Nos nossos dias, a utopia está estreitamente ligada à linguagem particular das nossas vidas, às esperanças indistintas que nutrimos, às propostas ideais de sociedade, aparecendo assim, do ponto de vista sociológico, como um modo privilegiado de expressão das sociedades contemporâneas, embora o seu significado permaneça vago, talvez porque procure ser um pensamento de acção que, para ser eficaz, é obrigado a refutar as determinações demasiado precisas. "As nossas sociedades modernas, por mais «desencantadas» que sejam, continuam a produzir sem cessar a sua própria mitologia." '
V i o l ê n c i a e E d u c a ç ã o , ^ e A t- a o s N o s s o s D i a s - Da razão filosófica à razão pedagogic.
1 K. Mannheim cit. por Julien Freund in Utopie et Violence, p. 17
2 Lewis Mumford cit. in "As Uopias" - Biblioteca Salvat de Grandes Temas, p. 76-77 3 J. P. Boutinet cit. por A. Dias de Carvalho in Utopia e Educação, p. 17
4 A. Dias de Carvalho - Utopia e Educação, p. 16 5 Idem, p. 17
6 Enciclopédia Einaudi, vol. 5, p. 358
7 Reybaud cit. in Enciclopédia Einaudi, vol. 5, p. 348 8 Enciclopédia Einaudi, vol. 5, p. 359
9 Idem, p. 358
10 Aldous Huxley - Admirável Mundo Novo, p. 29
11 Luís Nandim de Carvalho -Manipulação da Opinião Pública, p. 59 12 K. Mannheim cit. por David Maclellan in.4 Ideologia, p. 78
13 Paul Ricoeur cit. por A. Dias de Carvalho in Utopia e Educação, p. 23 14 Enciclopédia Einaudi, vol. 5, 1985
Violência e Educação D i m e n s ã o Antropológica da Utopia
- Da razão filosófica à razão pedagógica
3.2 - Utopia e Pedagogia - O Lugar da Utopia na Educação
Como nasce a utopia no processo educativo? Escreveu a este respeito A. Dias de Carvalho:
A utopia aparece, no âmbito de uma aproximação crítica entre as finalidades antropológicas e os objectivos dos projectos pedagógicos, tanto ao nível
individual, como no plano dos discursos educativos. Na verdade, a função mobilizadora e crítica das utopias parece ser imprescindível para o desenvolvimento dos processos educativos, sobretudo, enquanto estes podem ser considerados como percursos antropológicos. í
Octavi Fullat, por seu turno, considera que podemos suspeitar que o seu aparecimento se deve à insatisfação causada pela violência estruturante do próprio processo educativo, isto porque, para este autor, "o acto educativo especificamente humano
[...] é confrontação de duas consciências; confrontação constitutivamente violenta."
Parece-nos inegável afirmar que entre pedagogia e utopia existe muitas vezes uma relação de cumplicidade, sendo que a pedagogia foi sempre uma das maiores inquietações das utopias clássicas, consagrando-lhe quase todas pelo menos alguns parágrafos e dando-lhe um lugar central na vida social.
Embora as utopias pedagógicas sejam quase todas marcadas pelo institucionalismo, elas vêem na educação um elemento determinante na organização das outras instituições matrimoniais, familiares, ou sociais em geral. É essencialmente o sistema educativo que, nesta perspectiva, condiciona o futuro da sociedade, porque a sua força de integração mantém a homogeneidade do conjunto. "A educação e a doutrina moral dos utopianos estão em harmonia perfeita com as suas instituições e costumes.' » 3
Violência e naucaçao Pedagogia - O Lugar da Utopia na Educação
- Da razão filosófica à razão pedagógica u L UPl a c L euagugi 6 r
Mas, embora os utopistas chamem a atenção para a importância da acção educativa, as suas propostas pedagógicas concretas são muitas vezes tradicionalistas, no sentido em que colocam, quase todas, o acento sobre a necessidade de respeitar as autoridades, as pessoas mais velhas, de cultivar o sentido crítico, etc.
É mais o sistema educativo geral do que o procedimento pedagógico que é original num ou noutro autor, que propõem, frequentemente, uma educação comum, em ligação com o princípio da comunhão dos bens. No fundo, a educação é moral e não tolera nenhum desvio à ordem estabelecida, mesmo se o sistema educativo geral, por causa do seu comunitarismo, está, nele mesmo, em oposição com as ideias do tempo. Os conselhos dados às crianças e aos jovens encaminham-nos no sentido da sociedade ideal, podendo-se encontrá-los em todos os manuais que os educadores usam.
