6.6 Tests
6.6.6 Test d’ad´ equation ` a une loi
É nos artigos dos periódicos especializados que conseguimos encontrar os traços mais evidentes da evolução deste interesse pela cancerologia, espartidos por uma série cada vez maior de publicações e com um número crescente de diferentes autores desde o início do século XX. Os de maior prestígio, como o Jornal das Sciencias Médicas de Lisboa ou A Medicina Contemporânea oferecem-nos uma amostra, publicando casos cirúrgicos de José António Serrano e alguns casos clínicos que Sousa Martins coloca à discussão, plas-
328Cf. SILVA, Marcellino A. Craveiro da – Étude diagnostique d’un cas insolite de tumeur du sein. Thése soutenue à la Faculté
de Médecine de Paris. Paris: 1852. Para uma relação alargada de outras teses até ao século XIX, veja-se LEMOS, Maximiano de – «Thezes de doutoramento defendidas por portugueses em escolas de medicina estrangeiras». Arquivos de História da
Medicina Portuguesa. Vol. 3, n.º 6 (1888-1889) p. 135-143 e 168-178.
329A percentagem da temática obstétrica e ginecológica nas teses da EMCP foi rigorosamente demonstrada por CARNEIRO,
Marinha – Ajudar a nascer: parteiras, saberes obstétricos e modelos de formação (sec. XV-1974). Porto: U. Porto editorial, 2008. 1836-1839 0 1840-1849 1 1850-1859 3 1860-1869 5 1870-1879 2 1880-1891 4 1892-1902 10 Total 25
Anos Temática oncológica
mados em artigos plenos de oportunidade científica330. No início do século XX esta ten-
dência residual acentua-se. Em 1904, a publicação do novo periódico Porto Médico marca claramente esta tendência emergente, começando desde o seu primeiro número a incluir alguns artigos bastante destacados sobre a doença oncológica, sobretudo de matriz estatís- tica mas também sobre terapêutica, mostrando uma atenção renovado sobre o tema.
A par destes, as teorias explicativas assumem um quinhão importante na discussão do tema, não raro bastante acesa. Entre meados e finais de oitocentos, coexistiram várias teo- rias explicativas, algumas progressivamente descartadas, outras com interesse ressurgido a espaços, conforme os desenvolvimentos da microbiologia deferiam ou indeferiam a plau- sibilidade das mesmas. Da teoria setecentista da linfa passou-se à teoria do blastoma, havendo ainda quem defendesse a teoria da irritação crónica, dos traumatismos, e ainda a teoria parasitária. Era esta última que dava força à eventual transmissibilidade da doença. De todas elas, a noção de contagiosidade do cancro, mais acalentada por alguns desde o advento dos estudos microbiológicos, mas sempre mal demonstrada, mobilizou vários investigadores em busca do agente microbiano responsável pelo terrível morbo. Bactéria para uns, blastomiceto para outros, protozoário para alguns, apenas a incapacidade para detectar os vírus no microscópio os impediu de ver nestes últimos a causa de alguns tipos
de cancro331. Contudo, todos eles se julgavam na presença indetectada de um agente des-
conhecido, entre os quais Ricardo Jorge e Carlos França, que como tantos outros ao longo dos anos, chegaram a vaticinar o fim aprazado da condição cancerosa.
Em 1907, Alfred Filassier passava em revista na Gazette Médicale de Paris um certo número de observações de casos sucedidos numa mesma casa, reunindo uma documenta- ção ainda insuficiente para estabelecer de modo peremptório a contagiosidade. Mesmo assim, os testemunhos recolhidos não deixavam de ser perturbadores – concluía Filassier – quando os aproximava de vários trabalhos publicados sobre o contágio do carcinoma e de experiências realizadas em ratos: ratos saudáveis, procedentes das mais diversas origens e guardados em gaiolas anteriormente ocupadas por ratos cancerosos e que se tornaram, por sua vez, também eles cancerosos. Trabalhos como este acabavam por ter amplo reflexo na imprensa médica portuguesa, que não deixava de solicitar aos seus leitores a comunicação
de casos com as mesmas características332.
330Para os artigos de Serrano veja-se a nota de rodapé 141, e ainda MARTINS, J. T. de Sousa – «Cancro do seio». Jornal da
Sociedade das Sciencias Médicas de Lisboa. (6 de Julho de 1889), p. 272; idem – «Acerca de um famoso caso do cancro do pân-
creas». A Medicina Contemporânea (I.ª Série). Ano XI (22 de Abril de 1893), p. 226 e 233, e idem – «Discussão sobre um caso de tumor cerebeloso». Jornal da Sociedade das Sciencias Médicas de Lisboa. (15 de Dezembro de 1895), p. 87.
331Cf. «Os micróbios dos tumores malignos». A Medicina Contemporânea (I.ª Série). Ano V (1887), p. 403-404; «A leucemia
como infecção de protozoarios». A Medicina Contemporânea (II.ª Série). Ano XIX (1901), p. 65-66; «Teoria parasitária do can- cro». A Medicina Contemporânea (II.ª Série). Ano XXI (1903), p. 330.
332Cf. FILASSIER, A. – «Y a-t-il des maisons cancéreuses». Gazette médicale de Paris. (15 août 1907), p. 1, e ainda «Haverá
Neste contexto, o peso da preocupação com o cancro ultrapassou largamente os limi- tes da própria medicina. A influência crescente do discurso médico junto dos governos europeus relativamente ao papel da medicina social e das correntes higienistas, levaram a que o poder político se tornasse mais interventivo em todas as questões relativas à saúde pública. O cancro, doença emergente, também recaiu no foro da preocupação governativa. As teorias parasitárias tão em voga na primeira década do século XX, permitiam encaixar a prevenção do cancro no quadro das medidas higienistas.
Se fosse possível realizar uma profilaxia anticancerosa, como sucedia para as doenças cuja natureza infecciosa não deixava dúvidas (mesmo que o seu agente fosse desconhecido mas cujos meios de propagação estavam bem averiguados); se os tumores malignos fossem contagiosos e transmissíveis, como o eram várias doenças conhecidas; se tivesse sido iso- lado um organismo microbiano que pudesse ser tido como o seu verdadeiro agente etioló- gico; se fosse possível tentar uma vacinação, ou se, isolados os cancerosos se impedisse a disseminação da moléstia, então a luta contra o cancro poderia ser baseada nos mesmos moldes que a instituída contra outras doenças e as medidas tomadas deveriam conduzir a resultados idênticos.
Mau grado a fé que alguns punham no uso de uma profilaxia tradicional, que se enquadrava bem ao cancro apenas se as teorias parasitárias se confirmassem, a realidade mostrou-se muito diferente.