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4. EXPERIÊNCIAS DA DOENÇA À MORTE DA ESPOSA

Talvez nada desorganize mais uma família do que a emergência de uma doença em um de seus membros. E quando a doença é de prognóstico reservado, onde a evolução para o êxito letal é o mais provável, então a situação torna-se deveras complicada. E se a pessoa acometida é o pai ou a mãe, o caos tende a se estabelecer. De um modo geral, foi isso o que os homens da minha pesquisa deixaram entrever nos seus depoimentos. A experiência da doença sempre parecia pegar desprevenida a família e, principalmente, o marido. Talvez porque, cá entre nós, doença e morte não fazem parte do projeto de vida de ninguém, muito particularmente quando se é um adulto jovem - e foi nesta fase do ciclo vital que os homens entrevistados constituíram suas únicas e/ou primeiras famílias nucleares1 e que, após um período de tempo variável,

viram chegar a “fase do desmantelo”, como nomeou Renato (E04: 21).

Segundo o antropólogo francês Jean-Pierre Boutinet (1990), em sua obra Antropologia

do projecto, “na linguagem do século XIX, ter projetos em relação a alguém queria dizer casar

com alguém. Hoje, o projeto não diz mais respeito à escolha de uma pessoa, mas à escolha de um modelo de vida” (p. 108). O modelo de vida na sociedade ocidental complexa e laica, no entanto, tem por base, também e ainda, a constituição de casais e estimula-se a monogamia, seja heterossexual ou, em tendência crescente, homossexual. Pois é verdade, como pontua o sociólogo inglês Anthony Giddens (2007: 66), que ao longo das últimas décadas, os principais elementos da vida sexual, no Ocidente, “mudaram de uma forma absolutamente fundamental”. Para esse autor, “a sexualidade é algo a ser descoberto, moldado, alterado” e “a crescente aceitação da homossexualidade não deve ser vista apenas como um tributo à tolerância liberal. Ela é um resultado lógico da separação entre sexualidade e reprodução” (2007: 66).

Contudo, em que pesem todos os avanços e aberturas de comportamentos, na atualidade, a nossa é ainda uma sociedade pautada na conformação de casais, isto é, favorece-

1 A família nuclear, no sentido de pai e mãe morando juntos com os filhos nascidos do seu casamento, sendo a

mãe dona-de-casa em tempo integral e o pai assegurando o sustento, que era o padrão dominante nas primeiras décadas da segunda metade do século XX (Giddens, 2007: 67), está escasseando neste novo século. Mas as famílias dos viúvos estudados ainda se encaixam, em grande parte, naquele modelo, exceto pelo que muitas mães trabalhavam fora e contribuíam na manutenção do lar.

se o estado matrimonial monogâmico e heterossexual - com ou sem contrato legal - como norma para os adultos, como já referiu Lopata (1979: 05). Neste sentido, Giddens (2007: 67) afirma que “Na maioria das sociedades como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, o casamento continua muito prestigiado - elas foram apropriadamente chamadas de sociedades de intenso divórcio, intenso casamento”. De qualquer modo, para esse mesmo autor “Um casamento que se desfaz tende a provocar luto, independente da infelicidade ou desespero dos parceiros quando juntos” (2002: 17). Porque é a própria situação de perda que precisa do período do luto para ser elaborada. Neste sentido, ouvi do meu informante Josué o seguinte:

- QUANTAS PERDAS tão embutidas numa perda? CADA PERDA que você tem, você tem VÁRIAS PERDAS embutidas nela. Porque, é:::, elas NUNCA DESAPARECEM! NUNCA, ((murmurando)) NUNCA DESAPARECEM! É::: ((chora baixinho, sem conseguir falar por alguns segundos)) (E03: 26).

Por outro lado, nos últimos decênios, a sociedade ocidental complexa urbana favoreceu o escamotear da doença e da morte, relegando-as à ocultação. Numa sociedade embasada na produção/lucro e no prazer, ou seja, capitalista e hedonista, a doença e a morte devem ser escondidas - daí o grande papel do hospital, na modernidade -, visto que adoecer significa impedir que as pessoas continuem produzindo e que se mostrem belas e felizes (Morin, 1997; Pitta, 1991).

E a morte, então? Nesta, nem se falava! Segundo Morin (1997: 11), os movimentos da contracultura dos anos 1960, entretanto, trouxeram “de volta, uns depois dos outros, os grandes Recalcados. O penúltimo foi o sexo. O último é a morte”. É claro que estamos, Morin e eu, falando de se esconder a morte próxima, a que nos atinge diretamente, enquanto parente, amigo ou cuidador do doente. Porque a outra espécie de morte, aquela determinada por guerras, violências, fome, endemias, as mortes sociais mais amplas, estas são exaltadas pelos meios de comunicação, sendo mobilizadoras da atenção das pessoas exatamente porque se supõem longínquas, não nos alcançam - ledo engano! Diz o antropólogo brasileiro José Carlos Rodrigues (1986: 49) que esta exaltação da morte pelos meios de comunicação de massa “contrasta com a sua silenciosa dissimulação na vida cotidiana, em que é ela banida das conversas, obscurecida por metáforas e escondida das crianças”.