Esta pedagogia é desprovida de toda a liberdade e espontaneidade, mas os utopistas acreditam que o facto de incutir às crianças unicamente o sentido das virtudes e
da ordem os preservará de todos os defeitos, vícios e revoltas.
Instruiremos a estas crianças as leis da pátria; aprenderão a respeitá-las, a obedecer aos seus pais, aos chefes e às pessoas maduras. Acostumá-las-emos à condescendência para com os seus iguais, a cultivar a sua amizade, a nunca mentir.
A crítica faz-se mais directamente a propósito do fundamento do sistema educativo global, com alguns autores a proporem uma educação às custas do Estado. Para Campanella, por exemplo, a criança pertence à cidade e não à família.
Com Marx e Engels e, posteriormente, com toda a tradição marxista, originou-se uma oposição clara entre utopia e ciência ou, mais exactamente, entre socialismo utópico e socialismo científico. Graças a esta distinção, Marx e Engels tornaram-se distantes dos
Violência e Educação Pedagogia - O Lugar da Utopia na Educação
sistemas utópicos fechados da sua época. A utopia mais não era, para estes autores, do que a infância do socialismo. O socialismo seria a evolução da utopia para a ciência, já que, para eles, somente a teoria científica era a verdadeira. Na obra Socialismo Utópico e Socialismo Científico, Marx afirma que "para fazer do socialismo uma ciência é preciso primeiro situá-lo num plano real", indicando de maneira bem clara o sentido dessa fórmula, em 1874-1875, nas suas Notas Críticas ao "Estatismo e Anarquia" de Bakunin:
«socialismo científico» - empregado somente em oposição ao socialismo utópico que quer inculcar no povo projectos quiméricos em vez de limitar sua ciência ao conhecimento do movimento social feito pelo próprio povo.
O socialismo científico define-se, assim, relativamente às utopias, como continuidade, um estádio mais avançado, já que o desenvolvimento das ideias utópicas estaria submetido a uma espécie de teleologia, amadurecendo ao longo da história para dar lugar ao marxismo. Por outro lado, há uma ruptura clara entre os dois conceitos, já que, para o marxismo, apenas o proletariado armado com uma teoria científica pode e tem necessariamente de transformar os sonhos em realidades.
A educação poderia, neste sentido, ajudar a construir um novo mundo para a humanidade, colocando-se ao serviço das massas. O fundamento científico da educação socialista consiste, justamente, na "indicação de que a consciência humana está vinculada estritamente à vida material, real e social do homem. Com base nesta tese pode investigar-se exacta e experimentalmente a consciência humana e a sua evolução."
Apesar do aspecto revolucionário desta educação comunitária, o ambiente continua, por todo o lado, o mesmo: ordem e disciplina. Como a política, a educação é submetida às normas de um moralismo particular, exigente e constrangedor. "O efeito paradoxal dessas utopias pedagógicas foi o de persuadir os educadores da sua missão
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regeneradora relativamente a toda uma sociedade, mantendo o horizonte das suas consciências do possível no interior dos sistemas educativos!"
A utopia pedagógica torna-se, assim, uma forma de violência. É em geral uma pura domesticação, tendo este aspecto constrangedor da utopia chegado aos nossos dias.
As utopias pedagógicas do nosso século têm-se limitado a ser prolongamentos das ilusões e dos impasses das utopias sociais contribuindo, desse modo, para o reforço do círculo infernal do utopismo ideológico e para a implantação violenta
o
dos seus modelos de homem e de sociedade.
Ora, parece que não deverá ser o endoutrinamento o papel privilegiado de qualquer utopia pedagógica, já que ele é, como afirma Reboul, a perversão da educação; ao mesmo tempo, quando a utopia pedagógica é apontada como a solução de todos os problemas do homem, prometendo-lhe a felicidade, não deverá ser levada tanto a sério.
