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Test of spatial resolution and spatial linearity

6. SCINTILLATION CAMERAS

6.3.15. Test of spatial resolution and spatial linearity

para transformá-lo em um “espaço” onde fabrica o seu cotidiano por meio dos seus saberes e de suas “táticas”, nos apoiamos nos estudos de Certeau (2005). Nessa perspectiva, ele diferencia lugar e espaço da seguinte forma:

Um lugar é a ordem (seja qual for), segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência. Aí se acha, portanto excluída a possibilidade, para duas coisas, de ocuparem o mesmo lugar. Aí impera a lei do ‘próprio’: os elementos considerados se acham uns ao lado dos outros, cada um situado num lugar ‘próprio’ e distinto que define. Um lugar é, portanto, uma configuração instantânea de posições. Implica uma indicação de estabilidade. Existe espaço sempre que se tomam em conta os vetores de direção, quantidades de velocidade e a variável tempo. O espaço é um cruzamento de móveis. É de certo modo animado pelo conjunto dos movimentos que aí se desdobram. Espaço é o efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais, ou de proximidades contratuais (CERTEAU, 2005, p. 201-203).

Para Certeau (2005), o espaço é modificado pelas transformações devido a proximidades sucessivas, uma vez que ele não tem a estabilidade de um lugar. Dessa forma, espaço é o lugar praticado e são as ações dos sujeitos que o define. Já os lugares são estáticos e inertes. A partir da fabricação do cotidiano, Certeau (2005) aponta possibilidades de transformar lugares em espaços ou espaços em lugares.

O autor, em sua obra, faz a distinção entre táticas e estratégias. Para ele, na vida cotidiana, “estamos o tempo todo lidando com essas artimanhas e burlas”. São por meio delas e por elas que conseguimos lidar com as adversidades do dia-a-dia esse movimento o autor denomina de estratégia. Segundo o autor estratégia é:

[...] Chamo de estratégia o cálculo (ou manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolada. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio a ser a base de onde se podem gerir as relações com uma

exterioridade de alvos ou ameaças (os clientes ou os concorrentes, os inimigos, o campo em torno da cidade, os objetivos e objetos da pesquisa etc.). Como na administração de empresas, toda racionalização ‘estratégica’ procura em primeiro lugar distinguir de um ‘ambiente’ um próprio’, isto é, o lugar do poder e do querer próprios. Gesto cartesiano, quem sabe: circunscrever um próprio num mundo enfeitiçado pelos poderes invisíveis do Outro. Gesto da modernidade científica, política ou militar (CERTEAU, 2005, p.99-100).

A estratégia é vinculada ao poder hegemônico e dominante, o qual a usa como forma de convencimento, argumentação e intimidação dos fortes sobre os fracos. Na tentativa de driblar as estratégias, os desprovidos do “poder hegemônico e dominante”, utilizam “táticas” de sobrevivência:

[...] chamo de táticas a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio [...]. A tática não tem lugar senão a do outro. E por isso deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei de uma força estranha. Não tem meios para se manter em si mesma, à distância numa posição recuada, de previsão e de convocação própria: a tática é movimento ‘dentro do campo de visão do inimigo’, [...] e no espaço por ele controlado. Ela não tem portanto a possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem de totalizar o adversário num espaço distinto, visível e objetivável. Ela opera, golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as ‘ocasiões’ e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas (CERTEAU, 2005, p. 100).

Segundo Certeau (2005, p. 101) “[...] a tática é a arte do fraco”. Ela é determinada pela ausência de poder, ao contrário da estratégia que está ligada ao poder dominante. Na tática, quanto menor for o poder, maior será a possibilidade de produzir efeitos de “astúcia”.

Com o apoio dos estudos do teórico em questão, concebemos as diferenças entre:

lugar X espaço; estratégias X táticas, a partir dessa definição caracterizamos a sala de aula

como um espaço de atuação dos sujeitos que fabricam táticas para sobreviver as dificuldades que poderão surgir no seu cotidiano. Defendemos que as táticas fabricadas pelos professores estão relacionadas aos seus “saberes docentes”, tendo em vista que os professores têm o controle tanto daquilo que sabem, como das situações cotidianas que vivem no chão de suas salas de aula onde precisam decidir “o que fazer” e “como fazer” acionando os seus saberes para escolher a melhor tática para dar conta da situação posta à sua frente.

Oliveira (2005) relaciona a teoria de Certeau (2005) ao campo escolar, enfatizando que:

“[...] a prática docente não é uma mera repetição de fazeres previstos e/ou planejados de fora da sala de aula e que a reflexão sobre a prática cotidiana representa a instância de autoformação cotidiana potencializadora de diferentes currículos praticados, tanto na formação quanto no cotidiano do exercício docente” (p.43).

