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Chapitre 2. Techniques expérimentales

2.2 La diffraction de rayons X in situ source synchrotron

Visando situar este estudo, foi realizada revisão de literatura junto ao Banco de Teses e Dissertações CAPES, assim como ao Portal de Periódicos CAPES, considerando-se o período compreendido entre 2011 e 2016 e utilizando a palavra-chave “Congada”, combinada a palavra-chave “Educação” ou “Processos Educativos” ou Práticas Educativas”. Com a descrita combinação de período e palavras-chaves foram encontradas quatro teses referentes ao tema no Banco de Teses e Dissertações da CAPES (Vivian SILVA., 2011; SOUZA, 2012; LOURES, 2012; SOUSA, 2015) e um artigo no Portal de Periódicos CAPES (CEZAR, 2012). É interessante observarmos que apesar da vasta produção (60 dissertações ou tese no período considerado) sobre o tema, especialmente em áreas como a antropologia e história, poucos são produzidos no campo da Educação.

Vivian Silva (2011) apresenta que os apontamentos e definições apresentadas pelos mais distintos autores e autoras nos mostram que definir Congada é uma tarefa infindável, pois cada um/a a define a partir de certa visão de mundo.

Essa compreensão é corroborada por Cezar (2012) que ao falar sobre a Congada de São Benedito do Paraíso-MG, apresenta que as congadas são rituais que assumem diferentes significados quando se considera os/as que dela participam, suas intenções manifestas, seu local de realização assim como a época e período de ocorrência.

A festa da congada não é só a quebra espaço-temporal do cotidiano pela instauração liminar do eterno retorno mítico. É também o exercício da margem que esvaece e suspende sua própria borda, e assim tambores, chicotes, pés descalços e gungas ancestrais ganham espaço nas ruas da cidade, dando visibilidade a essa forma específica de rememorar e de ser religioso que reverencia Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa

Efigênia, São Domingos, Santa Catarina e São Jerônimo, lado a lado com Pai João, Pai Benedito, Pai Cambinda, Vovó Cambinda, Vovó Maria Conga, Vovó Catarina, Zumbi dos Palmares e Zambi (CEZAR, 2012, p.210-211).

Para Cezar (2012) durante a Congada ocorre uma inversão do cotidiano, visto que, durante a festa, negros e pobres transformam-se em reis e rainhas e para tal a congada se utiliza no espaço e tempo de seus rituais “[...] a polissemia da arte efêmera em forma de ornamentos, adornos, vestimentas, danças, músicas, cantos, coreografias, bailados, desfiles, procissões, jantares, fogos de artifício, para exaltar a lógica que silenciosamente congrega e comanda corpos, espíritos e almas” (CEZAR, 2012, p.191). Ainda referindo-se à Congada de São Benedito do Paraíso-MG a autora nos diz que devido esta ocorrer em um espaço público, sua realização acaba por se constituir como elemento identitário entre seus integrantes com relação a eles próprios, organizados em ternos diferentes, e em relação aos outros moradores da cidade. São vários os motivos que levam as pessoas a participarem: a tradição familiar, a devoção aos santos homenageados, promessa, religião, vontade de estar junto de amigos, entre outros. Neste sentido a referida Congada se transforma em um espaço de diálogo e convívio. O reconhecimento de seus participantes como um componente regular depende de sua conduta, dedicação e empenho, mas este processo pode ser influenciado pela ancestralidade e pelo pertencimento às religiões afro-brasileiras (CEZAR, 2012).

O pertencimento às religiões afro-brasileiras, mais especificamente à umbanda, é bastante comum no contexto da congada. Essa religião oferece aos congadeiros e moçambiqueiros uma sistematização de conceitos e práticas que muitas vezes pertencem à festa, mas para as quais as explicações expressas pelos capitães e benzedores dos ternos são difusas, oferecidas deliberadamente de maneira parcial e fragmentada. Assim, os novatos já iniciados na umbanda reconhecem muitos dos códigos e etiquetas de matriz afrodescendente presentes na congada, o que lhes permite acessar mais rápida e facilmente as pessoas que ascenderam na hierarquia do seu terno, reconhecendo e participando de processos de transmissão de conhecimento por eles realizados (CEZAR, 2012, p.197).

