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Chapitre 3. Traitement des données

3.1 Traitement des données de diffraction X

Pesquisar a partir de Práticas Sociais e processos educativos e de Motricidades do Sul torna necessária a busca por trajetórias metodológicas que atendam tanto aos princípios éticos que regem essas linhas de trabalho quanto as especificidades dos múltiplos temas de pesquisa, assim como que nos tornemos vigilantes epistemológicos, ou seja, que não aceitemos como prontos e determinados os procedimentos metodológicos, mas sim que o tratemos de “[..] reelaborá-los historicamente em cada contexto. Não transplantá-los mecanicamente. A história de um método (= caminho) só pode ser ‘contada ao finalizar a pesquisa’. A direção tomada inicialmente é sempre provisória” (GADOTTI in GADOTTI et al, 1995, p. 14).

Falar sobre a construção de conhecimento científico a partir da investigação de práticas sociais de grupos marginalizados e suas ações educativas, ou seja, da realidade dos sujeitos, significa falar também de suas dimensões políticas, pois se assume que há, na marginalização destes grupos, o estabelecimento de uma hierarquização de poder e das formas de ser e saber. Reconhecer esta dimensão política é um possível ponto de partida para a transformação, para o educar-se, posto que esta pode estar implicada na tomada de decisões que influenciam nas relações de autoridade e poder entre grupos de pessoas e consequentes formas de resistência ou desistência.

Entretanto mais do que reconhecer que tais práticas produzem conhecimento é preciso tê-las como válidas, pois como bem nos alerta Santos (2010) o reconhecimento da diversidade cultural não implica necessariamente em um reconhecimento e valorização da diversidade epistemológica do mundo. Tal reconhecimento só é possível quando há por parte do/a pesquisador/a uma ação comprometida com os conhecimentos abordados pelo grupo social, em relação ao tema, no caso deste estudo, a Congada de São Benedito no município de Ilhabela, de maneira que cada vez mais pessoas conheçam as posições e entendimentos dos sujeitos envolvidos no processo da pesquisa.

Isso significa constituir uma comunidade de trabalho a partir de objetivos comuns e que “[...] ultrapassam a ordem do pessoal, se situam e enraízam em compromisso com a construção de uma sociedade justa que garanta iguais direitos e tratamento diverso para diferentes condições, circunstâncias, oportunidades sócio-histórico-sociais” (SILVA; ARAÚJO-OLIVEIRA, 2004, p. 2).

A comunidade de trabalho, neste caso, tem uma amplitude que permite transitar do espaço acadêmico à sociedade e desta àquele, reconhecidos cada

um deles como legítimo em suas diferenças, especificidades, funções. A sociedade, a assumimos como rede de relações objetivas que nos envolve e a todos conforma enquanto pessoas, cidadãos. Tais relações garantidas por estrutura hierárquica de poder e influência, que classifica as pessoas em níveis de superioridade e de inferioridade, excluem pessoas de seus direitos e de sua humanidade, tentando impedi-las de assumi-los. A academia no seio destas relações produz e divulga conhecimentos que, na nossa experiência de América Latina, mais tem servido para legitimá-las do que superá-las, transformá-las em humanas e justas (SILVA; ARAÚJO-OLIVEIRA, 2004, p. 2).

Estabelece-se aí reconhecimento da diversidade epistemológica o que implica que a ação do/a pesquisador/a não termina com a ação direta da coleta de dados com os participantes de sua pesquisa. Estabelece-se uma relação dialógica, uma ecologia de saberes que “[...] baseia-se na ideia de que o conhecimento é interconhecimento” (SANTOS, 2010, p.53) e “interignorâncias”.

Na ecologia dos saberes cruzam-se conhecimentos e, portanto, também ignorâncias. Não existe uma unidade de conhecimento, como não existe uma unidade de ignorância. As formas de ignorância são tão heterogêneas e interdependentes quanto as formas de conhecimento. Dada essa interdependência, a aprendizagem de certos conhecimentos pode envolver o esquecimento de outros e, em última instancia, a ignorância destes. Por outras palavras, na ecologia de saberes, a ignorância não é necessariamente um estado original ou ponto de partida. Pode ser um ponto de chegada. Pode ser o resultado do esquecimento ou desaprendizagem implícitos num processo de aprendizagem recíproca. Assim, num processo de aprendizagem conduzido por uma ecologia de saberes, é crucial a comparação entre o conhecimento que está a ser aprendido e o conhecimento que nesse processo é esquecido e desaprendido. A ignorância só é uma forma desqualificada de ser e de fazer quando o que se aprende vale mais do que o que se esquece. A utopia do interconhecimento é aprender outros conhecimentos sem esquecer os próprios... (SANTOS, 2010, p. 56).

