O conceito de letramento digital surge em decorrência de transformações sociais e culturais. A presença das tecnologias digitais no cotidiano, a vivência da cultura digital, que se desenvolve por meio das tecnologias e que também contribui para o desenvolvimento delas, e as transformações nas formas de leitura e escrita auxiliam o surgimento do letramento digital e a exigência de conceituá-lo e descrevê-lo.
A noção de letramento é fortemente influenciada por práticas coletivas e culturais. O letramento digital emerge e tem significado em consonância com o desenvolvimento da cultura digital. Nela, o suporte tecnológico presente nas dinâmicas sociais, as formas de linguagem que lhe são próprias, e elementos como interatividade, autoria e coautoria, construção colaborativa, relativização das ideias de tempo e espaço, são mediadores de outras visões de mundo e compreensões da realidade.
A distinção entre letramento e letramento digital é frequentemente marcada pelas diferenças entre a leitura no papel e a leitura na tela, própria dos suportes digitais. Contudo,
não se pode resumir letramento digital apenas como um conjunto de habilidades relacionadas à leitura em suporte digital. A leitura e a escrita digitais realmente se caracterizam pelo uso de uma linguagem, posturas e habilidades particulares. Mas são habilidades que existem e fazem sentido apenas em um contexto no qual se encontra de alguma maneira a cultura digital. São construídas e aprendidas socialmente e implicam sua vivência efetiva. Trata-se, de modo mais amplo, de uma imersão na cultura sem a qual não se pode pensar o letramento digital.
Como no letramento, há aqui a dificuldade de estabelecer um conceito único e universal. Encontramos na literatura especializada uma variedade de conceitos. Soares, (2002, p. 151) afirma que “letramento digital é certo estado ou condição que adquirem os que se apropriam da nova tecnologia digital e exercem práticas de leitura e de escrita na tela”; a autora enfatiza em seu conceito aspectos relacionados às mudanças nas condições de participação social de quem é letrado digitalmente.
O letramento digital implica abertura a novas e mais amplas possibilidades de participação social e cultural. Silva (2005, p. 33) afirma que o letramento digital envolve “saber utilizar as TICs, saber acessar informações por meio delas, compreendê-las, utilizá-las, e com isso mudar o estoque cognitivo e a consciência crítica e agir de forma positiva na vida pessoal e coletiva”. Para os autores, o letramento digital tem como principal característica oferecer melhores possibilidades de acesso ao conhecimento e seu uso e ação na vida privada e coletiva.
Para outros teóricos, o letramento digital significa um conjunto de letramentos, pois requer inúmeras formas de letramento para se constituir. Buzato (2003, s/p.) apresenta um conceito no plural, expressando a multiplicidade de formas que se associam. Para ele, cada sujeito se letra ao longo da vida em contato com os demais dentro das suas possibilidades e necessidades. Aqui se observa que o letramento digital é mais abrangente do que a alfabetização digital, associada a uma habilidade técnica de lidar com os recursos da máquina.
Letramento eletrônico - hoje mais conhecido como letramento digital (LD) - é o conjunto de conhecimentos que permite às pessoas participar nas práticas letradas mediadas por computadores e outros dispositivos eletrônicos no mundo contemporâneo.
Em geral, as pessoas pensam no letramento digital como conhecimento ‘técnico’, relacionado ao uso de teclados, interfaces gráficas e programas de computador. Porém, o letramento digital é mais abrangente do que isso. Ele inclui a habilidade para construir sentido a partir de textos que mesclam palavras, elementos pictóricos e sonoros numa mesma superfície (textos multimodais), a capacidade para localizar, filtrar e avaliar criticamente informação disponibilizada eletronicamente, familiaridade com as ‘normas’
que regem a comunicação com outras pessoas através do computador (Comunicação Mediada por Computador ou CMC), entre outras coisas. (BUZATO, 2003, s/p.)
Todas as habilidades fazem parte do que ele entende como letramento digital, mas cabe lembrar que se trata de um fenômeno construído progressivamente ao longo da vida, e que as pessoas desenvolvem determinadas habilidades mais do que outras. Não necessariamente alguém precisa apresentar todas as habilidades para ser considerado letrado digitalmente de alguma maneira.
São comuns nos conceitos as práticas sociais de leitura e escrita em suportes digitais, e as habilidades para exercê-las. Compreender códigos e sinais verbais e não verbais, como imagens, cores e sons, construindo sentidos por meio deles; saber como se organiza o conhecimento em rede; como encontrar, selecionar, refletir sobre a informação de modo que se construa o próprio conhecimento em ambiente digital, estabelecer cooperação com outros na aprendizagem; interagir com o texto contribuindo na sua produção ao mesmo tempo em que se lê; estabelecer uma forma de ler e de escrever independentemente de trajetórias lineares, com inicio, meio e fim bem demarcados, e estabelecer o curso da própria leitura; comunicar-se por meio de dispositivos digitais; e encontrar caminhos em um hipertexto. Todas são formas de identificar o letramento digital. Mas são aprendizagens para as quais não há medida objetiva, nem fim determinado, e que dependem do contexto de quem lê.
São habilidades próprias de pessoas que se sentem parte na cultura digital. Que a vivenciam em seu cotidiano, e fazem uso desse tipo de dispositivo com frequência e cujo dia a dia é permeado pelas tecnologias. O letramento digital se desenvolve e tem razão de ser dentro de uma cultura e de um modo de viver, pensar e comunicar permeados pelo digital e por tecnologias.
Vivenciar a cultura, alfabetizar-se e letrar-se dentro dela, desenvolver a alfabetização e o letramento digitais são processos inter-relacionados. O letramento e o letramento digital são aprendizagens progressivas que ocorrem socialmente, relacionadas à cultura de quem se letra. As suas diversas formas devem ser respeitadas e valorizadas para que a troca seja efetiva, inclusive entre professores e alunos, que apresentam formas de letramento diferentes, mas que se complementam.