1.2. Language impairment in monolinguals
1.2.3 Theoretical accounts of LI
A forma conurbada aparece como a primeira manifestação do fenômeno metropolitano, sendo, por determinado período, essa manifestação denominada conceitualmente como conurbação e confundida com o próprio fenômeno da metropolização.
Esta forma é caracterizada historicamente como um tipo de crescimento urbano que expande a cidade, prolongando-a para fora de seu perímetro e, desse modo, absorvendo aglomerados rurais e outras cidades adjacentes, em geral cidades menores, que já estão sobre a influência direta ou indireta da grande cidade, que passa a constituir o núcleo metropolitano. Estas cidades adjacentes, que até então podem ter vida política e administrativa autônoma, acabam comportando-se como parte integrante da cidade principal, agora metrópole.
O avanço da urbanização decorrido principalmente após a década de 1960 no Brasil provocou grandes transformações nas relações sociais e na configuração dos espaços e redes urbanas no País. A conurbação, segundo Villaça (1998, p. 51), “ocorre quando uma cidade passa a absorver núcleos urbanos localizados a sua volta, pertençam eles ou não a outros municípios” é um dos processos que acelerou a configuração social e morfológica das cidades.
Com a expansão e a integração dos espaços urbanos, desaparecem, do ponto de vista socioespacial, ainda que não no aspecto político-administrativo, os limites físicos entre os
diferentes núcleos urbanos. A partir de então, ocorre uma distinção entre o espaço edificado e a estrutura político-administrativa. Como uma importante característica do aspecto metropolitano é a contínua expansão de sua malha urbana, o território metropolitano está constantemente avançando em direção a áreas cada vez mais distantes, ocasionando a transformação do uso do solo rural em terra urbana. Isto força tanto a incorporação de novos territórios, como o adensamento dos já ocupados, conforme pode ser observado no esquema representado na figura 1.
Figura 1 – Esquema clássico das formas de conurbação metropolitana
Fonte: Tiago Veloso dos Santos (2014)
Na situação 1, vemos que o crescimento da população urbana de duas cidades com perfis demográficos distintos é um componente da possibilidade de conurbação entre as duas cidades. No momento 2, o crescimento da população altera o padrão de ocupação da área urbana, fazendo com que cada vez mais os núcleos urbanos estejam próximos, até o ponto em que não há como distinguir seus limites paisagísticos, e, em alguns casos, seus limites administrativos.
Nas cidades em processo de conurbação, o principal desses fluxos considerados é o fluxo cotidiano de populações14 nas suas atividades de trabalho, educação e lazer. A
14 A referência é o característico fluxo pendular, ocasionado por populações que se deslocam cotidianamente, ou em espaços relativamente curtos de tempo (de horas, por exemplo).
existência de deslocamentos populacionais significativos, geralmente entre o núcleo metropolitano e sua periferia imediata, ou, até mesmo a mais distante, gera padrões de desenvolvimento dos espaços contínuos que, por vezes, são chamados de cidades dormitórios15 ou subúrbios16.
Para Villaça (1998), na realidade brasileira, podem ser verificados ao menos quatro tipos de conurbação nas áreas metropolitanas. A primeira forma é constituída por núcleos que nunca chegaram a atingir plenamente a condição de cidades, pois já nascem como subúrbio. Frequentemente cresceram a partir de uma estação ferroviária junto à qual se formou o polo.
A segunda forma que assume a absorção pela cidade central é aquela na qual o polo é formado a posteriori. No início ele era, ou inexistente, ou frágil e distante. A expansão urbana se manifesta através da formação de uma imensa periferia com um núcleo local fraco. Esse caso ocorre, quando a periferia da cidade central ou de algumas de suas grandes cidades- subúrbio “transborda” sobre municípios vizinhos em pontos afastados de suas sedes. Às vezes esse “transbordamento” vem constituir um novo município e o polo local – inclusive com instalação da Prefeitura – só então se estrutura. A terceira forma de absorção é constituída por aglomerações que chegaram a atingir significativo nível de desenvolvimento enquanto cidades. Principalmente por estarem afastadas da cidade central, mantiveram, por certo tempo, grande autonomia socioeconômica. Nasceram e cresceram como uma cidade média típica, a partir de um núcleo central de serviços que se expandiu e se diversificou. Por fim, o quarto tipo de núcleo urbano que sofre processo de absorção metropolitana é constituído de cidades pequenas, algumas das quais mais importantes em períodos pretéritos, do que o são no momento de absorção.
Villaça (1998) apresenta esses quatro tipos de formação da metrópole a partir do processo de conurbação com base na realidade da Região Sudeste, mais particularmente as metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro, portanto, cabe também relativizar esses tipos para outras formações regionais no território nacional.
15 Designação utilizada para os aglomerados urbanos nos arredores de uma grande cidade, que usualmente servem de moradia a trabalhadores da cidade-núcleo e estão ligadas por meios de transporte aos locais de trabalho da maioria de seus residentes. Uma das características das cidades-dormitórios é que nelas as atividades econômicas não são suficientes para empregar a população ativa, o que leva parte da mão de obra a realizar o movimento pendular para a cidade mais próxima para exercer suas atividades.