Como A. Dias de Carvalho, pensamos que a utopia é constitutiva do homem e, portanto, o cerne de uma antropologia filosófica e de uma educação que, visando-o, nele se inspire, o que, por tal facto, leva a que seja "inadiável o esclarecimento do seu estatuto filosófico, nomeadamente numa perspectiva antropológica, estatuto do qual se destaca o seu próprio sentido pedagógico" 9, uma vez que as utopias hoje se inclinam para uma
pedagogia social, para o esbatimento das fronteiras entre o espaço político e o espaço pedagógico com vista a um projecto que transforme os homens do passado em homens novos.
Esta noção de utopia obriga, necessariamente, à sua articulação com outras ideias que lhe são próximas, como a da esperança e a da alteridade. Uma esperança utópica, à maneira de Bloch, em que o que busca no presente não são traços ou ruínas do passado mas, bem pelo contrário, as potencialidades do futuro, suas antecipações ainda não
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conscientes. Para este autor, a utopia é a "recusa do entorpecimento", do hábito, da resignação, em suma, da morte. A história é a construção que os homens fazem no presente com esperança num futuro melhor. A esperança há-de habitar e preencher permanentemente as suas lutas.
Por outro lado, a pedagogia utópica, ao ser filosófica, deve, antes de mais, ser crítica, superando a mesmidade pelo reconhecimento e afirmação da alteridade que ela protagoniza e radicaliza. A verdade da utopia seria então a ética, para a qual o outro não pode ser identificado ao mesmo, isto porque o homem é um ser inconcluso que se constitui no encontro com os outros. Parece-nos que Reboul corrobora esta nova noção mais abrangente de utopia, ao considerar que ela é a crítica mais radical, a recusa mais profunda das coisas tal como existem e dos homens tal como foram feitos.
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1 A. Dias de Carvalho - "O Estatuto da Filosofia da Educação: Especificidades e Perplexidades" (documento cedido pelo autor), p. 2
2 Octavi Fullat - La Peregrinación Del Mal, p. 21 3 Enciclpédia Einaudi, vol 5, p. 340
4 Morelly - Le Code de la Nature, p. 147-148
5 Marx cit. por J. Yves Lacroix in A Utopia, Um Convite à Filosofia, p. 102 6 B. Sucholdoski - Teoria Marxista de la Educacion, p. 27
7 Pierre Furter - Paulo Freire e Ivan Illich: Das Utopias Pedagógicas às Utopias Sociais, p. 72
8 A Dias de Carvalho - "Esboço de uma Fundamentação Antropológica do Sentido da Utopia" in Revista
da Faculdade de Letras, Série de Filosofia - N°s 12-13 - 2a série, p. 4 9 Idem, p. 3
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3.3 - Paulo Freire - Uma Pedagogia Utópica e Esperançosa
-Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e actuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente da tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo. Mas, prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta se
pudesse reduzir a actos calculados apenas, à pura cientifwidade, é frívola ilusão. [...] Enquanto necessidade ontológica, a esperança precisa da prática para tornar-se
concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã." - Paulo Freire.
No contexto da análise sobre a utopia e das suas relações com a educação, pensamos ser importante abordar o pensamento de Paulo Freire, o qual, no seu texto Acção Cultural para a Libertação, define que uma pedagogia da libertação e da transformação tem de ser uma pedagogia utópica e esperançosa, orientada para o futuro, construída a partir de sonhos possíveis, fiel ao compromisso histórico que exige a denúncia da
sociedade existente e a vontade de uma sociedade futura melhor, com base numa teoria da acção transformadora do homem-sujeito na (da) História.
Também no seu livro Pedagogia do Oprimido, utiliza o conceito inédito viável, interpretado como futuro a construir. Alcançar o inédito viável implica superar uma situação problemática através da praxis. Os homens não resolvem os seus problemas concretos apenas através da sua subjectividade. Assim, uma pedagogia da libertação deve ser forçosamente prática e deve desembocar na acção.
Violência e Educação _ U m a p e d ia u t ó ica e Esperançosa - Da razão filosófica à razão pedagógica 1 tt"'" *
Mona «fcpw autêntica não se pode falar em esperança se os braços se cruzam e passivamente se espera. Na verdade, quem espera na sua pura espera vive um
tempo de esperança vã. A espera só tem sentido, quando cheios de esperança, lutamos para concretizar o futuro anunciado, que vai nascendo na denúncia militante.[...] A esperança utópica é «engajamento» arriscado.