A produção deste interconhecimento e reconhecimento de ignorâncias significa investigar não só a experiência das pessoas, mas a minha também, já que no decorrer da pesquisa minha atuação não se limita a aplicar este ou aquele método ou instrumento de coleta de dados, posto que apesar de ter uma outra experiência de mundo que me permite interpretar a Congada de forma por vezes distinta (no caso deste estudo, vivo na mesma cidade, frequento espaços que nos são comuns, trabalho na Ucharia etc.), estou mergulhada em alguma medida no mundo-vida destas pessoas mais do que me aproximar da realidade dessas pessoa com o intuito de pesquisar, eu também faço parte dela.

Ou seja, ainda que investigadora, considero que sou parte da Congada. Desde o momento em que ouvi falar sobre a Congada pela primeira vez, desde o momento em que conheci a mesma e que tive minha curiosidade despertada a ponto de pensá-la como projeto de pesquisa, eu influencio e sou influenciada pela Congada. Se eu não houvesse sido influenciada ao ouvir a professora que me chamou a atenção sobre a existência e importância da Congada, ao assistir aos bailes pela primeira vez, ao participar da Ucharia, ao estabelecer laços pessoais, ao ouvir a crítica de uma criança ante a ideia de que eu ao chegar no espaço da Ucharia estaria apta a substituir sua família, sem problemas, na transmissão de alguns ensinamentos, assim como ao estranhamento de uma outra criança ao meu questionamento sobre o que ele viria a ser, que me fez pensar sobre o que é ser congueiro, esta pesquisa não existiria. Desde o início deu-se um processo de conscientização sobre quem somos e qual os lugares por nós ocupados nesta relação, que é interpretado pelas distintas pessoas que integram o grupo no qual estou inserida; percebo e interpreto e sou consciente de que também estou sendo continuamente percebida e interpretada pelos outros/as participantes.

É importante que seja destacado que o visto não é percebido de maneira isolada, mas em uma região de fenômenos percebidos. Forma-se um campo de percepção, onde estão presentes o fenômeno posto em foco e outros co- percebidos. Sujeito e fenômeno estão no mundo-vida juntos com outros sujeitos, co-presenças que percebem fenômenos. A co-participação de sujeitos em experiências vividas em comum permite-lhes partilhar compreensões, interpretações, comunicações, desvendar discursos, estabelecendo-se a esfera da intersubjetividade. Esta é dificultada e ao mesmo tempo facilitada pela linguagem, veiculadora de discurso (BICUDO, 1994, p. 19)

Merleau-Ponty (1996) nos diz que a linguagem exerce um papel essencial na percepção do outro, por isso neste estudo o diálogo foi sempre considerado fundamental, pois:

Na experiência do diálogo, constitui-se um terreno comum entre outrem e mim, meu pensamento e o seu formam um só tecido, meus ditos e aqueles do interlocutor são reclamados pelo estado da discussão, eles se inserem em uma operação comum da qual nenhum de nós é o criador. Existe ali um ser a dois, e agora outrem não é mais para mim um simples comportamento em meu campo transcendental, aliás nem eu no seu, nós somos, um para o outro colaboradores em uma reciprocidade perfeita, nossas perspectivas escorregam uma na outra, nós coexistimos através de um mesmo mundo. No diálogo presente, estou liberado de mim mesmo, os pensamentos de outrem certamente são pensamentos seus, não sou eu quem os forma, embora eu os apreenda assim que nasçam ou que eu os antecipe, e mesmo a objeção que o interlocutor me faz me arranca pensamentos que eu não sabia possuir, de

forma que, se eu lhe empresto pensamentos, ele em troca me faz pensar (MERLEAU-PONTY, 1996, p. 474-475).

Com base no apresentado foi feita a opção da pesquisa qualitativa com trajetória metodológica inspirada na fenomenologia, modalidade fenômeno situado, na qual

A principal tarefa metodológica é a interrogação dos princípios gerais, segundo os quais o homem/sujeito organiza as suas experiências na vida cotidiana. O que se busca são os constructos que participam da experiência do senso comum do mundo intersubjetivo da vida cotidiana, ou seja, a compreensão das percepções da situação real existencial do sujeito (MACHADO, 1994, p.39-40)

Ainda que a fenomenologia por si mesma não se traduza em um manual, de imediato, isso não significa que não haja estratégias metodológicas que baseadas em alguns princípios que orientam esta investigação que possam ser utilizadas.

