2. Service Examples
2.3. Music on Hold
A famosíssima seqüência inicial do filme 2001: uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick: “A aurora do homem”. Um ancestral do homem descobre que pode segurar um pedaço de osso com a mão e batê-lo com força para matar outros animais e saciar sua fome e a do bando a que pertence. A seguir, na disputa com outro bando por uma pequena fonte d’água, também faz uso do osso com seu bando, usando-o, desta vez, para espancar e se impor ao bando rival. Após matar um adversário a pauladas, lança o osso triunfantemente para o ar, girando em câmera lenta. A seguir opera-se um corte que sincroniza dois momentos historicamente distantes e tem-se a cena de uma nave flutuando, como se caísse, no meio do vazio espacial. Uma história da civilização técnica é contada com precisão cirúrgica em poucas, belas e bem editadas imagens. O que só o cinema é capaz.
Em meio a essa maquinaria civilizacional, a escrita emerge como símbolo técnico que é – “simultaneamente gesto e utensílio”, ao mesmo tempo índice e motor desse sistema-pensamento. No entanto, a escrita passa a ser majoritariamente o mais poderoso aparelho de repetição mítica de uma cena originária de dominação e controle sobre processos primários que se inscrevem sobre corpo tribal. A naturalização desse domínio e desse controle, por parte da escrita, é o grande mito da civilização. O acesso escolar à escrita, pela repetição estritamente mecânica de normas, gestos e procedimentos, reencena o processo de sujeição do corpo a uma vontade e a um poder inscritos como marcas que imprimem memória a uma dada materialidade. Tem-se o funcionamento da memória, pois, como resultado da montagem de um aparelho de repressão, captura e socialização sob o signo de um princípio de repetição mecânica. A escrita repete,
relembra e revive uma pretendida cena originária traumática e a violência literal na carne submetida de forma permanente enquanto teatro representacional, para a criação e manutenção de complexos metafóricos – o corpo cultural, o corpo social e o corpo político, dentre outros. As memórias são frutos de explorações e impressões de determinados traços no corpo que vive – traços mecanizados de uma repetição insidiosamente repressora. E a escrita, por sua vez, é imediatamente alçada à condição de instrumento de mitificação por excelência, mecanismo de representação criado pelo homem com o ambivalente poder de, em uma só vez, ser auto-conservação e transformação de um certo estado de coisas.
A memória, de uma só vez psíquica e cultural, nesse caso age de modo absolutamente acachapante sobre o corpo, conduzindo sua força própria em nome da comunicação e da saúde da Cidade-Estado (corpo político) e da Comunidade (corpo social). Falsa saúde, em verdade, pois assentada na prática da exclusão. Excluir alguém da comunicação comum – compartilhada por uma determinada comunidade – é excomungar.13 Donde que o vínculo entre um pensamento religioso e o pensamento sócio-político que funda a idéia de Comunidade apontar para o controle do corpo por parte da linguagem – representada paradigmaticamente pela escrita. É a comunicação que funda a Comunidade; é a escrita que inaugura o gesto de empoderamento de uns e sujeição de outros; é a memória que fabrica um “nós” como auxiliar do sentimento de raiz, sentimento arborescente e antiquário. O conservadorismo da escrita mostra suas
13 Tal vinculação é lembrada por Christine GREINER, em O corpo: pistas para estudos indisciplinares,
presas na recusa da atualidade e da vida, deitando fora o acontecimento na sua plasticidade mais forte.
A conservação naturalizada de um interior faz com que se esqueça, freqüentemente, que a escrita é uma ferramenta técnica, e que, enquanto tal, se pode e se deve também avaliá-la também dentro dos processos de mudanças técnicas pelos quais a humanidade passou e passa, desde os primeiros utensílios de pedra lascada até as novas tecnologias que organizam toda a vida de hoje. Mais até. A escrita é uma ferramenta de simbolização gráfica, portanto moradora de superfícies (físicas e neurológicas) e fronteiras (conceituais). Mas a sua projeção no tempo histórico, com a conseqüente linearização, transformou-a de um instrumento materialmente tridimensional – isto é, uma inscrição gráfica avaliada pela experiência corpórea (o olhar, por exemplo) em suportes múltiplos – em instrumento transcendentemente unidimensional – de leitura linear, temporal, repetitiva, mecanizada, falsamente profunda e enfraquecida na sua inventividade cotidiana: escrita fonética. Afora em artistas e em pensadores donos de um temperamento sangüíneo, a escrita é reconhecida, desde muito, simplesmente como metáfora, sintoma, duplo, cópia, reflexo, representação, produto, resultado, filha; presa à esfera da representação despótica, sob um regime de conotação e designação, no qual o signo gráfico designa a voz, enquanto essa designa alguma coisa de invisível e imaterial, algo de transcendente – Deus, Lei, Rei, Estado, Igreja, Juiz, Família, Pai. A escrita como reprodução do pensamento e da memória14 passa a atuar em regime de subordinação a
14 Ver o primeiro capítulo de Charles HIGOUNET, “A escrita, expressão gráfica da linguagem”, em
um ser, a um logos, enterrando o corpo ferido sob a autoridade da arrogância linear do Déspota, com suas Leis, Mandamentos, Livros Sagrados, etc15.