Sobre a distribuição de saberes dentro da referida Congada, Cezar (2012) declara que esta segue regras próprias ao vincular Mestres e seus respectivos aprendizes, ao mesmo tempo que as relações sociais entre os que já foram e os que ainda estão aqui são hierarquizadas e são formados canais de circulação de prestígio e poder, assim como a demarcação de posições sociais no interior dos grupos participantes a partir dos processos de transmissão de conhecimentos relativos à Congada.

Os “fundamentos” são saberes que possuem forma e conteúdo específicos, cujos preceitos devem ser meticulosamente seguidos conforme as orientações dadas e deixadas em vida pelo dono do terno em nome de seu santo, aos seus discípulos. Tais conhecimentos são transmitidos pelo dono do terno, ao longo de sua vida, para seus aprendizes de maneira desigualmente partilhada, deliberadamente fragmentada e elíptica. É exigida do aprendiz uma postura ativa, na medida em que ele deve criar para si e resguardar em segredo versões desses conhecimentos calcadas nos difusos conteúdos, falas e explicações de seus mestres, articulando-as aos cantos, que podem ser as toadas tradicionais deixadas pelos fundadores dos ternos ou pelas mensagens improvisadas que os capitães atuais cantam especificamente para cada pessoa que solicita sua bênção em forma de versos, acompanhando a toada tocada pelos dançadores ao longo de seus cortejos e desfiles (CEZAR, 2012 ,p.198).

Na Congada de São Benedito do Paraíso-MG as músicas, melodias, habilidades em tocar os instrumentos musicais e em realizar os passos ao mesmo tempo que se toca o instrumento e se canta, são desenvolvidas de forma lúdica nos ensaios e nos cortejos e desfiles dos ternos, pelas ruas da cidade e são formas muito importantes quando consideramos a transmissão de conhecimentos intergeracionais: “[...] por meio das quais os anciãos se fazem conhecer e ensinam aos mais novos toda uma gama de exigências e experiências, repertórios que permitem aos dançadores que se identifiquem e se nomeiem enquanto congadeiros ou moçambiqueiros pertencentes à festa da Congada (CEZAR, 2012, p.199). Os ternos, por exemplo, são “[...] grupos identitários formados por pessoas, geralmente de núcleos familiares específicos, reunidas ao redor de princípios simbólicos, identitários, religiosos, que partilham memória coletiva e padrões culturais” (CEZAR, 2012, p.194). Nesta Congada os elementos que são tidos como tradicionais pelos diferentes ternos, por vezes causam conflitos entre os grupos, posto que cada terno tem um conhecimento específico sobre a Congada, uma memória do que é tradicional construída a partir dos ensinamentos que lhe foram deixados por seus ancestrais da forma como se dá apropriação e uso dos elementos e poderes simbólicos vinculados à religiosidade, pelo grupo.

A hierarquização estrutural dos ternos que compõem a festa segue também os preceitos do mito fundador da congada. Os antigos moçambiqueiros e congadeiros, ancestrais já falecidos, são referenciados, respeitados e cultuados por todos os capitães dos ternos, reis e rainhas da congada. As novas gerações de congadeiros e moçambiqueiros cumprem obrigação de preservar sob a égide do segredo a “tradição” dos antigos, resguardando para si a posse e administração do sagrado.

Os membros do grupo ligados à “tradição” constituinte da festa da congada, mesmo que espalhados pelo município ou vivendo em outras cidades e estados, compartilham de uma mesma devoção que tem como base o

conhecimento adquirido com os antigos e o compromisso consigo mesmo e com as gerações futuras, enquanto disposições incorporadas, dotadas de capacidades criativas e inventivas que se reportam à ancestralidade enquanto memória e possibilidade ativa de comunicação. O respeito e devoção aos antepassados, enquanto agentes do sagrado e intercessores nos ensinamentos e usos de poderes sobre-humanos, permitem o elo entre o passado, presente e futuro do grupo, garantindo sua reprodução e a consequente manutenção dos conhecimentos relativos à festa. Esse é um dos mecanismos sociais que vinculam a experiência pessoal dos agentes do presente à das gerações passadas, de modo que, por meio desse vínculo, a hierarquização e reprodução do grupo seja garantida (CEZAR, 2012, p.208-209).

