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The Forward-Secure Serial Multi-signature Scheme

Transferable E-cheques: An Application of Forward-Secure Serial Multi-signatures

11.3 The Forward-Secure Serial Multi-signature Scheme

Durante as décadas de 1950 e 1960, a Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, foi um berço para a criação de novas teorias que se espalhariam pelo mundo através de seus alunos, já que muitos deles fizeram parte de governos, principalmente em seu país natal, e receberam até a alcunha de os ―Garotos de Chicago‖. Dentro da instituição de ensino, dois professores recebem destaque dentro da concepção da construção da cultura do medo.

O primeiro deles é o filósofo político Leo Strauss. Judeu alemão refugiou-se nos Estados Unidos no início da Segunda Guerra Mundial, onde começa lecionar na universidade. Suas reflexões partem do princípio do direito natural. O outro é o economista Milton Friedman, criador da teoria do livre mercado, sistema vigente hoje no capitalismo moderno e responsável pela criação das Democracias Corporativas. Ambos tiveram suas teorias estudadas e interpretadas. Enquanto Friedman realmente atuou em diversos governos pelo mundo, como consultor, Strauss teve suas ideias interpretadas por seus alunos, que dentre eles, pode-se citar: o jornalista Harry Jaffe; o ex-presidente do Banco Mundial, arquiteto da política externa do governo de George W. Bush e da Guerra do Iraque, Paul Wolfowitz; o considerado fundador do neoconservadorismo, Irving Kristol; o sociólogo, Daniel Bell; o sociólogo Seymour Martin Lipset; e o sociólogo Nathan Glazer.

Leo Strauss defendia que quando o homem possui instituições, de qualquer natureza, que dita regras as quais constroem seus juízos de valores, o ser, então, não possui mais o discernimento individual de tomar as decisões por si só.

O direito natural pretende ser um direito discernível pela razão humana e universalmente reconhecido; mas a história (incluindo a antropologia) ensina-nos que esse direito não existe; em vez de uma presuntiva uniformidade, encontramos uma variedade infinita de noções de direito ou de justiça (STRAUSS, 1953, p. 11).

Apesar de sua ideologia seguir a linha de que o ser não deve ser individualista, mas pensar no bem para realizar ações benéficas, seus alunos interpretaram de outra forma. Durante a década de 1960, os Estados Unidos entravam na era das revoluções sociais, com o movimento feminista, o da segregação e o flowerpower. Entre os discípulos de Strauss

estavam o que são conhecidos hoje como neocons (novos conservadores), ou, como a ideologia é mais conhecida no Brasil, os neoliberalistas.

Observaram a situação na qual a sociedade estadunidense se encontrava e realmente acharam, assim como seu mestre, que a população estava realmente individualista. Então, viram que a solução seria a união social, e resolveram utilizar o medo como a ferramenta desta criação da nova identidade nacional. Para chegarem a esta conclusão, reinterpretaram outra das ideias de Strauss:

Se a paz é incompatível com a vida humana, ou com uma vida verdadeiramente humana, então tudo indicaria que o problema moral só admitiria uma solução clara: a natureza das coisas exige uma ética guerreira como base de uma política de poder que seja guiada exclusivamente por imperativos de interesse nacional, ou uma forma particularmente crua de maquiavelismo teria de ser vista em todos os aspectos como normal e inteiramente justificável do ponto de vista ético (STRAUSS, 1953, p.58). Então, a interpretação obtida pelos neoconservadores foi de que o ser precisa de um inimigo para se unir. Por mais que cada indivíduo possua opiniões próprias, um terror sobre algum tema uniria a todos em um pensamento em comum. Parte do pressuposto de identificar as ―diferentes percepções dos atores em relação a si mesmos e de uns em relação aos outros, ou seja, como eles se visualizam como partes de uma coletividade‖ (MORAES, 1994, p.1). Desta teoria começou a intensificação da Guerra Fria que como explica a documentarista e jornalista Naomi Klein (2008, p.395) ―o medo de um ataque nuclear era o núcleo da estratégia de coibição, mas a ideia era que os mísseis nucleares ficassem em seus depósitos‖. Importante lembrar que, durante a década de 1960, o líder da então União Soviética era Nikita Khrushchov que pregava a coexistência pacífica com os americanos. Inclusive se reuniu com o presidente John F. Kennedy para conversas sobre amenizar o desenvolvimento nuclear.

Começava então a construção da Cultura do Medo e do imaginário perante o primeiro grande inimigo: a liberdade e democracia americanas. A imagem dos soviéticos se formou através de uma série de construções de símbolos, nas quais repudiavam quaisquer ações do ‗inimigo‘, e que os mesmos apenas pensavam em como levar o socialismo para dentro da sociedade estadunidense. A linguagem também começou a ser usada como técnica de disseminação do medo. O governo americano divulgava informações sobre quão tensa estava à relação entre os dois lados da Guerra Fria, e a mídia utilizava o mesmo tom para repassar a notícia. Ainda que o perigo de um conflito entre as duas potências da época existisse, não se mensurava quanto era possível de acontecer.

Mas, em virtude da impossibilidade desse controle, ou seja, de distinguir e encarar o desconhecido e os perigos que ele pode representar, o imaginário

cria imagens nefastas da angústia, expressas nos símbolos teriomorfos (da animalidade agressiva), nictomorfos (das trevas terrificantes) e catamorfos (da queda assustadora) (TEIXEIRA, PORTO, 1998, p.54).