Por outro lado, a relação de alteridade é, na pedagogia de Paulo Freire, um elemento preponderante, já que, para além de reconhecer o papel decisivo da intersubjectividade para a constituição da consciência, do mundo e de um projecto, e até para a produção de um conhecimento mais seguro, consciente e crítico acerca da realidade, Paulo Freire insiste, sobretudo, no valor absoluto que o outro deve representar para o
educador e no profundo respeito que lhe deve merecer. Para o autor, os homens educam-se uns aos outros por meio da vida, "da responsabilidade solidária, segundo a qual toda a educação e libertação são dialógicas ou não chegam a ser verdadeira educação e efectiva libertação" 2, isto porque ninguém educa ninguém, nem ninguém se educa a si próprio; a
educação faz-se na relação com o mundo e com os outros: "a educação se faz então diálogo, comunicação. E, se é diálogo, as relações entre os seus pólos já não podem ser as de contrários antagónicos, mas de pólos que conciliem".
Estamos diante de uma "educação para a libertação, que é utópica, profética e optimista".4 A obra de Paulo Freire, comprometida politicamente e orientada pelo projecto
da revolução e pelos princípios de um humanismo referido às realidades sociais concretas e norteado pelo ideal da libertação global do indivíduo, em muitos sentidos não deixa de ser uma utopia.
Usando expressões como liberdade do homem Ser Mais, não situando a acção alfabetizadora numa análise global, ideológica e política, da exploração e alienação das massas, das suas lutas de classe, não colocando o problema da
Violência e Educação Q ^ . ^ _ U m a P e d a g o g i a utópica e Esperançosa - Da razão filosófica à razão pedagógica
origem de classe dos educadores e mantendo, de algum modo, o mito da neutralidade, não abordando a relação entre a aproximação crítica da realidade e a acção concreta para a transformar, limitando a alfabetização a uma «libertação das consciências», sem a ligar a uma prática de lutas que a enraíze, a pedagogia de Paulo Freire denuncia um suporte ideológico idealista.
Paulo Freire rejeita a educação tradicional burguesa que, assentando numa falsa concepção de homem (um humanismo abstracto), torna o educando passivo e adaptado. Essa educação integra-se numa "ideologia de dominação", característica das sociedades
actuais (no consumo, como no trabalho, no quotidiano, na comunicação, na relação com o ambiente, etc.) onde é necessário dominar e mudar os homens, "recuperar" os "marginais" sem, no entanto, mudar as estruturas sociais.
O seu «humanitarismo», e não humanismo, está em preservar a situação de que são beneficiários e que lhes possibilita a manutenção da sua falta de generosidade [...] Na verdade, o que pretendem os opressores é transformar a mentalidade dos oprimidos e não a situação que os oprime e isto para que, melhor adaptando-os a esta situação, melhor os domine.
A esta concepção de educação Paulo Freire opõe uma concepção humanista libertadora, concebendo uma pedagogia comprometida e crítica, bastante progressista nas
suas intenções, que não separa o homem do mundo porque o considera um ser histórico. Defende uma educação da verdade, da utopia, da imaginação criativa e da tolerância.
A sua pedagogia da Uberdade traz o gérmen da revolta, mas nem por isso seria correcto afirmar que esta se encontre, como tal, entre os objectivos do educador. Se ocorre, é apenas e exclusivamente porque a conscientização divisa uma situação real em que os dados mais frequentes são a luta e a violência. 7
Ele acreditava que a educação podia melhorar a condição humana, contrariando os efeitos de uma psicologia da opressão e, finalmente, contribuindo para o que considerava
Violência e Educação ^ ^ _ ^ p e d a g o g i a U t ó p i c a e Esperançosa - Da razão filosófica à razão pedagógica
ser a "vocação ontológica da espécie humana": a humanização. Para tal, torna-se necessário conhecer a realidade em que vivemos para a poder transformar.
Paulo Freire é conhecido como um filósofo e um teórico da educação, que nunca separa a teoria e a prática. Neste sentido, consideramos que o seu projecto pedagógico se insere num utopismo realista e não num utopismo meramente idealista:
Para mim, o utópico não é o que é irrealizável, a utopia não é idealismo; é a dialectização dos actos de denunciar e de anunciar, o acto de denunciar a estrutura desumanizante. Por essa razão, a utopia é também empenhamento histórico.