A autora utiliza o pensamento de Certeau (2005) para entender as inovações produzidas cotidianamente pelos professores, por meio de “táticas desviacionistas” e de “astúcias cotidianas”, produzem saberes e desfrutam do direito de serem reconhecidos como seus produtores:

Michel de Certeau estuda essa produção cotidiana de saberes e de formas de sobrevivência dos grupos sociais subalternizados buscando evidenciar os processos pelos quais os ‘participantes da vida cotidiana’ burlam e usam de modo ‘não-autorizado’ as regras e produtos que os poderosos lhes impõem. É com esses grupos subalternizados que vamos identificar nossos educadores e educadoras que estão nas escolas, sendo criticados e desvalorizados tanto pela maior parte dos acadêmicos e pesquisadores quanto pelas chamadas autoridades educacionais’. Criando ‘maneiras de fazer’ (caminhar, ler, produzir, falar), ‘maneiras de utilizar’, tecendo redes de ações reais, que não são e não poderiam ser meras repetições de uma ordem social/de uma proposta curricular ou de formação preestabelecidas e explicativas no abstrato, os educadores e educadoras que estão nas escolas tecem redes de práticas pedagógicas que, através de ‘usos e táticas’ de participantes que são, inserem na estrutura social/curricular criatividade e pluralidade, modificadores das regras e das relações entre o poder instituído e a vida dos que a ele estão, supostamente, submetidos (OLIVEIRA, 2005, p. 44-45). Por essa razão, não podemos conceber o professor como um mero reprodutor de teorias, os quais não fazem nenhuma reflexão sobre estas. De acordo com Cruz & Albuquerque (2012):

[...] os docentes não são apenas técnicos executores, eles tomam decisões e refletem sobre suas ações, escolhem teorias, juntam teorias específicas com suas crenças particulares; desta forma, fabricam suas ações para a reconstrução das teorias e propostas didáticas, tomando decisões (Unidade 08, ano 2, pp. 20-21).

Nesse sentido e rememorando os estudos de Chartier (2007), podemos refletir que o professor constrói sua prática não somente por meio do que está sendo discutido na academia, mais também a partir de suas reinterpretações, considerando o que é possível e pertinente ser feito em sala de aula.

Sendo assim, concordamos com Ferreira (2005) quando afirma que:

[...] cada professor, com base no seu conhecimento construído ao longo da sua trajetória, poderá criar diferentes caminhos que poderão fazer parte da sua prática pedagógica, estando incluídos nesse processo variados discursos (não apenas os que estão na ordem do dia) (FERREIRA, 2005, p.75).

A partir do pensamento da autora supracitada, trazemos nas linhas finais desta seção, os saberes docentes do professor alfabetizador como condutores da fabricação de táticas no cotidiano escolar. Sabendo que:

[...] a escola é mais um espaço de produção dos saberes, escolhas didáticas e pedagógicas na alfabetização vão permear a escolha dos instrumentos do trabalho pedagógico. Cabe aos professores estabelecerem critérios de seleção, organização e aplicação sobre: a distribuição das atividades na sua rotina diária, como desenvolver um atendimento diferenciado à criança, como explorar os eixos do componente curricular Língua Portuguesa e como avaliar a aprendizagem da criança, considerando os três anos para o processo de alfabetização (CRUZ & ALBUQUERQUE, 2012, Unidade 08, ano 2, pp. 20-21).

Reconhecemos a complexidade do cotidiano escolar de uma turma de alfabetização, que não é uma tarefa fácil para o alfabetizador colocar em prática de forma sistematizada os diferentes saberes que o professor possui, segundo Zabala (1998) é necessário capacidade reflexiva e avaliação do seu próprio trabalho, para que os objetivos de promover um ensino que contemple a heterogeneidade de conhecimento de escrita de seus alunos tenham êxito. Nesse sentido, neste trabalho, estamos entendendo que é no cotidiano escolar que o professor constrói suas táticas para dar conta de seus objetivos de alfabetizar os seus estudantes, considerando os desafios e as adversidades.

No capítulo a seguir, apresentaremos o percurso metodológico da pesquisa que realizamos na sala de aula de uma professora alfabetizadora que lecionava no terceiro ano do ciclo de alfabetização, através do acompanhamento do seu cotidiano com o objetivo de analisar seus saberes e suas fabricações para dar conta da heterogeneidade de conhecimento sobre a escrita dos seus alunos.