A invenção da imprensa é uma cena bem conhecida para ser deixada passar na avaliação dessa aparelhagem despótica, que se arma com a escrita e enterra seu grafismo corporal num jogo que se quer sério. A invenção da imprensa e a lenta e decorrente institucionalização do livro reencenam uma “volta às origens, não apenas às origens do Ocidente cristão, mas à do universo, para uma gênese que dá corpo ao logos e o encarna de maneira que de novo, mas diferentemente, ele ‘se faça carne’”.16 O corpo – antes mídia disseminadora da textualidade – passa a médium descolado da “consciência”, migrando para longe da materialidade atuante na página, e a escrita passa a ser simples expressão projetada da intencionalidade do “autor” e “fonte” do sentido da “obra”.17 Mas se, por um lado, entre os reis – nas cortes do fim do Medievo, início do Renascimento – o saber corporal estava submetido às etiquetas e convenções sociais de um saber originariamente despótico, de coloração fortemente teológica, representado sob encenações de matriz alegórica, por outro lado, já nas ruas a precariedade da vida e das encenações sociais acabava por ressaltar o simulacro das cenas montadas, colocando de pernas para o ar qualquer vontade firme de emanação divina e transcendente, transformando-a numa fonte lúdica de potência criativa e livre, que atrai hoje numerosos historiadores aos ruídos e grafismos materiais dos inúmeros corpos, meu e da população das ruas.
15 Ver Gilles DELEUZE, Felix GUATTARI, O anti-Édipo, pp. 256-60. 16 Michel de CERTEAU, A invenção do cotidiano, p. 236.
17 Hans Ulrich GUMBRECHT, “O corpo versus a imprensa: os meios de comunicação no início do
período moderno, mentalidades no Reino de Castela e uma outra história das formas literárias”, A
Com o livro sendo progressivamente adotado por maior número de pessoas, o espaço de encenação dos valores e das convenções sociais sai da esfera dos corpos, social e biológico, e vai para as páginas18, sob as graças da escrita, foneticamente legitimada e despoticamente legalizada – ao pé da letra da lei. Os grafismos do corpo – com seus jogos cotidianos, suas técnicas e simbolismos difusos – ganham estatuto de convenções regulamentadas sob as guardas da palavra fundadora da Razão moderna: é precisamente a mão da burguesia que vai comandar esse processo e vai escrever sobre os corpos a nova ordem. Domesticando-os. Educando-os. Alfabetizando-os. Esclarecendo- os à luz do livro. A escrita passa a ter um poder efetivo nunca anteriormente possuído, pois a sua moderna mitificação a transforma em passaporte e condição sine qua non para um fortalecimento do poder das então novas sociedades. Os livros das diversas Constituições Nacionais representam paradigmaticamente esse novo estatuto da escrita luminarmente despótica nas sociedades modernas. Pode-se dizer mesmo que toda a teoria política ocidental baseia-se numa reflexão sobre os modos de implicação do poder sobre os corpos, desmaterializando-os em nome de uma racionalidade política, e que “a política moderna baseia-se na desimplicação do corpo relativamente à razão do cidadão, pelo que o ‘tocar’ do corpo é o verdadeiro interdito político. (...) Tocar o corpo de alguém é o primeiro acto de qualquer violência”.19 O gesto de escrever, assim, passa a ser encarado e exercido como via de acesso à cidadania, o que vai informá-lo como ato transcendente, interiorizado e ascético, exercido sobre o espaço “público” da página em branco, apropriada pela aparelhagem pedagógica, que ganha enorme relevância. Está
18 Idem, ibidem, pp. 77-8.
montado o moderno espaço da luta política pelas representações sociais, com a escrita como instrumento de dominação e controle cada vez mais poderoso dos corpos antes indóceis, criando populações domesticadas e corpos conformados.
A contrapartida de tanta memória não é o esquecimento, mas o investimento num excesso de e nas formas.