Considera-se a fenomenologia como um modo de investigação do mundo vivido, entendendo investigação como “[...] todo querer saber, querer compreender que se lança interrogante em direção àquilo que o apela, que provoca sua atenção e interesse” (CRITELLI, 1996, p.25-26). Nas palavras de Bicudo (1994, p.19), a fenomenologia interroga “[...] o que é experienciado pelo sujeito voltado atentivamente para o que se mostra. A realidade é o compreendido, o interpretado, o comunicado. É, portanto, perspectival, não havendo uma única realidade, mas tantas quantas forem suas interpretações e comunicações”.

Garnica (1997, p. 111) diz que o sujeito por conviver com as coisas as quais interroga e atribuir significados, “[...] seleciona o que do mundo quer conhecer, interage com o conhecido e se dispõe a comunicá-lo”.

Consideremos, entretanto, que a análise fenomenológica não se encerra na descrição do subjetivo, como poderiam argumentar alguns. A mediação pela linguagem, sempre presente, e o “viver-com” - intersubjetivo -, permitindo a compreensão e interpretação de um discurso que não é o nosso próprio, colocam a análise conduzida pela fenomenologia como abrangendo o histórico e o social, pois encontros e mediações ocorrem temporal e contextualizadamente (GARNICA, 1997, p. 116).

Entende-se assim a fenomenologia como uma reflexão sobre o fenômeno, pois “Não nos interessam os fatos, interessam os sentidos deles” (ALES BELLO, 2006, p. 18):

O nosso problema é: o que se mostra como se mostra.

Quando dizemos que alguma coisa se mostra, dizemos que ela se mostra a nós, ao ser humano, à pessoa humana. Isso tem, grande importância. Em toda a história da filosofia sempre se deu muita importância ao ser humano, àquele a quem o fenômeno se mostra. As coisas se mostram, a nós. Nós é que buscamos o significado, o sentido daquilo que se mostra (ALES BELLO, 2006, p. 18).

Em outras palavras a fenomenologia interessa-se pela expressão da experiência do sujeito para, a partir daí, desvelar o fenômeno interrogado, pois considera que só se pode compreender o ser e o mundo a partir de sua facticidade (MERLEAU-PONTY, 1996). O fenômeno é, portanto, perspectival. O primado é da percepção de nossas vivências, do mundo vivido e é a partir disso podemos compreender que há uma relatividade no conhecimento dados os infindáveis modos de ser e de experienciar o mundo, “[...] visto que a vida humana está em perpétuo deslocamento. Viver com os homens é jamais alcançar qualquer fixidez” (CRITELLI, 1996, p. 16).

Pesquisar utilizando a fenomenologia exige coerência e rigor, condizentes com as opções filosóficas, políticas e sociais assumidas, envolve mudanças em nossa vida cotidiana e traz a necessidade da percepção de que a pesquisa não pode ser estabelecida como verdade absoluta e eterna, pois esta é mutável e relativa. Ao sujeito, na fenomenologia, não há possibilidade de objetivação, o que há é um encontro de subjetividades, de perspectivas distintas, portanto como investigadora sou uma perspectiva a mais. Assim sendo, minha investigação não será a única história possível acerca do fenômeno, considerando que os significados de um dado fenômeno são consolidados a partir do exercício da intesubjetividade. Investigar a partir da fenomenologia é assumir uma transformação constante, uma eterna possibilidade de transcendência para todos os envolvidos; é saber que ainda que eu e os/as participantes envolvidos/as saibamos como somos ao iniciarmos o processo investigatório não temos ideia de como sairemos, o que viremos-a-ser.

Assim sendo, o pesquisar mais do que conhecer ao outro se apresenta como uma possibilidade de conhecer-nos, pois este “[...] movimento que busca compreender, ampliar o conhecimento sobre o mundo, transformando-o, humanizando-o, é também movimento que busca compreender a si mesmo, num re-encontro com sua humanidade, com os seres humanos, seres no mundo” (OLIVEIRA et al, 2014, p. 129), ou seja é um ato de convivência no qual:

constrói-se confiança, valorizando as trocas de experiências de mundo, compartilhando saberes, fundando o respeito mútuo, permitindo relações sociais autênticas, de modo que os sujeitos envolvidos na pesquisa troquem experiências de vida e visões de mundo, no olho no olho, abrindo caminhos para a construção de um processo que seja libertador, humanizador (OLIVEIRA et al, 2014, p. 134).

