III V ´ ERIFICATION & VALIDATION, CONCLUSION & PERSPECTIVES 179
7.32 Traduction des mod`eles g´en´er´es, par les algorithmes Alpha (Alpha++), IVM et IM, en
Sendo a observação participante uma técnica fundamental para a descrição do comportamento dos indivíduos a observar, não é suficiente para conseguir explicar como é que esses mesmos indivíduos interpretam o seu próprio comportamento, por isso mesmo se recorreu novamente às entrevistas, realizadas quer em presença física quer online. O objetivo não foi o de atingir resultados generalizáveis, mas apenas compreender como é que determinado grupo de pessoas experiencia a utilização da
Internet para comunicar e como é que ela permite o derrubar dos obstáculos que mais
usualmente impedem ou deturpam essa mesma comunicação. Por isso mesmo, também aqui as entrevistas foram não estruturadas e informais.
Se por um lado a comunidade é imaginada, por outro o antropólogo insere-se nela e faz parte dela, pois assume determinadas funções enquanto membro da comunidade, para mais tarde a poder descrever. Quando ele se torna assíduo na comunidade, relaciona-se com os outros membros e passa gradualmente a ter um sentimento de pertença. A observação participante é uma observação em que os investigados sabem que estão a ser observados e quem o faz interage com eles, durante um período de tempo preestabelecido. A possível capacidade de compreender a situação em que se
encontram os intervenientes não conduz necessariamente à objetividade, pois se todo o conhecimento é construído e se essa construção pode ser feita em interação com os indivíduos ou grupos a observar, resultando do diálogo intersubjetivo, o que se pretende é descrever a situação e não cristalizá-la em fórmulas científicas que possam ser aplicadas a outras situações semelhantes.
Esta observação tem de ter em conta que não nos situamos no mundo real e que à partida não sabemos quem são as pessoas que os avatares representam, a sua idade, género, assim como a sua forma física ou a cor da sua pele. Isto sucede quando assistimos a um casamento com muitos convidados ou quando estamos numa festa minhota a celebrar o São João, no entanto numa comunidade mais restrita, como a dos moradores da ilha do Minho, por exemplo, é mais fácil saber quem é quem e o que faz ou não na vida real. No entanto, como não é esse o objetivo deste projeto de investigação, acabei por não me preocupar tanto com a identidade real dos meus interlocutores, mas sim com a sua identidade virtual, assim como com a forma como relacionavam uma com a outra. Sem corpo não existe identidade, por isso encarei o corpo virtual como uma projeção do real, independentemente de se assemelharem ou não e da pessoa em questão ter consciência dessa semelhança.
Figura 19 - Sophialan nas Imagens da Cultura, em Portucalis
Para compreendermos como as pessoas vivem o melhor é vivermos como elas e aqui é relativamente fácil viver como os outros, inserirmo-nos nas comunidades, por exemplo, na portuguesa, conversar com as pessoas, ter uma profissão ou determinadas funções reconhecidas pelos outros, observar como se comportam e até comportarmo-
nos como eles. Para isso temos de começar do nada, como aconteceria se fossemos estudar uma aldeia recôndita portuguesa, criar amigos, entrar em grupos, participar nas atividades desses grupos, ajudar os que aparecem de novo e estar disponível para dialogar. A partir do momento em que pertencemos à comunidade teremos de escolher um objeto de estudo em particular, ou um pequeno grupo para estudar ou um assunto que consideremos pertinente e que será central na nossa pesquisa.