A despeito disso, há tentativas de ressocialização da morte, na contemporaneidade, e que é percebida, entre outros sinais, pela preocupação emergente de se favorecer as práticas de cuidados paliativos em todos os locais que prestam assistência a pacientes moribundos e/ou o desenvolvimento de uma verdadeira “hospitalização” domiciliar, em franco confronto com o quase abandono a que esses doentes eram relegados até bem pouco tempo, especialmente nos hospitais; também pelo costume moderno de se colocar o corpo morto em caixão semi-aberto, de forma a deixar a descoberto seu busto e/ou rosto; ainda, com o devir escatológico, está havendo o ressurgimento de crenças exóticas e arcaicas que pregam a esperança de sobrevivência do ser humano, no além-mundo. Esta esperança vem embutida: nos adeptos da reencarnação, que são em número crescente; nas técnicas de regressão hipnótica que se propõem a descobrir as existências anteriores do sujeito reencarnado, além da expansão de todas as formas de espiritualismo (Thomas, 1985: 33; 1980: 494 e ss.). Estas tendências estão tendo lugar na sociedade complexa e mais freqüentemente nas camadas mais burguesas, neste início de milênio, objetivando quebrar/driblar o tabu da morte. Pelo menos, em teoria. Mas na prática, como isso se deu entre os viúvos pesquisados? Quando a doença e/ou a morte invadiram o mundo das famílias, aqui abordadas através dos maridos/pais, como estes se depararam com tais contingências?

Bem, mas antes de tentar responder às questões postas, apresento, no Quadro 4.0, abaixo, alguns dados das mulheres, referentes às suas enfermidades e passamentos. Isto é feito, agora, com a finalidade de tornar mais claro o transcurso da doença e a morte, e as formas que os viúvos usaram para lidar com tudo - pois, quem e o que eram essas esposas influíram no desenvolvimento das ações e reações àqueles fenômenos. Então, vê-se que, pelas idades das esposas por ocasião do óbito, as duas mais jovens tinham 28 anos e as duas mais velhas, 68 anos. A maioria é do grupo de meia idade2, onde estão 12 mulheres. Entre as idosas, havia cinco mulheres, mas nenhuma era muito idosa. Todas desempenhavam suas atividades no cotidiano da vida, sejam domésticas e/ou engajadas no mercado de trabalho formal, antes de adoecer e mesmo durante a doença.

2 Lembro que estou usando como categorias: adulto jovem, menos de 30 anos; adulto de meia-idade, entre 30 e

Quadro 4.0 - Dados das esposas, da doença ao óbito

Nome Idade Ocupação Evolução Causa da morte Local

E01 Roberta 47 Médica 5 anos Aneurisma Hospital

E02 Anísia 40 Educadora Nenhum Assassinato Garagem

E03 Josiane 30 Administradora 45 dias Ectopia; Sepsis Hospital

E04 Renata 34 Professora 4 anos Câncer Hospital

E05 Josefa 28 Professora 49 dias Câncer Hospital

E06 Elisa 52 Enfermeira > 2 anos Câncer Hospital

E07 Riane 68 Do Lar Nenhum Erro médico Hospital

E08 Ártemis 28 Advogada Nenhum Acidente Hospital

E09 Gersina 64 Do Lar Nenhum Enfarte Domicílio

E10 Antônia 68 Psicanalista 23 anos Câncer Domicílio

E11 Joneide 63 Do Lar 3 anos Câncer Hospital

E12 Hélia 35 Cientista Social 4 anos Câncer Hospital E13 Élcia 57 Aux. Enfermagem 8 anos Câncer Hospital

E14 Adélia 64 Do Lar 3 anos Câncer Hospital

E15 Vanusa 55 Aux. Administrativa 4 anos Enfarte (Câncer) Domicílio E16 Ivana 43 Professora 5 a 3m Enfarte (Câncer) Domicílio

E17 Taciana 29 Redatora Nenhum Acidente Rodovia

E18 Petra 54 Do Lar 1 a 2 meses Colagenose Hospital E19 Edilza 35 Nutricionista 4 meses Câncer Domicílio

E20 Plínia 42 Comerciária Nenhum Acidente Rodovia

Fonte: Entrevistas narrativas da pesquisa Homem não chora... 2007

Apenas cinco das mulheres não trabalhavam fora de casa, enquanto que as outras 15 esposas o faziam. Embora alguns viúvos digam que suas esposas não eram “muito dona-de- casa, não”, é de se supor que a maioria delas tivesse dupla ou tripla jornada de trabalho - as mudanças históricas não eram assim tão grandes para que essas mulheres fossem poupadas das atividades domésticas, como geralmente acontecia para com os homens. Até porque a maior parte dos viúvos declara que as esposas gerenciavam a casa, administravam as finanças, cuidavam da educação e da vigilância da saúde dos filhos, se haviam. Os maridos “ajudavam”. É verdade que quase todas tinham empregadas domésticas para os trabalhos mais pesados, mas a gerência ampla e algumas tarefas eram especificamente desempenhadas e/ou executadas por elas. Todas as mulheres que labutavam no espaço público tinham curso superior, à exceção de quatro (Renata, Élcia, Vanusa e Plínia). Por fim, nove mulheres migraram para Recife: três vieram de municípios pernambucanos, das quais apenas uma já estava casada; seis migraram de outros Estados, sendo que cinco destas vieram casadas e uma casou aqui - uma

espécie de virilocalidade se impôs para estas esposas, pois todos os maridos viviam e trabalhavam em Recife.

Volto, agora, para a doença e a morte das esposas, onde outros dados seus e dos relacionamentos são discutidos.

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