Por conseguinte, os sujeitos envolvidos na pesquisa não podem ser reduzidos a meros objetos de investigação e nem tampouco as situações por eles vivenciadas em situações na vida cotidiana como se estas fossem imutáveis ou definitivas, pois o ser humano é histórico, ou seja, o próprio ser é inacabado e condenado ao estar-sendo, ao vir-a-ser.

Nas sociedades africanas, este vir-a-ser está fortemente relacionado com o que se aprende e se ensina através da motricidade e nas relações intergeracionais dos membros destes grupos, e pela constituição histórica e grupo de origem da Congada de São Benedito em Ilhabela, buscou-se como elemento fundante para a coleta de dados a participação daqueles/as que vivenciam o fenômeno Congada, integrantes da comunidade congueira, de diferentes gerações, em Ilhabela.

Ainda se considerando a constituição histórica e grupo de origem da Congada de São Benedito em Ilhabela, comunidade congueira é compreendida nesse estudo a partir de uma interpretação africana de comunidade, conforme apresentado anteriormente. Resumidamente dentro da comunidade as responsabilidades são recíprocas e a prioridade é a busca de um projeto no qual sejam consideradas e priorizadas situações que beneficiem à toda a comunidade e a cada um de seus membros, considerando a liberdade de cada um deles.

A escolha dos espaços dos bailes da Congada, a missa dos congos, apresentação e ensaios da Congada Mirim, Levantamento do Mastro, Meia Lua e da Ucharia, atualmente considerados integrantes da Festa de São Benedito, para a realização das inserções se deu pela minha percepção de que nestes espaços havia uma maior apropriação e representatividade por parte da comunidade congueira, visto que tais espaços sempre me foram aqueles a mim apresentados como os espaços de realização da Congada, em minha convivência com participantes da festa.

Em 2015, os ensaios da Congada Mirim se iniciaram cerca de um mês antes da Festa de São Benedito e se apresentou no dia do levantamento do Mastro, após o hasteamento da bandeira de São Benedito. As Meias Luas ocorrem nos sábados e domingos pela manhã, antes dos bailes e é o momento no qual São Benedito transita pela cidade e se vai anunciando o momento dos bailes da Congada, que acontecem pelas ruas centrais da Vila, centro histórico e turístico de Ilhabela, depois que o santo é devolvido para a igreja. No sábado pela manhã o

primeiro baile acontece na Rua da Padroeira, defronte ao antigo Fórum (atual sede do Parque Estadual) e do Cruzeiro (escultura em metal feita e doada por um dos congueiros); em seguida para a Avenida localizada ao lado da praça. Encerrados os bailes da manhã, é servido o almoço na Ucharia. Depois do almoço são dançados três bailes. A Ucharia nos anos de 2015 e 2016 aconteceu no salão paroquial da Igreja Matriz e algumas pessoas já começam a trabalhar na quinta-feira e encerraram sua atividade no domingo à noite. No domingo pela manhã, após a Meia Lua e a devolução do santo, acontece a missa dos congos. Terminada a missa é dançado o primeiro baile defronte o cruzeiro. Pela tarde repete-se a sequência de bailes, ainda que haja a possibilidade de não se repetir os locais onde ocorreram pela manhã. Depois do 3º. Baile de domingo, que acontece na rua São Benedito, os congueiros se dirigem para a Igreja para buscar o santo para a procissão, que faz quase que o mesmo percurso da Meia Lua. Em 2016 os ensaios da Congada Mirim foram cancelados e não houve a participação da Congada Mirim na festa, ainda que muitas crianças participassem da Congada adulta, como é costume. Minha inserção e convivência no grupo vem ocorrendo desde 2004 e ocorreu de forma lenta e por vezes descontinuada (onde fui em alguns momentos pesquisadora, plateia dos bailes, doadora de alimentos para a festa; por vezes trabalhei na Ucharia, prioritariamente no salão de fora, e por uma vez auxiliei na cozinha de dentro. A partir de 2015 minha inserção foi total (acompanhando o levantamento do mastro, todos os bailes, a meia lua, a missa dos congos e procissão) e em 2016, comecei minha participação na Ucharia na cozinha de fora por uma manhã e em seguida fui para a cozinha de dentro. A Ucharia se divide em vários espaços, ainda que todos inter-relacionados. Há o salão, onde se serve o almoço e que costuma ser o primeiro local onde aquele que chega para ajudar é colocado. Ali ajudamos a enfeitar o salão, organizar as mesas, servimos bebidas e sobremesas, retiramos pratos e talheres sujos das mesas, limpamos o salão, enfim, mantemos o salão bonito, limpo e organizado. No salão também a comida é servida, costumeiramente por mulheres que estão a mais tempo fazendo parte deste grupo. Um outro espaço é a cozinha de fora, onde os alimentos são cortados, picados, enfim, preparados para ir para as panelas onde são efetivamente preparados. Na cozinha de fora também são lavadas a maioria das panelas utilizadas e são assadas as carnes. A cozinha de dentro é o espaço onde trabalha uma menor quantidade de pessoas e que tem o acesso mais restrito e uma maior responsabilidade, já que é dali que sai a comida pronta. Em todos os espaços há sempre uma pessoa que coordena e elas estão o tempo todo em contato umas com as outras. Minha função na cozinha de dentro foi a ajudar a manter o espaço em ordem e limpo (lavando louça, organizando as doações) e auxiliar com o corte de alimentos

