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O período que estabelecemos para a etapa da coleta de informações não aconteceu como previsto, em decorrência de impedimentos e dificuldades pessoais e outras relativas ao contexto da pesquisa. Na fase exploratória em que se processou nossa aproximação com o ambiente em que Carmen Teixeira nasceu, ocorreu de forma tranqüila, apesar de ser

forasteira. Assim também aconteceu em um dos ambientes onde trabalhou, o CECR uma vez

que a pesquisadora mantém familiaridade com essa realidade profissional e já conhecia alguns profissionais que atuavam nesse espaço.

Com o auxílio inicial das professoras Elizete Passos e Iracy Picanço, listamos possíveis nomes a serem contatados, pessoas que conviveram diretamente com a educadora, a exemplo de professoras/es e funcionários do CECR, companheiros de trabalho, pessoas que caminharam lado a lado com ela e que tiveram a oportunidade de vivenciar situações consideradas relevantes em sua jornada profissional, assim como familiares, parentes e amigos, que pudessem descortinar aspectos de sua vida pessoal e profissional. Fizemos a escolha prévia de tópicos para a elaboração das entrevistas semi-estruturadas. A definição de entrevistadas/os baseava-se na indicação de um para outro.

Utilizamos, portanto a entrevista por considerá-la instrumento mais adequado às metodologias qualitativas, permitindo-nos a reconstrução de etapas vividas a partir de dados mais ricos e significativos, com o consentimento das pessoas indicadas por pessoas próximas ou que conviveram com Carmen Teixeira (APÊNDICE D). A entrevista, como um procedimento privilegiado para coleta de informações, evidenciou as falas como possibilidade de ser reveladora de condições estruturais, de sistemas de valores, normas e símbolos (MINAYO, 1994). Observamos que existiam limites para a fala quando transcrita já que sentimentos e emoções estiveram envolvidos.

Esses limites são pontuados por Queiroz (1988), quando trata do “indizível” ao “dizível” e afirma que a passagem da “obscuridade dos sentimentos para a nitidez do vocábulo” é um dos primeiros enfraquecimentos da narrativa, uma vez que a palavra não deixa de ser um “rótulo classificatório” utilizado na descrição de uma ação ou de uma

emoção. Lembramos ainda que, assim como a palavra constitui uma reinterpretação do relato oral, a pesquisadora, do mesmo modo, reinterpreta aquilo que lhe foi dito. Podemos afirmar que as falas e as ocultações são reflexos de experiências que nos revelaram sentidos, concepções e intenções.

Assim, durante as entrevistas, a relação que estabelecemos, pesquisadora e a/o entrevistada/o, por meio de trocas verbais e não-verbais que se revelaram durante o processo, permitiu uma melhor apreensão dos significados, dos valores e das opiniões das/os entrevistadas/os a respeito da educadora pesquisada. Muitos foram os encontros significativos em eventos e homenagens que participamos, como o Diálogos sobre Carmen Teixeira nas

memórias da Escola Parque, no IAT, em Salvador, que realizamos junto com ex-alunas/os e

professoras do CECR e contamos também com ex-aluna da Escola de Aplicação (ANEXO J). A aproximação com as/os entrevistadas/os deu-se inicialmente por telefone, persistindo diante dos impedimentos que envolviam a possibilidade de agendamento dos locais e horários para as entrevistas: a maioria nas residências, bibliotecas, livrarias ou em espaços de convivência do shopping, no local de trabalho da pesquisadora e das/os entrevistadas/os, que definiam os períodos para a consecução das entrevistas.

