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Temporal approach

Dans le document Localisation d'un mobile dans un reseau GSM (Page 50-57)

Alguns viúvos não relatam explicitamente as alterações nos relacionamentos afetivo- sexuais com as esposas, mas as colocam de forma subliminar. Renato, por exemplo, diz assim: “_Coitada! Ela achou até que eu (.) vivia traindo ela, porque, quando eu queria falar cum o médico, pra não falar:: em casa, eu DESCIA (.) pra falar pelo celular, com:: o médico, num é? E ela achava que eu devia tá ligando pra:: alguém!” (E04: 09). No caso de Rui, a modificação na relação não parece ter vindo apenas com a doença, mas sim como decorrência da idade. Ele diz que não sente falta de companheira, porque “sexo num existe mais pra gente da nossa idade” - ele tinha 70 anos quando a esposa faleceu.

Outros viúvos, porém, falam abertamente das transformações que se verificaram no relacionamento com a mulher doente. Élcio, como já mencionado, conta que teve uma ligação amorosa clandestina, da qual nasceram dois filhos, durante a enfermidade da esposa. Acha que esta morreu sem saber da infidelidade.

A experiência de Ivan é a única onde houve franca hostilidade da esposa para com ele. Ivana pensava e dizia que, de alguma forma, ele era responsável pelo câncer dela. Quando ela contou que estava com a doença, eles tiveram que “reorganizar tudo” para ela se tratar. Ele acompanhou todo o processo, embora fosse agredido constantemente, dizendo que a doença “mexeu, e como mexeu!” com a cabeça dela e com a relação deles. Ivan relata que escreveu uma espécie de diário para registrar esse comportamento de Ivana, e classifica-o como sendo constituído de várias fases: rejeição e agressão ao marido, depois à filha, depois a todos os filhos, depois foi viver em São Paulo por vários meses, deixando a casa, depois voltou e se enterrou no trabalho. Ivan ficava assumindo os filhos e o lar, mas pondera que a conduta dela era como um “_Pelo amor de Deus, eu estou indo embora!”, como um pedido de socorro

frente à evolução fatal da doença que ela sabia que tinha. E ele diz que ninguém da família se afastava dela, não.

Valter é um outro que também admite que “durante a doença dela, a gente tinha restrições, tá entendendo?, com relação a sexo e tal”. Quando ela adoeceu, já numa fase mais grave, que havia muitas restrições, ela comentava, com uma irmã dela, que seria bom se ele arranjasse uma namorada lá, quando estava viajando a serviço - ele soube disso depois que ela faleceu. Para Valter, isto significava que ela se preocupava com o bem-estar e a felicidade dele, e que a parte sexual era importante:

- CLARO QUE PRECISA! EU NUM TENHO DÚVIDA NENHUMA! Num tenho dúvida nenhuma que precisa, eu num queria nunca viver só, tá entendendo? E::: NUM DÁ! Viver só pra ficar como? (.2) NÃO! A gente precisa de uma = de uma companhia. (E15: 16)

Mas, quando pergunto se o caso fosse o inverso, se ela arranjaria outro, ele diz que acredita que não, porque a situação é diferente para o homem e para a mulher. Tal construção social está implícita no que diz Giddens (2007: 65): “O aventureirismo sexual era considerado em muitas culturas um traço definidor da masculinidade”. O duplo padrão no exercício da sexualidade faz parte, também, da construção da virilidade, inclusive na sociedade brasileira nordestina, embora esteja, aparentemente, em transformação.

O arranjar outro parceiro é ainda ambivalente. Na pesquisa com as viúvas, encontrei a noção do não querer relacionar-se amorosa e sexualmente com outro homem, após a morte do cônjuge, porque “parece uma traição” (Marisa), “seria uma traição” (Silene). Mas, agora, ouvindo alguns dos pesquisados, vejo que não só as mulheres dizem isto. Dentro da proposta de família mais igualitária, na modernidade, que inclui fidelidade recíproca, os sinais de mudança estão aparecendo, mesmo que sejam ainda incipientes. Roberto (E01: 62) coloca que era “uma sensação de culpa, de traição” sair com uma mulher - nessa perspectiva de um relacionamento afetivo-sexual -, nos primeiros tempos de viuvez, e que até hoje5 ele se comporta, inconscientemente, de maneira a que “todos os investimentos afetivos fossem pra num dar certo” (E01: 40). Assim, a idéia de fidelidade post-mortem pode ser encontrada tanto

no homem como na mulher - resta ver se e/ou quanto tempo este sentimento permanece, na vida que continua. Voltarei a isto, adiante.

Por fim, mostro um outro exemplo da mudança nas relações intersubjetivas do casal, com a instalação da doença. O relato é de Adonias, cuja esposa conseguiu ter uma sobrevida de 17 anos, até que o câncer eclodiu novamente, de uma forma avassaladora. O intercurso mostrou que a vida para o casal não era mais a mesma, e ele fala no medo, este espectro que passou a ser uma presença intangível e invisível no lar. Em suas próprias palavras, eis como foi viver isso:

– ERA MUITO DIFÍCIL! Foi! ABALOU O RELACIONAMENTO DA GENTE, no sentido de:::, (.hh) QUASE QUE a gente ficou OBNUBILADO por:: por esse::: esse::, digamos, ESSE ESPECTRO, que podia voltar a qualquer momento; essa = esse MEDO - esse MEDO! -, de voltar a qualquer momento era uma coisa, (.) DAS PIORES COISAS! Então, eu não sei::: Você deve ter experiência de pessoas que = que fizeram = que FAZEM controle do câncer, né? Isso, as pessoas estarem SUBMETIDAS a esse MEDO! Chega a época de exames, isso é uma coisa (.) TANTO É QUE, durante esses anos todos, A CADA MOMENTO que ela ia e voltava, nós fazíamos uma comemoração! Então, comemoramos FARTAMENTE! (.2) Tivemos muito, né?, muito AMEDRONTADOS (.)