quando necessário (o mais próximo que cheguei das panelas foi para me servir, na hora do almoço daqueles que ali trabalhavam).

Com a aprovação projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFSCar, em Parecer Consubstanciado n.º 939.372 (v. Anexo I) iniciei a coleta de dados, a partir da realização de entrevistas, que tiveram seu uso autorizado pelos/as colaboradores/as da pesquisa através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (v. Apêndice III). Também foi realizado o registro de imagens em fotografias que são utilizadas neste estudo de forma ilustrativa.

Minha presença no grupo como pesquisadora foi formalizada e autorizada junto à Associação dos Congueiros (v. Apêndice IV). De uma maneira geral, não foi especificado inicialmente à todas as pessoas do grupo que minha pesquisa se referia a uma tese de doutorado. Nunca foi segredo que eu fazia ali uma pesquisa, mas devido a meus entendimentos iniciais sobre a comunidade, os quais apontavam uma dominância dos saberes acadêmicos sobre o saber da experiência, que poderia ser inibitória no estabelecimento de vínculos e no que se refere às suas respostas quanto à questão de pesquisa, enfatizei a minha posição de iniciante, de aprendente daquela prática ao fazer pesquisa com participantes da Congada, mais do que a de ser uma doutoranda. Percebi, em vários momentos, o estranhamento de algumas pessoas ao saber eu cursava o doutorado e haver ficado lavando louça e limpando chão, sendo eu era o que eles consideravam “tão estudada”. Quando tal estranhamento era expressado por parte das pessoas para mim, sempre com a informalidade e horizontalidade que o trabalho em conjunto acaba por propiciar, dialogamos sobre ele.

Como instrumentos de coleta de dados foram utilizadas entrevistas, neste estudo consideradas como a descrição da percepção do entrevistado/a com relação ao fenômeno, uma manifestação do ser, posto que há na descrição uma intencionalidade na existência do sujeito pois referem-se à experiências que este vivencia em sua existência (MACHADO, 1994).

As entrevistas foram realizadas com participantes de diferentes espaços e tempos da Congada. Para a realização das entrevistas, propriamente ditas segui alguns preceitos básicos:

1. No ato da entrevista propriamente dita eu e a pessoa a ser entrevistada já havíamos tido pelo menos uma conversa pessoal que nos permitiu um conhecimento mutuo anterior (houve apenas uma exceção, mas fui apresentada e indicada a esta pessoa por Secretário (um dos colaboradores da pesquisa) e conversamos por telefone anteriormente) à realização da entrevista propriamente dita. Neste o contato inicial sempre apresentei às pessoas pelo menos um vínculo com outros integrantes ou amigos delas para que elas pudessem ter referências a meu respeito (se considerassem necessário) e falei do meu

interesse em entrevistá-las e aprender com elas. As entrevistas foram sendo realizadas conforme se intensificava minha inserção como pesquisadora junto à comunidade para assim alcançar, efetivamente, uma observação cuidadosa e respeitosa do seu dia-a-dia e estabelecer laços. Acredito como Bosi (1994, p.38) que a pesquisa é um compromisso