A Escola Normal de Caetité foi o espaço em que Carmen iniciou sua jornada profissional em educação, após três anos morando em Salvador, se preparando para o magistério no Educandário Sagrado Coração de Jesus, finalmente em 1929, Carmen retorna para Caetité e inicia sua carreira de professora lecionando Arithimetica, Geometria e Álgebra no Curso Fundamental da Escola Normal desta cidade, comprovados pelos registros encontrados (ANEXO C e ANEXO D), rompendo estigmas e crenças de que mulher não tem nenhuma intimidade com as ciências exatas e de Matemática, ainda mais para ensinar essa área de conhecimento.
Esse conhecimentos de Matemática e também de Contabilidade, aprendera com o pai, a partir de sua curiosidade e aquiescência do mesmo para com os desejos de aprendizagem e desenvoltura da filha caçula. E a boa atuação nessa área, proveniente desses ensinamentos, configurou-se um primeiro passo de superação de Carmen em direção a construção de outros parâmetros distintos da educação e atuação profissional estabelecidas para ela.
Não sabemos se Carmen retorna à sua terra natal de volta para o seio familiar por se constituir uma oportunidade ensinar na Escola Normal ou se foi, tendenciosamente, a encaminhada para a sua iniciação como professora na Escola Normal de Caetité, pela família. O fato é que Carmen Teixeira, uma jovem de apenas vinte anos dá início a sua itinerância profissional em sua cidade natal, sendo recebida de braços abertos por seus conterrâneos. A Escola Normal de Caetité que havia reaberto suas portas quatro anos atrás, em 1926, como
vimos anteriormente, foi o espaço perfeito para esta jovem caetiteense iniciar seus primeiros passos na seara educacional.
Como evidencia Santos (1995, p. 74): “[...] quando foi instalado, o curso abrangia o Normal, em 4 anos e o Fundamental de 2 anos, necessários para o ingresso no primeiro. No primeiro ano houve exame de admissão ao curso normal por uma concessão especial da Secretaria, com 11 candidatos”.
Carmen assumiu como professora do Curso Fundamental em 1929 e somente a partir de 1930 passou a lecionar no Curso Normal conforme documentação (ANEXO D e ANEXO E). Assim, de 1930 até 1935, Carmen se torna Catedrática Efetiva da Cadeira de Ciências de Educação na Escola Normal de Caetité como podemos confirmar nos Termos de Posse e no Registro de Títulação (ANEXO D e ANEXO G). A sua passagem pela Escola Normal de Caetité não foi apenas uma passagem, mas a oportunidade que Carmen teve de mostrar a sua eficiência profissional como professora, desmistificando qualquer alusão à de indicação para cargo político, sendo inclusive homenageada como paraninfa da turma de 1935 (ANEXO H).
Os estudos desenvolvidos por Bastos (2009, p. 41-42)) puderam demonstrar na fala das alunas de Carmen, ex-alunas das turmas de 1932 e 1935 - que a memória já não ajudava muito em função da idade avançada - que ficou mesmo por todos esses anos uma marca da competência de Carmen Teixeira na passagem por suas vidas na dimensão escolar. Elogios como: “traços que chamavam atenção: altivez, dignidade e exemplar sociabilidade”; “professora amiga, compreensiva, educada. Despertava o interesse dos alunos. Naquela época havia ensino e se aprendia”; “lembra [...] da figura da mestra, que falava com desenvoltura e carinho. De suas excelentes aulas, da sua postura, determinação e zelo com as disciplinas que ensinava”. Bastos (2009, p. 42) pontua que:
Para essas ex-alunas, a linguagem, conteúdo, iniciativa, pesquisa, dedicação, entusiasmo, inovação marcaram a educação e a educadora nas práticas pedagógicas passadas, mas projetando muitas realizações presentes ou em execução. Vocação? Tradição? Modernização? Inovação?
Neste contexto, entendemos que estes anos de ensino em Caetité deram a base necessária para os futuros “vôos” de Carmen na educação, pois foi ali que ela pode desenvolver o seu potencial de professora e adquirir a segurança necessária para identificar e perseguir os seus ideais na seara educacional.
No período compreendido entre 1929 a 1975, já se vislumbrava uma nova concepção de vida e de educação em função da efervescência política em curso, culminando
com o conhecido Golpe de 1930. Com a Revolução de 1930, dá-se início a um período de grandes transformações políticas e econômicas, acompanhadas de grandes alterações sociais (MENEZES et al, 2004).
Nesse período, Getúlio Vargas assume o poder e outro importante acontecimento foi o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932), tendo Anísio Teixeira como um dos intelectuais do movimento. Ou seja, estavam fervilhando as ideias sobre educação e mudanças.
A educação passa por transformações com a Reforma Francisco Campos em 1931 e em seguida em 1932, com o “Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova” que “[...] consubstancia as ideias do movimento renovador, reconhecia a educação como direito de todos e dever do Estado, reivindicando uma escola pública, assentada nos princípios de laicidade, obrigatoriedade, gratuidade e co-educação” (MENEZES et al, 2004, p. 59).