Imaginemos que o objetivo é analisar a forma como os portugueses que residem no Second Life encaram as dissociações entre o seu corpo e identidades reais, entre o corpo virtual e as suas identidades virtuais, neste caso não nos bastará observar o comportamento dos avatares, teremos realmente de lhes perguntar a sua opinião acerca do assunto. Essa auscultação de opinião pode ser realizada em público, como acontece nas tertúlias acerca de um tema específico ou no espaço reservado ao diálogo depois das apresentações de determinada temática. Mas como a opinião expressa em frente aos outros nem sempre é a mais sincera, poderão realizar-se entrevistas individuais, por
chat, IM ou em Voice, para além de se poderem utilizar questionários que indiciem
sobre a perspetiva dos inquiridos acerca do assunto em questão. Tudo isto poderia ser complementado com histórias de vida de alguns dos entrevistados e inquiridos, podendo eventualmente conduzir-se o diálogo para que eles próprios comparassem a sua vida real com a virtual, como aliás muitas vezes aconteceu.
Há sempre a necessidade de entendermos as normas de determinado grupo ou comunidade antes de partirmos para a sua observação. Neste caso, adotou-se por aprender essas normas online, com a participação assídua e constante em grande parte dos grupos portugueses que na época existiam no Second Life. Para além do longo período de socialização a que me sujeitei antes de iniciar a pesquisa etnográfica propriamente dita, tive também o cuidado, quando decidi delimitar a população a investigar e escolhi a comunidade residente em ilhas portuguesas, de contactar os donos das ilhas e manter com eles um relacionamento que permitisse que confiassem em mim, o que aliás tinha de fazer para realizar os eventos das Imagens da Cultura e das Noites
de Poesia no SL. Como tive a sorte de todos serem pessoas fora de comum, desde o
Alma à Linda, de Portucalis a Portugal Center, acabei por me relacionar com eles de forma semelhante à interação que mantive com todos os outros avatares.
Se uns se aproximaram mais do que outros e se essa aproximação acabou por resultar em amizade, isso deveu-se também a ter-me deparado com pessoas com objetivos comuns, que acabaram por se ligar umas às outras devido aos seus interesses serem semelhantes. O ideal de comparar as práticas culturais de determinada comunidade com as de outra qualquer poderia ser também concretizado no Second Life, mas isso só foi realizado na medida em que o processo de socialização inicial se processou em grupos que utilizavam o metaverso essencialmente para o divertimento e para encontros amorosos ou sexuais. Só tem sentido fazer trabalho de campo em determinado contexto e tendo à partida determinadas questões a elucidar, pois caso contrário não se saberia o que observar e que dados recolher. Ora, essas questões só surgiram depois do processo de socialização e de integração na comunidade.
A observação participante pretende ser uma forma de conseguir estar na mesma perspetiva dos avatares observados, fazendo parte do grupo ou da comunidade, mesmo que se adote sempre uma postura que permita o afastamento dessa perspectivas. No meu caso, a participação continua ainda hoje a ser superior à observação, e cada vez mais me limito a observar grupos em contextos que unem todos os presentes, como um concerto, uma aula, uma sessão de poesia, uma exposição artística, uma conversa orientada ou uma apresentação de uma temática com a consequente discussão. É claro que o investigador transporta para o contexto a analisar aquilo que ele é, a sua identidade e ideologias, a sua cultura e sociedade, a sua experiência de vida e o seu género. Neste sentido, se eu não fosse mulher não me teria inserido na comunidade da forma que o fiz nem provavelmente tido as mesmas experiências, assim como não as interpretaria da mesma forma.
A compreensão da comunidade que queremos investigar passa pela integração no grupo ou grupos, de modo que neste caso a observação participante será a técnica mais adequada para se compreenderem as práticas culturais e as conceções dominantes de uma determinada população que frequenta o Second Life. Como neste caso a comunidade é restrita, pois a escolhida foi a portuguesa ou de falantes de língua portuguesa, que habita ou frequenta ilhas assumidamente da mesma nacionalidade, que realizam periodicamente eventos de caráter educativo e social, escolha essa
impulsionada pela aproximação cultural entre os seus membros e pela facilidade com que se comunica através da linguagem escrita ou falada.
