as propiciadoras das alegrias ou tristezas que comandam os afetos, os sentimentos de
28 Para as idéias de processos quantitativos e qualitativos de energia na formação da “consciência” e de
alegria e tristeza, os estados saudáveis e doentios, o aumento e a diminuição de potência afetiva29.
A escrita, por sua vez, se coloca, então, como uma poderosa máquina criadora de afecções, potencializando os afetos que são mobilizados nos corpo, suas metamorfoses. Recuperar a escrita como gozo da vida – o gesto de escrever como o “acotovelamenteo natural das forças que compõem a realidade, a fim de extrair dela um corpo que nenhuma tempestade poderá consumir”30 – é criar um estranho modo de existência, um
estilo de vida múltiplo, um ambíguo saber de si e da vida. Limítrofe. Visceral. E a escrita que se produz nas vísceras é uma escrita que abre o excremento e se torna sangue, osso, carne, uma escrita que não se quer abandonada, que não expilo pura e simplesmente do meu corpo – urgência de uma interioridade qualquer – mas uma escrita que irradia uma presença simultânea habitual ausência. Essa é uma escrita que afeta alegremente, uma escrita capaz de minar o interior do homem, de desdobrá-lo com seus órgãos, uma escrita que recusa a idéia de interioridade como um bem “natural”, metaforizado pelo excremento que se obra31. Essa escrita é técnica xamânica de manipulação corporal. Técnica de fabricação de um outro corpo. Farmacotécnica arcaica.
Erotização da palavra para a selvageria da escrita ganhar corpo. Ganhar eroticamente o corpo. Desfazer o estado de letargia que uma cultura territorializada lhe
29 Ver Gilles DELEUZE, Espinosa, filosofia prática, que escreve: “a passagem a uma perfeição maior ou
o aumento da potência de agir denomina-se afeto ou sentimento de alegria; a passagem a uma menor perfeição ou a diminuição da potência de agir, tristeza”, p. 57.
30 Antonin ARTAUD, “Van Gogh. O suicidado da sociedade”, Linguagem e vida, p. 284.
31 Ver “Para acabar com o julgamento de deus”, texto no qual ARTAUD desenvolve uma reflexão radical
sobre a evacuação do excremento ligada ao desenvolvimento de um superego, que o dramaturgo substitui por um “céu”, que rejeita tudo que provém do corpo como sendo sujo e fétido.
impõe, excitando-lhe as palavras que escritura. Na sociedade capitalista os fluxos semióticos adquiriram intensa circulação. Tanto os fluxos estatizantes quanto os fluxos selvagens. Estão ambos presentes no corpo, que tropeça na sedução teológica de obrar encabuladamente uma escrita despótica. A solicitação da selvageria, então, se dá no ato de escrever como um movimento virótico, leve, difusamente violento, cuja força sensual do gesto mina o despotismo da escrita luminar, douta e professoral – prosa vertical do mundo –, análoga a um ditado celeste. A erotização da forma escrita acontece no multilinguismo e no polimorfismo em jogo durante da circulação dos sentidos, sua mobilidade que assoma no sujeito, mas logo o deixa por outra coisa, mais nova e fresca. Rasura do flerte com os sentidos, produzindo uma suave urgência e uma força sutil que abala apenas taticamente a forma despótica da escrita.