De acordo com Vívian Silva (2011, p.16) em sua dissertação de mestrado construída junto ao Terno de Congado Marinheiro de São Benedito, que integra a Festa da Congada em Uberlândia-MG, a Congada se refere à: “[...] uma prática social constituída por uma rede de símbolos, significados e sensações que combina elementos de atividades diferenciadas, como os que recorrem ao passado rural e se relacionam diretamente com a dinamicidade do urbano”, assim como estão nela presentes relações sociais diferenciadas, relações com o passado e com o presente, com o mundo real e com o mundo invisível, e é a partir desta pluralidade que seus praticantes se constituem no mundo. A Congada, segundo a autora, pode ser vista como manifestação tradicional que estrutura a vida das pessoas e nela congadeiros revelam suas visões de mundo e nos contam suas histórias de vida, tornando tal manifestação cultural uma forma de resistência que envolve processos de transformação da sociedade. A Congada:

[...] resiste, transforma e ensina. Essa festa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito é uma mistura de sentidos, cores, sons, homens, mulheres, crianças, devoção, dança, convivências, cumplicidades, lutas, afirmações, ocupação de espaços, contestações, tensões, construções e desconstruções; enfim, tudo isso costurado pela fé.

Essa prática social pode ser entendida como um ritual que transfigura o papel da vida cotidiana. A festa é um momento em que homens, mulheres, jovens, velhos e crianças passam por um processo de reafirmação de identidades, no qual as(os) congadeiras(os) demonstram prazer, alegria e satisfação, ao evidenciarem sua tradição e sua fé por meio dos corpos dançantes, das músicas, dos enfeites, das coreografias, de reis e rainhas nos cortejos da congada (Vívian SILVA, 2011, p.11).

Segundo Vívian Silva (2011, p.18) a Congada, de um lado, tem sua história vinculada às origens africanas e às situações de marginalização que seus integrantes sofriam na sociedade por se dedicarem a aspectos culturais desvalorizados pela ideologia dominante em uma sociedade segregacionista e discriminadora; de outro, denota a resistência cultural deste

grupo, já que “[...] É também dançando e batendo congo que o negro, o branco, o jovem, o velho, a mulher e o homem dialogam com o mundo”.

A congada é uma prática social que estrutura a vida de uma comunidade em torno da fé cantada e dançada. Por meio da fé, acontecem os diálogos e as inserções dessa comunidade negra na história da cidade. Toda essa fé é construída e estruturada por meio da convivência uns com os outros, principalmente com a dança e a música, nas quais congadeiras e congadeiros expressam suas formas de ser e estar no mundo.

Dançar a congada com a fé em Nossa Senhora do Rosário e São Benedito é demonstrar a tradição por meio do corpo (Vívian SILVA, 2011, p.50-51).

Assim com acontece na Congada de São Benedito do Paraíso-MG, Vívian Silva (2011) apresenta que em Uberlândia-MG os ternos têm características que lhes são peculiares e a partir das quais os grupos organizam, tais como a forma de dançar, as cores utilizadas, o ritmo musical e instrumentos utilizados e constroem suas visões de mundo, também constituídas a partir de uma relação com uma África mítica que se faz presente nos cantos, na coroação dos reis e rainhas negros, nas relações com os antepassados, em seu mito de origem, dos provérbios e maneiras de conviver, aprender e ensinar.

A hora certa de aprender, aprender ouvindo, dançando, cantando e fazendo, é característica de aprender e ensinar em comunidades de matriz africana. Os aprendizados e ensinamentos acontecem na vida prática, real, a partir da experiência. Existem os momentos específicos separados e dedicados somente aos ensaios, às conversas sobre as histórias do Terno, mas todos os dias se aprende e se ensina dentro do quartel e dentro da Congada. [...] Todos ensinam e aprendem, mas existem regras e condições para que esses aprendizados sejam passados e recebidos (Vívian SILVA, 2011, p.79).

Na opinião de Vívian Silva (2011) a Congada não pode ser vista e tratada como uma sobrevivência consentida, posto que esta se encontra inserida em um cenário permeado de tensões e conflitos no qual vai se constituindo a história da cidade e das congadeiras e dos congadeiros. Para a autora a Congada é um espaço, um ritual no qual “[...] congadeiras(os) aprendem, ensinam, ouvem e falam sua própria linguagem, dialogam com o mundo, transformando-se e se deixando transformar pelas trocas de conhecimentos ali existentes” (Vívian SILVA, 2011, p.18), no qual a tradição é passada de geração a geração através da oralidade, a partir da troca de saberes, e se aprende a partir da vida, da história, conflitos, do momento de silenciar e do de falar.