No entanto, como aqui tudo muda rapidamente, desaparecem ilhas e aparecem outras novas, assim como muitos avatares não voltam a entrar no Second Life, substituindo o avatar original por outros ou desistindo de utilizar esta plataforma virtual, é difícil manter os mesmo informantes do início ao fim da pesquisa etnográfica, de modo que resolvi escolher dentre eles os mais estáveis e que utilizam um avatar principal para serem reconhecidos pelos outros. É este o caso da Guerreira e da Sophialan, assim como do Genius e do Jazz, que mantêm o mesmo nome de avatar desde que os conheci no Second Life, o mesmo não acontecendo com a Lena e o Frapau, que mudaram de avatares, tal como muitos outros que fui conhecendo no meu percurso virtual, que ou mudaram de identidade devido a questões pessoais ou possuem mais do que uma, que utilizam frequentemente, dependendo do contexto em que estão interessados em participar.
Apesar do meu objetivo ser estudar a comunidade portuguesa, num determinado grupo específico, no entanto duas das minhas informantes são brasileiras e, apesar de não as conhecer na vida real, ao longo do meu percurso no Second Life foram das primeiras grandes amigas virtuais que tive, pelo que às vezes até nos tratamos por irmãs virtuais, pois sabemos que podemos sempre contar umas com as outras. Na época em que o metaverso funcionava para mim como um fuga à realidade quotidiana, foram elas que me apoiaram, assim como uma outra amiga, que geralmente me acompanhava quando o único objetivo era a diversão, mas foram principalmente dois amigos, que mais tarde vim a conhecer na vida real, o Arménio e o Jazz, que constantemente me chamavam a atenção para não passar demasiadas horas online.
Essa voluntária ajuda de amigos virtuais é mais ao menos frequente no Second
Life, mesmo que sejam apenas conhecidos a interajuda é constante, pois aqui não
existem as mesmas condicionantes nem as mesmas consequências que poderiam existir na vida real quando incondicionalmente se apoia os outros. Aliás, foi esse contato constante com as subjetividades dos outros e com as suas opiniões acerca das temáticas que pretendia tratar, que me levaram a deduzir a questão fundamental deste projeto de investigação, que não surgiu logo desde o início, pois foi encontrado pelo contacto com
as perspetivas de uma diversidade de avatares acerca das aproximações e dissociações entre o mundo real e o virtual.
Foram eles também que fizeram com que eu me sinta uma indígena no Second
Life, como se fizesse parte daquele ambiente, tudo limpo e perfeito, pois mesmo o que
ainda não é assim, poderá vir a ser, basta que os construtores tenham preocupações estéticas e se desliguem mais da vida real. Esta sensação põe em causa a possível fiabilidade dos dados recolhidos na observação participante, pois a necessidade de me manter ao mesmo tempo dentro e fora nem sempre é conseguida. A acrescentar a isso está o facto de me ter confinado ao estudo da comunidade portuguesa, que costuma assentar raízes nas ilhas assumidamente da mesma nacionalidade. No entanto, devido ao longo período de socialização a que me dediquei, fazendo o que grande parte dos outros avatares faz, pelo menos no primeiro ano em que entra para o Second Life, independentemente da sua nacionalidade, acabei por ter uma visão de conjunto, que me facilitou mais tarde delimitar a população a estudar e o próprio objeto de estudo.
Se essa observação e participação simultânea se tivessem iniciado desde o momento que entrei para o Second Life, sem me ter dedicado à integração e imersão neste mundo virtual, possivelmente não seria capaz de ter a mesma perspetiva acerca da sua utilização pela diversidade de comunidades e de grupos que se vão criando e desfazendo no metaverso176. Quando entro há quase sempre alguém que fala comigo ou me envia teleporte para o local onde está, independentemente de ser ou não um amigo próximo, um amigo apenas virtual, simplesmente um conhecido ou mesmo alguém com quem nunca antes tinha falado. Aprendi a recusar esses convites e também muitas vezes a escapar-me dos diálogos que apenas têm como objetivo passar o tempo, como aliás acontece com muitos dos que utilizam o Second Life como se fosse esse o único contacto com outras pessoas.