A sua pedagogia não se esgota no acto escolar nem tão pouco no educativo. Fortemente ideológica, a educação vincula-se, nesta perspectiva, a uma ética de libertação e realização pessoal ligada ao desenvolvimento global social e político. Na sua obra Uma Educação para a Liberdade, o autor afirma:
Uma educação só é verdadeiramente humanista se, ao invés de reforçar os mitos com os quais se pretende manter o homem desumanizado, esforça-se no sentido da desocultação da realidade [...] A minha praxis é, necessária e constantemente, a unidade entre a minha acção e a minha reflexão [...] Na educação para a libertação, o instrutor convida o aluno a conhecer, a descobrir a realidade de maneira crítica [...] A concepção humanista, problematizante, da educação, afasta qualquer possibilidade de manipulação do educando.
O propósito de Paulo Freire não era alfabetizar para dissimular o atraso técnico e económico dos países da América Latina, mas para que se alterasse a mentalidade dos seres aprisionados pelo que chama "culto do silêncio", já que este nega o direito ao conhecimento e à educação. A sua obra funciona como uma espécie de consciência crítica,
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que nos põe em guarda contra a despolitização do pensamento educativo e da reflexão pedagógica.
Conscientização é o conceito chave do método de Paulo Freire, entendendo-se por isso o processo pelo qual o homem aprende a perceber (não como mero recipiente, mas
como sujeito interveniente) as contradições sociais, políticas e económicas. Mas, para que o seu método tenha êxito, o autor define a teoria gnoseológica que o legitima, prevenindo ser de evitar dois erros: o do psicologismo ou subjectivismo, em que é a consciência quem cria a realidade, e o da hipertrofia da objectividade, que implica o objectivismo, que
exacerba o seu poder para criar ou condicionar a consciência.
De um ponto de vista dialéctico, eu não aceito a dicotomia ingénua existente entre consciência e mundo. A subjectividade e a objectividade estão tão imbricadas, compenetram-se tão profundamente que é impossível falar da «incarnação da subjectividade na objectividade» [...] Se quebrarmos essa dialéctica, caímos nas ilusões do idealismo (subjectivismo) tanto como nos erros do objectivismo.
Só a dialectização dinâmica processual e permanente entre a consciência e o mundo (a subjectividade e a objectividade) leva a compreender o que é a conscientização e o papel da consciência na libertação do homem, embora a reflexão, por si só, bem assim como a acção também isolada, não seja suficiente para essa libertação.
O saber humano implica, então, uma unidade permanente entre a acção e a reflexão sobre a realidade. Alfabetizar é, portanto, conscientizar, estando esta alfabetização fortemente ligada à prática, já que, para Paulo Freire, a linguagem e o trabalho são indissociáveis, e os trabalhadores aprenderiam a 1er muito mais rapidamente se os
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problemas da leitura fossem identificados com os da política, da economia, dos sindicatos, enfim, da vida. A alfabetização dos adultos seria um meio de libertação dos oprimidos.
Acerca da escola, partilha da opinião de Ivan Mich, considerando-a um instrumento de controle social, uma instituição de domesticação ou manipulação que não favorece a tomada de consciência dos problemas reais, mas que apenas mantém o "status quo", mitificando a realidade com vista à mitificação da consciência. Critica também a cumplicidade das Igrejas no funcionamento dos sistemas escolares burgueses. "Ao lado do tema da conscientização que, de facto, habita profusamente os textos deste período, uma outra preocupação se revela evidente: a denúncia da pseudo-neutralidade das Igrejas e das instituições educativas, sobretudo, em matéria política".
Relevante em Paulo Freire são os pressupostos antropológicos, filosóficos e pedagógicos que informam a sua pedagogia de libertação:
eles formam, no seu iodo, um conjunto de ideias reguladoras que podem reavivar, hoje, o espírito inconformado de muitos educadores honestos que se sentem asfixiados entre programas, notas, burocracia e, principalmente, diante da questão moral de se sentirem instrumentos de perpetuação do status quo domesticador, através do sistema educativo.
Considerando que não pode haver renovação pedagógica sem uma renovação gobal da sociedade, as exigências pedagógicas de Paulo Freire levam-no, assim, a assumir uma posição política. Contudo, Paulo Freire não se considera um político, mas um