Considerando a congada como manifestação tradicional de matriz africana que estrutura a vida dos sujeitos que a praticam, é possível perceber que as(os) congadeiras(os) contam suas histórias de vida e revelam suas diferentes visões de mundo por meio dessa prática cultural. Essas revelações estão presentes no canto, nas maneiras de aprender e ensinar, na maneira de se relacionarem com o sagrado, com o mundo visível e o mundo invisível, bem como na maneira de demonstrarem seus descontentamentos e a falta de visibilidade e também na luta contra o preconceito.

No canto, o congadeiro afirma que é congadeiro, catupé, maçambiqueiro, afro-brasileiro e que também é filho de Deus. Estar na praça do Rosário, no dia da Festa da Congada, e afirmar sua condição de negra(o) congadeira(o) é um momento importante de afirmação da identidade. Fora desse contexto festivo, a afirmação dessa identidade negra, afro-brasileira e congadeira fica velada e não tem muitos espaços para ser praticada (Vívian SILVA,2011, p.75).

Vívian Silva (2011) também observa que os processos de aprender e o ensinar na congada relacionam-se à fé, no respeito aos mais velhos, nas relações com o sagrado à colaboração, à experiência de vida, à luta, na resistência ao preconceito e aos aprendizados e ensinamentos que se referem às relações entre o mundo visível e o mundo invisível. Todas essas maneiras de se educar dentro do grupo trazem características do viver em comunidade, em que a colaboração e o respeito se fazem presentes. Todos podem aprender e ensinar, mas há dentro do grupo regras e condições para o repasse destes conhecimentos. Tais processos de ensinar e aprender “[...] estão presentes no falar, no ouvir, no fazer a comida, no ensaio, na hora de bordar o chapéu. Dentro de grupos e comunidades de matriz africana, o fazer e o aprender ocorrem ao mesmo tempo. A partir do convívio uns com os outros, é possível trocar experiências, conhecer a história e se reconhecer nela” (Vívian SILVA, 2011, p.131).

Para Vívian Silva (2011) colaborar, resistir, lutar e aprender são características presentes na prática social da congada. Por meio dela, congadeiras e congadeiros demonstram sua fé, mantêm e renovam a tradição e criam estratégias de ser e estar no mundo. Fazem-se ouvir por meio da poesia, colocam-se por meio da dança, reafirmam suas identidades e reforçam a importância do reconhecimento da congada como resistência negra, na qual homens e mulheres se educam e se formam para a vida. A oralidade, a fé, a dança, a poesia a relação entre o mundo visível, real, concreto com o mundo invisível, do sagrado e dos mistérios são elementos que permeiam as falas das colaboradoras e dos colaboradores deste estudo e nos mostram as visões de mundo que constituem o universo congadeiro. Percebem- se características das visões de mundo de raiz africana:

Aprender, ensinar, repassar os conhecimentos por meio da convivência, da dança, da fé, da disciplina, da oralidade e da confiança são maneiras de entrar em contato com as formas de aprender e ensinar as africanidades. Por meio da congada, é possível entrarmos em contato com essas diversas maneiras de compreendermos nossas histórias, alguns costumes que temos em casa, na família e heranças africanas que nos foram deixadas, mas que, pelo modelo de educação vigente, pela ideologia dominante, são-nos negadas. Essa negação de nossas raízes, nossas heranças culturais, nossos costumes e modos de vida muito tem a ver com não servirem ao modelo de educação vigente e nem estarem dentro de um padrão de comportamento ditado pelas classes dominantes. As escolas e as universidades são também responsáveis por essa negação de nossas histórias e heranças africanas (Vívian SILVA, 2011, p.109).