?- Mas comemoraram fartamente a vida, né?

– MAS COMEMORAMOS A VIDA!! CADA UMA VEZ, então, ERA UMA DOSE!

(.) Tomamos muita dose = muitas doses ((risos)) DE COMEMORAÇÃO! E = e eu SEMPRE FAZIA, eu sempre BUSCAVA (.) forças = forças para estar AO LADO DELA, PORQUE:: ERA PRECISO! E ela encontrou em mim, certamente, esse apoio, né?, FUNDAMENTAL, (.3) é = e::: e::: MAS ABALOU O RELACIONAMENTO, porque::: (.3) mesmo o nosso = o nosso relacionamento (.) AFETIVO,isso era = era = era = era:::, enfim::, PASSAVA POR:: DIFICULDADES, assim, de muita IRRITAÇÃO::! Essa constante = ESSE ESTADO = deixa muito as pessoas apreensivas, ESSA APREENSÃO CONSTANTE, (.hh), é::, modifica muito o humor das pessoas, entende?, - E ELA, que era uma pessoa muito, (.hh) muito:: MAS, a gente = isso não impediu da gente SER FELIZ, da gente (.) TRABALHAR a busca da felicidade. Enfim, ESSA COISA DA DOENÇA, dessa doença (.) estigmatizada, ela foi, na vida nossa, algo PRESENTE, ALGO QUE::: nos = nos OCUPOU, ASSIM, muito tempo da nossa (.) libido, da nossa = das nossas energias, (.2) mas não impediu que a gente::: BUSCASSE SER FELIZ, que a gente procurasse construir a felicidade, (.2) e::

?- Viver cada momento, né?

– Sobretudo, VIVER, VIVER PLENAMENTE! Viajamos, e = e eu fazia de tudo pra que:::, é:::, ela procurasse ser feliz. Mas foi = foi difícil! FOI MUITO

ENVELHECEM, os velhinhos lá, (.hh) lá na saúde, né?, porque:: não existe

(.) ESSE ESPECTRO, né?::, ESSA ESPADA sobre a cabeça, (.)

CONSTANTEMENTE! (E10: 12-13).

Parece-me que esses depoimentos sintetizam muito do que os viúvos viveram, não necessitando de mais comentários, por agora. Percebo que a mudança na relação, não é devida a uma possível falta de interesse afetivo-sexual, mas sim a uma transmutação nos sentimentos, por zelo, pela qual esse marido deseja dar o que tem de melhor para aquela pessoa, companheira de tantos anos, mesmo no caso em que o casamento não fosse dos mais satisfatórios. É claro que para confirmar isto, eu teria que ter aprofundado os questionamentos nesta esfera - quem sabe em pesquisa futura. De qualquer maneira, como já foi assinalado, mas querendo reiterar agora, penso que um imenso senso de lealdade e solidariedade irrestrita toma o lugar de qualquer indisposição que o casamento possa conter. Pensar, de uma forma talvez até meio cínica ou irônica, que o apoio ocorra porque o marido sabe que a morte chega um dia para livrá-lo da união é, no mínimo, não escutar a fala e a emoção dos entrevistados e, no máximo, cometer um engano e interpretar como inverdade a análise do material dessa pesquisa. Há que considerar também que “Se há facilidade de divórcio, em casamentos duradouros a morte da esposa pode ser muito traumática pessoal e socialmente” (Lopata, 1996: 73). Para o marido, vale o mesmo raciocínio6.

“Quando se trata de olhar a dor dos outros” (Sontag, 2005: 12), nenhuma dimensão da análise deve ser aceita como algo fora de dúvida, tanto para o sim quanto para o não, enquanto explicação única para o fenômeno - para todo e qualquer fenômeno, vale dizer. Até porque verdade ou inverdade puras e absolutas não existem, ou, pelo menos até o presente, não é algo inquestionável, nem uma nem a outra. Por isso, em Antropologia, um mesmo material pode ser estudado por outros prismas que não aquele escolhido pelo autor: há mais coisas no mundo que nos rodeia do que pode apreender e interpretar um único pesquisador. Neste sentido, concordo com a antropóloga brasileira Mariza Peirano (1995: 63-64), quando diz que

(...) é freqüente encontrar-se na Antropologia casos de reanálises do material etnográfico colhido por outros pesquisadores. Essas reanálises

6 Todos os comentários que faço aqui, devo novamente enfatizar, têm como pano de fundo a viuvez em camadas

parecem evidenciar alguns pontos: primeiro, a riqueza do material oferecido por um pesquisador, que sempre deixa resíduos e pistas para uma interpretação alternativa; segundo, que o refinamento das interpretações depende tanto da teoria quanto dos dados - um truísmo que, na Antropologia, mostra de forma exemplar a tese weberiana da temporalidade e da circunstancialidade das explicações e sua perpétua renovação.

Bem, vejamos como o marido passa de amante a cuidador da esposa.

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