Em 1931, Anísio Teixeira foi convidado para assumir o cargo de Diretor Geral de Instrução Pública do Distrito Federal, um dos cargos de maior projeção nacional (GOUVEIA NETO, 1973). Provavelmente, uma posição de orgulho para sua irmã Carmen Teixeira que neste período estava na Escola Normal de Caetité e pode também compartilhar com os ideais de educação que professava Anísio Teixeira.
Quando reabriu as portas, a Escola Normal de Caetité tinha um currículo composto de disciplinas como: Língua Portugueza, Frances, Mathematica, Geographia,
Historia Universal e do Brasil, História Natural, Trabalhos manuaes, Desenho, Ensino de prendas e Educação Physica (TEIXEIRA, 2001). Possivelmente disciplinas como “Trabalhos Manuaes” e “Ensino de Prendas” não estavam ali apenas para compor desinteressadamente o
currículo, mas, no nosso entendimento, perpetuar a cultura da mulher como “rainha do lar”. Decorridos cinco anos e meio de experiência na Escola Normal de Caetité, Carmen recebe o convite de D. Anfrísia e se desloca de Caetité no meio do ano letivo de 1935 para assumir o cargo de vice-diretora do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora em Salvador/Bahia, permanecendo até 1960 (BASTOS, 2009). Essa para Salvador não teve aprovação de sua mãe Anna, e deslocou-se para Bahia (Salvador) sem o consentimento e aquiescência da mesma.
Ir para Salvador desenvolver este trabalho com Anfrísia Santiago foi bastante significativo para a vida de Carmen, pois foi neste ambiente de trocas que Carmen Teixeira foi bebendo dos ensinamentos da mestra, se fortalecendo como mulher pública e consolidando a sua identidade profissional.
O Colégio Nossa Senhora Auxiliadora iniciou suas atividades, em 1927, no pensionato de D. Anfrísia Santiago, transferindo-se em meados deste mesmo ano para a Avenida Joana Angélica, nº 149, antiga Casa dos Padres Lazaristas. O colégio oferecia o curso Primário, Elementar e um Internato (PASSOS, 2005).
O Colégio Nossa Senhora Auxiliadora foi responsável pela educação de jovens da classe média e alta, com enfoque “[...] na formação técnica e moral de geração e geração de mulheres, com um perfil inconfundível” até o ano de 1970, quando fechou as suas portas. (PASSOS, 2005, p. 63).
Apesar de o Colégio assumir um perfil de formação feminina, também abriu suas portas para o sexo masculino, como explicita Passos
O Colégio foi quase exclusivamente feminino. Iniciou como escola destinada ao sexo feminino, fazendo concessão ao sexo masculino na pré- escola até a alfabetização. Em seguida, alargou a experiência de educação do sexo masculino, com a criação de uma escola destinada a esses, e, como conseqüência do movimento histórico, acolheu-os na própria sede do Colégio, entretanto, nunca além do curso identificado como Primário, naquele momento. (PASSOS, 2005, p. 64)
Esse “cuidado” em manter jovens do sexo feminino separado do masculino, como preservação da moral, era a manifestação do modelo patriarcal em que estava submetida à sociedade da época e que mulheres como Anfrísia Santiago colocavam em prática o exercício desse poder. Passos analisa essa questão do ponto de vista da segregação de gênero como mecanismo de manutenção do poder vigente em que
A não relação com colegas do sexo masculino e em idade acima da infantil constitui-se em um recurso para garantir a manutenção de valores e evitar a troca de conhecimento e de intimidades, que poderiam arranhar a “honra da mulher, quando, de fato, o medo consistia em não afetar a estrutura de poder estabelecida. (PASSOS, 2005, p. 64)
Anfrísia Santiago era o modelo de educadora que - como era comum na época para as diretoras de escola - sabia se apoiar no moralismo e disciplinamento, haja vista o seu perfil ser descrito por Passos (2005, p. 17 e 18), como “[...] severa, segura e afetuosa, qualidade esperadas e recomendadas a uma educadora, a quem competia ser modelo para as alunas” em “um misto de austeridade e compreensão, de leveza e de rigidez, de fragilidade e de fortaleza [...]”.
No Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, Carmen iniciou o trabalho como vice- diretora e, não podemos desconsiderar que a presença forte de Anfrísia Santiago ofereceu todos os elementos para a sua própria formação como gestora, corroborando com o que
Passos (2005, p. 29) salienta de que a formação da identidade profissional de um indivíduo “[...] se faz no bojo de formação da identidade em geral e é construída envolvendo escolhas e experiências, bem como erros, acertos, ações e representações”.
Ademais, ao desenvolver suas atividades como vice-diretora Carmen estava fortalecendo a sua própria identidade gestora, a partir da observação e participação em um ambiente favorável à sua própria formação. Há ainda que se considerar a amizade que Anfrísia e Carmen nutriam uma pela outra, que era baseada no respeito, na confiança e troca afetiva, chegando ao ponto da filha de Carmen reconhecê-la também como avó e, principalmente, nos aconselhamentos e exemplos que D. Anfrísia, oportunamente, podia transmitir a Carmen, e que com o passar dos anos foram recíprocos.