Normalmente, quem o faz é porque tem demasiado tempo livre na vida real, o que acontece devido a estar desempregado ou a ter um trabalho que lhe permita ao mesmo
176 «O caráter descartável dessas comunidades demonstra uma tentativa de preenchimento de
identificação do homem, em que as idéias defendidas e as pessoas com as quais você se relaciona demonstram muito quem você é. Laços familiares, religiosos, classes sociais, vínculos de proximidade geográfica, portanto, perderam seus espaços, pois essas âncoras sociais limitam a livre expressão.» (MAGALHÃES & PAIVA, 2009, p.9)
tempo estar online, ou então é porque a desagregação da sua vida real o leva a refugiar- se no Second Life, local onde não tem de enfrentar os mesmos problemas com que se vê confrontado offline. Por vezes, as pessoas apaixonam-se no metaverso e passam a permanecer online muito mais tempo do que o habitual e a horas que nem sempre são as mais comuns, principalmente no caso do Second Life ser a única forma de contactar com o seu companheiro. Isto também pode acontecer devido à influência do grupo ou comunidade virtual, que pode exigir uma assiduidade acima do normal, como acontece com os voluntários da Ilha da Ajuda, por exemplo, que parecem estar sempre prontos para apoiar os novos avatares, independentemente da hora a que isso aconteça.
Assim, a inserção na comunidade não é normalmente um processo doloroso, pois desde a aprendizagem das regras básicas à modificação do avatar, até à constituição de amizades virtuais e à pertença a um grupo ou a vários, em cada passo podemos ser ajudados pelo que nos rodeiam, que geralmente nos tratam de um modo informal e amistoso. Salvaguardando as devidas exceções, de grupos ou comunidades fechadas ou que não aceitam os novatos e os turistas, normalmente nas ilhas mais seguras e sem conteúdo direcionado apenas para adultos, qualquer avatar é bem recebido e presta-se ajuda a todos os que precisarem dela. Mesmo a língua em que cada um escreve não surge como impeditiva para a interajuda, pois facilmente se utiliza um tradutor, apesar destes não estarem capacitados para traduzir todas as palavras e expressões próprias de determinada cultura.
Foi nessa atividade de ser ajudada pelos mais velhos e prestar apoio aos mais novos que conheci uma série de pessoas, umas mais marcantes do que outras, que influenciaram o meu próprio percurso no Second Life e me fizeram modificar muitos dos pressupostos iniciais da pesquisa etnográfica, nomeadamente aquele que defendia que existira uma anulação do corpo real no virtual. Assim, a minha caminhada para fazer parte da comunidade iniciou-se pela solidariedade mútua entre os diferentes avatares com que me cruzei e mesmo que na altura não tivesse uma consciência plena do que me estava a acontecer, acabei por ficar ligada a muitos deles, que se transformaram em amigos reais e sempre presentes, apesar das distâncias físicas que nos separam.
Figura 20 - Desenho da Wan sobre uma viagem de amigos virtuais na RL
Foi também com eles que aprendi o quanto é difícil dissociar o que somos na vida real da nossa identidade virtual, apesar da facilidade com que podemos mudar a aparências do avatar, que mesmo assim traz sempre algo que se identifica com a nossa própria aparência real. Como comentário nada conclusivo, poderia acrescentar que a problemática da identidade e do corpo neste contexto virtual é um caminho sem fim, que tem de ser percorrido lentamente para se puder compreender que nem todos temos os mesmos objetivos quando criamos avatares para nos representarem no mundo virtual, nem eles nos influenciam de maneira semelhante. Foi através das respostas a todas as questões aqui mencionadas, das conversas informais, das histórias de vida, das
Conversas Vadias realizadas no Café Livraria Nova Águia e dos Encontros nas Imagens da Cultura, que retirei parte dos comentários e das conclusões que apresentarei nos