16 A definição de subúrbio designa as áreas ao redor do núcleo urbano central. Entretanto há diferenças quando consideradas realidades urbanas de países centrais e dos periféricos. Enquanto nos países centrais o subúrbio é local de moradia das classes média ou alta, com índices de qualidade de vida e segurança maiores que os das áreas centrais e com baixa densidade populacional, nos países periféricos, é considerado periferia urbana, sendo comumente utilizado para se referir a áreas que não possuem todos os recursos das áreas centrais, principalmente no aspecto dos equipamentos sociais e serviços urbanos, portanto, associado a áreas de renda baixa.
De toda forma, embora o padrão conurbado tenha sido o primeiro elemento caracterizador dos espaços metropolitanos, este não se explica, por si só, o fenômeno da metropolização. A forma é uma maneira de expressão de determinadas funções e processos, que, nesse caso específico, também diz respeito às configurações de fluxos que compõem as metrópoles.
Assim, a compreensão da metrópole em seu processo de formação, parece corresponder ao desenvolvimento da formação econômica e social da modernidade capitalista, o que, de outra maneira, leva a compreender como a constituição formal e real da metrópole corresponde às necessidades da reprodução econômica. Nesse caso, há uma similaridade de posição com a interpretação de Seabra (2011), de que a formação da metrópole equivale ao movimento da própria formação socioeconômica, o qual ocorre dilacerando as formações pretéritas, tanto de cidades como de subúrbios, e alcançando, sobretudo, as entranhas da cidade, embora apenas algumas cidades cheguem de fato à condição de metrópole.
Tais referências levam a compreender a mudança da forma espacial da metrópole contemporânea como um meio de transformação do capitalismo contemporâneo nesse momento da história, com uma dependência cada vez maior da acumulação via exploração do solo urbano.
Desse modo, considera-se que, no que diz respeito ao aspecto inicial do tema da passagem da cidade para a metrópole, a forma urbana é o elemento explicativo fundamental quando se consideram as implicações espaciais desse processo, de mostrar não só o redirecionamento dos assentamentos urbanos no espaço metropolitano e o novo design espacial dele decorrente, como também sua importância, enquanto meio e condição, para a conformação das novas estratégias de apropriação diferenciada do espaço metropolitano pelos agentes urbanos com atuação local (TRINDADE JÚNIOR, 1998). Como revela Carlos (2001), há uma nova maneira de se estabelecer as escalas de articulação metropolitana, que implicam em mudanças no seu formato espacial:
Esse processo de reprodução espacial na metrópole se realiza na articulação de três níveis: o político (que se revela na gestão política do espaço), o econômico (que produz o espaço como condição e produto da acumulação) e o social (que nos coloca diante das contradições geradas na prática socioespacial como plano de reprodução da vida). A articulação desses níveis, se efetiva pela mediação do Estado, que organiza as relações sociais (e de produção) por meio da reprodução do espaço. A estratégia política aparece como ação planificadora do espaço, que intervém no sentido de restabelecer, com a reprodução do espaço, a reprodução das relações sociais (CARLOS, 2001, p. 107).
Retornando a expressão inicial do espaço metropolitano, ainda que a forma conurbada representasse um momento anterior, ela em si nunca foi necessariamente compacta, conforme nos apresenta Castells (1999a, p. xix)
Em todos os casos, a região metropolitana é constituída por uma estrutura com vários centros (com diferentes hierarquias entre eles), descentralização de atividades, residências, serviços com uso misto do terreno e um limite indefinido de funcionalidades que estende o território da cidade sem nome a qualquer lugar atingido por sua rede. No início do século XXI, a região metropolitana é uma forma urbana universal.
Para Gottdiener (2010), todos os exemplos analisados demonstram a existência de ao menos um aspecto fundamental do atual crescimento socioespacial: a vida urbana tornou-se portátil e, desse modo, ocorreu o mesmo com a “cidade”. Em lugar da forma compacta de cidade, que outrora representava um processo histórico em formação há anos, existe agora uma população metropolitana distribuída e organizada em áreas regionais em permanente expansão, que são amorfas na forma, maciças no escopo e hierárquicas em sua escala de organização social (GOTTDIENER, 2010).
É a essa nova forma de espacialização das metrópoles contemporâneas que denominamos “concentração fluida”, a aglomeração urbana continua sendo característica do espaço metropolitano, mas não é somente a sua forma compacta ou contínua que a caracteriza como tal. A emergência de uma nova realidade de interdependência global constrói um ambiente propício para as mudanças na lógica de estruturação da metrópole contemporânea que extrapolam os limites somente da conurbação entre cidades diferentes e separadas por limites político-administrativos e continuidade socioterritorial. É a essa nova forma de configuração da metrópole que passamos a analisar no item posterior.
A conurbação, portanto, não era, de maneira alguma, expressão da construção de um espaço urbano característico de relações sociais específicas, mas sim um momento de passagem da transformação cada vez mais intensa das terras rurais adjacentes para o urbano, e da cidade para a metrópole. A metrópole passa a ser entendida como algo a mais que a quantidade de expressões urbanas, demográficas e econômicas, mas como uma nova forma de constituição das relações sociais capitalistas contemporâneas no espaço metropolitano.