Foi possível perceber também no que se refere à Congada de Uberlândia, que os ensinamentos são transmitidos também por meio da relação entre as pessoas do grupo com seus antepassados, com os santos católicos e com as entidades da umbanda. Segundo Vívian Silva (2011, p.121):

Percebemos que a hora de aprender também está ligada aos mistérios que envolvem certas funções dentro do Terno, e esses mistérios estão ligados à visão de mundo da umbanda, à espiritualidade e à mediunidade, ao mistério que envolve certos segredos, tudo isso também pode ser considerado uma estratégia para dizer alguns ensinamentos e guardar segredos; nem tudo é revelado. [...]. Guardar segredos e ocultar alguns ensinamentos também é resistir e é estratégia de manutenção da tradição.

Loures (2012), a partir do inventário de manifestações culturais circunscritas no campo da religiosidade popular, analisou as práticas de benzeções, rezas e novenas, folias e congadas de Nova Veneza-GO e as apresentou como mediadoras e possibilitadoras de formação humana e que tais manifestações religiosas, por meio de seus ritos religiosos educativos, revelam bens simbólicos e saberes que são transmitido culturalmente pelas gerações adultas para os mais jovens, sendo por vezes recriadas ou readaptadas fortalecendo laços identitários do grupo. Segundo a autora:

Onde há o que ensinar sempre se cria algum modo de ensinar e aprender. Os saberes, as crenças (rezas, promessas, benzeções, simpatias, cantigas, etc), os gestos (silêncio em momento de oração, ouvir um adulto falar ou rezar, imitar o adulto, saber se portar perante os rituais, etc), os símbolos (símbolos como altares, velas, vestimentas, enfeites, arcos, ramos, rosários, santos, fogueira, etc) alimentação, dentre incontáveis símbolos se idealizam e projetam o que os grupos querem realizar (LOURES, 2012, p.62).

De acordo com Loures (2012) devemos considerar em tais manifestações a fala dos marginalizados como mecanismos que possibilitam o entendimento dos processos culturais frente à cultura dominante e à cultura dominada, pois os praticantes de tais manifestações são identificado preconceituosamente “[...] como pessoas sem cultura por parte daqueles que detêm os saberes legitimados em nossa sociedade” (LOURES, 2012, p.14). Em seu estudo, a autora trata da Congada muito brevemente, possivelmente porque a prática já não existe mais no município, e a inclui no universo educativo das folias, que contemplam uma sequencia lógica e segue datas especificas dentro do calendário cristão, ocorrendo geralmente por promessa e que inclui em seus rituais a preparação de crianças e jovens para aprenderem os saberes necessários ao cumprimento do mesmo. A autora destaca que mesmo tendo toda a sua vida escolar transcorrido no município e posteriormente tendo atuado como professora na rede estadual, nunca havia ouvido falar sobre a Congada no município. A tentativa de rememorar esta manifestação cultural se realizou com o grupo de descendentes da Congada , que ainda guarda na memória a herança da Congada. A festa era realizada em agosto e dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Um de seus entrevistados diz que os mais velhos diziam que a Congada veio de Angola. Em um dos depoimentos coletados pela citada autora cita-se que os congadeiros se utilizavam de bastões, e que estes não podiam ser tocados por qualquer um.

Se tiver uma briga e alguém pegar o bastão e bater na outra pessoa, passado um tempo essa pessoa morre, em menos de um ano. E se jogar eles na água eles vira uma cobra. Eles é bento. Quem benzeu eles já morreu. De lá onde eles foi benzido. Tinha um vidro de pinga com raiz que todos tomava um pouquinho antes de saí. Tinha muita coisa, com nóis só sobro os bastão. O pai tinha umas oração guardada mas não sei onde foi pará (LOURES, 2012, p.171-172).

Os bastões assumem um aspecto ritual e mágico. Ainda que a prática da Congada não exista mais, a memória de seus praticantes ainda hoje funciona como um sustentáculo da construção identitária.

Em meio às construções do cotidiano encontramos personagens e lendas que se misturam. Os bastões, nesse sentido, tornam-se objetos sagrados a partir dos quais diversas criações posteriores vão sendo acrescidas ao longo do tempo. A congada, enquanto memória, guarda fragmentos que possibilitam a visualização de como era constituído o ritual com seus personagens que a própria memória diz: “veio da África” (LOURES, 2012, p.174).

É interessante observar que Vívian Silva (2011) e Cezar (2012) também fazem menção a bebidas que protegiam os participantes da Congada.