A necessidade de atribuir o terror a alguém também se tornou um fator para a disseminação do início da cultura do medo, e este fator se tornaria corrente ao longo da história. Ao ter um inimigo, começa-se então a criar uma nova gama de valores, onde as ‗vítimas‘ são os bons, e os outros ruins. Esta ideologia promove que o ―eu‖ é a norma a ser seguida, quem é diferente são inimigos, inferiores, subservientes. Portanto, a ideologia da cultura do medo separa os grupos em dominantes/dominados e superiores/inferiores, que servem parar criar hierarquias e classificações como base para os interesses das elites do poder. É um pensamento que prioriza uma luta de classes, com uma predominância economicista (KELLNER, 2001, p.83).

Entram em jogo então as teorias de Milton Friedman. Assim como os alunos de Strauss, que viram no medo a oportunidade de dominar a sociedade americana em detrimento de seus interesses, o economista da Escola de Chicago também possuía uma linha de pensamento parecida. Ele denominou a teoria do livre mercado como ―Doutrina do Choque‖, devido a sua maneira de implementação, defendendo que a economia deve ser totalmente independente, não regulada pelo Estado. Nesta concepção, as decisões sobre o rumo econômico de um país ficam a cargo de investidores e corporações, e o papel da política estatal é a de criar maneiras de estas políticas entrarem em ação.

As políticas econômicas criadas por Friedman seguem a trindade privatização, desregulamentação e corte nos gastos sociais. É uma linha de pensamento que beneficia diretamente as grandes corporações e pode levar a economia de um país à falência. A primeira prova de que a doutrina do choque não é tão efetiva quanto seu criador (que inclusive ganhou um Prêmio Nobel por ela) aconteceu no Chile.

Durante a ditadura do general Augusto Pinochet, os Garotos de Chicago eram os responsáveis pela política econômica chilena. Em apenas um ano e meio, o desemprego disparou, os pequenos empresários começaram a fechar suas empresas e apenas um pequeno círculo de investidores, em sua maioria estrangeiros, foram beneficiados. Em dez anos, de 1973 a 1983, foram 177 mil empregos perdidos apenas na indústria (KLEIN, 2008, p.100). Com a população chilena sem trabalho e sem serviços públicos de qualidade, a opção para Friedman e Pinochet foi utilizar o terror político para o controle social. Neste caso, a ferramenta utilizada foi a repressão e tortura.

―A violência emerge como artifício estratégico para vencer a incerteza, como se observa facilmente não só nos gramados esportivos, como também nos golpes e contragolpes entre si pelas agremiações sociais envolvidos na luta pelo poder‖ (WAINBERG, 2005, p.17). Novamente, o terror, agora através de um medo real de violência, é utilizado como controlador e unificador social. Desta vez, como um inibidor de ações antiregime. As mesmas técnicas foram usadas em outras ditaduras, principalmente na América Latina. A Argentina e o Brasil estão entre eles. Apesar de o fator econômico ter sido um dos motivos para a tortura e prisões durante estas ditaduras, apenas o relatório ―Brasil: Nunca Mais‖ denuncia tais fatos, como explica Naomi Klein (2008, p.151):

A ideia de que a repressão e a economia expressavam um único projeto unificado está presente apenas no principal relatório de direitos humanos daquele período: Brasil: Nunca Mais. Curiosamente, este é o único relatório de comissão da verdade que foi publicado independentemente tanto do Estado quanto de fundações estrangeiras. É fundamentado em documentos de tribunais militares, secretamente xerocados ao longo dos anos por advogados e ativistas da Igreja tremendamente corajosos, enquanto o país estava sob regime ditatorial. Depois de detalhar alguns dos crimes mais hediondos, os autores levantam a questão central que foi cuidadosamente evitada pelos outros: Por quê? E respondem prosaicamente: ―Uma vez que a política econômica era extremamente impopular entre numerosos setores da população tinha de ser implementada pela força‖. (grifos da autora)

Na apresentação do livro Brasil: Nunca Mais (1986, p.21-23) constam os esclarecimentos de que a pesquisa realizada por um ―grupo de especialistas‖, por um período de cinco anos, reuniu ―cópias da quase totalidade dos processos políticos que transitaram pela Justiça Militar brasileira entre abril de 1964 e março de 1979‖, resultando em mais de um milhão de páginas microfilmadas em duas vias, sendo que uma foi guardada fora do país e a outra foi distribuída ―entre universidades, bibliotecas, centros de documentação e entidades voltadas para a defesa dos Direitos Humanos, no Brasil e no Exterior‖. A escolha dos processos da Justiça Militar teve como fonte básica o livro ―Vigiar e Punir‖ do pensador francês Michel Foucault que afirma ―ser possível reconstruir boa parte da história de uma época através do processo penal arquivado no Poder Judiciário de cada país‖ sob a forma de ―sentenças judiciais determinando torturas, esquartejamentos em praça pública, normas de vigilância carcerária, castigos ao corpo, punição ao espírito‖.

Assim, conclui Naomi Klein (2008, p.19) que ―desde a década de 1970, o movimento da Escola de Chicago liderado por Friedman tem conquistado espaço em todo o mundo‖, como um modelo de mercado que explora crises e desastres, com a ―intenção clara de aterrorizar o público‖. A ortodoxia deste movimento é ―conhecida como ‗neoliberalismo‘,

mas também pode ser chamada de ‗livre-comércio‘ ou simplesmente ‗globalização‘‖ (KLEIN, 2008, p.24).