Segundo Bosi, “[...] a memória é um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento. Freqüentemente, as mais vivas recordações afloravam depois da entrevista [...] (1983, p. 3)”. Assim, consideramos as entrevistas como um dos momentos mais importantes desta pesquisa biográfica, pois possibilitou o levantamento de informações e a elaboração de uma base de dados significativa, a serem complementados através da análise dos documentos. Nesta pesquisa, realizamos as entrevistas, seguindo inicialmente os roteiros previamente elaborados (APÊNDICES A, B e C) e em alguns casos contamos com o auxílio de pessoas do convívio mais próximo para maiores esclarecimentos e melhor audição. Consideramos a gravação das entrevistas como essencial, por retratar exatamente o que foi dito, entretanto a negação de algumas entrevistadas dificultou, inicialmente, a sua realização exigindo outra abordagem por parte da pesquisadora, um outro roteiro (APÊNDICE B), ao mesmo tempo em que nos conduziu a pensar alternativas que deixassem as pessoas mais à vontade para falar de D. Carmen, e, encontramos na apresentação digital das fotos disponibilizadas no decorrer da pesquisa, uma dessas alternativas. Outra foi a comunicação por e-mail que não se mostrou muito efetiva.

Ao coletar os dados em Salvador e Caetité, gravamos a maior parte das entrevistas, outras, apenas registramos em manuscritos por exigência das entrevistadas que não se sentiam à vontade com “essas tecnologias”. A duração das entrevistas variou de trinta

minutos a aproximadamente 120 minutos. As entrevistas sem gravador foram realizadas em dois encontros. Na fase de transcrição das entrevistas, buscamos reunir e organizar os tópicos de suas variadas falas em temas que pudessem ser agrupados e redefinidos inicialmente, em caráter provisório e posteriormente, analisados.

Optamos por identificar as falas das/os entrevistadas/os, utilizando os nomes próprios daquelas/es que fizeram questão dos registros de seus nomes nesta história e aceitar por parte de outros a indicação de um nome fictício, que assim escolheram por entender que essa alternativa garantir maior liberdade de expressão e privacidade quanto aos fatos vividos que poderia gerar possíveis constrangimentos.

Assim, informações relevantes foram tratadas com a ética que cabe, bem como o grau de parentesco ou a instituição à qual pertenciam, sendo consultados individualmente sobre o teor das falas, sentimentos e depoimentos transcritos e inseridos ao corpo do trabalho, para que fossem devidamente autorizados, pois pretendemos deixar, ao longo dos capítulos, o registro de suas vozes como reflexão de outros rumos que possam ir além de nossa análise.

Com tal experiência, compartilhamos com Stephanou e Bastos (2005) a idéia de que cabe ao pesquisador/a a função de discernir, dentre as possibilidades identificadas, aquilo que é relevante para sua pesquisa, procurando “filtrar” o que é mais contributivo, de modo a dar significado próprio à pesquisa no intuito de desvelar as pistas e as marcas reveladas ao longo da pesquisa.

Ao contatar com instâncias institucionais, cumprimos as exigências burocráticas por meio de ofícios para que fosse permitido o nosso acesso ao acervo público: do Conselho Estadual de Educação, do CECR - Escola Parque e da Diretoria Regional da Secretaria de Educação do estado da Bahia (Direc A), no setor das Escolas Extintas, e cumprimos também com as etapas de solicitação verbal e assinatura do Termo de Cessão de Entrevista (APÊNDICE D) para fins de pesquisa e divulgação do conhecimento.

Retomamos aqui a importância das entrevistas por nos permitirem, ao longo da pesquisa, construir um processo de cumplicidade com as/os entrevistadas/os, tornando-as/os co-participantes da pesquisa. Trabalhamos com quatro diferentes dimensões para as entrevistas, a saber: a) Memória familiar/formativa; b) Memória de ex-alunas/os professoras/es; c) Memória de colaboradores e amigos; d) Memória institucional. Embora pudessem, algumas/alguns entrevistadas/os serem incluídas/os em mais de uma dimensão, como foi o caso de Zélia Bastos que abarcava todas as demais dimensões com exceção da formativa.

Reconstruir e analisar a história de vida da educadora Carmen Teixeira com o auxílio das entrevistas ou relatos orais nos oportunizou perceber diversas especificidades, marcas de personalidades, individualidades, enfim, identidade feminina e profissionalidade, que, de alguma forma, contribuíram para a nossa formação e de outros seres humanos.

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